Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Veja

30/06/2009 na edição 544

MICHAEL JACKSON
Sérgio Martins

Uma lenda envolta em mistério, dentro de um enigma

‘A música popular americana deu origem a três ídolos incontestáveis no século passado. Frank Sinatra foi… Frank Sinatra.. Elvis Presley foi a cintura e o topete do rock. Michael Jackson, o terceiro, inventou a música pop – e não há exagero nessa afirmação. Ele derrubou uma das últimas barreiras que restavam entre brancos e negros nos Estados Unidos, desde o movimento dos direitos civis nos anos 60. Em vez de música para brancos e música para negros, agora havia sua fusão revolucionária de duas tradições. Jackson elevou formas de dança das ruas à categoria de arte. Assombrou com seu estilo extravagante de se vestir, que definia, afinal, o que é um ícone pop: alguém que vive em um mundo em que as únicas regras a seguir são as próprias regras. Vendeu 750 milhões de discos, 100 milhões deles de Thriller, o álbum de maior sucesso da história da discografia mundial. Na quinta-feira passada, Michael Jackson morreu, aos 50 anos, depois que seu médico e os paramédicos de Los Angeles falharam em ressuscitá-lo de uma parada cardíaca. Estava longe dos palcos havia anos. Era visto como a personificação das deformações que a fama é capaz de imprimir, até mesmo fisicamente, em quem vive dela. Numa paráfrase da frase célebre de Winston Churchill, Jackson continuará sendo uma lenda envolta em mistério, dentro de um enigma. No momento de sua morte, contudo, voltou a ser o que foi na maior parte da vida: um ícone.

O cantor foi socorrido na mansão alugada onde vivia em Los Angeles por volta das 12h20 da quinta-feira. Jackson havia recebido os primeiros cuidados de seu médico particular, Conrad Murray (figura que logo se tornou uma incógnita: ele teve seu carro apreendido pela polícia, que queria interrogá-lo mas não o encontrava; em seguida, veio à tona que onze dias atrás o médico havia anunciado seu desligamento da profissão). Paramédicos o encontraram sem respiração e sem pulso. Levaram-no, em estado de coma, para o hospital da Universidade da Califórnia, a poucas quadras. Mal haviam chegado e a notícia de sua morte iminente – finalmente declarada às 14h26 – já causava comoção global. O tráfego do serviço de microblogs Twitter dobrou. O Google entrou em pane, tantas as buscas. O serviço de mensagens instantâneas da AOL também sofreu um colapso nos Estados Unidos. O iTunes e a Amazon, as maiores lojas virtuais de música do mundo, registraram um aumento extraordinário nas vendas de discos e canções de Jackson. No caso da Amazon, o volume de vendas cresceu incríveis 700 vezes.

A causa exata da morte só deverá ser conhecida em quatro a seis semanas, quando serão divulgados os resultados de sua autópsia. Mas informações vindas de parentes e amigos do cantor sugerem que Jackson vinha abusando de analgésicos potentes. Segundo aventou na sexta-feira o canal de fofocas TMZ, entre eles estaria o demerol, um opiáceo sintético de ação similar à da morfina. Jackson teria tomado uma injeção poucas horas antes da parada cardíaca. Na classe dos opiáceos, só a heroína causa mais dependência que a meperidina, como é chamado o princípio ativo do demerol. Nas primeiras doses, o efeito dura de seis a oito horas. ‘Se ele for consumido todos os dias, bastam duas semanas para o efeito do medicamento durar a metade disso’, diz Irimar de Paula Posso, anestesiologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. A parada respiratória ocorre porque o medicamento diminui a sensibilidade das células do sistema nervoso central que regulam a respiração – a qual vai diminuindo, até causar sonolência. A falta de oxigênio, então, pode culminar em colapso do coração. O cantor começou a usar remédios para a dor em meados dos anos 80. Desde então, teria se tornado dependente deles. Nos últimos tempos, Jackson os estaria tomando em razão de uma lesão numa vértebra e de dores nas pernas produzidas pelo excesso de ensaios: depois de vários anos sem fazer shows e da longa reclusão que se impôs desde que foi absolvido da acusação de abuso sexual de um garoto, em 2005, o cantor estava prestes a retornar ao palco. No próximo dia 13, daria início a uma temporada de cinquenta apresentações em Londres.

