Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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17/10/2006 na edição 403

ELEIÇÕES 2006
Roberto Pompeu de Toledo

Imagens e figuras do nosso tempo

‘Aviões que batem em arranha-céus, debates eleitorais na TV, candidentes e presidatos

Repetiu-se na semana passada, e ainda por cima em Nova York, a imagem de um prédio atingido por avião. Arranha-céus atingidos por aviões viraram a imagem por excelência do terror em nossa era. Outros eventos podem até produzir mais vítimas, mas não serão tão impressionantes. Fica-se pensando se os EUA iriam à guerra, em seguida ao 11 de setembro de 2001, não fosse a imagem. Osama bin Laden não entrou para a história só como o autor de um dos maiores atentados terroristas. Também ficou com o supremo prêmio do marketing terrorista. Este é um tempo de velocidade e de urgência. Quanto mais venham as coisas compactadas numa imagem-síntese, mais efetivas.

Um arranha-céu e um avião são símbolos dessa coisa que no século XX, com o fátuo entusiasmo dos deslumbrados e a imodéstia dos que supõem que nada poderia vir depois, foi chamada de ‘modernidade’. Até o século XIX, sem este esquecido mas fundamental artefato do progresso que é o elevador, os prédios não passavam dos seis andares, e objetos voadores eram rústicos como a passarola do padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Um avião e um arranha-céu com o qual ele se choca, destruindo-se ambos mutuamente, compõem a imagem da ‘modernidade’ devorando e aniquilando a si própria – tanto mais impressionante quanto, como no 11 de Setembro, produzida em nome de ideais da Idade Média. O caso da semana passada não passou de acidente, e não morreram senão os dois ocupantes de um pequeno avião. Mas a imagem estava lá. Um buraco foi aberto no 30º andar de um sólido gigante de 42 andares. Chamas se seguiram. São o buraco e as chamas que assombram nosso tempo.

• • •

Debates na TV entre candidatos a presidente também são um marco do nosso tempo. Neles se concentra a expectativa de que uma eleição apertada enfim se defina. Não só os contendores ali se apresentam finalmente reunidos, cara a cara. Mais importante é que o fazem em frente às câmeras da televisão, sem cuja presença nem a imagem de um avião contra um arranha-céu, por mais simbólica e trágica que seja, valeria o que vale. O problema é que, no Brasil como alhures, ainda não aconteceu de um candidato dar um soco no outro. Nem de um candidato, diante da irrespondível argumentação do adversário, apresentar sua rendição, ao vivo e em cores: ‘Você tem razão. Eu estava equivocado. Agora não há mais dúvida de que você é o melhor. Eu mesmo lhe darei meu voto’.

Na ausência de desfechos semelhantes, os debates deixam mais sombras do que certezas. Mesmo o mito fundador dos debates televisados, o de John Kennedy contra Richard Nixon, em 1960, hoje se esfumaça na dúvida. Nixon na verdade foi melhor, reza uma das vertentes revisionistas. Kennedy teria ganho com ou sem debate, pois já tinha empolgado o país, reza outra. Durante muito tempo, o deslumbramento com o novo veículo obscureceu o julgamento sobre a efetiva capacidade de o debate televisado determinar o resultado da eleição.

Na versão piedosa, o debate é apresentado como a melhor ocasião de os candidatos definirem seus programas. Tal justificativa esconde o verdadeiro propósito, que é pugilístico. Alguns debates acabam descambando mesmo para uma exposição de programas, e com isso afundam no tédio, tão mais acentuado quanto os candidatos se mostrem dispostos a se enquadrar naquilo que os apresentadores chamam de ‘alto nível’. Outros conseguem encaixar-se na desejada categoria de pugilísticos. Foi o caso do debate entre Lula e Alckmin na Rede Bandeirantes. Por isso mesmo foi considerado um sucesso por seus promotores. O pugilato teve um resultado claro: Alckmin venceu. Lula saiu massacrado. O problema é que…

…será que o vencedor venceu? Ou, por outra: será que uma vitória incontestável como a de Alckmin, que encurralou o adversário, chamou-o de mentiroso e acusou-o de corrupto, tudo sem respostas convincentes, vale o cinturão de ouro, como as vitórias dos campeões do boxe? Ou teria ele ultrapassado a linha a partir da qual a pancadaria desloca as simpatias para a vítima? O que para alguns se desenrolou como empolgante duelo para outros pode ter soado tão constrangedor como uma briga entre dois convidados na sala de sua casa.

