Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 8 E 9/12

Terra Magazine

11/12/2007 na edição 463

FUTEBOL
Ezequiel Fernández Moores

Jornalista inglês exibe a roupa suja da Fifa, 8/12

‘Em sua primeira visita à América do Sul, o jornalista inglês Andrew Jennings, cuja especialidade é expor a roupa suja da Fifa, não deixou pedra sobre pedra. Primeiro, ratificou que, de acordo com seus documentos, o presidente da Conmebol, o paraguaio Nicolás Leoz, está implicando em um escândalo de suborno e que terminará por perder o posto caso o incidente seja levado a julgamento no primeiro semestre de 2008, como ele acredita.

Afirmou também que, inevitavelmente, já que ele ocupa a posição de presidente da Comissão de Finanças, o escândalo também prejudicará a situação de Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA) desde 1979 e vice-presidente sênior da Fifa, com mandato que se estende a 2011.

E foi ainda mais lapidar em relação ao outro dirigente latino-americano bastante influente na Fifa, Jack Warner, o presidente da Concacaf, a quem não hesitou em chamar abertamente de ´ladrão´.

Jennings, 64, exibiu também o último documento confidencial que expôs na semana passada em sua página da Internet: uma carta pessoal enviada pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, ao secretário geral da organização, Jerome Valcke, alguns meses atrás, na qual Blatter alegava que não permitiria que Valcke o ameaçasse com a possibilidade de denunciar supostos atos de corrupção na entidade máxima do futebol mundial.

Não obstante o tom duríssimo da carta, Valcke, que havia tido de abandonar seu posto depois de um escandaloso julgamento em que a Fifa foi derrotada pela Mastercard, retornou no posto de secretário geral e foi o rosto mais visível no sorteio dos grupos eliminatórios europeus para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, realizado recentemente em Durban.

Jennings exibiu o explosivo documentário que realizou para a rede de televisão britânica BBC, no qual pergunta a Blatter e Warner por que motivo a Fifa restituiu dinheiro ao responsável pela massa falida da ISL, empresa que quebrou em 2001 e que, de acordo com o jornalista inglês, pagava suborno a altos dirigentes do esporte mundial.

E, por fim, Jennings ratificou as denúncias publicadas em ´Foul!` (Falta!), seu livro sobre a corrupção na Fifa, traduzido na Espanha com o título de ´Tarjeta Roja` mas cuja publicação continua proibida na Suíça.

Um tribunal suíço acatou provisoriamente o pedido de censura apresentado pela Fifa quanto à circulação do livro no país, mas sua decisão não impede que o trabalho seja lançado em outros países, enquanto o juiz suíço Thomas Hildebrand avalia, com prazo até março do ano que vem, se encaminhará Blatter e o antigo secretário geral da Fifa, Urs Linsi, recentemente substituído por Valcke, a julgamento.

Hildebrand, que dois anos atrás determinou que os escritórios de Blatter em Zurique fossem revistados pelas autoridades, é ´um magistrado investigador muito competente´, na opinião de Jennings, e também está interessado em saber por que a Fifa decidiu restituir dinheiro ao curador da massa falida da ISL, Thomas Buhr. Hildebrand, na prática, parece estar inferindo que a ISL pagava propinas para influenciar a seleção dos escolhidos para os contratos de televisão e patrocínio da Fifa.

Foi isso que disse Jennings nas três palestras que realizou em Buenos Aires, a primeira das quais em um congresso da Fopea, uma federação de jornalistas cujo objetivo é proteger o acesso à informação; ele falou em seguida na sede do British Council em Buenos Aires e, por fim, na quarta-feira passada, na Deportea, diante de uma platéia formada por dezenas de estudantes de jornalismo.

´Não sei se alguma vez em sua vida Hildebrand jogou futebol, mas o nome dele assumirá enorme importância na história do futebol quando, em março do ano que vem, ele solicitar a um tribunal do país que abre processo contra Blatter por malversação de verbas da Fifa´, afirmou o jornalista.

