Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 27 E 28/12

Terra Magazine

29/12/2008 na edição 518

MÍDIA & POLÍTICA
Vitor Hugo Soares

Roda Viva de suspeitas, 26/12

‘Caminhava em um shopping de Salvador, na segunda-feira, 22, com a cabeça dividida entre dois propósitos: abreviar as compras de Natal e voltar para ver em casa a entrevista do delegado Protógenes Queiroz no Roda Viva, cuja retransmissão fora prévia e fartamente anunciada pela TVE-BA, afiliada da TV Brasil. Chego em cima da hora, ligo o aparelho e constato: sem nenhuma explicação, um show de Bossa Nova, com o conjunto ‘os Cariocas’, substitui o esperado programa. Acredite se quiser.

Conheço, há décadas, o repisado ensinamento de Otávio Mangabeira: ‘pense em um absurdo, o maior de todos, e haverá precedente na Bahia’. Ainda assim, perdi o começo da entrevista, antes de entender que estava diante de um absurdo dos mais colossais. No caso, com tintas repugnantes de censura que as explicações esgarçadas dos responsáveis pela programação e o jornalismo da televisão oficial, em lugar de atenuar, agravam ainda mais.

Havia felizmente a alternativa de mexer no controle remoto e migrar da tevê aberta para a fechada. Foi o que fiz, a tempo de ver pela Cultura, de São Paulo, a seleta bancada de entrevistadores ‘arrochar sem dó nem piedade’ – como dizemos os nordestinos – o condutor de algumas das mais polêmicas ações de combate a crimes de peixes graúdos nestes últimos anos no Brasil.

Entre elas, a inflamável Operação Satiagraha, que prendeu e levou algemados para cárceres da Polícia Federal (SP), sob as lentes da tevê, figuras proeminentes como o mega-banqueiro Daniel Dantas, dono do Oportunity; o ex-prefeito da capital paulista, Celso Pitta, o especulador Naji Nahas, entre outros.

Além dos carregamentos de provas e indícios, recolhidos em várias regiões do País (inclusive na Bahia, terra de Dantas e Protógenes) sobre atividades criminosas de tipificações diversas e largo alcance. O que já permitiu ao juiz da Sexta Vara Criminal Federal, em São Paulo, Fausto de Sanctis, condenar o banqueiro a 10 anos de prisão por corrupção ativa e multa pesada por tentativa de suborno a autoridade policial.

Na tela, lances do caprichado jogo de xadrez entre o delegado e os jornalistas convidados, em papéis invertidos. Protógenes ‘é inquirido em lugar de inquirir’, como assinalou Ricardo Noblat. O público, com perguntas incisivas e, em geral, bem postas, contribui para não deixar o foco fugir das questões de real interesse factual e jornalístico, sempre que a entrevista, conduzida por Lilian Witte Fibe – tarimbada, mas tensa e controladora como nunca a ponto de interromper perguntas e repostas cruciais – ameaçava descambar para personalismos pedantes. Ou quando o supérfluo e o secundário tendiam sufocar o substantivo e o principal.

As intervenções dos ouvintes, em diferentes regiões, serviram de alerta aos entrevistadores. Ajudaram não só a salvar o programa, mas também eleva-lo à categoria de um dos melhores do ano na TV brasileira. Bem superior, por exemplo, à ‘conversa de compadres’ com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de cujo desastre salvou-se a firme Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo.

Na entrevista, Protógenes pareceu balançar diante da carga de artilharia ligeira disparada de todo lado em sua direção, mas não perdeu o prumo e o foco do que realmente interessava ao delegado da PF: demonstrar porque considera Daniel Dantas um ‘banqueiro bandido’; discutir sobre ética na justiça, no governo e no jornalismo; falar sobre a corrupção entranhada nas veias de pessoas e instituições mais caras da sociedade brasileira. E, evidentemente, ressaltar os efeitos pedagógicos da operação que comandou. ‘Há um Brasil antes e outro depois da Satiagraha’, registrou o delegado.

