Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Veja

05/05/2009 na edição 536

LEI DE IMPRENSA
Diego Escosteguy

Um fóssil se vai

‘Os onze ministros do Supremo Tribunal Federal encerraram na noite da última quinta-feira um capítulo da história do país. Por uma maioria de sete votos, o STF decidiu extinguir a Lei de Imprensa, um fóssil que remontava aos tempos do regime militar e cujo objetivo era silenciar jornais e revistas. Editada em 1967 pelo marechal Humberto Castello Branco, a norma deu aos militares o controle maior do noticiário político do país, de modo que a população não fosse informada sobre os crimes praticados sob os auspícios da caserna – que iam desde casos prosaicos de corrupção no governo até a tortura e execução de líderes oposicionistas. A lei previa medidas execráveis como a prisão de jornalistas. ‘Não há nada mais nocivo do que um estado tentar controlar a opinião e o pensamento’, resumiu o ministro Celso de Mello ao votar a favor da extinção total da lei. Quarenta e dois anos depois, os ministros do Supremo sepultaram o último símbolo desse longo inverno.

‘O STF reconheceu o direito do povo de ter acesso à informação e de, portanto, fiscalizar o poder, conforme diz a Constituição’, comemorou o deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio de Janeiro. Deve-se a uma ação proposta por Miro o debate que o Supremo travou na semana passada. Em fevereiro do ano passado, ele pediu ao STF a extinção da Lei de Imprensa. O argumento era simples: um dos artigos da Constituição proíbe a existência de qualquer lei para regular a imprensa. Um dos pontos polêmicos debatidos ao longo do julgamento foi o direito de resposta. A extinta Lei de Imprensa previa, em um de seus artigos, a obrigatoriedade de os veículos de comunicação concederem espaço para a defesa de pessoas supostamente prejudicadas por uma determinada notícia. Como o espírito da lei era exatamente o de constranger, esse direito vinha sendo utilizado de maneira desproporcional, mesmo em ambiente democrático, sempre acompanhado de pesadas multas às empresas jornalísticas como arma para tentar intimidar profissionais e empresários do setor. Com a lei extinta, sobram dois caminhos, para além de uma autorregulamentação mais rígida: não criar legislação especial para regular o imperativo constitucional do direito à informação ou aprovar uma lei que discipline essa questão. O segundo caminho seria mais recomendável. Se é verdade que a antiga Lei de Imprensa não passava de um entulho, também é fato que não se pode cair num ambiente de incerteza jurídica que coíba o trabalho de uma imprensa livre e vigilante.’

 

PERFIL
Bel Moherdaui

A fera entre as belas

‘O que exatamente faz um diretor de estilo e moda, figura imprescindível em desfiles, revistas e campanhas? ‘Minha função é providenciar uma alternativa às reportagens sobre assassinatos e escroques que roubam fortunas, é criar a opção escapista, mostrar aquilo que as pessoas almejam’, descreve o inglês Michael Roberts, 61 anos, justamente um dos mais requisitados diretores de moda e estilo, cargo que ocupa na revista Vanity Fair e que também desempenha em trabalhos avulsos para publicações e estilistas mundo afora. E no entanto Roberts é a antítese do que se espera de alguém que vive de lidar com moda: discretíssimo, fala baixinho, ri pouco e não faz nada que chame atenção para a sua imensa pessoa – 1,90 metro que parece maior de terno claro, listadinho. Nem precisa, como mostra seu impressionante currículo. Roberts conhece todas as celebridades, da moda e do cinema, pelo lado dos bastidores. Morou na casa da diaba Anna Wintour, deu palpite em cada frufru das fotos que apresentaram Suri Cruise ao mundo e foi o responsável pelas roupas vestidas e desvestidas na primeira imagem sensual (sem querer, sem querer) da atriz-cantora Miley Cyrus quando ela, aos 15 anos, ousou mostrar um pedaço das costas. O trabalho mais memorável, na própria conta, foi uma sessão de fotos de março de 2007, meses depois que deixou a redação da revista New Yorker, onde trabalhou nove anos, para voltar à Vanity Fair. Encarregado de recriar o clima de um filme noir em fotografias, comandou um elenco com quarenta das maiores estrelas de Hollywood. A chuva de egos incluiu Jack Nicholson, Robert De Niro, Sharon Stone, Penélope Cruz e Julianne Moore, o aluguel do maior galpão da Universal Studios em Los Angeles, uma tempestade artificial e a badalada fotógrafa Annie Leibovitz. O orçamento, inimaginável para os atuais tempos de crise, chegou a seis dígitos. ‘Em determinado momento, tínhamos a Helen Mirren, de salto alto, no topo da escada de incêndio de um hotel, e uma chuva torrencial, de verdade, caindo. O agente dela gritava, enlouquecido, para eu tirar a mulher dali’, relatou ele a VEJA.