Uma fonte, que depôs para seu documentário na BBC sob a condição de que sua identidade não fosse revelada, garantiu a Jennings que ´o suborno era pago em forma de salário´, por meio de uma fundação secreta sediada no Lichtenstein, que depositava o dinheiro irregular em contas de bancos localizados em paraísos fiscais do Caribe.

Jennings confirmou que entre os dirigentes beneficiados pelos pagamentos irregulares está Leoz, que algum tempo atrás rejeitou essas alegações. ´Por acaso existem dois Nicolás Leoz na Fifa?´, ironizou Jennings em uma de suas palestras em Buenos Aires.

O jornalista foi ainda mais irônico ao relatar a maneira pela qual Linsi, que um dia elogiou a Fifa como modelo de transparência, se negou repetidamente a responder sobre o salário de Blatter, que aparentemente é muito mais alto do que as pessoas imaginam, em função do pagamento de bonificações confidenciais, informação que Jennings antecipou em uma série de artigos para o jornal ´Daily Mail´.

O melhor momento surge no documentário para a BBC, no qual Jennings recolhe apenas negativas e silêncios como resposta de um Blatter cercado de guarda-costas, a caminho de seu escritório na sede da Fifa em Zurique. Em outro trecho, Warner diz ´go fuck yourself` (vá se foder) a Jennings, quando o jornalista lhe pergunta se havia recebido subornos da ISL. Outro entrevistado que se nega a responder é Jean Marie Weber, antigo homem forte da ISL e peça chave do possível julgamento em 2008, ainda que pessoas que o conhecem afirmam que preferiria ser condenado a revelar um único nome à Justiça.

A Fifa acusa Jennings de ´sensacionalismo´, e o declarou persona non grata, recusando-lhe acesso às suas coletivas de imprensa. Mas não responde por que restituiu dinheiro ao curador da massa falida da ISL, e tampouco explica por que mantém Warner na posição de vice-presidente já que ele não é alvo apenas de denúncias de Jennings, mas de um processo aberto por toda a seleção de Trinidad e Tobago, que deseja receber o dinheiro devido por sua participação na Copa da Alemanha, em 2006. Warner respondeu excluindo todos os jogadores envolvidos no processo da seleção nacional, um história absurda e quase inacreditável, que só não desperta maior interesse porque Trinidad e Tobago é um país sem maior peso no futebol.’

 

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL
Paulo Nassar

Vale o outro, 8/12

‘Em 2007 foram realizadas, por empresas brasileiras, mais de quatrocentas fusões e aquisições aqui, no Canadá, nos Estados Unidos etc. Por exemplo, Gerdau e Vale foram às compras e incorporaram mineradoras e siderúrgicas. Este fato mudou a realidade do comunicador empresarial. Conceitos como cultura, concorrência, conflito, foram trocados por atitudes de parceria e convergência. Quem insiste em enxergar só obstáculos na relação empresa e sociedade e o outro como adversário perde a oportunidade de integrar na ação a contribuição do outro. Estas fusões nos mostraram a força e os dilemas originados nas novas articulações no novo ambiente, no qual as identidades das empresas nacionais são postas à prova, em aspectos relevantes para a comunicação e, sobretudo, para os relacionamentos.

Faz uns anos, quando a Petrobrás, no início de sua internacionalização, trocou seu nome para Petrobrax. Lançou a nova marca em campanha publicitária, contou com o apoio do Governo Federal da época, mas, mesmo assim teve que recuar: trouxe de volta a marca tradicional, por conta da poderosa reação de inúmeros setores da sociedade. Atualmente, a Petrobrás, que no Brasil utiliza as cores verde e amarela, veste-se de azul e branco em outros países, por restrições locais. O atributo brasilidade, que lhe dá grande reconhecimento em nosso país, atrapalha em outros lugares.

A Natura, em sua recente entrada no mercado francês de perfumaria, usou a brasilidade e sua relação sustentável com redutos amazônicos, produtores de insumos para seus produtos, como atributos para demover diferenças de hábitos de consumo e preconceitos culturais dos consumidores europeus.