Protógenes questionou a existência de ‘grampo’ telefônico no rumoroso diálogo do ministro Gilmar Mendes com o senador Demóstenes Torres (DEM); fez acusações pesadas de princípios contra as duas maiores revistas semanais do País (Veja e Isto É); reafirmou suspeitas severas sobre o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh; manteve a afirmação de que há jornalistas envolvidos nos esquemas do banqueiro Daniel Dantas e disse ser preciso apenas ter um pouco mais de paciência: ‘nomes virão à tona em breve’, garantiu.

O Roda Viva com o delegado da PF merecia audiência nacional, como a oferecida ao ministro de STF, uma semana antes. Como isso foi impedido pela não retransmissão do programa pela cadeia de emissoras da TV Brasil, ficam no ar suspeitas e reações indignadas de público e críticos sobre o real por trás do fato.

‘Foi o chamado acidente de programação’, disse a presidente da rede estatal, jornalista Tereza Cruvinel, à repórter Thais Bilenky, de Terra Magazine, à guisa de justificativa e anunciar para este domingo, como compensação, a reprise do programa em rede nacional, a partir das 16h. O futuro dirá se há algo mais (como se suspeita), além dos aviões de carreira, nessa historia nebulosa.

Feliz Ano Novo para todos.’

 

Francisco Viana

Comunicação e valores republicanos, 25/12

‘A condenação do banqueiro Daniel Dantas , 10 anos de cadeia, sugere uma reflexão que transborde dos limites da justiça e se projete para o espaço das relações entre a comunicação e os valores republicanos.

Nesse sentido, pode-se afirmar que o episódio torna visível o fim de um ciclo do trabalho do comunicador e o começo de outro. Na prática, é um processo que ganha força desde o impeachment do presidente Collor, no alvorecer dos anos 90.

Contudo, esse novo universo de relacionamento, que deveria ser regido por forte ênfase ao respeito às leis e o culto à ética, vem sendo teimosamente ignorado. De um lado, porque as organizações se apegam a modelos ultrapassados, negando-se a entender que ‘tudo é comunicação’ – para citar a feliz constatação de Paulo Nassar, presidente da Aberje -, a começar pelos modelos de negócios.

O problema de Dantas é efetivamente o modelo de negócios. Como, aliás, acontece em todos os escândalos da atualidade. O ponto de partida e de chegada é sempre o modo com que as coisas são feitas, geralmente na contra-mão do modo que se diz que são feitas. Ou, meios justificando meios, quando o correto é a convergência de meios e fins.

De outro lado, porque os próprios comunicadores não se empenham o suficiente, seja por desconhecimento ou por não serem ouvidos, em tornar visível que a comunicação hoje é parte indissociável da gestão. Não adiantam ações de Comunicação ou de Relações Públicas – o que acaba dando no mesmo – se o modelo de negócio é corrompido, aqui no sentido de perda da identidade.

O comunicador é mais do que um construtor de relacionamentos com a mídia e a sociedade. Ela é o arquiteto e engenheiro do modo de ser, o ethos, da organização.

Há ainda um terceiro elo dessa corrente a ser questionado e revisto. São as faculdades de comunicação. Na graduação e na pós-graduação, predomina o ensino voltado para ferramentas.

Ensina-se o como fazer, raramente por que e em que contexto fazer. São geralmente cópias caricatas do modelo americano – com exceções é evidente – mas o fator preponderante é um ensino desidratado da visão política. Estuda-se para esculpir a comunicação das organizações, sem saber o que é uma organização. Que colossal paradoxo!

É hora de repensar tudo.

Voltando aos valores republicanos. De Platão e Aristóteles a Maquiavel, dos filósofos utopistas como Rousseau à Revolução Francesa, da modernidade do século XIX, quando se consolida o modo de produção capitalista e, consequentemente o poder da burguesia aos dias atuais, a questão do papel das leis como regulador dos conflitos sociais tem sido uma constante.