No início da década de 80, momento de explosão de Jackson, nem nos confins do planeta se encontraria um adolescente que não tivesse se arriscado a imitar o quase impossível moonwalk, a dança que ele inventou ao fundir a suavidade dos passos de Fred Astaire à agressividade dos dançarinos de break, ou suas coreografias sensacionais, profundamente estilizadas – como aquela mão na virilha que era, ao mesmo tempo, erótica e uma paródia do erotismo. Hoje, não se encontra em lugar nenhum artista pop que não dance no palco à maneira de Jackson: como uma declaração criativa que avança por territórios e sentidos aos quais a letra e a melodia não chegam. Mas essa foi apenas uma das revoluções de Jackson.

As imagens de Thriller, catorze minutos que sempre pareciam curtos demais, cravaram o videoclipe como a forma essencial de veicular uma música e ajudaram a tornar a MTV uma força decisiva entre o público jovem. E o público jovem (com a ajuda decisiva de Walter Yetnikoff, então presidente da CBS, que ameaçou tirar todos os artistas da companhia da MTV caso ela não exibisse Thriller) obrigou a emissora, que antes torcia o nariz para artistas de música negra, a abrir sua programação para eles. Hoje, o rap e o rhythm’n’blues (R&B) são os estilos hegemônicos na emissora.

Jackson desenhou ainda o mapa de comportamento do ícone pop para as décadas seguintes: o artista inacessível que, com suas esquisitices e demandas, causa frenesi entre os paparazzi, aumenta a circulação dos tabloides e leva seus assessores e contratantes à loucura. Pop star que se preze, hoje – e a lista vai de astros ‘normais’ como Madonna, Justin Timberlake e Mary J. Blige a ‘excêntricos’ do quilate de Mariah Carey e Britney Spears –, reza pela cartilha escrita por Jackson. Em uma reflexão que só pode ser feita a posteriori, Jackson foi ainda um exemplo definitivo do soft power, ou a tração que um país exerce por meio de conceitos e ideias. Na primeira parte da década de 80, a economia americana estava às voltas com um dado novo e desconcertante: a ascensão esmagadora do Japão como potência industrial – e dono de uma indústria não mais imitadora, como antes, mas criadora. A Sony japonesa lançou, nesse período, um ícone cultural tão poderoso quanto o próprio Thriller: o walkman, acessório que inaugurou a era da portabilidade da música. Mas os Estados Unidos, se não inventaram o aparelho, tinham a música que se ouvia nele – a de Michael Jackson.

E aí, claro, está a questão crucial para entender Jackson ou qualquer outro artista capaz de alcançar a longevidade na carreira: a música, o epicentro do qual irradiam todos esses tremores culturais e comportamentais. Em razão do aparato industrial e mercadológico que cerca os pop stars, é comum que se pinte com tintas ideológicas a sua existência, acusando-os de serem fabricações. Alguns o são. Outros trazem para o cenário artístico um talento verdadeiro e uma capacidade real de inovação. Descartar Madonna ou Justin Timberlake como ‘produtos’ é só uma forma de não compreendê-los, nem ao mundo em que vivemos; categorizar Jackson como uma fabricação seria um equívoco ainda mais completo.

Ele de fato criou o pop. Até a década de 70, a música jovem se dividia em dois nichos distintos. Havia o rock e suas variações, consumidos principalmente por adolescentes brancos e de classe média. E havia a música negra – soul, funk, disco, rhythm’n’blues –, que era ouvida por negros. Jackson quebrou essa barreira em discos como Off the Wall, de 1979, e Thriller, de 1982, e borrou para sempre a linha que separava os dois universos. Nesses discos, o cantor talhou as linhas de baixo e bateria na medida para as pistas de dança; mas associou-as à vibração característica do rock’n’roll. Até mesmo as origens de um fenômeno social notável entre os jovens americanos, o dos adolescentes brancos que querem falar, dançar e agir como negros, podem ser traçadas diretamente à sua influência.

Descontado Stevie Wonder, que lançou o primeiro disco aos 12 anos, mas cujo apelo nunca residiu no magnetismo ou na dança, Michael Jackson foi o primeiro grande ídolo mirim da música. Nascido em 29 de agosto de 1958 em Gary, no estado de Indiana, desde cedo ele mostrou talento para o canto e a dança. Seu pai, Joseph, que havia tentado a carreira num grupo de rhythm’n’blues, percebeu logo o talento de Michael, bem como de seus outros filhos. Transformou-os no Jackson Five, que ensaiava exaustivamente. Em 1968, o grupo foi contratado pela gravadora Motown, a referência mítica da música negra. A audição do Jackson Five para Berry Gordy Jr., fundador e presidente da Motown, deixa claro que a estrela ali era Michael. No vídeo remanescente do teste, ele canta I Got the Feelin’, de James Brown, e encarna todos os trejeitos do astro do funk – mas com graça própria.

