Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/01

Veja

10/01/2006 na edição 363



MAINARDI vs. OI
Diogo Mainardi

It’s raining men…

‘Henrique Meirelles é meu vizinho. Tem um apartamento no prédio ao lado do meu. Ele deu uma festa no Ano-Novo. Com música dos anos 80. Muita gente reclama dos juros praticados por Meirelles no Banco Central. Eu reclamo apenas porque ele me impediu de dormir na passagem do ano, atormentando-me com o estribilho:

It’s raining men. Hallelujah!

It’s raining men. Amen!

***

Alberto Dines me acusou de ser chantagista e mafioso. Isso não foi no Ano-Novo. Foi no Natal. Dines disse também que cometi um crime pior do que assassinato. Tudo porque denunciei um punhado de jornalistas que, na minha opinião, eram cupinchas de Lula. Um colega de Dines, se entendi direito, insinuou que participei da morte de Wladimir Herzog. Outro colega de Dines, se entendi direito, disse que enterrei vivo um mineiro nos Estados Unidos. Depois de me chamar de chantagista, mafioso, torturador, sádico e assassino, Dines afirmou num e-mail que, ao contrário de mim, não é dado a pichar as pessoas. Essa aula particular de jornalismo teria sido ainda mais notável se Dines não tivesse escrito pichar com x.

***

José Serra, no Ano-Novo de 2007, estará entrando no Palácio do Planalto. Ele já está eleito. Já ganhou. Não por méritos pessoais. Ele será eleito exclusivamente porque a gente quer se livrar de Lula. E ele é a melhor garantia de que isso vai acontecer.

Não há democracia mais tediosa do que a nossa. Em 1994, um ministro tucano derrotou Lula. Em 1998, o mesmo tucano derrotou Lula. Em 2002, Lula derrotou um ministro tucano. Em 2006, o mesmo tucano vai derrotar Lula.

José Serra terá de pedir desculpas aos paulistanos por quebrar a promessa de ficar na prefeitura até o fim do mandato. Durante a campanha eleitoral, ele fará outras promessas. Dirá que não pretende se candidatar a um segundo mandato presidencial, em 2010. Dirá também que não estenderá seu mandato até 2011. Ninguém acreditará nele. Melhor assim.

Embora esteja matematicamente eleito, José Serra ainda precisa explicar o que pretende fazer no governo:

– Ele prorrogará a CPMF?

– Ele desmontará a arapuca fiscal do Bolsa-Família? Os brasileiros são menos otários do que parece. Para cada voto que Lula ganha com o Bolsa-Família, ele perde dois da classe média.

– José Serra fará uma reforma previdenciária de verdade? Uma reforma trabalhista?

– Ele retomará a venda das empresas estatais? O fantasma de Ricardo Sérgio de Oliveira até hoje assombra José Serra. Como privatizar sem roubalheira?

– Dá para financiar uma campanha presidencial sem roubar?

– Por que ele não exige a expulsão imediata de Eduardo Azeredo do PSDB?

– Que cargo ele oferecerá a Geraldo Alckmin?

– Quem será seu ministro da Fazenda? Armínio Fraga?

***

Hallelujah! Amen!’

VEJA vs. MORAIS
Jerônimo Teixeira

O desculpador-geral da República

‘Pela obra publicada, o jornalista e escritor Fernando Morais pode ser considerado um dos melhores biógrafos em atividade no Brasil. Ele é autor de livros como Olga, sobre a militante comunista Olga Benário, e Chatô – O Rei do Brasil, que narra a trajetória do magnata da imprensa Assis Chateaubriand. Mas Morais acaba de embarcar numa empreitada duvidosa: um anunciado volume de memórias do petista José Dirceu, deputado cassado e homem-chave no escândalo do mensalão. Ele atuará como copidesque de luxo da obra e já vem mexendo os pauzinhos para ajudar o ex-ministro a descolar uma editora. Os dois viraram amigos do peito. Recentemente, Morais esteve com Dirceu numa festança no Rio de Janeiro. Ele também levou o petista a tiracolo para o sul da França, para comemorar o réveillon em companhia do escritor Paulo Coelho – de quem, aliás, também faz uma biografia. Ao fazer par com Dirceu, Morais pode estar compondo o seu Zélia – Uma Paixão. O livro, para quem não lembra, foi aquele em que o consagrado romancista Fernando Sabino relatou os amores de Zélia Cardoso de Mello e Bernardo Cabral, ministros do malfadado governo Collor. Um constrangimento completo.

É uma surpresa Morais se envolver num projeto como esse? Nem tanto. Há tempos ele dá demonstrações de que os célebres e poderosos vivos lhe são mais convenientes do que os personagens históricos. Em 2005, lançou Na Toca dos Leões, sobre o publicitário Washington Olivetto e sua agência de propaganda. Atualmente, além de Coelho e Dirceu, coleta material sobre o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Como sabem todos os biógrafos, a tentação de ser condescendente com os pecados de um personagem vivo está sempre à espreita – sobretudo quando o biografado colabora na coleta de informações. O risco talvez seja maior ainda para alguém como Morais, sempre muito generoso com aqueles de quem se aproxima – uma espécie de ‘desculpador-geral da República’.

