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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 21 E 22/11

Terra Magazine

24/11/2009 na edição 565

NOTÍCIAS E VILÕES
Francisco Viana

Mídia, ocaso de um modelo

‘‘Nós jornalistas não fazemos a distinção entre notícia boa e notícia ruim. A notícia que é ruim para alguns é boa para outros. O que importa para nós é a notícia. Má notícia existe para vocês’.

O autor dessas palavras falou numa oficina de trabalho que realizei na semana passada. Foi uma intervenção rápida. ‘Vocês’ eram os participantes do evento. Será que é assim? E o velho ditado ‘Boa notícia não é notícia’ onde fica? A notícia negativa é notícia negativa. É negativa para quem é o sujeito da notícia, também para quem a lê, quem por ela é atingido. Por exemplo, o caso do recente apagão de energia. Foi negativa para o governo, foi negativa para quem foi vitima do episódio. Teriam os jornalistas corrido em busca de informações, como correram, se a capacidade de oferta de energia tivesse duplicado no país?

Se a notícia fosse apenas notícia, a imprensa seria neutra. E estaria acima do bem e do mal. Não carregaria nas tintas, por exemplo, sobre as criticas a um governo de esquerda, nem elogiaria um governo de direita ou ao centro. Não é assim, nunca foi assim. E nunca será assim. A política não é neutra, a sociedade não é neutra. Por que a imprensa seria neutra? A idéia de que a notícia é absoluta, é uma realidade em si, brota e floresce do velho modelo liberal de fazer jornalismo.

E esse modelo está em crise. De um lado, porque derivou fortemente para o sensacional. A notícia virou espetáculo. Onde devia predominar o interesse público, predomina o interesse de causar impacto. Muitas vezes o título diz uma coisa, a notícia diz outra. Fontes que fazem denúncias se escondem por trás do anonimato. As questões são formuladas na forma de ‘pegadinhas’ para enredar o entrevistado.

Os dois lados não são ouvidos. Assim, é que a notícia transforma-se em uma mercadoria como outra qualquer, produzida em série, sem grande visão critica, sem grande cuidado com a realidade factual ou a análise baseada nos fatos. Na guerra pela agilidade, a precisão é a primeira vitima. E vitimada a precisão, os fatos caem para plano secundário. Se tornam personagens de ficção.

De outro lado, o modelo atual vê a realidade em preto e branco. Basta olhar os colunistas dos principais jornais do País. A quase totalidade vê a realidade pela ótica liberal ou conservadora. Não há um único colunista – pelo menos eu não conheço – que veja a realidade com um olhar à esquerda, um olhar de negação da realidade atual. A sociedade é cada vez mais múltipla, cada vez mais multicultural, cada vez mais propensa a ver o mundo como um caleidoscópio político, mas a imprensa teima em ver o mundo numa única moldura.

Variam as cores, os fortados, mas a essência da moldura é a mesma. O tema do meio ambiente, por exemplo, é focado sempre pelo ângulo de que ser responsável ambientalmente dá lucro. Não há uma única voz a dizer que é preciso mudar o sistema produtivo. O planeta não suporta a expansão desenfreada do consumo. Todos os temas, em suas grandes linhas, são tratados nessa moldura: consumo-lucro. O discurso é repetitivo, a sociedade percebe, se distancia.

No noticiário, a fórmula se repete. Tenta-se explorar sempre a moldura do sensacional, da concorrência entre os veículos para ver qual notícia o espetaculoso com mais detalhes, por mais tempo. Cessado o espetáculo, cessa o interesse. Procura-se adaptar uma teoria de fazer jornal à realidade, não acompanhar a realidade e entender os novos fenômenos que estão à flor da terra ou que ainda não são totalmente visíveis ou apenas se manifestam como tendências.

Em todos os períodos de abertura democrática, o Brasil pendeu à esquerda. É assim desde a República, mas a imprensa permanece conservadora. Não percebe, por exemplo, que hoje há uma intensa briga pelo espaço público de modo a colocá-lo a serviço de interesses privados ou de interesses públicos. Fica perdida no dia a dia, na visão economicista e ou no discurso de fontes oficiais – não me refiro a governos, mas a fontes que não criticam nada e apenas repetem surradas visões de mundo – e não captam o novo. Por exemplo, o caso de Honduras.