• • •

O leitor Marcos Ambrogi observa que o instituto da reeleição, tal qual concebido, ‘num devaneio monárquico’, por Fernando Henrique Cardoso, legou-nos duas figuras ambíguas, reunidas na mesma pessoa: o candidente e o presidato. Ou, para ser mais claro, o candidato-presidente e o presidente-candidato. ‘Quando o candidente sobe num palanque permite-se não importa o quê, posto que candidato’, argumenta o leitor. ‘Quando o presidato é acossado por suas trapaças e seus ‘não sabia’, isso passa a ser considerado ofensivo ao presidente.’ O leitor pede encarecidamente que se esclareça qual o critério, qual a senha a que se deve agarrar o observador para saber, em cada momento, se está diante do candidente ou do presidato.’



INTERNET
Marcelo Marthe

O Youtube faz a alegria do Google

‘Na semana passada, o Google, o serviço de busca mais popular do mundo, desembolsou 1,65 bilhão de dólares para adquirir o site de vídeos YouTube. A compra é significativa por dois motivos. Primeiro, por dar uma medida da importância que a busca e a exibição de vídeos terão, daqui para a frente, na internet. Hoje, 200 milhões de vídeos são vistos diariamente na rede, metade deles no YouTube, mas projeções indicam que esse mercado crescerá dez vezes até 2010. A compra também foi a ação de mercado mais agressiva do Google desde que suas ações passaram a ser negociadas no pregão da bolsa, dois anos atrás. A empresa já havia adquirido negócios menores, mas nunca um peixão (num reconhecimento implícito de que não tem o monopólio das boas idéias). Venceu concorrentes como o Yahoo! e a News Corp., do magnata Rupert Murdoch, que também cobiçavam o YouTube. Consolidou, ainda, uma vantagem em relação à Microsoft, que decidiu investir numa ferramenta própria e ‘mais avançada’ de troca de vídeos. Ao comprar o YouTube, o Google não obteve só tecnologia: levou também uma marca forte e uma comunidade fiel de usuários.

Fundadores do YouTube, os americanos Chad Hurley e Steve Chen comemoraram a venda como convinha: veicularam no site um clipe em que agradecem aos usuários e caem no riso. Não à toa, claro. O YouTube foi criado há menos de dois anos. Até a semana passada, contava com 65 funcionários e tinha sede na sobreloja de um restaurante em San Bruno, na Califórnia. Nesse cenário modesto, gestou a explosão do vídeo na internet.

O Google não aposta no lucro imediato, pois o YouTube trabalha no vermelho. O site tem custos de operação altíssimos e sobrevivia graças aos 11,5 milhões de dólares injetados por um fundo de capital de risco. Mas não há dúvida de que o Google ganha muito com sua aquisição. Passa de um papel secundário (seu serviço similar, o Google Video, está bem atrás do YouTube) à condição de protagonista na área, credenciando-se como parceiro preferencial dos estúdios de cinema e das redes de TV americanas na corrida ao vídeo na internet.

A compra traz ainda outra vantagem. Com oito anos de idade, o Google já é um veterano para os padrões da internet. Ao unir-se ao YouTube, amplia sua sintonia com os usuários da ‘nova internet’ (veja o quadro). O Google dá, por fim, um passo na direção do futuro de seu próprio negócio: a busca de imagens. Hoje, os buscadores localizam um vídeo na internet com base em textos que descrevem seu conteúdo. Tecnologias de reconhecimento de sons e expressões faciais deverão revolucionar isso. ‘Com o YouTube, o Google ganha um campo de testes de valor inestimável’, diz o especialista Marcello Póvoa.