É um tema recorrente que flui e reflui de acordo com o espírito das épocas e a maior ou menor liberdade do cidadão. Hoje, volta à cena a plena carga.

No Brasil, vivemos um ciclo de resgate dos valores republicanos e, com ele, as leis surgem como um fator de garantia da igualdade de direitos, como pilar central do binômio direitos e deveres. A sociedade e cidadão, se bem que ainda de forma tímida, tendem a se tornar os sujeitos reais do Estado. As organizações, incluindo o próprio Estado, não podem girar fora dessa órbita, inventando práticas e regras próprias. É nesse contexto que a comunicação precisa ser levada à prática.

Como fazê-lo, porém, se o comunicador é formado sem esta visão? Como fazê-lo se grassa a crença de que é possível organizar discursos meramente institucionais, desprovidos do respaldo em fatos concretos? Como fazê-lo se há escolhas deliberadas de resolver os problemas pelas vias jurídicas, virando-se as costas para as pressões de opinião pública?

Não há fórmulas mágicas. É imperativo render-se à nova realidade: comunicação não é só criatividade, nem o uso de ferramentas como se fosse uma receita de bolo. Comunicação é o resultado da relação dialética entre a prática responsável e uma estratégia, também responsável, de criar a confiança juntos a múltiplos e crescentes públicos.

Assim, é que personalidades como Dantas poderão se incorporar à vida republicana. Um lembrete final: risquem, definitivamente, do léxico das crises ou prevenção de crises a palavra blindagem.

Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: hermescomunicacao@mac.com)’

 

Thais Bilenky

TV Brasil ‘falhou’, mas não quis censurar Queiroz, 24/12

‘O programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, 22, entrevistou o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, condutor da Operação Satiagraha, quado foram presos o banqueiro Daniel Dantas, o especulador Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, entre outros menos votados. O Roda Viva é habitualmente exibido em todo país pela rede da TV Brasil. Desta vez, à exceção de São Paulo e Rio Grande do Sul, por exemplo, o Roda Viva não foi retransmitido.

Terra Magazine buscou ouvir os presidentes das tevês Brasil e Cultura. Falou com Tereza Cruvinel, presidente da TV Brasil, cuja entrevista vemos a seguir. Já Paulo Markun, presidente da TV Cultura, não foi encontrado. Em seu celular ninguém atende e na TV Cultura não se tem notícia dele. Aliás, nessa véspera de Natal, na TV Cultura não há ninguém da presidência, diretoria e programação para dar informação. Apenas assessores de imprensa. Tereza Cruvinel disse:

– Falha nossa. Não temos nenhuma intenção de censurar Protógenes. Ocorreu o chamado acidente de programação.

O Roda Viva, programa em que um convidado é entrevistado por jornalistas e mediado por Lilian Witte Fibe, causou polêmica nas últimas duas semanas. Na edição anterior à que teve no centro o delegado da Polícia Federal, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, foi o entrevistado.

Protógenes e Mendes têm entendimentos opostos em relação à Operação Satiagraha. Para Mendes, elementos como uso de algemas e ‘espetacularização’ de ações da PF minam os efeitos da operação.

Milhares de internautas que acompanharam a transmissão têm criticado a seleção dos entrevistadores em um e outro programa. No caso de Gilmar Mendes, apontam extrema docilidade da bancada para com o sabatinado, à exceção da jornalista Eliane Cantanhêde, colunista do jornal Folha de S. Paulo. O contrário se deu na entrevista com Protógenes. Internautas e espectadores se queixam da dureza com o delegado que prendeu Dantas e da suavidade ou esquecimento do papel do banqueiro, já condenado pelo juiz Fausto de Sanctis a dez anos de cadeia.

