Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

ENTRE ASPAS >

Tutty Vasques

22/06/2004 na edição 282

‘Deve-se lamentar a saída de um amigo do Jornal do Brasil? Comecei a pensar nisso lendo o artigo de Zuenir Ventura sobre Alberto Dines, cuja coluna semanal fora dispensada de um sábado para outro da página de Opinião do JB. Com todo respeito à vida sexual dos dinossauros, devo dizer que o fato não tem a menor importância para a brilhante trajetória de Dines na imprensa carioca. Não devemos, pois, valorizá-lo demasiadamente, sob o risco de criarmos mais uma bolha de indignação na cidade: ‘Basta de JB!’.

Há pelo menos uma década o jornal que ditava a opinião pública carioca vem maltratando, um a um, os profissionais que fizeram a marca JB. Dines, que tanto fez para isso na virada dos 60 para os 70, até que durou muito. O tipo de jornalismo sério que pratica não é compatível com o que sobrou daquilo lá. Quase todo jornalista carioca que conheço carrega no currículo a marca de uma sacanagem do Jornal do Brasil. Saí de lá pela última vez em 1999 jurando nunca mais voltar para não correr o risco de um dia merecer um artigo de desagravo do Zuenir.

Tive três encarnações na casa. Trabalhei na Avenida Brasil 500 entre 1976 e 1981, entre 1986 e 1991 e, finalmente, entre 1996 e 1999. Estou falando de 15 anos de minha vida. Trago nas pontas dos dedos o privilégio de ter aprendido a escrever com Ana Maria Machado, Marcos Sá Corrêa, Flávio Pinheiro, Arthur Xexéo, Joaquim Ferreira dos Santos, Roberto Pompeu de Toledo… No tempo em que Tim Lopes jogava no time do JB, gozávamos de ‘salário ambiente’. Era de graça tomar café com Zuenir Ventura, Ancelmo Gois, Fábio Rodrigues, Roberto Benevides, Xico Vargas, Arthur Dapieve, Regina Zappa, Mirian Leitão, João Máximo, Carla Rodrigues, Kiko Brito, Bruno Veiga, Villas-Bôas Corrêa, Sérgio Rodrigues, Roberto Benevides, Maurício Stycer, Mara Caballero, Moacyr Andrade, Rogério Reis, Zózimo Barrozo do Amaral, José Castello Branco, Márcia Vieira, Fernando Paulino, Helena Carone…

Entre 1988 e 1990, auge da administração Marcos Sá Corrêa, a redação era uma festa que se refletia no produto que chegava às bancas em forma de ousadia, invenção, bom humor e coragem. Éramos um time de jornalistas aplicados e divertidos, incentivados por leitores que formavam uma espécie de torcida organizada do JB. Vibramos todos juntos com algumas primeiras páginas antológicas produzidas na contramão do noticiário burocrático que uniformiza as manchetes de alto de página. Já naquela época, a saúde financeira do jornal tinha crises crônicas de asma, mas o patrimônio da inteligência ventilava o negócio, que se esperava pudesse voltar a ser bom um dia.

Nos últimos 10 anos, o Jornal do Brasil vem morrendo aos pouquinhos. Todo mundo que passou pela redação nesse período tem uma história de agonia do jornalismo pra contar. Não vou contar a minha, pelo mesmo motivo que não me interessa ouvir a do Dines. Cumpro aqui tão-somente o doloroso dever de comunicar a morte de um jornal, com todo respeito aos amigos que ainda tentam reanimar o defunto. A marca JB deve ter o mesmo destino do título Diário de Notícias, encontrado dia desses na indigência dos registros de patentes. Eu sinto muito! E vida que segue, caro Dines.’



Julio Hungria

‘Cedilha no JB, um jornal desfigurado’, copyright Blue Bus (www.bluebus.com.br), 16/06/04

‘Bom dia. Desde a manchete que referia a Proclamaçao da Republica no Dia da Independência ou vice versa (nao lembro ao certo), ja desconfiava que a crise do JB era um buraco mais fundo do que parecia. Isso faz uns dois anos. O JB de hoje, vergonha pra todos que construiram sua marca, escreve suspensao com c cedilha (no email que repreende o Dines) alem de servir um noticiario pautado fora do interesse do seu publico.’