Para os céticos, o preço alcançado pelo YouTube é um sintoma de ‘exuberância irracional’ na internet. De fato, o Google terá desafios para fazer valer seu investimento. Um deles é como faturar com o site sem melindrar usuários avessos à propaganda. O YouTube recentemente fechou acordos com as gravadoras Universal e Sony BMG, além da rede de TV americana CBS. Mas busca uma fórmula eficiente de veicular publicidade. Resta ainda outra interrogação: como respeitar direitos autorais num serviço calcado na informalidade? O Google será um alvo tentador para processos indenizatórios. Nada disso anula o fato de que o momento atual conspira a favor do YouTube. Anos atrás, a indústria do entretenimento reagiu com força bruta à troca de músicas na rede. Agora, na vez do vídeo, parece querer assumir uma atitude mais conciliadora: em vez de ver o meio como inimigo, busca aliar-se a ele. Sabe que é um caminho sem volta.

Questão de etiqueta

Comprado na semana passada pelo Google, o site YouTube representa uma nova cultura da internet. Eis os mandamentos dessa geração

1 NÃO TENTE COBRAR

A livre circulação de informação é um valor caro aos novos usuários da internet. Como eles debandam ao menor sinal de que o acesso não é gratuito, introduzir serviços pagos é uma tarefa inglória

2 NÃO TENTE FAZER PROPAGANDA

São consumidores avessos à publicidade tradicional, por julgá-la intrusiva. Para atingi-los, as empresas apostam no marketing viral: as propagandas são calculadamente disfarçadas e se espalham na base do boca-a-boca

3 NÃO IMPONHA REGRAS

A autogestão é sagrada. Os sites são, antes de tudo, ferramentas que permitem ao usuário acessar, armazenar e compartilhar o conteúdo de seu interesse quando e com quem quiser

4 EVITE O TOM ‘OFICIAL’

Eles desconfiam das fontes de informação tradicionais. Ao investigar um assunto, o usuário típico preferirá um meio alternativo como a Wikipedia à Enciclopédia Britânica, por exemplo’



TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Estranhas no ninho

‘Exibido nas noites de terça-feira da Rede Record, o programa Troca de Família oferece ao espectador uma curiosa experiência antropológica. Por uma semana, duas mulheres mudam-se para a casa uma da outra e assumem as responsabilidades perante seu marido e seus filhos. Ao fim do processo, acompanhado pelas câmeras do nascer do dia à hora de dormir, a forasteira tem de decidir como será gasto o prêmio de 25.000 reais a que a família tem direito. A atração é mais um reality show que faz dos conflitos familiares a sua pedra de toque (vertente na qual se inclui ainda o Super Nanny, do SBT, em que uma babá socorre pais em apuros). Trata-se da versão brasileira de um sucesso da rede americana Fox, que por sua vez se inspira num similar produzido pelo Channel Four inglês. Como a graça está em observar as mães e suas novas famílias se estranharem, há o cuidado de misturar gente de origem, classe social e comportamento radicalmente diferentes. No primeiro caso apresentado, uma dondoca trocou de lar com uma artista de circo. Ao constatar a precariedade do ônibus em que esta última vive, a emergente Rozania esboçou uma cara de choro. ‘Vamos ver se a madame sabe varrer o chão’, ironizou o palhaço Pingolé, seu marido postiço – um rematado machista. Enquanto isso, a trapezista Elaine tentou pôr os filhos adolescentes da outra na linha. Um dos garotos não deu moleza: ‘Se ela pegar no meu pé, vai quebrar a cara’.

O espectador se identifica com esse tipo de programa porque se vê diante de questões com as quais tem de lidar diariamente – e, claro, a uma distância segura para se divertir de camarote com os defeitos de terceiros. Famílias certinhas são confrontadas com outras que tratam a gestão doméstica de forma, digamos, mais relaxada. Numa história que irá ao ar em breve, a chegada de uma baiana disciplinada à casa de uma artista plástica riponga de São Paulo provoca grande mal-estar, já que a nova mãe se enoja do desmazelo e do fato de o gato de estimação fazer sujeira na cozinha. ‘Se você acha que somos porcos, problema seu’, diz-lhe o marido. Num programa que oporá um clã de surfistas cariocas a um casal paulistano obcecado por organização, o atrito também é imediato. Ao tentar impor suas manias ao lar desencanado, a mãe de São Paulo arranja encrenca até com a empregada.

