Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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03/04/2007 na edição 427


GOVERNO LULA
Alberto Dines


A mágica do nome aos bois, 30/03/07


‘As primeiras declarações do ministro Franklin Martins, da Secretaria de
Comunicação Social, desanuviaram um ambiente gravemente tensionado há quase dois
anos. As palavras deste capixaba – que, como todos, parece ser mais tranqüilo do
que os mineiros – não renderam manchetes, mas estão fadadas a esvaziar um
impasse que intoxicava as relações entre governo e imprensa e comprometia
seriamente nossa tranqüilidade institucional.


Qual a mágica deste comentarista político que se exibia nas mais importantes
vitrines da mídia brasileira e agora, com a mesma habilidade, consegue reverter
uma situação que chegou a ser apontada como dramática e irreversível?


Franklin Martins apenas reconheceu a existência de um foco de tensões. Nada
mais, nada menos. A solução de um problema começa pelo reconhecimento de sua
existência. Detalhe? Pode ser, mas a partir dele é possível buscar uma enunciado
correto. O resto – a busca da solução – é relativamente fácil. O que nos leva a
estabelecer um axioma audacioso: não há problemas insolúveis, há problemas
escondidos debaixo do tapete. Ou erroneamente formulados.


O conflito governo versus imprensa existe desde meados de 2005 escancarado
pelas revelações sobre a existência do mensalão, valerioduto e afins. O governo
e o partido do governo resolveram ignorá-lo e quando isto ficou impossível
tentou o bypass, a perigosa ultrapassagem: começou a bombardear a imprensa com
acusações de golpista, partidária, etc. etc. O confronto agravou-se quando, duas
semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais, a Polícia Federal
desvendou um dos maiores escândalos eleitorais da nossa história política: a
compra de um dossiê falso destinado à publicação num semanário de circulação
nacional para prejudicar candidatos da oposição.


Ao reconhecer que governo e imprensa passaram por uma ‘crise política
monumental’ e que, doravante, a relação entre as partes deverá ser ‘mais fluída,
mais tranqüila, mais profissional, menos defensiva’, o novo ministro tem a
coragem de identificar o problema e nomeá-lo de forma pertinente e explícita.
Assume-se, assim, assim como autentico mediador. Mediador e não intermediador.
Mediador, com engenheiro de comunicação, especialista em abrir novos canais de
comunicação. Ou desentupir os existentes.


Custa crer que assessores presidenciais do porte de Marco Aurélio Garcia e
Tarso Genro não tenham percebido que a entonação frenética das críticas à
imprensa vocalizadas pelo candidato-presidente da República durante a campanha
eleitoral constituía séria ameaça ao processo democrático.


O primeiro a perceber o perigo do confronto foi o jornalista Eugênio Bucci,
presidente da estatal Radiobrás, ao declarar que um governo não pode
apresentar-se como vítima da imprensa. A recíproca, sim, pode ser verdadeira:
governos têm poder real, a imprensa jamais poderia confrontar o aparato de força
embutido nos poderes executivo, legislativo e judiciário.


Quem obrigou Richard Nixon a renunciar foi a sociedade americana, o
‘Washington Post’ amparado na Constituição dos EUA apenas ofereceu-lhe
subsídios. O mesmo aconteceu no Brasil: a derrubada de Collor de Melo foi obra
do Legislativo e do Judiciário, ‘Veja’ e a imprensa apenas utilizaram a sua
capacidade de duvidar das versões oficiais.


Como jornalista, Franklin Martins localizou um campo minado. Como funcionário
a serviço da sociedade mostra-se disposto a criar alternativas viáveis para
tornar nossa comunicação social mais pluralista e, portanto, mais poderosa. Como
comentarista político (que jamais deixará de ser) percebeu que é indispensável
dar nome aos bois. Antes que, tomados pela fúria, derrubem o circo.’


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