Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Veja

01/05/2007 na edição 431

MAINARDI vs. PT
Diogo Mainardi

Os meus nambiquaras

‘Os petistas só se referem a mim como ‘O colunista’ ou ‘O colunista da VEJA’.

Trata-se de um tabu bastante comum entre os povos primitivos. Os índios nambiquaras nunca pronunciam os nomes dos outros membros da tribo. Eles acreditam que os nomes próprios possuem propriedades mágicas, sendo escolhidos diretamente por Dauãsununsu, o ente supremo. Revelá-los é um sacrilégio.

Os oromos, da Etiópia, nutrem o mesmo temor pelos nomes próprios. As mulheres oromos costumam denominar seus maridos a partir de alguma característica marcante. Podem chamá-los de ‘O Honesto’, ou ‘O Prudente’, ou ‘O Desdentado’, ou ‘O Dono do Cavalo Marrom’.

Eu sou o ‘Dono do Cavalo Marrom’ dos petistas. Se eu sou o ‘Dono do Cavalo Marrom’ dos petistas, eles só podem ser os meus oromos, os meus nambiquaras. Sinto em relação aos petistas o mesmo espanto e o mesmo encantamento que Claude Lévi-Strauss sentiu em relação aos selvagens de Mato Grosso. Claude Lévi-Strauss, num de seus principais tratados sobre o assunto, comparou os nambiquaras a ‘uma raça gigante de formigas’. Edgar Roquette-Pinto, que percorreu o território nambiquara duas décadas antes do antropólogo francês, definiu-os como ‘homens da Idade da Pedra’. O presidente americano Theodore Roosevelt, que também passou pelas terras dos nambiquaras, afirmou que eles ‘nem chegaram à Idade da Pedra, sendo ingênuos e ignorantes como animais domésticos’.

Eu analiso os usos e costumes do petismo como Claude Lévi-Strauss, Edgar Roquette-Pinto e Theodore Roosevelt analisaram os usos e costumes dos nambiquaras. Os petistas me parecem uma raça gigante de formigas. Eles me parecem homens da Idade da Pedra, ingênuos e ignorantes como animais domésticos.

Claude Lévi-Strauss estudou o código de leis dos nambiquaras. Seu aparato legal tem o mesmo grau de incerteza e de arbitrariedade que o aparato legal do petismo. Em todos os processos dos petistas contra mim – uns 200 -, eles sempre acabam citando um trecho de um artigo que publiquei em 2005:

‘Hoje em dia, só dou opinião sobre algo mediante pagamento antecipado. Quando me mandam um e-mail, não respondo, porque me recuso a escrever de graça. Quando minha mulher pede uma opinião sobre uma roupa, fico quieto, à espera de uma moedinha’.

Para os petistas, essa é a prova cabal da minha venalidade, do meu mercenarismo. Afinal, se eu confesso candidamente que minha mulher compra minha opinião, é porque ela de fato compra. E, se ela compra, qualquer um pode comprar. Esse foi o melhor argumento que eles conseguiram encontrar contra mim.

Muita gente teme que o petismo descambe para alguma forma de totalitarismo. ‘O colunista da VEJA’ é menos otimista. Ele acha que o país tem tudo para se transformar numa imensa aldeia nambiquara, cheia de formigas gigantes.’

TELEVISÃO
Isabela Boscov

A ordem é suar a camisa

‘Até o início desta década, ser um ator de sucesso na televisão americana podia render dinheiro em quantidade suficiente para fazer história. O comediante Ray Romano, da série Everybody Loves Raymond, cravou um recorde: 1,8 milhão de dólares por episódio. A uma média de 24 episódios por temporada, isso significa que ele chegou a ganhar mais de 43 milhões de dólares ao ano – coisa de que só uma meia dúzia de astros de cinema poderia se gabar. Kelsey Grammer, de Frasier, chegou perto dele: 1,6 milhão de dólares por capítulo. Esses salários astronômicos, porém, são coisa do passado. A explosão criativa que a TV americana vive de uns seis anos para cá gerou efeitos colaterais inesperados: aumentou a concorrência por papéis (muita gente vinda do cinema entrou na parada), colocou mais força (e dinheiro) nas mãos de produtores e roteiristas e, como resultado, achatou o cachê dos atores principais. Até a década passada, nenhum executivo de emissora se sentiria seguro no emprego sem recrutar um nome vistoso para encabeçar o elenco de uma nova atração. Hoje, embora atores conhecidos ainda sejam um ingrediente desejável da receita, está mais ou menos combinado que o que realmente importa é o roteiro – como Dick Wolf, produtor da franquia Law & Order e o mais duro negociador do pedaço, vinha ensinando desde os anos 90.