Outro ponto de tensão é a relação com os filhos. Na história que está em exibição no momento, uma roqueira troca de papel com uma caipira. Embora cause espanto pelo topete vermelho e pelas tatuagens, Izabel revela-se uma mãe em moldes tradicionais, que se dá bem ao corrigir o comportamento da filha mimada do casal. A interiorana Angélica não tem a mesma sorte. Desentende-se com o filho rebelde da outra e decide doar a parte do prêmio que daria a ele a uma instituição de caridade. Foi o suficiente para minar qualquer chance de amizade entre os clãs depois do programa. ‘A Angélica agiu com prepotência e não acrescentou nada de bom a minha família’, diz Izabel. Em tempo: a punição infligida por Angélica não teve efeito prático. Embora o programa venda a idéia de que o dinheiro será utilizado de acordo com a vontade da mãe substituta, a Record o entrega diretamente à família e não fiscaliza os gastos.

Troca de Família tem obtido 10 pontos de média, ibope satisfatório para depois das 10 da noite. Funcionaria melhor, é verdade, se as histórias não se prolongassem por dois episódios (como, de resto, se dá no original da Fox). Apesar desse porém, é um experimento social dos mais interessantes. Comparar o comportamento das famílias brasileiras ao das inglesas submetidas à mesma fórmula é um exercício revelador. Na Inglaterra, a tônica é a do confronto aberto, já que os maridos e filhos não fazem concessões para assimilar a nova mãe, e vice-versa. No Brasil, as coisas tendem a se encaminhar para um final conciliatório. Nem que seja só de fachada, frise-se. Depois das rusgas, as pessoas contemporizam – mas nem por isso deixam de falar poucas e boas da intrusa, tão logo se livram dela. Outra diferença: enquanto no programa inglês a aceitação da nova mãe depende da reação do marido, no brasileiro isso é definido pelo comportamento da própria recém-chegada. Por mais machistas ou exigentes, os homens acabam se sujeitando à matriarca de plantão. Ao contrário do que esperava Pingolé, a dondoca que acampou em sua casa não moveu uma palha para fazer limpeza ou comida. O palhaço ficou triste – mas se conformou.’



******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

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Imagens e figuras do nosso tempo

‘Aviões que batem em arranha-céus, debates eleitorais na TV, candidentes e presidatos

Repetiu-se na semana passada, e ainda por cima em Nova York, a imagem de um prédio atingido por avião. Arranha-céus atingidos por aviões viraram a imagem por excelência do terror em nossa era. Outros eventos podem até produzir mais vítimas, mas não serão tão impressionantes. Fica-se pensando se os EUA iriam à guerra, em seguida ao 11 de setembro de 2001, não fosse a imagem. Osama bin Laden não entrou para a história só como o autor de um dos maiores atentados terroristas. Também ficou com o supremo prêmio do marketing terrorista. Este é um tempo de velocidade e de urgência. Quanto mais venham as coisas compactadas numa imagem-síntese, mais efetivas.

Um arranha-céu e um avião são símbolos dessa coisa que no século XX, com o fátuo entusiasmo dos deslumbrados e a imodéstia dos que supõem que nada poderia vir depois, foi chamada de ‘modernidade’. Até o século XIX, sem este esquecido mas fundamental artefato do progresso que é o elevador, os prédios não passavam dos seis andares, e objetos voadores eram rústicos como a passarola do padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Um avião e um arranha-céu com o qual ele se choca, destruindo-se ambos mutuamente, compõem a imagem da ‘modernidade’ devorando e aniquilando a si própria – tanto mais impressionante quanto, como no 11 de Setembro, produzida em nome de ideais da Idade Média. O caso da semana passada não passou de acidente, e não morreram senão os dois ocupantes de um pequeno avião. Mas a imagem estava lá. Um buraco foi aberto no 30º andar de um sólido gigante de 42 andares. Chamas se seguiram. São o buraco e as chamas que assombram nosso tempo.

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Debates na TV entre candidatos a presidente também são um marco do nosso tempo. Neles se concentra a expectativa de que uma eleição apertada enfim se defina. Não só os contendores ali se apresentam finalmente reunidos, cara a cara. Mais importante é que o fazem em frente às câmeras da televisão, sem cuja presença nem a imagem de um avião contra um arranha-céu, por mais simbólica e trágica que seja, valeria o que vale. O problema é que, no Brasil como alhures, ainda não aconteceu de um candidato dar um soco no outro. Nem de um candidato, diante da irrespondível argumentação do adversário, apresentar sua rendição, ao vivo e em cores: ‘Você tem razão. Eu estava equivocado. Agora não há mais dúvida de que você é o melhor. Eu mesmo lhe darei meu voto’.