O coro ecoou em uníssono: quem decidiu a questão foram os Estados Unidos. Não só nada foi decidido, como os EUA não decidiram nada. Se houver alguma decisão, a paternidade é brasileira. Hugo Chávez, então, é o vilão de sempre. Não há o mínimo cuidado de entendê-lo a partir de uma visão da realidade da Venezuela – um país pobre e com elites muito radicalizadas. Outro vilão de sempre: o MST.

Sem o MST a reforma agrária demoraria mais uns cem anos. Não há dúvida. Na realidade, a imprensa esta se revelando um ator que chega atrasado ao cenário da história. Não se dá conta que estamos evoluindo de uma democracia formal-representativa (dominada pelo liberalismo e o neoliberalismo) para uma democracia participativa, de essência republicana. É um processo, evidentemente, mas este se encontra em movimento. É irreversível.

Curioso é que os jornalistas (refiro-me a um grande número, não à totalidade) não percebem esse fenômeno. Ficam atrelados ao velho modelo de concorrência, de quem dá a notícia primeiro, a crença de que as notícias são neutras, independentemente de serem boas ou más. É desse modo que contribuem para a falência do modelo. Esquecem-se do culto aos fatos. Ou, na análise concreta da realidade – em sua amplitude factual e histórica – a partir dos fatos. Veja que a chamada grande imprensa se encontra diante de uma questão esfingética, proposta pela realidade: decifre-me ou lhe devoro.

A visão de que a imprensa forma um corpo que fiscaliza o poder, sem ser fiscalizada, que julga o que é e o que não é notícia, que faz a mediação entre o poder e a sociedade, perdeu substância. A imprensa não é mais a senhora da razão. É parte de uma sociedade interdependente. Precisa estar preparada para entendê-la, precisa retornar aos velhos cânones da verdade factual, mas, igualmente, incorporar as múltiplas formas de ser da sociedade.

Ou, então, declarar qual é a sua visão de mundo, deixar claro nos seus valores e missão a sua profissão de fé. Não camuflá-la sob o manto do ideal democrático. O que é esse ideal? A democracia de massas? A democracia do mercado? A democracia apenas para as elites? Uma democracia que favoreça a um processo civilizatório e assegure a todos, independente de ideologia, a mesma igualdade nos espaços públicos? A democracia, vale lembrar, é o antigo ideal grego de igualdade, só que sem escravos. É na igualdade que surgem as diferenças.

A novidade, em relação à história brasileira, é que este debate está no cotidiano, no âmbito da política. Não mais, como no passado, no âmbito da força e da violência. O que está em jogo, portanto, é uma questão de conquista de legitimidade. Esse é o pano de fundo que propõe esse esfinge implacável chamada realidade objetiva, realidade concreta. Ou, democracia participativa em lugar de uma democracia representativa fossilizada. Voltarei ao tema nas próximas colunas.’

 

ESPORTE E POLÍTICA
Claudio Leal

Presidente do Bahia processa João Carlos Teixeira Gomes

‘O presidente do Esporte Clube Bahia, Marcelo Guimarães Filho, move um processo contra o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes em razão de críticas à diretoria do clube, no artigo ‘Como salvar o Bahia’, publicado no jornal baiano ‘A Tarde’. Apresentado em 27 de outubro, o processo ‘2925365-2/2009’ corre na 15ª Vara Crime de Salvador e será apreciado pelo juiz Antonio Silva Pereira.

Em entrevista a Terra Magazine, Guimarães, cartola e deputado federal (PMDB-BA), expõe o trecho que motivou a ação judicial:

– Eu não tô aqui agora nem com a ação, nem com o texto, o que eu vou tentar reproduzir talvez não seja literalmente a mesma coisa, mas foi algo do tipo: o dinheiro do clube sai pelos ralos ou pelos bolsos de quem o dirige. Eu acho que aí, né… Já passa do limite – avalia, defendendo a interpelação.

No artigo editado no jornal ‘A Tarde’, em 17 de outubro de 2009, Teixeira Gomes lamentou ‘que o clube tenha chegado ao nível de humilhação a que foi atirado pelas administrações que o desmoralizam há tantos anos consecutivos’.

Filho do primeiro goleiro do Bahia, o escritor prosseguiu: ‘As últimas diretorias do Bahia conseguiram uma façanha esportiva realmente inédita: inventaram a crise ininterrupta, a decadência irreversível, a degradação permanente, portanto a mais injustificável e dolorosa.’