Ainda nos anos 70, Morais escreveu um livro apologético sobre o regime comunista de Cuba. Sempre que pode, sai a campo para minimizar as barbáries do ditador Fidel Castro, de quem é próximo. Também é amigão de Hugo Chávez, o líder populista que está levando a Venezuela ao buraco. Nos anos 80, Morais aderiu de corpo e alma à turma do ex-governador paulista Orestes Quércia. Foi inclusive secretário em sua gestão, sobre a qual pairavam suspeitas de corrupção (as loas ao quercismo cessaram em 2002, quando ambos romperam). Mais tarde, ele se solidarizou com o ator Guilherme Fontes, aquele que captou o equivalente a 30 milhões de reais em incentivos fiscais para adaptar Chatô para o cinema – e até hoje não entregou o filme. Morais não tem mesmo do que reclamar: ele recebeu seus direitos autorais em dia.

Curiosamente, todos os projetos de Morais estão um pouco emperrados. O escritor já recolheu uma farta documentação sobre Coelho e ACM. São montanhas de papéis e horas de depoimentos – só com o autor de O Alquimista são cerca de 160. Mas a redação não deslanchou em nenhum dos casos. Para dar um empurrãozinho no biógrafo, Coelho disse um basta neste fim de ano: não vai gravar mais entrevistas. O livro deve ser entregue até meados de 2006. O caso com José Dirceu também está complicado. Os dois se entenderam de forma que Morais prestasse uma consultoria. Caberia ao próprio mentor do mensalão pôr suas memórias no papel. Mas ele ainda não escreveu uma linha.

‘O homem está travado’, disse Morais a Coelho, como desculpa para arrastar sua nova companhia aos festejos e ver se ele se soltava. Talvez a questão seja outra: desde que virou um cadáver político, o ex-ministro parece mais interessado em aproveitar a vida. Logo depois de cassado, ele passou uns tempos na flauta, num apartamento de luxo na Zona Sul do Rio de Janeiro pertencente à ex-mulher de Walter Appel, dono do Banco Fator, que em 2004 teve problemas com as autoridades do mercado financeiro. Dirceu e a mulher também viajaram para a França no fim do ano de primeira classe. Pelo jeito, dinheiro não é problema.

Na França, Morais introduziu o político recém-caído em desgraça no mundo de Coelho – que acaba de embolsar 800.000 dólares para se transferir para uma nova editora no Brasil, a Planeta. O trio degustou iguarias como coquilles st. jacques com trufas e vinhos caros (o ex-ministro acostumou-se a tomar tintos acima de 300 reais). Amigos de Paulo Coelho não gostaram de ver o escritor ao lado de José Dirceu. Acham que é má propaganda. Acham também que Morais se aproveitou de sua recente proximidade com o escritor para jogar em causa própria. Coelho teria sido usado por ele, em suma. De fato, ele deve se cuidar: na próxima virada de ano, Morais bem pode querer levar um bode como Hugo Chávez a tiracolo. Colaboraram Sérgio Martins e Antonio Ribeiro

Box: Mui amigo

FIDEL CASTRO

Ficha corrida: o ditador comunista de Cuba reprime e fuzila opositores

O que Fernando Morais disse sobre ele: ‘Continuo solidário à Revolução Cubana. O país tem problemas, e o comandante Fidel sabe. Mas Cuba está a 160 quilômetros dos Estados Unidos. Na hora em que piscar o olho, os Estados Unidos invadem’

HUGO CHÁVEZ

Ficha corrida: populista, o presidente da Venezuela trouxe pobreza e menos democracia ao país

O que Fernando Morais disse sobre ele: ‘O que está acontecendo na Venezuela hoje é historicamente a coisa mais importante que já aconteceu no mundo desde a Revolução Cubana’

ORESTES QUÉRCIA

Ficha corrida: ex-governador paulista, fez uma gestão marcada por suspeitas de corrupção

O que Fernando Morais disse sobre ele: ‘Fui secretário de Cultura no governo dele e foi uma maravilha. Se fosse para fazer aquilo de novo, eu voltaria à política’ (em 2000, dois anos antes de romper com Quércia)

GUILHERME FONTES

Ficha corrida: seu filme Chatô, que consumiu cerca de 30 milhões de reais em dinheiro de renúncia fiscal, não foi concluído até hoje

O que Fernando Morais disse sobre ele: ‘A mídia passou a imagem de que o Guilherme enriqueceu com dinheiro público, mas ele foi vítima de uma campanha brutal. Ele é uma sardinha que entrou no mar de tubarões dos cineastas’

JOSÉ DIRCEU

Ficha corrida: o ex-ministro de Lula foi cassado por chefiar o mensalão

O que Fernando Morais disse sobre ele: ‘Ninguém chega aos 60 anos – tendo dedicado os melhores anos de sua vida a uma idéia – para emporcalhar a biografia por causa de dinheiro’’



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