JB EM CRISE
Milton Coelho da Graça

‘A filosofia editorial de Nelson Tanure’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/06/04

‘Augusto Nunes, diretor editorial, e Cristina Konder, editora-chefe do Jornal do Brasil – ambos também vice-presidentes da empresa editora – estão de férias e ambos não deverão voltar a seus postos (alguém quer apostar?). Uma nova crise se desencadeou dentro do jornal quando o dono, sr. Nelson Tanure, seguindo sua teoria de que conteúdo não é importante, decidiu que Paulo Marinho, responsável pela área comercial e diretor da sucursal de Brasília, assumiria também o controle da editoria política, entregue a Belisa Ribeiro. Ao mesmo tempo, todos os suplementos foram colocados sob o comando (editorial e comercial) de Hildegard Angel.

Foi dose forte demais para Augusto e Cristina, que há vários meses vinham tentando manter um mínimo de qualidade editorial ao JB, apesar das contínuas demissões e cortes de salários.

Ao mesmo tempo que se mantém indiferente à queda de circulação do jornal (a curva é de assustar!) e continua demonstrando que a gestão deve se concentrar no faturamento publicitário e na compressão dos custos da redação, o sr. Nelson Tanure se empenha na ampliação de seu império de comunicação. Além de informar ao novo comando de O DIA que continua interessado em assumir o controle do jornal carioca, fontes dos Diários Associados afirmam que ele obteve do sr. Gilberto Chateaubriand a opção de assumir a direção do grupo, se e quando o filho de Assis Chateaubriand ganhar a batalha judicial que vem travando contra o Condomínio (uma hipótese considerada muito difícil pela direção do Condomínio).

Como o sr. Tanure não é maluco e tem fama de ser hábil executivo, será interessante acompanhar de perto o desempenho do jornal com todo o ‘conteúdo’ da editoria política e dos suplementos sob controle comercial. É fato notório em Brasília que o JB recebe forte garantia de faturamento do governo do Distrito Federal (fala-se em R$ 1,5 milhão por mês) e será fácil identificar novos ‘subsídios’ oficiais através não só dos anúncios mas também das ‘notícias’ e ‘opiniões’. E não sou eu apenas quem prevê isso, mas também Augusto Nunes e Cristina Konder, que claramente preferem sair a endossar essa filosofia empresarial.’



O DIA EM CRISE
Milton Coelho da Graça

‘Reportagem-livro em busca de um autor’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/06/04

‘O advogado Sérgio Mazilo, um dos mais respeitados do Rio, ao expor com rigor jurídico, a d. Ariane Carvalho, os motivos pelos quais as duas irmãs a queriam fora da direção do jornal O DIA, teria sido sucinto: ‘A sra. tem duas saídas, uma honrosa e uma horrorosa’. Foi assim que d. Ariane resumiu para algumas pessoas o que acontecera na conversa sigilosa com ele e explicou com poucas palavras sua decisão: ‘Preferi a saída honrosa’.

Essa descrição por testemunhas diretas confiáveis desmente frontalmente a versão oferecida a Comunique-se pelo sr. Marcos Cruz, diretor executivo da empresa, de que a mudança teria ocorrido no mais ameno clima fraternal.

Nem é verossímil que o sr. Ronald Levinsohn, homem de fortuna considerável e arguto homem de negócios – especialmente nas áreas de finanças, imóveis e educação superior – tenha decidido gastar uma boa parte de seu valorizadíssimo tempo para ajudar duas das três filhas do falecido jornalista Ary de Carvalho, apenas por razões de amizade. Uma amizade, aliás, tumultuada por uma briga judicial que durou bom tempo.

Vários companheiros do jornal O DIA confirmaram a essência de tudo que afirmei na coluna anterior e que o sr. Marcos Cruz – interessado diretamente no assunto, não só como novo diretor executivo, mas também por ser ex-marido de uma das duas irmãs que passaram a controlar o jornal – não tem o menor motivo para me considerar um ‘inventor’, mesmo que a intenção tenha sido me elevar ao nível de Thomas Edison e Santos Dumont.