E a comunicação global da Embraer? Empresa brasileira que fabrica aviões de ponta, fora dos eixos tecnológicos tradicionais e é líder do mercado internacional de seu segmento? Junta-se a este enfrentamento de questões de comunicação no âmbito global dos negócios outras empresas brasileiras como Votorantim, Gerdau, Weg e Odebrecht.

E é o ambiente internacional das operações e negócios que explica a mudança de marca da Companhia Vale do Rio Doce, no início de dezembro, quando passou a ser simplesmente Vale. A simplicidade, quase óbvia, da escolha não representava uma ruptura com as origens da companhia, simplificava o nome, permitia o realce da origem no verde e amarelo e foi sacramentada na coincidência dos significados em inglês e português de parte do nome original.

Este mesmo movimento levará outras empresas brasileiras, por exemplo, com nomes indígenas ou de famílias, a experimentar o choque de percepções da alteridade. No qual o que vale é o que o outro pensa.’

 

REFERENDO DE CHÁVEZ
Ricardo Kauffman

Mico expõe fragilidade do noticiário, 7/12

‘Os três maiores jornais brasileiros – assim como a imensa maioria dos médios e pequenos, a Internet e as demais mídias em geral – pagaram mico na cobertura do referendo na Venezuela.

Na segunda-feira, anunciaram que o presidente Hugo Chávez havia sido o vencedor, reproduzindo informação das agências internacionais Efe e Reuters.

Horas depois, a apuração oficial das urnas apontaria o contrário: vitória do ´Não` à reforma constitucional apresentada pelo governo.

De acordo com matéria publicada pela Folha de S. Paulo, no dia seguinte, toda a mídia mundial foi manipulada por uma fraude.

Segundo a reportagem, e-mails com informações do blog apócrifo www.uiv.org.ve teriam sido enviados às agências por fontes do governo dando conta de que pesquisas de boca-de-urna de três institutos apontavam vitória chavista.

Segundo a Folha, ´pelo menos um dos levantamentos, atribuídos ao respeitado instituto Datanálisis, provou ser falso´.

´A aparente manipulação induziu vários jornais do mundo ao erro, inclusive esta Folha, que publicou esses levantamentos tendo como base a agência espanhola Efe´, diz o repórter.

Pior que a Folha, fizeram o Estadão e O Globo. Ambos não deram destaque, nas edições seguintes, ao fato de as pesquisas divulgadas serem falsas. E continuaram a se referir à reviravolta anotando que ´ao contrário do que apontaram pesquisas de boca-de-urna…´.

Além disso, o primeiro embarcou com os dois pés na ´barriga´: ´Pesquisas de boca-de-urna dão a Chávez vitória no referendo´, foi a manchete de capa do Estadão de segunda-feira.

Já O Globo publicou análise de uma de suas principais jornalistas, Miriam Leitão, que apontou os principais motivos para a ´vitória de Chávez´. ´Chávez ganhou o referendo porque manipula as regras antes das eleições´.

Confirmado o erro, ela publicou, um dia depois, porque Chávez perdeu, informando apenas que a boca-de-urna errou. ´Razões e reflexões da derrota de Chávez´, diz o título da coluna.

O episódio flagra as seguintes características da cobertura jornalística atual:

1) Agências internacionais embarcam em informações passadas em ´off` (sem identificação da procedência) por uma única fonte interessada no caso e não confiável.

2) Agências internacionais publicam notícias passadas por terceiros sem checá-las com a fonte original da notícia, sobretudo em momentos agudos, como eleições e referendos (nem todas e nem sempre – diz a Folha que a France Press recebeu os mesmos e-mails, mas decidiu não publicar seu conteúdo).

3) A grande imprensa brasileira cobre mal a América do Sul e terceiriza o grosso de sua apuração.

Quando há um correspondente no local dos fatos (geralmente só para cobrir catástrofes e eleições, sem ter a chance de acompanhar o processo dos acontecimentos) este não tem as condições para checar as informações com as fontes diretas.

Caso contrário, os jornais não dariam credibilidade cega ao que chega das agências. Pediriam e aguardariam a checagem do repórter presente no local.