Ao se lançar como artista-solo, em 1971, Jackson já havia aprendido muito sobre composição e produção musical. Teve a sagacidade de, pouco depois, aliar-se ao produtor Quincy Jones, que havia feito carreira no mundo do jazz. Eles colaboraram nos álbuns Off the Wall, Thriller e Bad. Jackson não era ainda o recluso das últimas décadas, mas um artista curioso e vivo. Muitos dos ritmos presentes nesses trabalhos nasceram de suas idas às discotecas, e suas letras vinham repletas das angústias de um rapaz da sua idade. Até 1996, ano em que foi ao Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, e ao Pelourinho, em Salvador, para gravar o clipe de They Don’t Care about Us, Jackson ainda vivia no mundo real. Cada vez mais, porém, ia sendo dominado pelo lado obscuramente infantilizado de sua personalidade, que o levaria, a certa altura, a se isolar em sua bizarra propriedade de Neverland – ou Terra do Nunca, em referência ao lugar em que vivia Peter Pan, o garoto que não queria crescer. Esse Jackson aberrante e patético encobriu o totem da revolução pop. Mas, com a sua morte, ele renasceu.’

 

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Gugu voou

‘Na quinta-feira passada, depois de 35 anos de carreira no SBT, o apresentador Gugu Liberato assinou contrato com a Rede Record. Entre a proposta de casamento da emissora e o ‘sim’ de Gugu, transcorreram três semanas de namoro. Nos domingos 7 e 14, Silvio Santos recebeu o apresentador do Domingo Legal – que um dia foi considerado seu sucessor natural – para discutir seu futuro. Nesses encontros, Silvio reagiu com pragmatismo ao saber que a concorrente acenava com um salário de 3 milhões de reais – no SBT, Gugu tirava, em média, 1,5 milhão por mês. ‘Vai, Gugu. Em lugar nenhum você vai ganhar tanto’, disse. O patrão prometeu pensar numa contraoferta. Advertiu, porém, que o tempo dos salários astronômicos na TV tinha acabado. O que não era bem verdade, como o próprio Silvio Santos demonstraria nos dias seguintes. Na noite da sexta 19, após uma negociação-relâmpago de 48 horas, Silvio fechou com o publicitário e apresentador Roberto Justus, que fez do reality show O Aprendiz o principal trunfo comercial da Record. Justus foi seduzido por ganhos de mais de 1 milhão de reais mensais por quatro anos (veja o quadro). Em seguida, foi a vez de Eliana ceder ao chamado do SBT. Na segunda-feira, ela deixou a Record para ganhar o dobro do que embolsava antes. Finalmente ficou claro que Silvio Santos não cobriria a proposta milionária feita a Gugu – e o loiro voou para o ninho dos bispos. Fazia tempo que não se via tanta movimentação importante na TV brasileira.

A reação de Silvio feriu a Record (enquanto a líder Globo, que acaba de acertar a renovação de Faustão, assistia a tudo de camarote). Mas a verdade é que o bote dos bispos doeu mais. Ainda que Justus seja um ímã de verbas publicitárias, perda de dinheiro não é questão de vida ou morte para a Record, que conta com o bolso amigo da Igreja Universal do Reino de Deus. Quanto a Eliana, a se repetir seu desempenho atual, ela será no máximo um quebra-galho para o SBT aos domingos. Bem mais complicado é encontrar alguém para levar nas costas a programação nesse dia estratégico. E Gugu, bem ou mal, faz isso. Seu Domingo Legal há muito não exibe o vigor do início da década, quando batia a Globo. Mas atrai as classes C, D e E em medida suficiente para manter o SBT à tona nas domingueiras, seu bastião histórico. ‘Silvio mostrou os dentes, mas o mico está em suas mãos’, resume um publicitário.

A Record vinha flertando com Gugu desde 2006, sem sucesso. Desta vez, os bispos ofereceram um pacote irresistível. ‘Nossa briga é com a Globo, e não com o SBT. Tiramos o único nome que restava lá que ainda dava faturamento e audiência’, diz o diretor de programação Paulo Franco. Gugu terá um contrato de oito anos (Silvio era avesso a compromissos tão longos). Dos cenários à produção de reportagens, a rede sinalizou com altos investimentos no futuro Programa do Gugu. Além dos domingos, ele terá um talk-show no Record News (sim, Gugu será o Jô Soares do canal de notícias dos bispos, de audiência pífia). Conforme revelou a pessoas próximas, ele calcula que isso abrirá espaço para que se aposente dos domingos até o fim da próxima década. Católico, Gugu já garantiu aos mesmos amigos: para provar que os bispos lhe deram total liberdade, pretende receber os padres-amigos Marcelo Rossi e Antônio Maria na estreia de seu novo programa. É ver para crer.