Neste momento, o salário mais alto pago a um ator de TV é o de James Gandolfini, o capo de Família Soprano. A cada capítulo, ele engorda sua conta bancária em 800.000 dólares. Para chegar a essa marca, entretanto, o ator teve de jogar pesado e quase se retirou da atração. Ganhos assim mais, digamos, sensatos são hoje regra, não exceção. Veja-se Kiefer Sutherland, o agente Jack Bauer de 24 Horas. Sutherland já tinha uma carreira no cinema e, além de ser produtor executivo de 24 Horas, é o pivô de toda a ação da série, que atinge ótimas médias de ibope. Mas ele ganha 400.000 dólares por episódio. Com essas credenciais, é provável que, nos anos 90, o mesmo trabalho lhe rendesse três vezes mais. A questão é que, no cenário atual, Sutherland não está competindo com outros nomes de igual ou maior calibre: está competindo com outros enredos. Séries como C.S.I., Lost, Heroes, Desperate Housewives e Grey’s Anatomy se firmaram como campeãs de audiência sem ostentar nenhum nome que fosse, em si, um chamariz. Ou seja: desde que a trama continue funcionando, qualquer ator ou atriz pode, a rigor, ser considerado dispensável e/ou substituível – outra máxima que Dick Wolf já pregava havia muito tempo.

Num artigo publicado há poucas semanas, a revista Entertainment Weekly revelou que ainda há executivos que não perderam os velhos hábitos. A publicação apurou que Zach Braff, de Scrubs, passará a ganhar 350.000 dólares por episódio, embora sua série ocupe um longínquo 94º lugar no ranking de audiência. Motivo: a televisão americana está fervilhando de tal maneira que os produtores temem vir a ficar sem talentos suficientes para preencher todas as atrações que querem tirar do papel. Outro motivo: hoje, não só o ibope entra na equação. Vendas de reprises a outras emissoras (que deu a Seinfeld estimados 225 milhões de dólares), vendas para exibição no exterior (para se ter uma idéia, cada episódio de Desperate Housewives negociado no mercado europeu vale 2 milhões de dólares) e rendimentos em DVD (fatia considerável do faturamento de redes como a HBO) são variáveis cada vez mais importantes na hora de acertar um salário. Por sua série ter ótimas notas em todos esses quesitos é que o elenco de Grey’s Anatomy, por exemplo, está prestes a conseguir aumentos vultosos, da ordem de até 125.000 dólares, antes mesmo que finde seu contrato – pelo qual a maioria dos atores ganha de 30.000 a 50.000 dólares por episódio. No geral, porém, a briga de um ator por seu cachê anda mais encarniçada do que nunca. Agora só resta esperar que também o cinema americano aprenda essa lição.’

Sérgio Martins

A fatwa do humor

‘Um episódio do seriado A Diarista exibido pela Rede Globo no dia 17 de abril causou, na semana passada, protestos entre os muçulmanos que vivem no Brasil. A Embaixada dos Emirados Árabes, país que deve ser visitado em breve por uma equipe de reportagem da Globo, exigiu desculpas da emissora, e o Centro de Estudos e Divulgação do Islã (Cedi) fez circular na internet um texto que qualifica o programa como ‘grave ofensa’. Segundo os queixosos, a representação de uma família muçulmana no humorístico foi caricata e preconceituosa. Mais grave ainda teria sido a seqüência em que um certo ‘patriarca Mohammed’ aparece num quadro, cercado de odaliscas. A empregada Marinete (Cláudia Rodrigues) faz um rasgo na pintura e um personagem judeu, inadvertidamente, enfia ali o seu dedo – o que resulta numa piada chula. Os espectadores muçulmanos consideraram o tal ‘patriarca’ uma zombaria ao profeta Mohammed (ou Maomé), de quem a tradição islâmica proíbe qualquer desenho ou representação.

Na quinta-feira, a Globo enviou um comunicado à Embaixada dos Emirados Árabes. ‘Os povos encaram o humor de forma diferente, e esperamos que entendam que não foi nossa intenção insultar ninguém’, diz um trecho da carta. A levar a sério a declaração de José Alvarenga Júnior, diretor de A Diarista, as cenas que irritaram os espectadores muçulmanos não resultaram do desejo de ofender, mas de uma espantosa combinação de ignorância e grosseria (e nesse caso A Diarista foi mesmo de um mau gosto extremo). O fato de Maomé ser o nome aportuguesado do profeta Mohammed teria passado despercebido. ‘Usamos o nome porque ele é comum entre os árabes. Nosso Mohammed é pura e simplesmente um antepassado dos personagens.’

Piada chula: quadro rasgado retrata o ‘patriarca Mohammed’

No começo de 2006, a publicação de dez caricaturas do profeta Maomé num jornal da Dinamarca causou uma explosão de raiva no mundo islâmico. Houve manifestações nas ruas de países árabes, boicote a exportações dinamarquesas e ameaça de represálias terroristas. Vice-representante da comunidade islâmica no Brasil e um dos líderes mais inconformados com a brincadeira de A Diarista, o xeque Jihad Hassan evita comparar os dois episódios. ‘Algumas pessoas no exterior souberam da história e falaram em boicotar produtos brasileiros. Mas para nós o importante é que o erro seja reconhecido’, diz ele. Sendo assim, está tudo normal. Pois protestar e buscar reparação contra aquilo que soa ofensivo faz parte da democracia – da mesma forma como é inviolável a liberdade de dizer coisas que possam ser desagradáveis a grupos políticos ou religiosos.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Agência Carta Maior

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