Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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ENTRE ASPAS >

Veja

25/05/2004 na edição 278

‘Antes que um presidente americano pense em começar uma guerra, deveria lembrar que existe Seymour Hersh. Há mais de três décadas o jornalista de 67 anos incomoda os poderosos de Washington com reportagens sobre desatinos que eles prefeririam manter em sigilo. Nas últimas três semanas, na revista New Yorker, na qual escreve desde 1992, Hersh tem disparado matérias que enfurecem o Pentágono, inflamam o Congresso e tiram o sossego da opinião pública. A primeira revelou o relatório secreto das Forças Armadas sobre os maus-tratos a que eram submetidos os prisioneiros iraquianos em Bagdá. A segunda mostrou que esse tipo de abuso era mais disseminado do que o Pentágono admitia. Por fim, na semana passada, afirmou que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, tinha aprovado técnicas pesadas de interrogatório, o que abriu caminho para os abusos cometidos na prisão em Bagdá. A última acusação – ruidosamente negada pela cúpula militar – ameaça transformar-se numa enorme crise política para o governo Bush.

Nestes tempos de informação instantânea transmitida pela TV e pelos jornais on-line, é surpreendente que seja esse jornalista veterano – que prefere anotar números de telefone no verso de cartões amarelos a usar agenda eletrônica – quem anda fazendo diferença. A rede de televisão CBS, que primeiro conseguiu as fotos de torturas no Iraque, segurou a divulgação por duas semanas a pedido do Pentágono. Só as colocou no ar porque soube que Hersh tinha a informação e não havia força no mundo capaz de demovê-lo de expor publicamente o que o Exército americano estava fazendo de errado no Oriente Médio. Hersh disse a VEJA, na semana passada, que os assessores do Pentágono nem sequer tentaram convencê-lo a não divulgar a história. ‘Estou há muito tempo nessa estrada, eles sabem que não iam conseguir nada comigo’, explicou.

Seymour Hersh – ou Sy, como é conhecido por amigos e inimigos – é o repórter investigativo americano mais importante de sua geração (e das seguintes também). Foi ele quem denunciou o maior escândalo da história militar dos Estados Unidos, o massacre de 500 civis vietnamitas na aldeia de My Lai por um pelotão americano em 1968. A selvageria do episódio – os soldados americanos estupraram as mulheres antes de matá-las e executaram até bebês – chocou o mundo e contribuiu para precipitar o fim da Guerra do Vietnã. Diferentemente de outros expoentes do jornalismo americano, como Bob Woodward, cujas reportagens sobre o escândalo Watergate contribuíram para a renúncia do presidente Richard Nixon nos anos 70, Hersh nunca se tornou palatável aos poderosos. Ele ainda encarna com afinco o papel de cão de guarda do interesse público, sem desgrudar o olho de abusos militares, escândalos de espionagem, ações diplomáticas secretas e negócios escusos feitos por empresas e políticos. Entre outras revelações, ele esmiuçou o papel da CIA no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, denunciou o bombardeamento do Camboja por ordem do então secretário de Estado Henry Kissinger e expôs o apoio implícito da Casa Branca ao programa de armas nucleares de Israel.

Para descobrir histórias como essas, Hersh recorre a suas fontes do Pentágono, da CIA e do governo. São elas que lhe passam documentos e informações exclusivos sob a garantia de que não serão identificadas nas reportagens. Às vezes ele erra. Em 1996, tentou vender à TV um documentário sobre um suposto caso amoroso entre Kennedy e Marilyn Monroe. Baseava-se num bilhete da atriz, que se descobriu ser falso. Hersh teve de excluir a história do livro que escreveu sobre Kennedy, pouco antes da publicação. Ele voltou a sua melhor forma depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando começou a investigar a política de defesa comandada por Donald Rumsfeld. Foi como se ele tivesse tomado um viagra do bom jornalismo, comparou a revista americana Newsweek.

ENTREVISTA

Não é um Vietnã

O jornalista Seymour Hersh, da New Yorker, falou com VEJA, de seu escritório em Washington, sobre a repercussão de suas matérias sobre a tortura de presos iraquianos.

Veja – O senhor é criticado por usar muitas fontes anônimas em suas reportagens.

Hersh – Quando falo com alguém sobre assuntos secretos, como posso revelar quem me deu o relatório? É o caso da pessoa que me falou sobre a operação de tortura que denunciei nesta semana. É contra a lei fazer o que ela fez, divulgar segredos do governo.

Veja – Qual será a conseqüência dessas denúncias de tortura?

Hersh – Compare o caso atual com a reportagem que fiz sobre o massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã. O que nossos soldados fizeram recentemente contra os prisioneiros iraquianos não foi como em My Lai. Eles não os executaram. Mas é uma enorme derrota estratégica. A maior parte dos iraquianos sunitas gostava de nossa gente, de nossa música, de nossas roupas, da vida que nós, americanos, levamos. Tudo isso mudou, porque o que nossos soldados fizeram é perversidade para com os sunitas. Com isso, perdemos amigos potenciais e essa é uma perda estratégica. É muito mais sério do que as pessoas imaginam.