Gugu (hoje com 50 anos de idade) andava magoado com Silvio. Nunca engoliu a redução de salário imposta a ele em 2006. No ano passado, ficou chateado porque seu programa não foi mencionado numa campanha institucional do SBT. Silvio, por sua vez, se incomodava em saber que Gugu não tinha mais motivação na emissora. Até a semana passada, a Record não se movia para pagar a multa de 15 milhões de reais que liberaria o apresentador de cumprir o que resta de seu contrato com o SBT. Ou alguém paga, ou Gugu terá de continuar à frente de seu programa até março de 2010, apesar do acordo fechado com a nova emissora. Uma saia justa daquelas. Na quinta-feira, depois que sua saída se confirmou, Silvio pôs no ar uma chamada gaiata. Enquanto Gugu ‘prepara a mudança’, informa ela, seu programa deixará de ser exibido na faixa nobre dos domingos, o fim de tarde, e começará ao meio-dia.

Gugu foi substituído por outro no coração de Silvio. ‘O Silvio me disse: ‘Justus, você é uma unanimidade. Podemos fazer bons negócios’, conta o publicitário. Ele comandará uma gincana com prêmios em dinheiro. ‘Ainda está indefinido, mas será bom. O Roberto Justus não pode fazer nada que não tenha sucesso como O Aprendiz’, diz o próprio Roberto Justus, que parece ter adquirido aquela mania esquisita de falar de si na terceira pessoa. Sabe-se que o bispo Honorilton Gonçalves, mandachuva da Record (e com quem Justus não se bicava), ficou possesso com essa defecção. Já a saída de Eliana não foi tão dolorida. A apresentadora estava com contrato para vencer. Seu salário fora achatado na última renovação e o bispo não queria nem ouvir falar em aumento. Eliana e Justus exigiram que os horários de seus programas fossem estipulados nos contratos com o SBT. Cautela nunca é demais com um patrão como Silvio Santos, conhecido por mudar a grade de programação ao sabor de seus caprichos.

Silvio parece não ter se saciado com as baixas que impôs à concorrência. Seu olho gordo levou a RedeTV! a acelerar a renegociação contratual com a turma do Pânico, que ele gostaria de ver no SBT. Mas seu alvo preferencial, claro, é a Record. Silvio tem ligado pessoalmente para produtores e diretores, oferecendo-lhes o dobro do salário. Por isso, a Record renovou às pressas com a apresentadora Ana Hickmann – que, além de fazer o matinal Hoje em Dia, substituirá Eliana aos domingos. E, ainda, com o âncora Celso Freitas. A emissora, que tanto inflacionou o mercado ao tirar profissionais das concorrentes, agora prova do próprio veneno.’

 

IRÃ
Camila Pereira e Renata Betti

Os tiranos da internet

‘A história mostra que qualquer ditadorzinho de aldeia sabe que sua permanência no poder exige censurar opositores.. Os jornais são asfixiados economicamente ou simplesmente empastelados. As emissoras de televisão passam para as mãos do estado e vivem de cobrir eventos oficiais e de elogiar os mandatários. Mas como censurar a internet, essa rede caótica sem comando central formada por computadores que podem se ligar por cabos, satélites, retransmissores sem fio e cujos usuários têm meios de esconder facilmente sua identidade? A ditadura chinesa já censura a internet com um grau de sucesso apenas relativo. Mais recentemente, esse desafio foi colocado aos ditadores teocratas do Irã. Desde que o povo começou a se manifestar nas ruas contra o resultado fraudado das eleições presidenciais, os aiatolás passam dias e noites tentando cortar as ligações via internet dos iranianos com o exterior.

Como na China, o sucesso dos religiosos nessa tarefa é apenas relativo, apesar de o governo de Teerã controlar a única empresa de telecomunicações do país. No desespero, os homens de turbante chegaram a desconectar a internet por cerca de uma hora. Há suspeita de que a interrupção foi feita para que se instalasse mais um mecanismo de filtragem de mensagens. Esse novo sistema seria ainda mais poderoso do que os usuais censores digitais, já bastante eficientes. Na primeira semana depois da eleição, 82% do tráfego de serviços de trocas de mensagens e arquivos do Irã para o exterior e vice-versa foi bloqueado. As mensagens que conseguiram furar o bloqueio foram as principais fontes de informação e de imagens do que se passava nas ruas da capital iraniana. Talvez a ‘Primavera de Teerã’ seja a primeira evidência de monta de que é impossível para um governo ditatorial nos tempos de internet interromper as correntes de pensamento que ligam seu povo ao resto do mundo.

