Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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14/10/2008 na edição 507

TELEVISÃO
Silvia Rogar e Fernando Lemos

Até parece novela

‘Sempre que cruza os portões dos estúdios da Rede Globo, Grazi Massafera reza. É adepta, também, dos banhos de sal grosso. ‘É para me proteger’, diz. Tem seus motivos. Em três anos e meio, passou de integrante do Big Brother Brasil a protagonista de novela. É dela o principal papel feminino de Negócio da China, escrita por Miguel Falabella, que estreou na semana passada no horário das 6. Aos 26 anos, ela se tornou também uma das celebridades mais requisitadas e bem pagas do mercado publicitário, com cachês na casa dos 500 000 reais por campanha. Para dar o ar da graça em eventos ou desfiles, cobra entre 35 000 e 65 000 reais. No momento, tem contratos com empresas como Avon, Azaléia e L’Oréal. Como se não bastasse, namora Cauã Reymond, o galã do momento. Haja sal grosso. Veteranos da TV ainda têm dificuldade de engolir seu destaque. Entre seus pares, o adjetivo recorrente para defini-la é ‘esforçada’, um eufemismo para acentuar suas limitações dramáticas. Já em pesquisas de opinião feitas por agências de propaganda, as palavras mais usadas são ‘linda’, ‘talentosa’ e ‘vencedora’.

Filha de ex-bóias-frias, Grazi foi babá e balconista antes de conquistar o título de miss Paraná e chegar à final do Big Brother. ‘O brasileiro tem uma irresistível atração pela menina pobre que virou o jogo. A Grazi, além do mais, é linda, o que torna sua figura ainda mais fascinante’, diz Luiz Nogueira, vice-presidente de criação da agência de publicidade McCann Erickson. Em Negócio da China, a única mudança em sua imagem, por recomendação expressa da direção, é a neutralização de seu sotaque interiorano, principalmente os erres carregados. ‘É difícil me livrar do sotaque, mas já consigo pronunciar Heitorr’, diz a moça, referindo-se ao personagem de Fábio Assunção, seu ex-marido na novela.

O responsável pelo lançamento de Grazi como atriz é Mário Lúcio Vaz, ex-diretor artístico e atual consultor da Globo. Quando terminou o BBB 5, ele a convidou para participar da oficina de atores da emissora. Um ano depois, Grazi já estava em Páginas da Vida, novela das 8 escrita por Manoel Carlos, no papel de Telma, uma simpática caipirinha em tudo parecida com ela própria, que terminou ao lado do galã Thiago Lacerda. A estréia não animou os demais noveleiros. Walter Negrão, autor de Desejo Proibido, a segunda trama em que Grazi atuou, não gostou quando a direção da Globo indicou seu nome para o elenco. ‘Olhei atravessado e lhe dei um personagem insignificante. Mas, como ela foi bem, acabou a novela quase como protagonista’, diz.

Com Falabella não foi diferente. Para o papel de Lívia, jovem batalhadora que quer mudar de vida, ele pensou inicialmente em Flávia Alessandra e Angélica, que declinaram. Depois cismou com a ex-paquita Juliana Baroni. Acabou topando o nome de Grazi, sugerido por Roberto Talma, diretor de núcleo da novela. Mandou refazer três cenas, mas gostou do resultado. ‘Estava tudo ali: medo, encantamento, pânico, tudo na medida certa’, exagera Falabella, comentando a cena em que Lívia, ainda adolescente, descobre que está grávida. O fato é que, aos poucos, Grazi conquistou seu espaço. Ninguém mais fala mal dela nem a desdenha escancaradamente. Ao lado de atrizes como Alinne Moraes e Regiane Alves, ela faz parte do grupo que ganha salário na faixa dos 25.000 reais. Mas seu contrato é de longo prazo – até 2012 –, algo que a Globo oferece a estrelas da casa como Marília Pêra e Susana Vieira. Na trama de Negócio da China, sua personagem será amiga de Natália do Vale, justamente uma das atrizes que mais a hostilizaram em Páginas da Vida.

Atualmente, Grazi está completamente dedicada à novela. Tem dormido quatro horas por dia, parou de fazer ginástica e suspendeu as sessões de análise. Recusa a maior parte dos convites que recebe – são de vinte a trinta por dia, de propaganda de lava-jato a participação em festas infantis. Só não abre mão de conversar com o gerente do banco. ‘O olho do dono é que engorda o boi’, justifica. Resta saber se todo esse esforço vai corresponder à expectativa da Globo em relação a Negócio da China. A novela veio para quebrar a seqüência de tramas de época e atrair o público jovem para o horário das 6. Com uma história que mistura roubo de cassino na China (daí o nome da novela) a cenas românticas com fartura de lágrimas, o folhetim se saiu bem na estréia. Alcançou 30 pontos de audiência, contra 26 de seu antecessor. Vamos ver ser será mesmo um negócio da China em matéria de ibope. Matéria-prima, ele tem. Chama-se Grazi.’