O trecho que irritou o presidente do clube traz uma crítica fundamentada em reportagens jornalísticas sobre o grupo de cartolas que comanda o Bahia há mais de 30 anos, aqui e ali renovado por herdeiros e políticos aliados:

‘Lançaram o Bahia em todas as divisões inferiores, não conseguem ganhar nem o campeonato baiano, fazem contratações desastrosas (como a de Paulo Carneiro, confissão de falência de comando), jamais conseguiram armar um time digno, estão alienando todo o patrimônio sem construir coisa alguma, as rendas dos jogos somem pelo ralo (ou pelos bolsos), as contas (irregulares) vivem sob suspeita, como o provou A TARDE em recente reportagem.’

Em entrevista a Terra Magazine, uma semana antes deste artigo, Teixeira Gomes havia conclamado a torcida tricolor a reagir, nas ruas, contra os cartolas. ‘Que a torcida do Bahia incorpore o espírito revolucionário dos baianos do 2 de Julho e se una nas ruas, nas praças, pressionando nas rádios, na internet e nos jornais, os incompetentes que afundam um clube glorioso’.

Procurado na tarde desta quarta-feira, João Carlos Teixeira Gomes não foi encontrado. Joca, como é conhecido desde os tempos da Geração Mapa – protagonizada por Glauber Rocha – é ex-editor-chefe do Jornal da Bahia e autor, entre outros livros, de ‘Tempestade Engarrafada’, de ‘Glauber Rocha, esse vulcão’ (melhor biografia sobre o cineasta), do best-seller ‘Memórias das Trevas’ e do romance recém-lançado ‘Assassinos da Liberdade’.

Na década de 70, durante a ditadura militar, Joca foi perseguido pelo governador biônico Antonio Carlos Magalhães e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Em 1972, numa decisão histórica, o Superior Tribunal Militar deu vitória ao jornalista, que continuou a se opor ao governador imposto pela ditadura.

O presidente do Bahia, que integrou o grupo político de ACM, afirma que não conhece a história do jornalista.

– Não, não o conheço e, sinceramente, eu fico bastante sentido por outro lado, porque não o conheço. Conheço a história dele de ouvir falar, mas nunca troquei palavra com ele, nunca apertei a mão dele. E ele não conhece as minhas intenções – diz o cartola.

O Bahia, campeão nacional de 1959 e 1988, está ausente da Série A do Campeonato Brasileiro desde 2003. Chegou a amargar dois anos na Série C, em 2006 e 2007. Na atual temporada, vai se afastando do risco de rebaixamento à terceira divisão novamente. Seu último título profissional foi o Campeonato do Nordeste de 2002.

Leia a entrevista com Marcelo Guimarães Filho.

Terra Magazine – O que lhe levou a processar João Carlos Teixeira Gomes?

Marcelo Guimarães Filho – É o seguinte: primeiro quero colocar pra você que tenho um profundo respeito pela imprensa e acho que o direito de criticar é absolutamente natural. Às vezes, até acho que sou merecedor da crítica. Procuro olhar sempre da maneira mais positiva possível. Ela tá no papel dela e deve fazê-lo. Já fui criticado muitas vezes e essa, por incrível que pareça, é a primeira vez que eu processo um jornalista. Não conheço João Carlos, mas, nesse caso específico, decidi por processá-lo porque eu entendi, como entendo ainda, que a coluna que ele fez no jornal A Tarde, criticando a mim como presidente, passou do razoável. Acho que ele usou um linguajar que merecia que eu fosse buscar na Justiça a reparação ou a confirmação do que ele colocou ali.

O que, especificamente, o incomodou?

Eu não tô aqui agora nem com a ação, nem com o texto, o que eu vou tentar reproduzir talvez não seja literalmente a mesma coisa, mas foi algo do tipo: o dinheiro do clube sai pelos ralos ou pelos bolsos de quem o dirige. Eu acho que aí, né… Já passa do limite. Você quer criticar uma administração, achar que o presidente não tem competência, achar que tomou uma decisão errada, não tem problema. Porque a gente procura acertar, mas também vai errar. Natural. Mas daí a dizer que o dinheiro sumiu pelo bolso…

Ele falou de uma sucessão de presidentes, não nomeou.