Vale a pena fazer um rápido resumo da história de O DIA para os companheiros mais jovens ou sem maior conhecimento do jornalismo carioca.

Chagas Freitas dirigia o vespertino A NOTÍCIA, cujo proprietário era o governador Adhemar de Barros, uma espécie de predecessor de Maluf na política paulista. Adhemar criou o famoso slogan ‘rouba mas faz’ e o jornal no Rio – então capital federal – exprimia o interesse em projetar-se nacionalmente e chegar à Presidência da República. Chagas foi um bom diretor de A NOTÍCIA, tão bom e fiel que uma idéia sua foi aceita por Adhemar sem discussão: aproveitar o tempo ocioso da rotativa e produzir também um matutino. Chagas seria o dono, assumiria todos os custos e ainda se comprometia a apoiar a estratégia política de Adhemar.

Em pouco tempo, O DIA era o jornal de maior circulação no Rio e A NOTÍCIA passara a ser um vespertino de porte médio, abaixo de O GLOBO e ÚLTIMA HORA. Com o declínio dos vespertinos, estes dois começaram a tirar também uma edição matutina, enquanto Adhemar achou melhor fechar o seu e falar mal de Chagas até o final da vida.

Chagas sabiamente construiu uma sólida amizade com Roberto Marinho e iniciou uma carreira política. Foi governador da Guanabara e, depois da fusão, do Estado do Rio de Janeiro – nos dois casos como candidato da oposição (MDB) mas em total acordo com a ditadura militar, o que o define melhor do que qualquer adjetivo.

A vitória de Brizola demoliu a máquina chaguista. E a idade, possivelmente aliada a desgostos familiares, começou a afetar nitidamente sua capacidade mental. Roberto Marinho alegou razões éticas para não aceitar os muitos apelos de amigos comuns para assumir o comando de O DIA. Ary de Carvalho, que sempre demonstrou grande audácia como editor e como empresário, conseguiu o apoio de bancos e do próprio governo militar (através dos ministros Delfim Neto e Mário Henrique Simonsen), usando o espantalho de que um jornal popular de grande circulação se tornaria uma arma poderosa nas mãos de pessoas ligadas à oposição. Fui o primeiro copy-desk de O DIA (quando Chagas achou que valia a pena melhorar o texto), editor-chefe de O GLOBO (sete anos em dois períodos entre 1978 e 1987) e diretor de redação de ÚLTIMA HORA, quando Ary de Carvalho decidiu relançar o antigo jornal de Wainer (nossa relação, por motivos profissionais, só durou um mês) cujo título ainda pertence a seu espólio. A essência das informações históricas no parágrafo anterior podem aqui e ali ter detalhes contestados mas me foram dadas diretamente pelos protagonistas.

Com a morte de Ary, sua filha Ariane assumiu a direção. Ela acompanhara o pai e suas decisões por um período razoável, mostrando que havia entendido pelo menos as principais lições. Em um tenso episódio, demitiu Fernando Portela, o principal executivo profissional da empresa, aparentemente porque achou que ele tentava contestar sua capacidade.

Suas duas irmãs nunca revelaram atração pelos negócios do pai. Gigi estudou design, Elaine preferiu estudar Relações Internacionais nos Estados Unidos e assina hoje uma coluna semanal como Dada de Carvalho. Mas, depois do fracasso que ela e o marido tiveram com um negócio em Boston, separou-se de Mário Cruz e preferiu continuar a viver em Boston.

Agora Ariane foi destituída e o sr. Mário Cruz contesta veementemente que haja intenção de vender o jornal. Nega que a Universal Produções (braço da comunicação da Igreja Universal) tenha feito qualquer proposta. Mas o sr. Natal Furucho, diretor executivo da Universal, confirma que teve conversas com Ariane.

O sr. Nelson Tanure já mostrou, anteriormente, interesse na compra de O DIA e de outros jornais. O sr. Ronald Levinsohn é grande amigo dele. Mas a versão oficial é a de que ele está apenas ajudando – sem qualquer interesse direto – duas senhoras que foram colegas de escola de suas filhas. Levinsohn gosta de política, não como ator, mas como diretor, roteirista, algo assim, segundo pessoas que dizem conhecê-lo bem.