 

 

Marcelo Marthe

Chico picadinho

‘Técnico legista da polícia de Miami, Dexter Morgan (Michael C. Hall) sente um arrepio de prazer quando um brutamontes musculoso comparece à delegacia onde trabalha. ‘Ele é uma montanha a escalar. Eu preciso tê-lo’, pensa. Não, Dexter não é gay. O desejo que sente pelo fortão é de outra natureza: uma vontade incontrolável de submetê-lo ao que chama de ‘tribunal da faca’. O herói da série americana Dexter, cuja segunda temporada estreou na semana passada no canal pago FX, é um psicopata. Mas não um psicopata qualquer: na infância, ao notar seu pendor para o homicídio, o pai adotivo o adestrou para só matar outros assassinos. Nos seus ‘tribunais’, Dexter amarra as vítimas, tortura-as até confessarem seus crimes – e faz picadinho delas. No livro que deu origem à série, Dexter – A Mão Esquerda de Deus (recém-publicado no Brasil pela Planeta), o personagem confessa que matar é um ‘suave relaxamento’. Dexter perturba porque, apesar de ser o que é, tem-se simpatia por ele. Ainda que seja incapaz de afeto e sinta repulsa por sexo, é um bom irmão, um namorado esforçado e um funcionário valoroso (e a interpretação de Michael C. Hall, de A Sete Palmos, o torna assustadoramente crível). À base de humor negro, coloca-se a maldade em perspectiva.

Tipos perversos, mas sedutores – eis a ambivalência que deu o tom ao melhor da teledramaturgia americana nos últimos anos. O marco dessa tendência é o mafioso Tony Soprano, de Família Soprano. O personagem de James Gandolfini recorria a sessões de psicanálise para lidar com suas angústias existenciais. Mas isso não o impedia de matar parentes e parceiros sem pestanejar. Outros vieram depois dele. Com base na quantidade e na gravidade dos crimes que cometeram, é possível estabelecer até uma certa hierarquia. O médico Gregory House (Hugh Laurie), de House, é preconceituoso e despreza seus pacientes. Isso faz dele um sujeito cruel – mas não hediondo. Caso pior é o de Patty Hewes, a advogada vivida por Glenn Close em Damages. Ela fez chantagem e encomendou o assassinato do cão de uma testemunha e da própria estagiária (nesse caso, foi uma tentativa frustrada). Embora seja horrorosa, Patty não é assassina – detalhe que a torna menos abominável do que o detetive Vic Mackey (Michael Chiklis), de The Shield. O personagem estorque, tortura e mata sem prestar contas à Justiça. No ranking da maldade, está no mesmo patamar de Tony Soprano. Mas ambos perdem para Dexter, o carniceiro.

O público não sente ojeriza por esses personagens pelo fato de eles terem fraquezas humanas. Além disso, a ausência de ética e de sentimentos é sempre relativizada. No início da segunda temporada de Dexter, é o apelo da mãe de um jovem assassinado que desperta nele a ânsia de esquartejar o tal brutamontes. ‘Dexter dá a chance de nos vingarmos das pessoas que burlaram a lei e escaparam ilesas’, disse a VEJA o escritor americano Jeff Lindsay, criador do personagem. Não dá para perder de vista, contudo, que o anjo vingador é um monstro. No capítulo da semana passada, a polícia descobriu os cadáveres de trinta vítimas suas. Estavam no fundo do mar, embalados em sacos plásticos, aos pedaços.’

 

 

***

Bandidos pés-de-chinelo

‘Nos próximos capítulos da novela A Favorita, o malandro Dodi (Murilo Benício) levará uma dura do colega Silveirinha (Ary Fontoura) por ter deixado sua namorada ler uma carta que deveria ficar em segredo. Mas Dodi terá uma desculpa: ‘Você está pensando que eu sou o Al Capone? A gente está no Brasil’. Os dois comparsas da megera Flora (Patrícia Pillar) pertencem a uma categoria à parte no ramo da vilania: os bandidos pés-de-chinelo. Com suas mancadas, Dodi põe em risco as artimanhas de Flora (que só o chama de ‘burro’ e ‘tapado’). Ao bolar o seqüestro fajuto dela e da filha Lara, contratou cúmplices tão amadores que deu tudo errado. Em seguida, torrou o dinheiro do resgate de forma nada discreta: uma mansão no bairro paulistano com o nome de Chácara Flora. Pior de tudo, não evitou que Donatela (Clau–dia Raia) invadisse o local para roubar um DVD que incriminaria a rival. Se Dodi é uma toupeira, Silveirinha é um bajulador ridículo. O mordomo trocou Donatela por Flora como objeto de devoção ao mínimo sinal de que a vilã daria um golpe bem-sucedido na outra. Enquanto Flora rumina seus planos diabólicos, Silveirinha a conforta com chazinho de maçã e macarons.

Esses personagens estão entre os mais comentados pelo público, aponta o noveleiro João Emanuel Carneiro. Com suas trapalhadas, eles aumentam a imprevisibilidade da trama. A partir desta semana, com a entrada em cena do pai escroque de Dodi (o comediante Lúcio Mauro) e de uma irmã encalhada que flertará com Silveirinha, o apelo cômico ficará ainda maior. Ao criá-los, Carneiro tinha em mente os bandidos dos filmes do cineasta Quentin Tarantino. Mas o resultado lembra mais os malfeitores infantilóides da comédia Esqueceram de Mim. Com seu olhar ‘sotúrnico’, Silveirinha está a cara do – bem, do Ary Fontoura. E, debaixo daquelas fantasias de bicheiro, é difícil até saber onde vai Dodi e começa Murilo Benício. ‘Ele está se saindo melhor do que o escrito’, diz Carneiro. De fato: para quem foi escada de um touro de rodeio em América, ser escada de Ary Fontoura é a glória.’

 

 

 

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