Muita gente lê aquilo e a interpretação que se faz é óbvia de que tá indo pelo bolso do presidente atual, que está dirigindo o clube. Se ele falou de todos os que já passaram, me incluiu, no texto ele não exclui. Agora, se dissesse: ‘Excluindo o atual, o dinheiro foi pelo ralo ou pelo bolso…’. Na verdade, é o seguinte: na ação, quero que ele esclareça se foi isso que ele disse. Se é o que você tá dizendo, ele teve a melhor das intenções. Problema nenhum. Quero deixar claro isso.

Nesse contexto, não é uma opinião válida de um jornalista? Diante da crise permanente do clube, há dez anos sem bons resultados, sem oferecer nada à torcida, o senhor não acha natural que a imprensa cobre respostas, a apresentação das contas do clube? Uma reportagem do jornal A Tarde provou que a situação é pré-falimentar. Não é um exercício de poder sobre um jornal? Isso não representa uma ameaça para o jornalista e para todos os outros que criticam o clube?

Não, não, não acho. Primeiro, acho que é absolutamente válida a crítica. Acho absolutamente válido qualquer veículo de comunicação buscar sua investigação, sua reportagem investigativa, procurar colocar os problemas. Acho apenas que não se pode passar do limite. Tanto assim o é que, como lhe falei, eu tenho nove anos de vida pública e nunca processei um jornalista. Tenho dez meses de presidência de um clube de futebol e já recebi diversas críticas. Mas não havia processado nenhum jornalista. Entendi que nesse caso específico, pontual, houve um excesso.

Mas o senhor, praticamente, não tem oposição. Atraiu até opositores para sua administração.

Se eu não tenho oposição, é porque talvez eu tenha tido condições de mostrar às pessoas… Isso talvez seja uma prova bastante clara da minha maneira democrática de gerir o clube, maneira democrática de mostrar às pessoas o que está acontecendo. Quando você chama as pessoas pro seu lado e mostra: o problema é esse aqui, o problema tá desse tamanho, vamos resolver juntos… Promovi dentro do clube, acho que é por isso que tenho conseguido trazer as pessoas, nesses dez meses, não o que desejo ainda e não o que a torcida deseja, porque ainda cobra. Mas avançamos muito em termos de democratizar o clube. Promovi uma reforma do estatuto do clube, ampliando o poder do conselho deliberativo, o próprio sócio votar para presidente. Publiquei pela primeira vez na história, no site do clube, as contas. Criei um conselho consultivo, colocando pessoas que estavam alijadas. Toda ação tem uma reação. Não é do nada que eu tive apoio das pessoas. Como você falou, a oposição tem diminuído, mas ela não deixa de existir… Não é pela cor dos meus olhos (o deputado tem olhos azuis) que têm apoiado minha administração no clube.

Certamente não… É a primeira vez que o senhor processa um jornalista. Mas ele é uma das poucas vozes que critica a sua gestão.

Discordo de você. Nós temos uma pessoa lá em Salvador, um jornalista conhecido, um articulista conhecido, que tem feito severas críticas.

Samuel Celestino, criticado em nota pelo senhor.

E eu até respondi às críticas dele, mas não o processei, porque achei que as críticas dele não passaram do limite. Ele tem todo o direito de criticar e eu tenho todo o direito de mostrar meu ponto de vista. Porque não achei que ele passou do limite. Se ele assim o fizer, farei da mesma forma.

O senhor conhece a história de Joca?

Não, não o conheço e, sinceramente, eu fico bastante sentido por outro lado, porque não o conheço. Conheço a história dele de ouvir falar, mas nunca troquei palavra com ele, nunca apertei a mão dele. E ele não conhece as minhas intenções.

O último processo que ele recebeu, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, foi na ditadura militar, movido por Antonio Carlos Magalhães, num período em que houve grande mobilização em defesa dele. Como vê isso?

Eu acho que… Na ditadura militar, foi isso?

Na ditadura militar.

Eu acho que já passou tanto tempo, estamos vivendo outro tempo, eu não sou Antonio Carlos Magalhães, eu não tenho nada a ver com Antonio Carlos Magalhães, pelo contrário… Tenho 50 anos de diferença em relação a ele…

O senhor integrou o grupo de Antonio Carlos Magalhães.

Já, já integrei o seu grupo. O que não significa que me fundi com suas ideias. Ele tinha as ideias dele, eu tinha as minhas, como continuo tendo. Você faz parte de um grupo de comunicação, você pensa igual a todos que estão aí?