D. Marlene, viúva de Ary, parece apoiar Gigi e Eliane. Hildegard Angel, sempre muito bem informada sobre a elite carioca, revelou em sua coluna mais recente que Gigi presenteou a mãe com um carro de luxo e uma mansão, o que demonstra o maior carinho filial.

Quem poderia ser o Balzac brasileiro e contemporâneo para juntar os fios de realidades e ‘invenções’, nesta história de um grande jornal e da população que povoa seus bastidores, montando um belo retrato do Brasil das últimas décadas?’

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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Tutty Vasques

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

GOVERNO LULA

“Que assessor de imprensa é esse?”, copyright No Mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 20/12/03

Amigos de Ricardo Kotcho, grife de jornalismo e de bom-humor, estão preocupados. O titular da Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República anda levando até piada a sério. Se mexer com a primeira-dama, aí ele vira bicho.

Kotcho se queixou a colegas comuns – compartilhamos de uma penca de bons amigos – e mobilizou a assessora de imprensa Denise Gorczeski a redigir duas laudas sobre ?os erros factuais e de informação? no artigo Que primeira-dama é essa? (link para o texto no canto direito da página). O puxão de orelha chegou ao colunista – ?senhor Tutty Vasques? – por e-mail, via caixa postal de terceiros.

Dona Marisa, consta da missiva, não foi ao lançamento do plano energético do governo – ?o nome correto do evento é Ato de Apresentação do Setor Elétrico? – e, se fosse, sentaria-se ao lado de Lula, jamais no auditório. A primeira-dama também não acompanhou o presidente em velórios e casamentos – exceção para o de Marta Suplicy.

Sobre as jóias que ela teria recebido de ?um sheik qualquer?, esclarece a Secretaria de Imprensa da Presidência da República, ?Dona Marisa recebeu presentes da sheikha Fátima Bint Mibarak, esposa do sheikh Bin Sultan Al Nahyan, presidente dos Emirados Árabes?. Ah, bom!

Outra coisa que o colunista desconhecia: ?Dona Marisa não tem cargo administrativo no governo. Apenas participa, a seu critério, de eventos com o presidente da República.? Chamá-la de ?escrava do cerimonial? é ?desrespeito?. Dizer que ?não dá para ser mulher-ativa-independente com uma agenda pautada pelos compromissos do marido? é, no mínimo, ?desconhecer a história de Dona Marisa, que sempre esteve junto com o marido em todas as suas lutas e campanhas eleitorais, nunca escondeu que foi uma dona de casa, dedicada à família e uma companheira presente e solidária na luta por um país melhor?.

Sobre a façanha de ter ?conseguido ficar imóvel durante duas horas na posse do presidente da Itaipu, esclareça-se o seguinte: ?O evento durou 1 hora e 20 minutos e Dona Marisa ficou sentada.? A carta-carão termina com a pergunta que não quer calar na Assessoria de Imprensa da Presidência da República: ?E quem são as pessoas que consideraram a participação no evento como seu grande momento no governo Lula?? Sinceramente, não faço a menor idéia!

A não ser pela parte em que acusou falta de respeito com a primeira-dama, confesso que a manifestação crítica me causou mais decepção que qualquer outra coisa. Já tive a honra de me sentar na mesma bancada de Ricardo Kotcho na Folha de S. Paulo – em meados dos anos 80 ele era repórter especial e eu um mero soldado de Matinas Suzuki Jr. na sucursal Rio do jornal paulistano – e custo a crer que o poder possa anular de tal forma a capacidade de discernimento de um profissional tão competente e querido no mercado de trabalho.

Kotcho sabe que faço humor, que trabalho a matéria-prima da informação sem qualquer compromisso com a verdade. É jornalismo de invenção, uma releitura gaiata do noticiário pautado pela falta de assunto sério. Erro grave em minhas crônicas é quase sempre de má interpretação do inconsciente coletivo do leitor, onde em geral são forjadas as piadas, inclusive as de papagaio de pirata ora protagonizadas por Dona Marisa Letícia, que por sinal fica muito melhor no papel que muitas de suas antecessoras (Isso é um elogio, viu, Kotcho!).

Curiosamente no dia seguinte em que o tal e-mail …@planalto.gov.br chegou à minha máquina, Lula abriu o balanço de seu primeiro ano de governo elogiando a paciência de Dona Marisa e pedindo a todos os colaboradores que falassem só o necessário com jornalistas para evitar desgastes no relacionamento com a imprensa. ?Notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado. A imprensa é como coração de mãe: por mais que a gente brigue com ela, a gente precisa dela.? Se ouviu o presidente, Kotcho deve estar passado com o mico que pagou tomando as dores de Dona Marisa.”

“Notícia é o que não queremos ver publicado, diz Lula”, copyright Folha de S. Paulo, 190/12/03

“Em seu discurso de prestação de contas, ontem, o presidente Lula falou sobre seu relacionamento com a imprensa. ?Eu aprendi uma coisa: notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado, o resto é publicidade.? Ele já havia o repetido raciocínio em setembro.

Depois, disse como deve ser o comportamento de seus ministros: ?Se nós falarmos menos e falarmos apenas o necessário, ficaremos mais felizes a cada manhã, quando abrirmos as páginas dos jornais ou as páginas da revista. Ou seja, imprensa, na verdade, é como coração de mãe: por mais que a gente brigue com ela, a gente sabe que precisa dela?.

Alguns jornalistas que faziam a cobertura do evento no Palácio do Planalto aplaudiram a observação do petista -que, no final do discurso, disse: ?A vocês, jornalistas, tenham paciência comigo, que eu tenho com vocês?.

Atraso

Depois de esperar por cerca de uma hora e meia a chegada do presidente Lula ao salão nobre do Planalto para a cerimônia de prestação de contas do governo, os convidados ouviram o discurso mais longo desde que ele ocupou a Presidência: uma hora e 45 minutos.

Depois de parar várias vezes devido a crises de tosse, Lula afirmou aos convidados, rindo: ?Já está acabando?. Em determinado momento, lhe serviram água gelada e o presidente reclamou dizendo que quem fizera aquilo nunca havia falado em microfone.

Segundo assessores, Lula atrasou porque fazia ajustes no texto, incluindo trechos reforçando o papel do Congresso e tratando da aprovação da reforma tributária.

Convidados não chegaram a se aborrecer com a espera. ?A agenda de um chefe de Estado é sempre atribulada?, disse Jussara Ribeiro, diretora de uma produtora mineira.

O evento, no entanto, não foi muito concorrido. Das cerca de 750 cadeiras colocadas no salão nobre, quase 200 estavam vazias até o início da cerimônia.

Um funcionário do Planalto afirmou que foi convocado para ?ajudar a fazer número?.

A preparação do discurso de Lula durou três meses, desde que a assessora da Presidência Miriam Belchior enviou questionários aos ministros para levantar os projetos realizados. O texto foi fechado na Secretaria de Comunicação de Governo.

Alguns assessores acharam o discurso longo. O secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, cochilou.”

“Falar apenas o necessário”, Editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 20/12/03

“Em dado momento do torrencial discurso de uma hora e quarenta e cinco minutos sobre o seu primeiro ano de governo – que, pela duração e abrangência, antes parecia um balanço de um mandato inteiro -, o presidente Lula fez uma afirmação irrepreensível. ?Se nós falarmos menos e falarmos apenas o necessário ficaremos mais felizes a cada manhã, quando abrirmos as páginas dos jornais ou as páginas das revistas.? Ele queria dizer com isso, naturalmente, que menores seriam as críticas da imprensa, mesmo porque quanto mais se fala mais se erra. Felizes a cada manhã ficariam também os leitores brasileiros, porque a economia de palavras indicaria que o presidente está ocupado demais, governando, com muito pouco tempo, portanto, para exercitar a oratória – uma das duas atividades que mais o atraem como chefe de Estado (a outra, naturalmente, é viajar).

Numa coisa e na outra, Lula jáaacute; superou com folga as marcas de seu antecessor no ano inaugural de seu período de governo. Mas há uma grande diferença entre a dedicação do atual presidente ao verbo e a de Fernando Henrique.

Este aproveitava qualquer pretexto – quando não os criava – para colocar o seu vasto patrimônio intelectual a serviço de uma pedagogia: a de levar a população que o elegera graças ao Real a compartilhar de sua visão do Brasil, dos problemas nacionais – e internacionais – e de suas possíveis soluções. Essa visão se traduzia nas lições de que era preciso reformar o Estado, de que não se podia gastar mais do que se arrecadava, de que a sociedade devia ser parceira do setor público, do contrário este não daria conta de combater a pobreza e a injustiça social.

Já o presidente Lula raramente se pronuncia sobre a construção do futuro, a não ser no plano das generalidades, como ao reiterar as promessas de campanha (?não descansarei enquanto todo brasileiro não fizer três refeições por dia?). O objetivo de suas incessantes manifestações é o de pedir paciência ao País (?uma criança leva 9 meses para nascer?) e de celebrar merecidamente os ganhos nos indicadores da confiança dos agentes privados nacionais e estrangeiros na política macroeconômica ?que nós, do governo, entendemos que era possível fazer?. Mas não há retórica, fundamentada ou não, que se sustente no tempo, à falta de realizações perceptíveis pela opinião pública e de evidências de que a máquina administrativa está azeitada e funcionando a contento.

E esse é o clamoroso calcanhar-de-aquiles da Presidência Lula. Para dizê-lo numa palavra, e ressalvada a área econômica, o seu governo é fraco. É fraco porque tem tentáculos demais e cabeças de menos. Entre ministérios e secretarias temáticas, são 35 organismos a formar o primeiro escalão do Executivo. E quantos dos seus titulares demonstraram até agora estar efetivamente qualificados para as funções que exercem? Até há bem pouco, imaginava-se que a anunciada reforma ministerial se destinaria não apenas a elevar o padrão médio de qualidade do Gabinete (e a abrir espaço para o PMDB), mas também a tornar o governo mais leve, com a extinção de secretarias flagrantemente supérfluas. Os otimistas que se preparem para a decepção que os ameaça.

Dias atrás, atribuiu-se a Lula a observação de que o PMDB facilitaria muito a reforma do Ministério se já se considerasse representado no governo, com o presidente do BNDES, Carlos Lessa, cuja filiação ao maior partido-ônibus do Brasil é conhecida, e o chanceler Celso Amorim – de quem poucos conheciam a vinculação partidária e que ocupa um ministério no qual, por definição, não há vagas para correligionários gulosos por cargos. O comentário não teria lá muita importância se o presidente não tivesse aproveitado o discurso no festão de quinta-feira no Palácio do Planalto para sugerir que perdem o seu tempo os que defendem um enxugamento da cúpula federal. ?Tem muita gente que fala que tem muito ministério?, disse Lula, na sua prosódia habitual. ?Olha o pouquinho de ministério que tem para um país deste tamanho?, completou.

Na realidade, o número de ministros não tem que ver com as dimensões de um país, mas com uma concepção do alcance da atuação do Estado e com o grau de submissão do presidente às pressões dos políticos por verbas e empregos. De qualquer forma, uma coisa parece certa: se o corpanzil do Executivo não passar por uma lipoaspiração e se não houver um choque de competência no seu comando, o presidente terá de continuar falando pelos cotovelos, na expectativa de que as palavras façam as vezes de atos.”

***

“Notícia ?é o que não queremos ver publicado?, diz Lula”, copyright O Estado de S. Paulo, 19/12/03

“Ao longo de seus 90 minutos de discurso, improvisos e brincadeiras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez várias referências à imprensa e saiu-se com um novo conceito a respeito do que é notícia. ?Eu aprendi uma coisa: notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado; o resto é publicidade?, declarou o presidente. Ele também recomendou aos ministros que mantenham bom relacionamento com jornalistas: ?Imprensa, na verdade, é como coração de mãe: por mais que a gente brigue com ela, a gente sabe que precisa dela?, disse o presidente. ?Então, em vez de brigar, quero dizer aos meus companheiros ministros: é bom estabelecer uma política de boa convivência, que todo mundo ganhará muito mais.?

