Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 23 E 24/1

Terra Magazine

26/01/2010 na edição 574

POLÍTICA
Vitor Hugo Soares

Jornal de ontem

‘Sempre impliquei com o início da letra do samba canção ‘Jornal de Ontem’, clássico da música romântica composto por Romeu Gentil e Elisário Teixeira, consagrado na voz do cantor das multidões, Orlando Silva, com regravação mais moderna da baiana Gal Costa. A birra vem do tempo de estudante de jornalismo na UFBA, nas aulas de interpretação de textos.

Posto em meditação por dois assuntos destacados e barulhentos nas edições dos diários e revistas – o programa de direitos humanos do governo federal e o feroz conflito PSDB x PT, decorrente da entrevista do presidente nacional dos tucanos, senador Sergio Guerra, na revista Veja – flagrei-me outra vez às voltas com os versos do começo da canção imortal: ‘Para mim, você é jornal de ontem/ Já li, já reli, não serve mais’

Nestes dias bélicos da política nacional recorri algumas vezes aos serviços do You Tube. Reli com mais atenção – e isenção – a letra completa, saboreando o prazer sempre renovado de escutar a melodia na voz incomparável de Orlando. Percebi, finalmente, a justeza de sentido dos versos dos autores em seu conjunto, e a cegueira que desprezava o todo de uma das mais completas e tocantes composições já escritas e cantadas.

Neste caso, o único conforto foi verificar que aparentemente não estou só quanto ao gosto pela leitura e a valorização do dito e escrito em folhas lidas e relidas. Afinal, é isso que forma a memória, ‘sem a qual o homem não é nada’, como afirma Buñuel no livro de recordações ‘Meu último suspiro’.

Na edição de domingo (17), o Ombudsman da Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, por exemplo, vai direto ao ponto, sem os rodopios deste articulista. Lembra que em 21 de dezembro do ano passado, em Brasília, foi lançado em cerimônia pública o programa de direitos humanos do governo federal, o terceiro da história e o primeiro da administração de Lula.

Sempre atento, o jornalista revela: no dia seguinte, o evento mereceu na Folha um registro de irrisório desprezo: um texto-legenda na capa e duas colunas de alto a baixo em página par (menos valiosa de acordo com os signos jornalísticos ensinados nas aulas de comunicação impressa). ‘O programa só foi citado para explicar por que a reunião havia ocorrido’, assinala.

O restante do espaço foi utilizado para tratar do novo corte de cabelo da ministra Dilma Rousseff. ‘Só na sexta-feira, dia 8, e especialmente no fim de semana, quando foi manchete de primeira página três dias, o programa apareceu como assunto mais importante do país, só desbancado pelo terremoto do Haiti’, recorda o jornalista na análise crítica publicada na Folha com título emblemático: ‘18 dias para achar a importância’.

E a pergunta que não quer calar é feita pelo Ombusdman: ‘Se o programa de direitos humanos é tão relevante, por que a Folha não acompanhou o processo de sua elaboração?’. E faz uma constatação incômoda: o jornal também demorou a mostrar ao seu público que as duas versões anteriores desse programa ‘eram muito parecidas com esta, consequência quase natural daquelas’. ‘Foi só na coluna Brasília na segunda-feira e numa ampla reportagem com boa arte na terça, que isso ficou claro’, aponta.

Foi mais ou menos a mesma toada na grande imprensa brasileira – sabem de sobra os leitores de jornal de ontem. A diferença, praticamente, está na audácia corajosa da Folha de S. Paulo, ao abrir espaço amplo – mesmo que em página par (8) -, além do acolhimento democrático e respeito às palavras do crítico interno do diário. E isso faz muita diferença. Para melhor.

Agora um pulo rápido para as páginas amarelas da Veja, com a entrevista a sangue quente e pavio curto e incendiário do senador pernambucano Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB. Dessas cujos efeitos em geral são mais desastrosos para quem faz os disparos do que para aqueles a quem as balas são dirigidas. ‘Tiros no pé’, diz-se atualmente.

Na revista de ontem, Guerra, fiel ao sobrenome, procura encrenca e diz com todas as palavras não apenas acreditar que ‘Lula foi o último presidente a fazer política com as mãos sujas’. Acrescenta que ‘não há mais espaço para esse tipo de mentalidade que redundou no mensalão, na compra espúria do Parlamento’. E por aí vai.

Ah, e tem ainda o trecho em que o presidente dos tucanos anuncia que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma das meninas dos olhos do governo Lula, será riscado do mapa no caso de vitória do governador de São Paulo, José Serra, para presidente da República…. ‘Apenas os projetos eleitoreiros, os que têm padrinhos políticos, estão andando… Isso é o PAC, – e nós vamos acabar com ele’, promete o presidente do PSDB.

Nos jornais dos dias seguintes, ‘de volta para a vida real’, como dizem os soteropolitanos, Guerra engata marcha ré. Tenta retocar o que afirmou, mas o estrago da revista de ontem está feito. E o conflito está nos palanques e nas ruas, bem antes do tempo aparentemente desejado pelo governador Serra, o provável candidato tucano à sucessão de Lula já com problemas de sobra, embora o presidente do PT, Ricardo Berzoini, jure que as palavras do pernambucano Guerra foram ditadas de São Paulo.

Na estrofe final de ‘Jornal de Ontem’, o cantor das multidões entoa: ‘Para mim você é jornal de ontem./ Já li, já reli, não serve mais/ Agora quero outro jornal assim/ Que tenha fatos sinceros/ E sublimes, emocionais’.

Bravos Romeu Gentil e Belisário Teixeira. Bravo cantor das multidões, Orlando Silva!’

 

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