Não, mas é diferente. O senhor está na política. Para entrar num partido, num grupo político, é preciso que tenha ideias que se conformem com o grupo. Ainda mais com Antonio Carlos Magalhães, que você conhecia bem…

Era. Concordo com você. Se conformam, mas não se fundem. Principalmente porque são duas pessoas diferentes, com raciocínios diferentes, com tirocínios diferentes, com experiências de vida diferentes, com diferença de idade extrema… Certamente, o João Carlos, que tem uma idade diferente da minha, pensa diferente de mim, carrega experiências diferentes, viveu um tempo diferente do meu. Não pode pensar como eu, nem eu posso pensar como ele.

O que o senhor exige no processo? Indenização?

Tecnicamente, eu não sei como a ação tramita. Mas o meu desejo era de que ele explicasse aquela parte que o dinheiro está descendo pelo ralo ou pelo bolso dos dirigentes. Quero saber se é pelo meu bolso. Quero saber como é que aconteceu. Tenho 33 anos e nunca sofri nenhum processo. As pessoas tomam o que sai em veículos de grande circulação como verdade. Preciso saber de onde saiu essa informação.

A torcida também não precisa saber das contas do Bahia, cobrar transparência? Historicamente, o senhor deve saber disso porque seu pai também foi presidente do clube, as transações de jogadores não são claras para a torcida. Tanto que há cobrança dos torcedores. O jornalista expressou a opinião de grande parte da torcida. O clube também não precisa responder?

Precisa, tanto assim o é que, pela primeira vez na história, está publicado no site as contas do Bahia. Está lá publicado. Neste trimestre, quando a gente fechar as contas, também vai publicar no site. Mais transparência do que isso eu não sei fazer. O torcedor deve continuar cobrando transparência de uma maneira absolutamente natural, e todo jornalista também. Só não deve passar do limite.’

 

***

Teixeira Gomes: ‘Nada me afastará da defesa do Bahia’

‘Em entrevista por e-mail, o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes responde ao presidente do Esporte Clube Bahia e deputado federal, Marcelo Guimarães Filho (PMDB), que afirmou a Terra Magazine, na quarta-feira, 18, ter entrado com uma interpelação judicial depois de ler um artigo contra a gestão do clube, no jornal ‘A Tarde’. Teixeira Gomes, mais conhecido como Joca, escreveu que ‘as rendas dos jogos somem pelo ralo (ou pelos bolsos)’.

Guimarães Filho se irritou com a frase e decidiu processá-lo: ‘Usou um linguajar que merecia que eu fosse buscar na Justiça a reparação ou a confirmação do que ele colocou ali.’ O jornalista explica a essência da crítica:

– Um prestigioso jornal informou no mês passado que o Bahia está ameaçado de falência. Só em 2009, o mesmo jornal informou que foram 46 contratações, e o Bahia rondou o rebaixamento! Quer dizer, quatro times de futebol e dois reservas, para nada! Não está claro que tanto dinheiro mal aplicado está indo para os bolsos dos beneficiados pela onerosa política de contratações? Eis o que eu quis dizer, ao escrever, sem citar nomes.

Ex-editor-chefe do Jornal da Bahia (alvo de perseguição do ex-governador Antonio Carlos Magalhães), ensaísta e biógrafo do cineasta Glauber Rocha, de quem foi amigo, Teixeira Gomes enfatiza que está mais preocupado com a honra do tricolor baiano. Campeão nacional de 1959 e 1888, o Bahia está ausente da Série A do Campeonato Brasileiro desde 2003. Chegou a amargar dois anos na Série C, em 2006 e 2007. Na atual temporada, vai se afastando do risco de rebaixamento à terceira divisão. Seu último título profissional foi o Campeonato do Nordeste de 2002.

– Não ataquei nem desejo atacar a sua honra (do presidente do Bahia), pois como jornalista só denuncio aquilo que posso provar, por isso não fui preso nem na ditadura, apesar de bastante processado. Se minha frase foi mal interpretada, já está explicada, e bem mais profundamente em Juízo. Não é a honra das pessoas que me preocupa, mas sim a honra do Bahia. Esta, sim, é que deve mobilizar os tricolores – diz Joca.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – O senhor tem uma tradição de lutas na ditadura militar. Como vê a interpelação judicial do presidente do Bahia?