Veja – O governo americano o critica por revelar segredos de Estado, argumentando que isso vai contra a segurança nacional. O que o senhor acha disso?

Hersh – Eu me preocuparia se não estivesse revelando esses segredos. Muitos dos militares que são minhas fontes não concordam com minha posição política. Eu os respeito. Eles vêm falar comigo porque estão muito descontentes com o que está acontecendo. Um general importante veio me dizer dois dias atrás que não suportaria ver os soldados dele capturados, despidos e humilhados com um saco enfiado na cabeça. Esse assunto não tem nada a ver com segurança nacional, tem a ver com senso comum.’



Último Segundo

‘CIA diz que reportagem sobre programa secreto de Rumsfeld está equivocada’, copyright AFP / Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 17/05/04

‘Um porta-voz da CIA classificou nesta segunda-feira de ‘fundamentalmente errônea’ uma matéria da revista ‘The New Yorker’, apontando que o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, aprovou um programa secreto que estimulava os abusos físicos e humilhações contra os detidos iraquianos.

A matéria do conhecido jornalista Seymour Hersh cita vários ex-agentes de inteligência e agentes da ativa e, segundo o texto, um alto funcionário da CIA confirmou detalhes da informação, indicando que o programa secreto surgia do desejo de Rumsfeld de tirar o controle das operações clandestinas e paramilitares desta agência.

‘A reportagem da ‘The New Yorker’ é fundamentalmente errônea’, disse o porta-voz da CIA, William Harlow, em um comunicado. ‘Não houve nenhum programa do DOD (Defesa)/CIA para abusar de prisioneiros iraquianos’, ressalta a nota oficial.

O Pentágono, por sua vez, comentou no último fim de semana que a matéria de Hersh era ‘disparatada, conspiratória e cheia de conjecturas equivocadas e anônimas’.’



ORIENTE MÉDIO
O Estado de S. Paulo

‘Correspondente do ‘NYT’ escapa de um seqüestro’, copyright O Estado de S. Paulo, 21/05/04

‘Um correspondente do New York Times escapou de uma tentativa de seqüestro enquanto estava cobrindo a incursão do Exército de Israel no campo de refugiados de Rafah, na Faixa de Gaza, informou o jornal ontem.

James Bennet, chefe da sucursal para Israel e os territórios palestinos, disse que estava falando ao celular diante do hospital de Rafah quando um palestino se aproximou, sorriu e ofereceu sua mão dizendo ‘bem-vindo’.

Quando Bennet apertou sua mão, o homem e outro palestino o agarraram e tentaram enfiá-lo em um velho Mercedes, em uma ação que lembrou os seqüestros de estrangeiros por militantes muçulmanos durante a guerra do Líbano nos anos 80.

O seqüestro foi impedido por um policial do hospital, que correu para ajudar Bennet ao vê-lo gritando e lutando para livrar-se dos seqüestradores, que entraram no carro e fugiram.

Não ocorria um incidente do gênero desde o início do levante palestino contra a ocupação israelense, em setembro de 2000, quando um repórter da revista Newsweek foi brevemente capturado em Gaza. (Reuters)’



ARGENTINA
Ariel Palacios

‘Um ano depois, cartunista acha que ‘Pingüim’ parece outra pessoa’, copyright O Estado de S. Paulo, 23/05/04

‘Miguel Rep é um dos cartunistas mais ácidos da Argentina.

Suas tiras no jornal Página 12 causam polêmica com freqüência. Há um ano, surpreendeu-se com a batelada de medidas progressistas do presidente Néstor Kirchner e passou a apoiá-lo. Mas, nos últimos tempos, Rep começou a ficar desapontado.

Uma charge marcou a virada: ele desenhou Kirchner em uma mesa de operações, com um cientista maluco fazendo uma radical modificação na personalidade presidencial. ‘O que aconteceu com o presidente?’, perguntou ao Estado. Logo em seguida, lamenta: ‘Ele parece outra pessoa…’.

Estado – Você diria que está decepcionado?

Rep – Estou mais decepcionado com Lula… Com Kirchner fiquei entusiasmado no começo. Mas agora Kirchner está começando a ceder ao establishment. Estou nessa etapa dos casais na qual a paixão e o amor começam a desaparecer e aparece a etapa do pragmatismo. Estou colocando Kirchner sob observação…

vou ficar de olho nele, com olho crítico.

Estado – Quais são os pontos positivos de seu primeiro ano?

Rep – Sua política sobre os direitos humanos é fantástica. Ninguém tinha feito nada assim antes. Medidas como transformar o ex-campo de torturas da Escola de Mecânica da Armada (Esma) em um museu para mostrar a repressão da ditadura são excelentes. Demonstram imaginação, algo escasso nos políticos.

É como se a imaginação tivesse chegado ao poder. Mas a solidariedade ainda não chegou ao poder. Na França, podem-se dar ao luxo de pôr a imaginação no poder. Na França, o pessoal está gordinho, o Estado é forte. Aqui, há pessoas passando fome.

Estado – Quais são os pontos negativos de Kirchner?

Rep – A política econômica não mudou nada, continua a mesma droga. A pobreza na Argentina é imensa. Além disso, há pessoas no entorno no dele que são mafiosas.’

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