Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Tiago Dória Weblog

22/09/2009 na edição 556

FREE
Tiago Dória

Alguém sempre paga a conta da internet

‘Quando peguei Free (Grátis), de Chris Anderson, editor da revista Wired, para escrever (com certo atraso) esse post, esperava encontrar um livro pouco ponderado, resultado mais de uma escrita rápida de um autor tentando impor a todo custo uma teoria do que um trabalho de pesquisa. Mas errei ao acreditar no afirmado por pessoas que, pelo visto, leram apenas a orelha do livro.

Free está longe de ser um livro de autoajuda empresarial ou panfletário. Pelo contrário, achei Anderson, autor de outro sucesso, A Cauda Longa, bem ponderado. Diversas vezes, ele questiona e mostra o outro lado do modelo do grátis em seu livro, o que pode ser visto como uma contradição.

A versão em português, lançada recentemente pela editora Elsevier, não perde muito para a versão gratuita que está disponível na rede (em inglês), produzida em julho deste ano.

Mesma quantidade de capítulos, paginação parecida. Peca somente por apresentar alguns erros de revisão, corriqueiros em versões nacionais. Em um dos capítulos finais, por exemplo, o site de vídeos Hulu foi digitado diversas vezes como ‘Hulo’.

Em Free, Anderson, na realidade, não apresenta novidades. Basicamente, mostra que a mentalidade de gratuidade na internet não existe por motivos ideológicos (cultura hippie, contracultura), mas sim por razões econômicas (os custos de armazenamento, processamento e transporte de informações são cada vez mais baixos). E, como pano de fundo, faz um histórico da aplicação do modelo do grátis.

Desde uma ferramenta de marketing – almoce grátis, mas pague a bebida – até uma tática para manter concorrentes fora do mercado. A Microsoft utilizou o grátis para manter concorrentes fora do mercado de navegadores, ao oferecer o Internet Explorer (gratuito) junto ao Windows (pago).

Dessa forma, Anderson mostra que alguém sempre paga a conta nos chamados ‘modelos grátis’ – a publicidade subsidia sites de notícias, em serviços como Flickr, 5% dos usuários que assinam contas pro pagam os gastos dos 95% usuários não-pagantes. E nos blogs que, apesar de não cobrarem por acesso, os leitores acabam pagando ao cederem seu tempo e atenção para lê-los. Não existe um custo monetário direto, mas há uma despesa.

Ou seja, alguém sempre paga o ‘almoço grátis’, mesmo que seja de forma não monetária, cedendo reputação, tempo e atenção. Coisas que até hoje são escassas. Aliás, reputação e atenção estão se tornando ‘quase moedas’ na economia baseada na internet.

Segundo Anderson, a abundância de informação fez surgir um novo tipo de escassez, a de atenção e tempo. Não é à toa que pessoas pagam para baixar música no iTunes. Para não terem que perder tempo procurando por uma música na web. Elas sabem que o seu tempo tem valor.

Contudo, nem sempre o grátis pode ser benéfico. Ele pode gerar um consumo sem responsabilidade, já que tudo está disponível em abundância. Na economia dos átomos, pode gerar uma superprodução de bens físicos e, como consequência, lixo. Anderson cita o filme Wall-e como exemplo em que os humanos são obrigados a sair da Terra devido ao acúmulo de lixo, ocasionado por anos de consumo sem responsabilidade. Pagar gera compremetimento.

Na área de mídia (jornais, especificamente), Anderson passeia muito pouco, é bem superficial. Mas ratitica a premissa de que a informação abundante quer ser grátis. A escassa quer ser paga. E lembra que a queda dos custos de distribuição fez gerar um ambiente hipercompetitivo de mídia. Colocou em pé de igualdade diversos produtores de conteúdo.

O grátis, afirma Anderson, funciona muito bem para quem está entrando no mercado. É a tática da Google. Entrar no mercado oferecendo um produto de mesma ou qualidade superior com um custo zero para o usuário final, o que acaba minando a concorrência. Por outro lado, a empresa de busca usa o grátis para manter concorrentes fora do mercado por meio de estratégias de maximização.

E para concluir, num momento de incerteza (o livro foi fechado durante a crise econômica), Anderson termina a obra afirmando que é bem provável que o conteúdo grátis conviverá lado a lado com o conteúdo pago. ‘Ele precisa da contraparte do pago’. No entanto, o grátis sempre terá um apelo psicológico maior. ‘O Grátis pode ser o melhor preço, mas não pode ser o único’, finaliza. Em suma, o grátis é uma atração em todos os mercados, mas ganhar dinheiro em função dele varia de mercado a mercado.

A meu ver, o único problema de Free (ou benefício, dependendo do ponto de vista) é ser muito simplista. O livro se aprofunda muito pouco no tema central. Apesar de toda a polêmica em seu lançamento, não traz novidades. Não sai muito do lugar.

Free é um bom livro, mas apenas como um pontapé bem inicial no assunto.’

 

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