João Carlos Teixeira Gomes – É um direito dele, mas nasceu de uma interpretação equivocada do meu artigo ‘Como Salvar o Bahia’. No trecho em que ele julga que o ofendi, sequer cito o nome de ninguém. Fiz uma afirmação abstrata, sobre uma coisa que preocupa toda a imensa torcida do Bahia: como é que um clube que arrecada, relativamente, as maiores rendas do Brasil, contrata tanto e tão mal, e só vive na penúria? Um prestigioso jornal informou no mês passado que o Bahia está ameaçado de falência. Só em 2009, o mesmo jornal informou que foram 46 contratações, e o Bahia rondou o rebaixamento! Quer dizer, quatro times de futebol e dois reservas, para nada! Não está claro que tanto dinheiro mal aplicado está indo para os bolsos dos beneficiados pela onerosa política de contratações? Eis o que eu quis dizer, ao escrever, sem citar nomes. A torcida é que merece uma explicação.

Pode adiantar o que disse em sua defesa?

Encaminhei minha defesa ao juiz e tenho absoluta confiança na Justiça da minha terra. Não devo adiantar o que será objeto de apreciação nos autos, mas fico satisfeito em que se saiba que não ataco pessoalmente o presidente do clube, Marcelo Filho, não ponho em dúvida a sua honestidade pessoal, nem a de ninguém da diretoria. O ponto crítico é que vejo enorme desperdício com contratações erradas. A prova foi a péssima campanha do Bahia em 2009, dando continuidade a um vexame de quase dez anos consecutivos – ausência de títulos, divisões inferiores, parco patrimônio, ameaça freqüente de rebaixamento, desespero da fiel e maravilhosa torcida. Haverá alguém que possa negar essa desesperadora realidade?

O senhor integra algum grupo da oposição?

Não me incluo em grupos ou facções. Não patrocino com meus artigos o interesse de ninguém. Penso apenas no clube que meu pai ajudou a fundar, em 1931, tendo sido o seu primeiro goleiro, e um goleiro campeão. Tenho o Bahia no sangue, nada me afastará da sua apaixonada defesa. Se fizesse uma administração que recuperasse o Bahia, o deputado Marcelo Filho já teria meu apoio, como poderá ter. Mas é preciso redemocratizar a vida do clube, abrindo-o a correntes de renovação. A acusação de que o Bahia possui estrutura antidemocrática não é minha, é comentário geral dos torcedores esclarecidos. A cartolagem é antigo mal do futebol brasileiro.

Um jornal baiano disse que ‘o velho Bahia está chegando ao fim’. É por aí?

Li entristecido essa manchete de um tradicional jornal baiano. Eu, que moro no Rio, estava em Salvador. A situação do Bahia nos campos tem sido humilhante, mas um clube com tal torcida não desaparecerá nunca. É preciso unir forças para salvar o tricolor, que não é apenas um time de futebol, mas sim um patrimônio da Bahia, pelo hino, pelas cores, pelo nome, pela paixão e vibração da torcida, pelas coloridas bandeiras, inigualáveis, tremulando ao vento, nas mãos dos torcedores, num estádio lotado. Nada há de igual no Brasil.

Como ficará a situação?

Fique tranquilo o presidente Marcelo que não ataquei nem desejo atacar a sua honra, pois como jornalista só denuncio aquilo que posso provar, por isso não fui preso nem na ditadura, apesar de bastante processado. Se minha frase foi mal interpretada, já está explicada, e bem mais profundamente em Juízo. Não é a honra das pessoas que me preocupa, mas sim a honra do Bahia. Esta, sim, é que deve mobilizar os tricolores, pois 2009 foi um dos anos mais lamentáveis na rica história do clube, com tantas derrotas, inclusive em seu terreiro. A atual administração entrou para quê? Para mudar esse quadro. Mas não evitou o colapso. O Bahia não pode continuar disputando somente para não ser rebaixado, as arquibancadas querem voltar a sorrir, vendo-o outra vez campeão e na elite do futebol brasileiro. Quem trabalhar para isto terá o meu apoio. Caso contrário, manterei, com serenidade, mas sem temer quaisquer ameaças, o meu direito de critica, exercitado até na ditadura, contra os tiranos. Por isso me chamaram de ‘pena de aço’, apelido que me enaltece e que muito prezo. Tudo pelo Bahia, que só poderá ser salvo pelo amor e pelo respeito integral às suas tradições, unindo forças em torno do grande objetivo comum. Já escrevi que é preciso deixar que também a oposição cante junto o grande hino da redenção tricolor, pois o único dono do Bahia é a sua torcida. E que dono!’

 

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