4) A grande mídia brasileira dá um cheque em branco às agências internacionais, no que diz respeito à credibilidade da notícia. Se estas incorrem num equívoco, aquela desaba junto.

Aliás, aqui deixo duas perguntas: Por que os veículos de comunicação brasileiros não são capazes de competir com uma agência espanhola na cobertura jornalística de um país vizinho? Será que dentre em pouco receberemos notícias de Roraima pelas agências européias?

5) Comentaristas econômicos e políticos da grande imprensa brasileira fazem análises à priori dos acontecimentos. Antes de saberem o que de fato ocorreu, já têm explicação para tudo. Apresentam opinião divorciada de informação.

6) Agentes que bem observam as fragilidades da mecânica geral da cobertura midiática têm facilidade para manipular o noticiário.

Casos como este evidenciam que o atual funcionamento da mídia abre mão do zelo à credibilidade da notícia, em favor de outros interesses.

Contudo, a cotidiana exposição à manipulação e ao constrangimento pode custar caro à imprensa. No médio e longo prazos, isto desgasta a sua imagem.

A credibilidade é o maior valor de um veículo de comunicação. Campanha publicitária do portal Zap (voltado ao mercado imobiliário on-line) confirma esta máxima.

Comercial da empresa veiculado na televisão mostra uma família envergonhada por ter acreditado num anúncio que viu num site qualquer. A visita ao apartamento anunciado frustrou as expectativas criadas na Internet, entende o espectador do reclame.

E então o locutor afirma que o Zap é o único site imobiliário que conta com ´a credibilidade dos jornais Estadão e O Globo´.

Pelo menos o departamento de Marketing destes periódicos valorizam a credibilidade da informação. Neste caso, a publicidade pode ser uma ótima influência ao jornalismo.’

 

TV DIGITAL
Márcio Alemão

Agora mudou tudo, 3/12

‘A família Nascimento já anunciou que a TV digital é nossa.

Antes da família Nascimento, o presidente Lula disse que temos o melhor sistema digital do mundo.

Quando o filminho começou eu achei que teria uma sacada do tipo: mostrar os vários momentos da TV. E achei que estavam todos em 1960. Não. Eram dias de hoje. A família Nascimento é uma família simples e a casa deles é uma casa simples. Quer dizer: não tão simples, porque pagaram mil reais para ter o set top box que, de acordo com o ministro Hélio Costa, vai custar 200 reais, um dia, sabe-se lá quando.

Não entendi o porquê da emoção do patriarca da família Nascimento. E também não entendi por que ele convidou tanta gente e fez um discursão longo, chatinho. E o mais espetacular: depois de todo o blá-blá-blá, ele tira uma faixa de ´Bem-Vinda` e… Nada, meus caros! Não aconteceu nada e não vai acontecer durante um bom tempo. É a inauguração mais surrealista do planeta.

Deixando de ser chato e pensando no futuro, saiba que, com a TV digital, sua vida nunca mais será a mesma.

A programação da sua TV, que sempre deixou muito a desejar, acaba de se tornar espetacular, mesmo sem ter mudado. Apresentadores que eram ignorantes na TV analógica se tornarão gênios na digital.

E isso sem falar na espetacular e sensacional convergência das mídias. Você vai poder assistir a um filme na TV enquanto assa um frango no microondas ao mesmo tempo em que paga suas contas do cartão de crédito e faz compras numa loja de Shanghai.

O filme, pouco importa o filme. O mais bacaninha é que você poderá clicar na camisa do ator e saber quanto custa aquela camisa e onde comprá-la. Claro que poderá comprá-la com mais um ou dois cliques.

Certamente, a exemplo do que aconteceu com o video-cassete, que nos permitia fazer um milhão de coisas absolutamente inúteis, a TV digital virá com um extenso cardápio de inutilidades.

Prepare-se para mais uma revolução que não irá revolucionar absolutamente nada. O que mais interessa, o conteúdo, não mudou e nem vai mudar. Alta definição para o baixo nível de nossa programação. Por ora é o que a família Nascimento terá.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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