Não tendo sido encontrados integrantes do comando da TV Cultura ou do Roda Viva, restou a Terra Magazine entrevistar assessores de imprensa. Informam eles que nesta quarta-feira, 24, que ‘todo o pessoal da programação do Roda Viva está em recesso, assim como a diretoria’ e que, portanto, esta repórter não teria resposta.

Leia a seguir entrevista com a presidente da TV Brasil.

Terra Magazine – Por que o programa Roda Viva com o delegado Protógenes Queiróz não foi exibido em todo país?

Tereza Cruvinel – Foi o chamado acidente de programação. Programação não é uma coisa que vem a direção superior o tempo todo, vem quando você vai fazer programa novo… Mas tem um gerenciamento de grade e houve um acidente. Havia uma informação anterior de que a TV Cultura iria fazer reprise do Roda Viva na semana do Natal e do Ano Novo, como já fez outras vezes. Mas a TV Cultura tinha avisado que (o programa) seria com o Protógenes, depois que o delegado confirmou (a presença).

Sim.

Partindo do suposto de que era uma reprise, resolveram exibir um compacto – fizemos uma série de melhores momentos de cada programa. Foi apenas isso, tanto que já programamos uma reprise do Protógenes para domingo, num horário mais nobre. A TV Cultura reprisa o Roda Viva todo domingo à meia-noite. Nós vamos reprisar às 16h para ser num horário mais nobre.

Muitos criticam o fato de que no programa com Gilmar Mendes, os entrevistadores amaciaram o debate com o Ministro. E que no caso do delegado Protógenes, ocorreu o contrário. Como, neste caso, um programa dá continuidade ao outro, isso saltou à vista.

Nós não temos nada a ver com a produção do programa. Mas como achamos o Roda Viva muito importante – ele é da TV Cultura, que não é da nossa rede – o exibimos na TV Brasil. Agora estamos até licenciando a compra dele. Porque a TV Cultura optou agora, e a gente acha legítimo, por cobrar a programação para quem quiser reproduzir sua programação. Ela permitia (a reprodução) sem cobrar. A gente comprou o direito de exibição para TV Brasil e suas associadas. Por considerar o Roda Viva importante, e um bom programa, o mais antigo programa de entrevista desse gênero, na televisão brasileira que tem poucos programas de debate. Mas foi apenas, apenas isso. Foi falha nossa, porque era preciso ter conferido na véspera, no dia, com antecedência, se era reprise mesmo ou se tinha um entrevistado.

Segundo a TV Cultura, o delegado Protógenes só confirmou no dia 16. Então nossa área de programação falhou porque não se atualizou.

Comentou-se bastante a respeito do programa com Protógenes antes dele ocorrer, já que o delegado dissera que só falaria com a imprensa após o juiz Fausto de Sanctis sentenciar Dantas (a dez anos de prisão).

Sim, foi divulgado. Tanto que eu vou te falar, eu estou (enquanto o programa era transmitido pela TV Cultura) achando que nós estamos exibindo. Eu não vi o Roda Viva na noite, eu estava em outro compromisso. Mas foi um acidente, mesmo. Não houve nenhuma intenção de censurar Protógenes, nem nada. Nós vamos exibir bem o programa, num horário bom. Já botamos chamada no site da TV Brasil (Nota da redação: será exibido domingo, 28, às 16h).

A TV Brasil não teria exibido se o Roda Viva de fato fosse apenas uma reprise?

Nós queríamos um horário para exibir o nosso compacto de um ano: TV Brasil, ano 1. Aí a pessoa que gerencia a grade pensou o seguinte: ‘O Roda Viva é reprise, vou colocar no lugar o compacto’. Só que ela errou porque ela não se atualizou. Falha nossa, a TV Cultura não tem responsabilidade nenhuma nisso.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo

Folha de S. Paulo

O Estado de S. Paulo

O Estado de S. Paulo

Comunique-se

Jornal do Brasil

Terra Magazine

Agência Carta Maior

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem