Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > TV ABERTA

Ulisses Mattos

25/01/2005 na edição 313

‘Esta semana, no tenebroso mundo da TV aberta, o tema principal foi a demissão de Clodovil da RedeTV!, onde apresentava o programa A casa é sua. O motivo para a casa deixar de ser dele foi que o ex-costureiro andou falando mal publicamente das colegas de emissora Luisa Mell e Luciana Gimenez. Fosse meses atrás, as ofensas de Clodovil talvez nem tivessem sido ouvidas. Mas ultimamente o apresentador vinha ganhando muita atenção da mídia. Tudo porque virou alvo de zombaria do pessoal do Pânico na TV, também da Rede TV! (os corredores da emissora devem ser lotados de seguranças). A perseguição dos humoristas a Clodovil, a quem pediam que calçasse as ‘sandálias da humildade’, em muito lembrou outro caso da peculiar história de nossa TV. A ressurreição de Supla.

Há muito já esquecido e praticamente abandonado pelo público, os pregos e parafusos das roupas de Supla voltaram a brilhar quando o sujeito passou a ser ridicularizado por Marcos Mion no programa Os piores clipes do mundo, da MTV. Mion, então vivendo o curto clímax de sua carreira, arrancava risos ao mostrar todo o humor involuntário do filho de Marta e Eduardo Suplicy nos clipes que gravou para suas músicas, que também não eram lá encaradas com muita seriedade. Em vez de meter um processo em Mion, Supla aproveitou a retomada do interesse por seu nome. Chegou até a aparecer na MTV para dar entrevistas e tudo mais. Em evidência, foi chamado para a Casa dos artistas, do SBT, onde foi finalista e uma das principais atrações. Supla deixou de ser apenas um cantor ignorado para virar um legítimo personagem de TV, sendo convidado até hoje de vários canais.

O artista deveria agora dar uma mão a Marcos Mion – que atualmente anda por baixo-, promovendo, quem sabe, um show beneficente no qual mostrasse o rapaz como um VJ passando por necessidades. Mion talvez agradecesse a suposta humilhação. Isso porque, por mais estranho que pareça, deve saber muito bem que é da ridicularização que uma celebridade televisiva pode se reerguer. Assim aconteceu com Supla. Assim acontecerá com Clodovil, se o estilista não errar a mão.

Clodovil é o nome do momento. Até um vídeo em que William Bonner, mais jovem – ainda sem os cabelos grisalhos que caem tão bem a um apresentador do Jornal nacional -, aparece imitando o ex-costureiro resolveu dar as caras na internet. Durante a semana, Clodovil foi ao programa de Tom Cavalcante na Record e elevou a audiência da atração. Há quem diga que ele até ganhará um emprego na emissora do bispo mais cedo ou mais tarde. Mas se a Síndrome de Supla estiver mesmo se repetindo, Clodovil pode ansiar por mais. Os momentos de glória do extinto TV mulher, da Globo, e do Clô para os íntimos, da finada Manchete – onde o apresentador eternizou a frase ‘olhe para a câmera da verdade’ – serão fichinha perto do futuro do sujeito. Basta que Clodovil invista tudo na sua veia de polemista. A TV brasileira adora polemistas.

Já imaginaram um programa de debates reunindo Clodovil, Fernanda Young, Diogo Mainardi, Jorge Kajuru e Arnaldo Jabor? De quebra, como mediador, um médium incorporando Paulo Francis. É claro que todos deveriam ficar amarrados em suas cadeiras, para que um não avançasse sobre os outros. Sabe-se lá. Nunca testaram um formato desses em laboratório.’



BAIXARIA NA TV
Janete Lemos

‘Campanha contra a baixaria na TV divulga o VIII ranking no Fórum Social Mundial’, copyright Assessoria de Imprensa Campanha Que Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, 20/1/05

‘A Campanha quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, uma iniciativa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e cerca de 60 entidades da sociedade civil, participa do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, com o objetivo de discutir a Ética e o Controle Social da Programação Televisiva. O debate acontece dia 29 de janeiro, das 15h30 às 17h30, sala 201, na oficina do Gasômetro, sob a coordenação do professor Edgar Rebouças, representante da Campanha no Rio Grande do Sul. Durante o painel, será divulgado o VIII ranking dos cinco programas que mais desrespeitam os direitos humanos na televisão. E pela primeira vez, desde que foi criada há 2 anos, a Campanha tornará público o nomes das empresas que anunciam nos programas denunciados pela sociedade.

O debate contará com a participação do coordenador da Campanha, deputado federal Orlando Fantazzini (PT/SP), que vai discorrer sobre os objetivos e experiências da Campanha. Também participarão do evento, como expositores, Ela Wiecko Volkmer de Castilhos, procuradora dos Direitos dos Cidadãos com o tema ações do Ministério Público Federal contra as violações de direitos humanos na programação da TV brasileira; o professor de comunicação da USP, Laurindo Leal, vai relatar às experiências internacionais no controle social da televisão. O painel contará com a presença internacional da canadense Monique Simard, produtora de documentários da Virage Productions, no Canadá. O deputado Fantazzini enfatizou que a Campanha terá, a partir de agora, um novo perfil. ‘Nossa pretensão é continuar insistindo em criar, por meio de lei, um controle social e um instrumento que assegure a defesa do telespectador frente à programação de televisão, conforme já está disposto na Constituição’.

O próximo passo da Campanha será a mobilização em torno da aprovação do projeto de lei 1600/03, que cria o Código de Ética e o Conselho de Acompanhamento da Programação, de autoria do deputado Orlando Fantazzini, propõe criar também a Comissão Nacional pela Ética na Televisão.’



WARNER TV
O Estado de S. Paulo

‘Canal tem gerente para América Latina’, copyright O Estado de S. Paulo, 20/1/05

‘Com mais de 20 anos de experiência, Michael Spinelle acaba de ser nomeado gerente geral do canal a cabo Warner para toda América Latina. Antes, foi vice-presidente sênior da HBO Internacional em Londres e atuou como vice-presidente executivo de Administração e Finanças da HBO na Ásia. Também foi vice-presidente de Administração de Operações Financeiras para a HBO de Nova York.’



SP, 451
Nelson Ascher

‘A cidade universal’, copyright Folha de S. Paulo, 24/1/05

‘Poucas gerações atrás as pessoas viviam preponderantemente no campo. Hoje a maioria vive em cidades. Estas atraem gente não apenas devido às oportunidades de trabalho que oferecem, mas igualmente graças ao fato de que são, de certa forma, concentrações gigantescas de ‘hardware’, centros de informação, comunicação, transportes. A cidade é uma teia ou um emaranhado complexo e denso de inter-relações. Por isso, a vida urbana é mais densa e complexa, ao menos até o momento em que seus empecilhos eclipsem as vantagens.

São Paulo não é exceção. Pode-se achar de tudo, ou quase, aqui. O primeiro shopping center local foi construído no final dos anos 60. Hoje há dezenas nas mais diversas regiões e bairros. Nos anos 80, havia três ou quatro lugares para jantar depois da meia-noite, e comida em domicílio era uma raridade. Paris, por exemplo, dispõe de duas farmácias abertas 24h, o que não a torna convidativa para hipocondríacos de plantão. Bom, só na avenida Angélica se acha uma meia dúzia. E os fumantes parisienses (não exatamente uma espécie em extinção) têm de comprar seus cigarros antes das 2h.

Recuando no tempo, chegamos a uma época, nem tão remota, na qual as paulistanas elegantes faziam suas compras nas butiques do Rio de Janeiro, e era lá também que se encontravam os melhores restaurantes (pois em São Paulo existiam apenas churrascarias e cantinas), livrarias, teatros e os primeiros ‘cinemas de arte’. O Rio manteve, em termos de civilização, sua primazia por cerca de 20 anos após deixar de ser a capital federal. Aliás, uma das grandes tragédias nacionais (que, infelizmente, tampouco foi narrada em romances ou filmes, como mereceria) é sua decadência. Perdeu-se uma metrópole topográfica, arquitetural e historicamente fascinante que conseguira, ademais, desenvolver sua ‘joie de vivre’ peculiar.

São Paulo não é nem será jamais o Rio de outrora. Nossa desmemória característica (associada a uma população relativamente jovem) nos induz, contudo, a esquecermos quanto a cidade mudou desde os anos 60. No início da ditadura militar, ela era, a rigor, uma aldeia hipertrofiada, provinciana e tranqüila. Crianças brincavam com marrecos na praça da República, o bonde parava para que os pedestres atravessassem a avenida São João, as avenidas Rebouças e Brasil eram alamedas arborizadas e a Cidade Universitária, uma várzea lamacenta com alguns barracões nos confins do universo conhecido. Se, por um lado, era possível passear, sem medo, em toda parte e a qualquer hora, por outro, a revolução sexual chegou aqui dez anos depois de ter alcançado o Rio cosmopolita, onde hambúrgueres, cachorros-quentes e lanchonetes em geral também se popularizaram antes.

O crescimento rápido de São Paulo não permitiu que seus habitantes gerassem algum tipo coerente de identidade. O paulistano, como tal, inexiste. Enquanto o país era governado do Rio, mineiros, gaúchos ou maranhenses se mudavam para lá e se convertiam imediatamente em cariocas. Ser paulistano, porém, o que é? é tão somente morar na cidade. Culturalmente (embora de modo infinitamente mais atenuado do que os europeus), amazonenses e paranaenses, pernambucanos e baianos prezam suas respectivas especificidades. Os paulistas em geral e os paulistanos em particular, muito menos. Eles se sentem, sobretudo, brasileiros. Daí que, quando, em suas novelas, a Rede Globo -com meio século de atraso- os retrata arrastando um sotaque italianizado, tal tentativa de tornar facilmente reconhecível uma população heterogênea se revele sempre ridícula.

Uma de suas minisséries mais inteligentes, ‘Avenida Paulista’ (1982), não caiu nessa caricatura. Até certo ponto, porém, sua trama contrapunha paulistas originais (‘quatrocentões’ ou algo semelhante) aos ‘recém-chegados’. Não é assim que São Paulo funciona. Esta cidade não é a Nova York dos conflitos entre ‘nativos’ e imigrantes irlandeses que Martin Scorsese descreveu em ‘Gangues de Nova York’ (2002). Em outras palavras: os requisitos dramáticos da ação levaram a melhor sobre uma realidade empiricamente verificável.

Pensando bem, se há um enredo que se aplicaria nesta urbe, rendendo resultados surpreendentes, seria o de ‘Um Dia de Fúria’ (‘Falling Down’, 1993), filme no qual William Foster (Michael Douglas), um executivo desempregado, quer visitar o filho no dia do aniversário. O garoto vive com a mãe, da qual Foster está separado, no extremo oposto de Los Angeles, e, preso num congestionamento matinal, o protagonista abandona o carro e se dirige a pé rumo à casa da ex-mulher. Seu trajeto acidentado descortina uma megalópole tão variada quanto o próprio planeta. Um sujeito que caminhasse num dia comum, digamos, do Jabaquara ao Alto de Pinheiros não se depararia com menos diversidade.

Um dos prazeres que São Paulo oferece é precisamente o de acompanhar sua mutabilidade. Quem passa alguns meses fora retorna a um lugar diferente e, no entanto, absolutamente familiar. O estranho seria voltar a uma paisagem urbana inalterada. Ninguém se banha duas vezes no mesmo Tietê, e isso não apenas porque quem não fosse um mutante, dificilmente sobreviveria ao primeiro mergulho. Conviver com suas metamorfoses aceleradas não é para principiantes e aqueles que venham de localidades pacatas não se adaptam com facilidade, nem necessariamente as apreciam. São Paulo é, porém, o que o Brasil tem de mais universal e seus cidadãos, tipicamente, se identificam não tanto com a cidade, como com seus bairros e, ao mesmo tempo, sem contradição, com o país inteiro.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > HUMOR

Ulisses Mattos

Por lgarcia em 14/03/2001 na edição 112

QUALIDADE NA TV

DIGITAL

"Pôlemica na TV do futuro", copyright Jornal do Brasil, 9/03/01

"Que a implantação do sistema digital é um passo inevitável para a evolução da TV aberta no Brasil, ninguém duvida. Melhoria da recepção, mirabolantes técnicas de interatividade e a possibilidade da HDTV (televisão de alta definição) são apenas alguns dos benefícios alardeados pelas emissoras, pelos fabricantes de televisores e pelo governo. Mas a sintonia entre os setores vai embora na hora das discussões sobre o padrão a ser adotado no país. Os defensores de cada modelo – o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB – têm verdadeiros dossiês contra cada um dos padrões, incrementados com acusações e teorias conspiratórias.

Esta semana a briga esquentou ainda mais com a decisão do grupo Abert/Set – formado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV e pela Sociedade de Engenharia de Televisão (entidade privada que reúne profissionais do meio) – de fazer demonstrações públicas da TV digital. O problema é que apenas o sistema japonês está sendo demonstrado, já que foi escolhido como o melhor por testes técnicos da Abert/Set. Nas demonstrações promovidas – que irão até 14 de março – há até discretas ridicularizações do padrão americano.

“O sistema americano é um fracasso. Só 80 mil receptores digitais foram vendidos nos Estados Unidos. Na Inglaterra, que adota o padrão europeu, as lojas venderam um milhão de unidades?, diz o assessor de planejamento e controle da Abert/Set, Carlos Brito, que também é gerente do departamento de Projetos de Transmissão Digital da Globo. Com o modelo americano descartado por ser incapaz, por exemplo, de ser recebido em aparelhos móveis e portáteis, a Abert/Set optou pelo padrão japonês, segundo os técnicos, por ter “mais robustês e flexibilidade que o europeu?. Ou seja, tem mais resistência e pode ser ampliado para outras mídias.

O relatório da Abert/Set será encaminhado à Agência Nacional de Comunicações (Anatel), que decidirá o pa-drão a ser adotado por aqui. “É apenas nosso parecer técnico. A Anatel levará em conta outros fatores para a escolha?, diz Brito. É nesses outros fatores que o padrão japonês recebe uma saraivada de críticas. A principal delas é que ainda não foi implantado nem no Japão, onde só deve vigorar em 2003. A assessoria de imprensa da Anatel informou que a direção, que fala sobre o assunto, está fora do país.

“Quando digo a colegas americanos que o Brasil está considerando o sistema japonês, eles dizem que estamos malucos em escolher um modelo que não existe. Só funciona no papel?, ressalta o representante do padrão europeu DVD no Brasil, Salomão Wajmberg. Ele argumenta ainda que nem a união dos mercados brasileiros, japonês e de toda a América do Sul – que deve seguir o padrão escolhido pelo Brasil – equivale ao número de consumidores europeus que já compraram decodificadores digitais.

Os defensores do padrão americano também lançam mão de argumentos mercadológicos para vender seu produto. “Tenho informações de que o modelo japonês será adiado no Japão para 2006. Assim, seremos cobaias dos japoneses. E o padrão europeu precisaria de adaptações para o Brasil, já que lá a freqüência é de 8 Mhtz e aqui é de 6Mhtz, como nos Estados Unidos. Isso vai encarecer os aparelhos. Além disso, a demanda do mercado americano sempre será maior que a do europeu?, defende Renato Zats, diretor de novos negócios da fabricante de eletrodomésticos LG, que adquiriu a Zenith, que integra o ATSC.

Renato não acha que a inviabilidade da transmissão móvel seja relevante para a decisão da Anatel. “A TV em carros só é interessante para a classe A?, diz o representante do ATSC, tentando anular a maior vantagem do sistema japonês. “Nós, fabricantes, não nos metemos na programação das emissoras. Por que elas estão se metendo no nosso ramo??, pergunta Renato.

Para o representante do sistema europeu, a Abert tem motivos políticos para preferir o sistema japonês ao europeu. “As emissoras têm medo de que, se o DVB for escolhido, o governo faça como na Inglaterra e elas tenham que devolver freqüências. Elas querem os quatro canais resultantes do sistema digital com a desculpa de possibilitar a HDTV. Mas só alguns programas do horário nobre seriam em alta definição. No resto do dia elas usariam os canais para outros fins. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, onde emissoras estão sendo investigadas pelo Congresso por operar outros serviços, como internet, para os quais não têm concessão?, diz Salomão.

A utilização da TV digital para a HDTV – que vem sendo demonstrada pela Abert – não é mesmo defendida por todo o mercado. Perguntado sobre que sistema deve ser usado no Brasil – o de multicanal ou de HDTV -, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, consultor da Globo e estudioso, ressalta: “Acho um desperdício entregar novos canais a emissoras que até hoje não conseguiram resolver seus problemas. O exemplo americano não serve para o Brasil, porque lá o critério foi permitir que as emissoras abertas pudessem competir melhor com a televisão por assinatura. Aqui, esse problema não existe. Se for para dar de graça, considero que somente a Rede Globo merece. Mas creio que o correto seria uma licitação. Isso permitiria que fossem abertos novos canais, democratizando o uso do espectro. Quem quiser fazer HDTV que compre do governo as freqüências necessárias para transmitir em alta definição. Quem não quiser, que receba apenas parte de um canal UHF para transmitir a sua programação também em digital.?

Já o vice-presidente da Record, Roberto Franco, defende que os quatro canais fiquem com as emissoras. “Vejo os novos canais como uma continuidade dos serviços das emissoras. Para que criar novas redes se já vimos que só umas cinco se firmaram como principais? Devemos investir na interatividade ou na HDTV?, diz Franco. O executivo conta que apesar de a Record e o SBT estarem fora da Abert, as emissoras estão unidas na preferência pelo sistema japonês. “Estamos com representantes no grupo através da Set. Queremos um padrão que possa ser recebido por aparelhos instalados em ônibus e por palmtops, por exemplo. Não estamos fazendo pressão e a Anatel também consultará o CNPq para avaliar os relatórios?, conclui Franco. (Colaborou Gabriela Goulart)"

HUMOR

"O animal que ri", copyright Folha de S. Paulo, 11/03/01

"Ok. Eu admito. Já vi e já ri das pegadinhas de Sérgio Mallandro, João Kléber e congêneres. Para os que não conhecem, uma pegadinha é um pouco como uma fraude. Uma câmera oculta grava pessoas em lances embaraçosos. O protagonista, obviamente, não sabe que está sendo filmado e contracena com atores e/ou amigos que o induzem à situação vexatória. Há brincadeiras relativamente inocentes, como a do ator que pede um cigarro a um desconhecido e, ao apanhá-lo, destrói o maço da vítima afirmando que o faz para preservar-lhe a saúde. Normalmente tudo termina, no máximo, com um tabefe. Mas existem também roteiros mais graves. Foi o caso da pegadinha em que se oferecia cocaína a um célebre dependente em processo de recuperação.

Por que rimos de coisas estúpidas como essas? O humor permanece, desde os primórdios, um desafio para filósofos e depois para cientistas. Na verdade, não sabemos por que rimos e muito menos por que rimos de bobagens.

É claro que o riso é um reflexo, mais especificamente uma resposta do sistema nervoso autônomo, no caso, o vago parassimpático, a um estímulo. O problema é que, diferentemente de outros reflexos, o riso não tem um propósito claro como tem, por exemplo, o eriçamento dos pêlos diante de uma ameaça. É um pouco o pesadelo dos neurocientistas. São obrigados a admitir que o riso é importante -ou a evolução não o teria preservado-, mas não sabem explicar por quê.

O riso também é o único reflexo que pode ser disparado por atividades altamente intelectualizadas (neocorticais, diria o neurobiólogo), como a leitura das piadas da ?Playboy?. Como bem observou o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) em seu saboroso ?Le Rire? (?O Riso?), o cômico é essencialmente humano. Mesmo quando rimos de um chapéu engraçado, não estamos rindo do pedaço de feltro ou palha, mas da forma que lhe foi dada pelo ?capricho? humano.

O escritor Arthur Koestler, que escreve o verbete ?humor? da ?Encyclopaedia Britannica?, traz outras preciosas indicações. Retomando a discussão sobre a ?gramática? do humor, ele afirma que rimos quando percebemos um choque entre dois códigos de regras ou de contextos, todos consistentes, mas excludentes entre si.

Um exemplo: ?O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente?. Sei que é um pouco ridículo explicar a piada, mas… Aqui, o fato de o sujeito da anedota ser um masoquista subverte a lógica normal, invertendo-a. Obviamente, a lógica normal não coexiste com seu reverso. Daí a graça da pilhéria. Uma variante no mesmo padrão, mas com dupla inversão é: ?O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista?. Essa estrutura está presente em todas as piadas. Até no mais infame ?trocadalho? que se possa conceber, há um choque entre dois contextos, o do significado da palavra e o de seu som: ?A ordem dos tratores não altera o viaduto?.

Mas essa ?gramática? só dá conta da estrutura intelectual das piadas e há outros aspectos em jogo. Até bebês riem. Há, além do lado intelectual, uma dinâmica emocional no humor. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa. Kant diz que o riso é o resultado da ?súbita transformação de uma expectativa tensa em nada? (?Crítica do Juízo?, I, 1, 54). Rimos porque nos sentimos aliviados.

Talvez aqui o neurobiólogo possa encontrar uma utilidade para o humor. Ele liberaria tensões. Freud, que também tem um livrinho sobre o humor (?O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente?), acha que gracejos funcionam um pouco como os sonhos. Têm força orgásmica e também revelam impulsos inconscientes.

Na conjunção dos aspectos intelectuais com os emocionais, poderíamos traçar uma escala do humor, dos mais primitivos aos mais sofisticados. Crianças pequenas se deliciam com caretas e imitações. Pré-adolescentes adoram as piadas escatológicas. Adolescentes gostam especialmente de anedotas sexuais.

Há, porém, um outro elemento presente em todos os chistes. É, como observou Bergson, a crueldade. O humor requer alguma insensibilidade. Exige, nas palavras do filósofo, ?uma anestesia momentânea do coração?. Normalmente não rimos daqueles que nos inspiram piedade. Mas quando o fazemos -e por vezes fazemos- a compaixão é, por alguns instantes, calada.

Nas piadas mais sofisticadas, essa crueldade pode quase desaparecer, mas deixará, ainda, algum traço, na forma de ?malícia?, ?esperteza? ou apenas na suspensão da solidariedade para com a vítima.

Segundo o psicólogo anglo-americano William McDougall (1871-1938), ?o riso desenvolveu-se na raça humana como um antídoto contra a compaixão, uma reação protetora que nos defende da influência deprimente dos defeitos de nossos semelhantes?. Aqui, os neurobiólogos poderiam procurar uma utilidade mais sofisticada para o humor, embora me pareça fútil fazê-lo.

O que me interessa é retornar a Bergson e ao riso como um ?gesto social?. Para o filósofo, o temor de tornar-se objeto de riso reprime as excentricidades do indivíduo. O riso não é assim um movimento puramente estético. Ele visa o aperfeiçoamento da sociedade. Mas, ao mesmo tempo, conserva algo de puramente estético, porque os homens, quando já não se preocupam unicamente com sua sobrevivência individual e do grupo, podem ?dar-se como espetáculo aos homens?.

As pegadinhas ensejam um humor primitivo, admito. Vou além. Tornamo-nos cruéis ao assistir a uma pegadinha. Mas, à medida que essa crueldade tem um sentido social, ao rir das vítimas não chegamos a sacrificar nossa humanidade. Ao contrário até, nós de alguma forma a afirmamos, já que o homem é, segundo os filósofos, o único animal que ri.

Pegadinhas são cruéis, de mau gosto e, por isso mesmo, engraçadas."

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