Na ausência de desfechos semelhantes, os debates deixam mais sombras do que certezas. Mesmo o mito fundador dos debates televisados, o de John Kennedy contra Richard Nixon, em 1960, hoje se esfumaça na dúvida. Nixon na verdade foi melhor, reza uma das vertentes revisionistas. Kennedy teria ganho com ou sem debate, pois já tinha empolgado o país, reza outra. Durante muito tempo, o deslumbramento com o novo veículo obscureceu o julgamento sobre a efetiva capacidade de o debate televisado determinar o resultado da eleição.

Na versão piedosa, o debate é apresentado como a melhor ocasião de os candidatos definirem seus programas. Tal justificativa esconde o verdadeiro propósito, que é pugilístico. Alguns debates acabam descambando mesmo para uma exposição de programas, e com isso afundam no tédio, tão mais acentuado quanto os candidatos se mostrem dispostos a se enquadrar naquilo que os apresentadores chamam de ‘alto nível’. Outros conseguem encaixar-se na desejada categoria de pugilísticos. Foi o caso do debate entre Lula e Alckmin na Rede Bandeirantes. Por isso mesmo foi considerado um sucesso por seus promotores. O pugilato teve um resultado claro: Alckmin venceu. Lula saiu massacrado. O problema é que…

…será que o vencedor venceu? Ou, por outra: será que uma vitória incontestável como a de Alckmin, que encurralou o adversário, chamou-o de mentiroso e acusou-o de corrupto, tudo sem respostas convincentes, vale o cinturão de ouro, como as vitórias dos campeões do boxe? Ou teria ele ultrapassado a linha a partir da qual a pancadaria desloca as simpatias para a vítima? O que para alguns se desenrolou como empolgante duelo para outros pode ter soado tão constrangedor como uma briga entre dois convidados na sala de sua casa.

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O leitor Marcos Ambrogi observa que o instituto da reeleição, tal qual concebido, ‘num devaneio monárquico’, por Fernando Henrique Cardoso, legou-nos duas figuras ambíguas, reunidas na mesma pessoa: o candidente e o presidato. Ou, para ser mais claro, o candidato-presidente e o presidente-candidato. ‘Quando o candidente sobe num palanque permite-se não importa o quê, posto que candidato’, argumenta o leitor. ‘Quando o presidato é acossado por suas trapaças e seus ‘não sabia’, isso passa a ser considerado ofensivo ao presidente.’ O leitor pede encarecidamente que se esclareça qual o critério, qual a senha a que se deve agarrar o observador para saber, em cada momento, se está diante do candidente ou do presidato.’



INTERNET
Marcelo Marthe

O Youtube faz a alegria do Google

‘Na semana passada, o Google, o serviço de busca mais popular do mundo, desembolsou 1,65 bilhão de dólares para adquirir o site de vídeos YouTube. A compra é significativa por dois motivos. Primeiro, por dar uma medida da importância que a busca e a exibição de vídeos terão, daqui para a frente, na internet. Hoje, 200 milhões de vídeos são vistos diariamente na rede, metade deles no YouTube, mas projeções indicam que esse mercado crescerá dez vezes até 2010. A compra também foi a ação de mercado mais agressiva do Google desde que suas ações passaram a ser negociadas no pregão da bolsa, dois anos atrás. A empresa já havia adquirido negócios menores, mas nunca um peixão (num reconhecimento implícito de que não tem o monopólio das boas idéias). Venceu concorrentes como o Yahoo! e a News Corp., do magnata Rupert Murdoch, que também cobiçavam o YouTube. Consolidou, ainda, uma vantagem em relação à Microsoft, que decidiu investir numa ferramenta própria e ‘mais avançada’ de troca de vídeos. Ao comprar o YouTube, o Google não obteve só tecnologia: levou também uma marca forte e uma comunidade fiel de usuários.

Fundadores do YouTube, os americanos Chad Hurley e Steve Chen comemoraram a venda como convinha: veicularam no site um clipe em que agradecem aos usuários e caem no riso. Não à toa, claro. O YouTube foi criado há menos de dois anos. Até a semana passada, contava com 65 funcionários e tinha sede na sobreloja de um restaurante em San Bruno, na Califórnia. Nesse cenário modesto, gestou a explosão do vídeo na internet.