Nesse momento, a câmera da Radiobrás focalizou o rosto do secretário de Imprensa da Presidência, Ricardo Kotscho. No Planalto ele é o maior centro irradiador de problemas com os jornalistas. Na viagem ao Uruguai, segunda-feira, ele repetiu com uma repórter da Rede Record o que já tem se transformado em rotina. Ao perceber que ela perguntava ao presidente Lula algo em relação à morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, Kotscho pulou várias cadeiras para forçar o braço da repórter de lado e impedir novas perguntas.

Na viagem ao Oriente Médio, Kotscho referiu-se a uma repórter duas vezes com o qualificativo de ?canalha? para, em seguida, mandá-la calar a boca. Tudo porque a repórter fizera um comentário com o presidente sobre a beleza de uma mesquita, dentro do templo. No fim do discurso, o presidente pediu que a imprensa lesse ?com carinho? a revista que trazia o balanço de um ano de governo, que estava sendo distribuída.”

“Jornalistas avaliam o governo Lula”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 17/12/03

“O desempenho do governo federal em 2003 na área social não agradou em nada a imprensa, embora sua política externa tenha sido o ponto alto deste ano. Foi o que disseram 112 jornalistas espalhados por 12 estados do Brasil. A consultoria Marcoplan divulgou o resultado de uma pesquisa, dividida em questões fechadas e abertas, realizada com os profissionais de imprensa mais influentes nos principais meios de comunicação do país (emissoras de TV e rádio, jornais e revistas). Alguns deles são editores (na maioria especializados em economia e política), diretores de redação, colunistas ou comentaristas renomados e repórteres especiais. Eles fizeram um balanço do primeiro ano do governo Lula e também dos governos estaduais, além de manifestarem suas expectativas para 2004.

Para a maioria dos entrevistados, a política social, o combate à fome e à pobreza, a geração de empregos e o combate à violência e à insegurança pública não foram bem conduzidos. Na opinião de, respectivamente, 86%, 81%, 97% e 87% dos jornalistas, o desempenho do governo nos pontos citados foi muito ruim/ruim. Para 49% deles, o relacionamento com a imprensa foi muito bom/bom.

Os destaques positivos foram a gestão política, política macroeconômica e política externa. Quase que todos os entrevistados reconheceram que nunca um governo se empenhou tanto para promover o Brasil no exterior e gostaram do cumprimento dos mandamentos do FMI. O levantamento, que também havia sido feito em abril e julho, além de dezembro, mostra a evolução deste último item. A avaliação da política externa melhorou 19 pontos percentuais em relação a do primeiro trimestre.

Os pesquisados também se pronunciaram qualitativamente sobre estes principais destaques positivos do ano de 2003. A política econômica respondeu por 42% dos itens indicados pelos pesquisados como pontos fortes do governo federal, seguida da política externa (26%) e da condução das reformas (9%).

Na abordagem qualitativa dos fatores negativos, as políticas sociais responderam por 63%, seguidas da coordenação política e administração de expectativas (12%) e da política econômica (8%).

O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, foi considerado o melhor dos ministros do governo Lula. O Chefe da Casa Civil, José Dirceu, e Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, ficaram em segundo e terceiro lugares. O trabalho de Benedita da Silva, ministra da Ação Social, foi considerado o pior, seguido do de Ricardo Berzoini (Previdência Social) e do de Anderson Adauto (Transportes).

Quanto ao futuro, menos da metade dos pesquisados acredita que o governo conseguirá resolver os problemas sociais em 2004, enquanto 66% dos jornalistas acham que a pobreza vai se manter ou piorar no ano que vem. Para 71%, a violência vai piorar.

Trinta e oito por cento citaram as palavras ?esperança? e ?expectativa? para definir o governo Lula.

Os jornalistas também avaliaram os governos estaduais. Segundo os entrevistados, Geraldo Alckmin (SP), Aécio Neves (MG) e Germano Rigotto (RS) foram os melhores governadores, enquanto Rosinha Matheus (RJ) e Joaquim Roriz (DF) estão no topo da lista dos piores.

A pesquisa, realizada nos 12 estados que concentram a maior quantidade de jornalistas e analistas políticos e econômicos, teve maior concentração no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.”

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