Sobre o encontro de duas almas intensamente controladoras, a dele e a de Annie, Roberts admite: saem faíscas. ‘Ele tinha mania de querer colocar chapéu em todo mundo. Foi uma batalha’, espeta a fotógrafa no texto de apresentação do ensaio noir. Ao que Roberts rebate: ‘Se você já assistiu a um filme noir, sabe que as pessoas estão sempre de chapéu. Já ela cismou de colocar um carro anos 60 em um dos cenários. Disse que era o pequeno ingrediente que fazia diferença na foto. Até hoje não estou convencido’. Segundo Roberts, ‘sair para trabalhar com Annie é como ir para uma batalha. Tenho de convencê-la de que a ideia é boa e que ela é a pessoa certa para realizá-la’. Justiça seja feita, no mesmo texto a fotógrafa também é pródiga em elogios: ‘Michael é muito mais que um diretor de moda. Ele é um gênio quando se trata de roupas’.

Nascido em Buckinghamshire, nos arredores de Londres, Roberts é o que se espera de um inglês típico: tem boas roupas, maus dentes e humor levemente autodepreciativo. ‘O problema foi ter entrado na lista dos mais bem vestidos. Nunca mais pude relaxar’, brinca. Perguntado sobre a aura de genial, diz que o adjetivo anda desvalorizado ‘e é usado hoje até para descrever cachorros’. Ao contrário da formação vaga de muitos colegas, fez faculdade de artes e começou como crítico de moda. Além de dirigir ensaios fotográficos, atua como ilustrador, artista plástico e fotógrafo. Já dirigiu (em fotos, claro) a rainha Elizabeth, no Palácio de Buckingham, e Carla Bruni, no Eliseu. ‘O próximo passo é fotografar na Casa Branca. E não só Michelle.’ Na Vanity Fair, é ele que monta, desmonta e arrasta pelo cenário, em geral tão suntuoso quanto as roupas, atrizes como Emily Blunt, Jessica Biel e Cate Blanchett. Se o glamour sobrevive, o orçamento definitivamente encolheu: a locação do ensaio do número de maio da revista, baseado no filme Ligações Perigosas, foi um castelo um tanto alquebrado perto de Paris. ‘Mas cada furo nos tapetes e nas cortinas e cada janela quebrada foram muito bem compensados pelos maravilhosos vestidos de alta-costura’, descreve. ‘Ele é multiuso. Cuida de tudo, tem ideias incríveis e muito bom gosto. É uma pessoa que se pode chamar para cuidar de toda uma escola de samba, uma ópera’, elogia o amigo publicitário Nizan Guanaes.

A ligação com o Brasil nasceu de uma sugestão da falecida editora de moda inglesa Isabella Blow, que foi sua assistente e amiga. Ultimamente suas visitas, mesmo quando planeja dar um tempo e visitar os amigos, têm sido casadas a trabalhos para grifes e revistas nacionais. Um dos mais recentes é um conjunto de três ensaios para a revista Wish Report de maio, fotografados no Rio com as modelos Raica e Isabeli Fontana e um time de garotões malhados. ‘Ele acordava às 4 da manhã e punha todo mundo para trabalhar’, descreve o diretor da revista, João Carlos Camargo. ‘Desenhou o sapato cor-de-rosa usado por Isabeli e ligou para o Manolo Blahnik fazer do jeito que queria. Em 48 horas, estava aqui no Brasil. Tem um poder impressionante.’ Roberts está ‘sozinho no momento’ e vive viajando. Aluga apartamento em Paris e, nos outros lugares, hospeda-se em hotéis e na casa de amigos. Fitinha do Bonfim no pulso, pensa em comprar uma casa no Brasil, cenário de seu próximo livro (o oitavo), Tudo Bom, Tudo Bem – esta, uma das poucas expressões em português que aprendeu nestes nove anos de idas e vindas; também sabe perguntar ‘Tem aipim?’ e fica indignado quando ouve um não –, mas confessa certo receio: ‘Quando o lugar é bonito, muita gente quer vir ficar com você’. De beleza ele, definitivamente, entende.’

 

TELEVISÃO
Marcelo Bortoloti

E não é que ele é mesmo engraçado?

‘Quando criança, Tony Ramos queria ser comediante. Pintava um bigode no rosto para imitar os trejeitos de Jânio Quadros, era fã de Jerry Lewis e dizia que um dia seria igual a Oscarito. Não foi escolha sua a trilha de galã certinho e bem-comportado construída ao longo de 45 anos de televisão, primeiro na TV Tupi e mais tarde na Rede Globo. Mas esse tipo, que o tornou um dos atores mais queridos do Brasil, lhe caiu bem desde o início. E, embora tenha feito algumas incursões pela comédia, Tony acabou sendo levado a uma opção até exagerada pelo bom-mocismo na TV. Nas quarenta novelas em que atuou, ele só foi vilão duas vezes – e vilão arrependido, regenerado no fim da trama. O que nem ele esperava é que, aos 60 anos, sua carreira desse uma guinada justamente em direção à comédia. Depois do estouro de Se Eu Fosse Você e Se Eu Fosse Você 2 (este, com 6 milhões de espectadores, é a maior bilheteria do cinema brasileiro nos últimos vinte anos), em que troca de papel com Glória Pires, Tony fez de Opash, de Caminho das Índias, um dos personagens mais marcantes e divertidos da trama de Glória Perez.