É digno de nota e de pesar o fato de que os meios técnicos de censura e bloqueio são colocados ao alcance dos ditadores pelas empresas ocidentais de alta tecnologia. ‘Infelizmente, os iranianos no poder dispõem do que há de mais avançado na área’, diz James Cowie, da Renesys, empresa especializada em internet. Normalmente, países que lançam mão de sistemas de censura usam o método de bloquear determinados sites, filtrando o acesso a eles com base em domínios da internet (o nome digitado na barra de endereços do navegador, como ‘google.com’) ou IPs (códigos numéricos que identificam computadores dentro de uma rede e, com isso, permitem dizer, ao menos em tese, qual é a origem de certa informação). A essa tecnologia, o Irã somou no último mês um novo tipo de filtro, bem mais restritivo.

Desenvolvido em parceria pela finlandesa Nokia e pela alemã Siemens, dois gigantes da tecnologia, o novo filtro faz varreduras inclusive em e-mails e mensagens postadas em blogs, em busca de palavras ‘perigosas’. Quando se localiza um termo proibido, a transmissão é interrompida e a pessoa recebe uma mensagem de erro. O método é conhecido como ‘deep packet inspection’ (literalmente, inspeção profunda de pacotes, nome dado a um fluxo digitalizado de informações). Ele consegue interceptar até mesmo telefonemas feitos a partir de programas como o Skype. Piora o cenário outra novidade que o Irã implementou recentemente: um segundo sistema de filtros instalado na empresa de telecomunicação estatal. Dessa forma, tudo o que circula pela rede do país é checado em dobro – um avanço até em relação ao severo controle realizado na China.

Não é a primeira vez que grandes companhias contribuem com governos autoritários para restringir a livre circulação de dados na internet. Google, Cisco e Yahoo! já foram acusados de colaborar com a censura, especialmente na China, outro país em que a liberdade de expressão está sob forte repressão (veja o quadro). Em 2006, o Google ajustou o seu sistema de busca para bloquear expressões proibidas pelo governo chinês. Uma pesquisa, por exemplo, por ‘massacre da Praça da Paz Celestial’ resulta em erro. A modificação aconteceu depois de constantes interrupções no acesso ao buscador na China. À época, a empresa alegou que era melhor filtrar algumas informações do que não oferecer nenhuma. O argumento é recorrente. Em 1999, a empresa finlandesa Nixu ajudou a implantar a internet na Arábia Saudita. O pacote incluiu desenvolver e instalar filtros de conteúdo na rede. Diz Timo Kiravuo, que participou do projeto: ‘Concluímos que era isso, ou a população saudita não teria acesso a nada’. É óbvio também que, nesse caso, as empresas estão pensando em negócios. Um mercado como o da China, por exemplo, que hoje já é o país com o maior número de pessoas conectadas no mundo, não pode simplesmente ser ignorado por um gigante do setor.

Apesar dos avanços da tecnologia que censura a internet – e da falta de pudor de governantes para fazer uso de tais recursos -, os regimes autoritários continuam perdendo a batalha pelo controle exclusivo da informação. Em parte, isso se deve ao caráter colaborativo da rede, que permite que pessoas do mundo inteiro ajudem os iranianos a espalhar sua mensagem. A velocidade com que o vídeo do assassinato da jovem Neda Agha-Soltan rodou o planeta é um exemplo claro dessa nova forma de resistência. O mesmo se viu com o esforço de fazer chegar ao Irã números válidos de proxies, ou ‘servidores substitutos’: localizados na Europa, nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil, eles intermedeiam as operações realizadas pelos computadores iranianos e permitem, até certo ponto, driblar a censura (veja o quadro). Essa tem sido a estratégia mais utilizada no país para furar os bloqueios. Diz Jillian York, coordenadora de pesquisas da OpenNet Initiative, organização internacional que monitora a censura nos meios digitais: ‘Felizmente, quem usa a internet costuma estar um passo à frente de quem quer controlá-la. E esse é, sem dúvida, um novo obstáculo para os governos ditatoriais’.’

 

 

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