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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 14 E 15/8

Tiago Dória

17/08/2010 na edição 603

HISTÓRIA
Tiago Dória

Bê-á-bá da tecnologia

Uma das principais lições que você aprende quando começa a estudar, com afinco, tecnologias é que muitas respostas para problemas atuais podem estar no passado.

Para entender, por exemplo, por que a questão da privacidade é tão frágil na internet, é necessário voltar ao passado da plataforma e relembrar que ela foi criada, acima de tudo, para ser uma tecnologia militar e governamental. É uma plataforma que foi desenvolvida com a característica de que cada passo e movimento fossem rastreáveis e ficassem registrados em algum lugar. Isso pode ser positivo ou negativo dependendo do seu ponto de vista.

Para compreender as plataformas de redes sociais, por sua vez, você não precisa correr atrás da bibliografia completa do último guru que surgiu na área. Mas, acima de tudo, observar ‘ferramentas de comunicação’ anteriores e que também trabalhavam em rede, como o próprio telefone. Se a gente parar para observar, muito do que aconteceu com as redes de telefonia está se repetindo com as redes sociais. Não é à toa que uma vem substituindo a outra em muitos momentos do dia a dia.

Por isso é sempre importante ter uma perspectiva histórica a respeito das tecnologias. Neste sentido, um livro lançado no Brasil tenta trazer à tona essa perspectiva – História das Invenções, do historiador Trevor I. Williams (320 páginas/editora Gutenberg), em que o autor, então colaborador da revista Endeavour, conta a história de diversas tecnologias – desde o machado à tecnologia HD, atualmente utilizada em TVs.

A primeira coisa que fica evidente com a leitura é que, a longo prazo, os efeitos de uma tecnologia sempre são subestimados e os a curto prazo, superestimados.

Um exemplo é a eletricidade. A curto prazo os principais visionários acreditavam que ela seria capaz de aumentar a produtividade das fábricas, no entanto, a longo prazo, ninguém imaginou que ela mudaria o comportamento e as expectativas sociais sobre as roupas. A eletricidade fez surgir o ferro de roupa elétrico, que, por sua vez, modificou as expectativas sobre as roupas. Antes do ferro elétrico, rugas e amassados eram considerados normais nas roupas na medida em que era bem trabalhoso passar roupa em casa, os ferros eram à carvão. Depois, rugas em roupas viraram sinônimo de desleixo. Algo que perdura até hoje.

Ou ainda. Poucos conseguiram imaginar que a longo prazo as máquinas de escrever abririam as portas do mercado de trabalho para as mulheres, o que teve um grande impacto social.

Portanto, apesar de os gurus tentarem dimensionar os efeitos futuros, não é possível saber, com detalhes, os efeitos sociais de uma tecnologia a longo prazo.

Será que não estamos vendo o mesmo com a web nos últimos 15 anos? Superestimamos os seus efeitos a curto prazo e os subestimamos a longo prazo?

Trevor nos lembra que lá nos primórdios da civilização as invenções tecnológicas eram anôminas. Ninguém sabia exatamente quem inventou o machado, por exemplo. Porém, com o passar dos tempos e o desenvolvimento de sistemas de manutenção e recuperação de informações, as invenções deixaram de ser anônimas e passaram a ser atribuídas a indivíduos específicos. Alexander Graham Bell inventou o telefone. Tim Berners-Lee, a web.

Com o aumento do uso de ferramentas online de colaboração, Trevor acredita que poderemos voltar ao passado. Apesar de a criatividade individual ainda ser a mola mestra das grandes invenções da humanidade (conforme Jaron Lanier nos mostra em Você não é um aplicativo), o historiador acredita que as próximas invenções tecnológicas surgirão cada vez mais de equipes não identificadas publicamente, dentro de corporações públicas ou privadas.

A História das Invenções deixa evidente outra coisa – toda tecnologia necessita de uma ‘publicidade social’ para ser conhecida e plenamente aceita pela sociedade. Um exemplo é o telégrafo. Somente quando, em 1845, um assassino foi preso graças à comunicação rápida proporcionada pelo telégrafo é que ele conseguiu atrair a atenção pública, principalmente da massa. Antes o telégrafo era desconhecido e visto apenas como uma tecnologia militar.

Ou seja, somente a partir do momento em que o telégrafo tentou resolver um problema imediato do dia a dia é que ele passou a ser reconhecido. Será que não estamos assistindo ao mesmo na área de serviços de internet. Twitter e afins não precisam de um ‘efeito social’ para serem vistos como útil pelo grande público? Uma coisa é os geeks acharem genial. Outra coisa é o grande público.

História das Invenções é um livro bem ilustrado, com infográficos e imagens detalhando cada tecnologia. Segue a edição de obras escolares de história. Os capítulos são divididos de forma cronológica, do Velho Mundo ao Mundo Moderno. Os subcapítulos são curtos.

Na verdade, História da Invenções é uma reedição de uma edição revisada em 2.000, lançada após o falecimento do autor em 1996.

A edição brasileira peca por não ter um glossário, uma vez que o autor emprega uma terminologia muito técnica em diversos momentos, e até certo ponto pode ser tediante.

Neste sentido, gosto bem mais do estilo do historiador David Bodanis. Em seu livro Universo Elétrico, ele conta a história da eletricidade e suas tecnologias adjacentes (gps, telefone, lâmpada) de forma ‘romanceada’, com detalhes que fogem de tradicionais livros. A leitura é bem mais atraente (o telefone foi criado por que Graham Bell, antes de tudo, queria se comunicar melhor com a sua namorada, que tinha um problema de audição).