Opash, pai do protagonista Raj (Rodrigo Lombardi), é um comerciante indiano sério, apegado a valores tradicionais, que sofre um choque cultural fenomenal ao desembarcar no Brasil para tentar contornar o rolo em que o filho se meteu ao engravidar Duda (Tania Khalill), a namorada que foi trocada por Maya (Juliana Paes). Numa cena exibida há duas semanas, Opash foi a uma boate no Rio de Janeiro acompanhado por Chiara (Vera Fischer) e acabou tirado para dançar por duas mulatas em trajes mínimos. O misto de constrangimento, espanto e encantamento de Opash ao combinar estranhíssimos passos de ‘samba’ com gestos de dança indiana resultou em um dos melhores momentos da novela até agora, com toques que fazem lembrar Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão. Nos capítulos que estão no ar, Opash já retornou à Índia, mas o humor resultante do choque cultural continua em evidência, como nas cenas em que ele mostrou as fotos da viagem à sua mulher, Indira, tentando convencê-la de que acha muito normal a quase nudez das brasileiras. A vida do personagem vai passar por uma reviravolta, quando ele descobrir que é filho de seu arqui-inimigo Shankar (Lima Duarte), uma situação que porá em xeque todas as suas convicções. Mas o viés cômico será mantido, inclusive com outras viagens ao Brasil, onde é possível explorar de forma mais saborosa o choque cultural.

Tony Ramos é bom em contar casos e piadas, o que se orgulha de fazer ‘com a alma’, em sua própria definição. Isso exige um timing preciso, que o ator usa muito bem em cenas cômicas. Mas a chave de seu humor é o que o diretor Daniel Filho, de Se Eu Fosse Você, define como ‘construção minimalista’ e o próprio ator resume ao explicar por que o episódio da boate ficou tão engraçado. ‘O texto era bom, eu não precisava carregar nas tintas’, diz. Essa economia, que impede a transformação do que é cômico em algo simplesmente caricatural, torna-se possível pela minúcia com que Tony constrói seus personagens. No caso de Opash, por exemplo, a forma de olhar as pessoas quando chegou ao Brasil foi inspirada no olhar curioso e um tanto ingênuo que os técnicos indianos dirigiam à equipe da Rede Globo durante o período de gravação na Índia. O cabelo, com fios longos e gel, foi copiado dos comerciantes de tecido que ele conheceu no país. (Até o jeito de falar envolve uma teoria, que nem é o caso registrar: sotaque em novela da Globo é sempre aquela maluquice, não importa quem seja o ator). O mesmo método foi usado na construção do Cláudio de Se Eu Fosse Você. Para não converter o personagem num travesti, Tony Ramos estudou inicialmente a maneira de andar e de falar da atriz Glória Pires, com quem faz par no filme e em quem se transforma. Em seguida, passou a observar atentamente os trejeitos de sua mulher, Lidiane, com quem vive há quarenta anos. ‘Fui estudando o jeito como ela fala com os cachorros, treinando gestos mais delicados’, conta o ator, afinando a voz para demonstrar ao repórter de VEJA como chegou ao personagem. ‘Tony tem timing e inflexão. Poderíamos regravar todos os filmes do Oscarito com ele no papel principal que seria um sucesso’, diz o humorista Chico Anysio, que também atuou no filme.

Tony Ramos diz que seu conhecimento da televisão brasileira o qualificaria para um trabalho nos bastidores, como executivo – ou ainda como autor de novelas (uma ambição que parece realmente acalentar). É improvável que a Globo o estimule a passar para o outro lado. Ele pertence à primeira linha de atores da emissora, com salário mensal de 60 000 reais, mais 40% de bonificação quando está no ar (seu cachê em Se Eu Fosse Você 2 foi algo em torno de 80 000 reais). Tal qual um personagem do noveleiro Manoel Carlos, ele mora no Leblon. Anda sempre a pé pelas ruas e procura conversar com fãs que o abordam. Boa-praça, falante, Tony dificilmente perde o bom humor. Não vê o menor problema nas incontáveis piadas sobre seu corpo peludo, inclusive as do Casseta & Planeta que, parodiando o personagem Miguel, em Laços de Família, mostravam a empregada varrendo os pelos do sofá da casa de Helena (Vera Fischer) após uma cena de amor. Só uma coisa o irrita: quando a imagem de cidadão respeitável, que marcou seus personagens, e que cultiva em sua vida pessoal, é associada a um sujeito chato e sem humor. ‘Em casa, ele é um cara superengraçado’, diz Lidiane. Agora dá para acreditar.’

 

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