História da Invenções, portanto, é bom para ser utilizado como livro de consulta – para checar datas e alguns detalhes históricos quando necessário.

O livro pode causar um pouco de estranhamento no momento atual em que tecnologia é apenas associada a eletrônicos e computadores.

Garfos, facas, roupas e medicamentos também são tecnologias. Tecnologia é um ingrediente essencial da civilização. Onde existir civilização, existirá tecnologia. Contudo, engana-se quem acha que as necessidades humanas são a única fonte motivadora para a criação delas.

Tecnologias são, antes, produtos da criatividade humana. Como Trevor nos mostra, estudar a história das tecnologias é, acima de tudo, refletir sobre a história da criatividade humana individual e coletiva.

 

COMUNICAÇÃO
Tiago Dória

Em caso de emergência, você corre para o Twitter?

É meio estranha a ideia de enviar um email ou um tweet para a Polícia ou o Corpo de Bombeiros numa situação de emergência. Mas, no caso de haver uma grande tragédia e o telefone 190 estar fora do ar, essa questão começa a fazer algum sentido.

Segundo pesquisa feita pela Cruz Vermelha Americana, no caso dos telefones de emergência estarem fora do ar ou ocupados, uma em cada cinco pessoas tenta enviar um email, tweet ou mensagem via rede social para a polícia ou o Corpo de Bombeiros.

Por isso, 69% dos entrevistados esperam que os serviços de emergência monitorem as redes de microblogs e sociais 24 horas por dia para dar uma resposta o mais rápido possível.

Essa atitude e preocupação das pessoas faz sentido. Geralmente, em caso de grandes tragédias – terremotos, tsunamis, enchentes – a internet é o único meio que se mantém intacto. É comum lermos relatos de pessoas que, em situação de risco, tinham, por exemplo, apenas o Twitter e o Facebook para se comunicar.

Em razão disso, essa pesquisa da Cruz Vermelha está entre as mais interessantes sobre redes sociais publicadas neste ano, no sentido de que tenta, de certo modo, mensurar como as pessoas reagem a uma das principais características da internet – ser uma rede de troca de informações que permanece operacional em caso de grandes tragédias e ataques.

Segundo a pesquisa, a maioria das pessoas espera que essa rede funcione e que os serviços de emergência contatados via internet deem respostas em menos de uma hora.

O estudo foi elaborado pela Cruz Vermelha Americana a partir da percepção de que nem todos os serviços de emergência estão preparados para isso (ou melhor, talvez não tenham consciência dessa vocação natural da internet – ser o único meio que se mantém íntegro numa grande tragédia ou ataque).

Acredito que há exceções aqui e acolá. A própria Cruz Vermelha é uma delas. Quem acompanha o blog lembra que ela foi uma das primeiras a estar presente no Twitter.

Durante o Terremoto em Los Angeles, em 2008, as pessoas que assinavam o perfil da organização começaram a receber dicas sobre cuidados e alertas a respeito dos tremores.

Mensagens do tipo foram disparadas – ‘se você está em um carro, pare aos poucos e permaneça dentro dele até os tremores pararem’. As informações eram recebidas no celular por pessoas que estavam na área de risco do terremoto. A Cruz Vermelha respondia a alguns tweets.

Num primeiro momento, redes de microblogs foram mais eficientes que redes de telefone, que não conseguiam completar as ligações. Por isso que, a partir dessa experiência, faz todo sentido essa preocupação atual da Cruz Vermelha Americana para que mais instituições estejam atentas ao uso de redes sociais como plataforma de comunicação em caso de emergência.

 

TUDO AO MESMO TEMPO
Tiago Dória

Seu laptop sincronizado com a TV

Não resta muitas dúvidas de que o hábito de assistir TV e, ao mesmo tempo, navegar na internet já não é mais algo tão anormal.

Recente pesquisa da Nielsen mostrou que 40% dos entrevistados têm esse hábito. Além disso, durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, foi detectado que uma em cada sete pessoas que assistia ao evento, ao mesmo tempo, navegava na internet.

A grande questão é surgirem produtos interessantes que trabalhem em cima disso.

A FastCompany apresentou o MetaMirror, conceito desenvolvido pelo estúdio europeu Notion.

A ideia é que o seu laptop ou qualquer outro gadget que você esteja utilizando para acessar a internet seja sincronizado com o que é exibido na TV. No caso, o conteúdo nesses aparelhos funcionaria com um suplemento e ajudaria a dar contexto ao que é mostrado na TV. Ou seja, a TV seria tratada como tela principal e os dispositivos (laptops, tablets, celulares) como 2ª tela.

Para mim, o MetaMirror lembrou o conceito de ‘conteúdo inteligente’ – plataformas e seus respectivos conteúdos sincronizados de forma ‘inteligente’.

Num jogo de futebol, por exemplo, no laptop, seriam exibidas estatísticas em tempo real junto com atualizações do Twitter. Durante um programa de culinária, por sua vez, seriam mostradas opções de compra dos ingredientes no exato momento em que eles aparecem na tela da TV. Num show ao vivo na TV, a sincronia resultaria na exibição no laptop de links para comprar ou baixar as músicas de acordo com o desenrolar do setlist da apresentação.

A ideia do MetaMirror é que essa sincronia seja precisa. Em tempo real, o conteúdo mostrado em seu laptop (ou tablet) complementa e muda de acordo com o que é exibido na TV.

Fiquei pensando em como isso poderia ser aplicado na área de telejornalismo. No laptop, talvez a exibição de links para documentos na íntegra, infográficos detalhados, discussões online ou mais informações sobre personagens enquanto são citados em uma matéria na TV.

 

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