O Google não aposta no lucro imediato, pois o YouTube trabalha no vermelho. O site tem custos de operação altíssimos e sobrevivia graças aos 11,5 milhões de dólares injetados por um fundo de capital de risco. Mas não há dúvida de que o Google ganha muito com sua aquisição. Passa de um papel secundário (seu serviço similar, o Google Video, está bem atrás do YouTube) à condição de protagonista na área, credenciando-se como parceiro preferencial dos estúdios de cinema e das redes de TV americanas na corrida ao vídeo na internet.

A compra traz ainda outra vantagem. Com oito anos de idade, o Google já é um veterano para os padrões da internet. Ao unir-se ao YouTube, amplia sua sintonia com os usuários da ‘nova internet’ (veja o quadro). O Google dá, por fim, um passo na direção do futuro de seu próprio negócio: a busca de imagens. Hoje, os buscadores localizam um vídeo na internet com base em textos que descrevem seu conteúdo. Tecnologias de reconhecimento de sons e expressões faciais deverão revolucionar isso. ‘Com o YouTube, o Google ganha um campo de testes de valor inestimável’, diz o especialista Marcello Póvoa.

Para os céticos, o preço alcançado pelo YouTube é um sintoma de ‘exuberância irracional’ na internet. De fato, o Google terá desafios para fazer valer seu investimento. Um deles é como faturar com o site sem melindrar usuários avessos à propaganda. O YouTube recentemente fechou acordos com as gravadoras Universal e Sony BMG, além da rede de TV americana CBS. Mas busca uma fórmula eficiente de veicular publicidade. Resta ainda outra interrogação: como respeitar direitos autorais num serviço calcado na informalidade? O Google será um alvo tentador para processos indenizatórios. Nada disso anula o fato de que o momento atual conspira a favor do YouTube. Anos atrás, a indústria do entretenimento reagiu com força bruta à troca de músicas na rede. Agora, na vez do vídeo, parece querer assumir uma atitude mais conciliadora: em vez de ver o meio como inimigo, busca aliar-se a ele. Sabe que é um caminho sem volta.

Questão de etiqueta

Comprado na semana passada pelo Google, o site YouTube representa uma nova cultura da internet. Eis os mandamentos dessa geração

1 NÃO TENTE COBRAR

A livre circulação de informação é um valor caro aos novos usuários da internet. Como eles debandam ao menor sinal de que o acesso não é gratuito, introduzir serviços pagos é uma tarefa inglória

2 NÃO TENTE FAZER PROPAGANDA

São consumidores avessos à publicidade tradicional, por julgá-la intrusiva. Para atingi-los, as empresas apostam no marketing viral: as propagandas são calculadamente disfarçadas e se espalham na base do boca-a-boca

3 NÃO IMPONHA REGRAS

A autogestão é sagrada. Os sites são, antes de tudo, ferramentas que permitem ao usuário acessar, armazenar e compartilhar o conteúdo de seu interesse quando e com quem quiser

4 EVITE O TOM ‘OFICIAL’

Eles desconfiam das fontes de informação tradicionais. Ao investigar um assunto, o usuário típico preferirá um meio alternativo como a Wikipedia à Enciclopédia Britânica, por exemplo’



TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Estranhas no ninho

‘Exibido nas noites de terça-feira da Rede Record, o programa Troca de Família oferece ao espectador uma curiosa experiência antropológica. Por uma semana, duas mulheres mudam-se para a casa uma da outra e assumem as responsabilidades perante seu marido e seus filhos. Ao fim do processo, acompanhado pelas câmeras do nascer do dia à hora de dormir, a forasteira tem de decidir como será gasto o prêmio de 25.000 reais a que a família tem direito. A atração é mais um reality show que faz dos conflitos familiares a sua pedra de toque (vertente na qual se inclui ainda o Super Nanny, do SBT, em que uma babá socorre pais em apuros). Trata-se da versão brasileira de um sucesso da rede americana Fox, que por sua vez se inspira num similar produzido pelo Channel Four inglês. Como a graça está em observar as mães e suas novas famílias se estranharem, há o cuidado de misturar gente de origem, classe social e comportamento radicalmente diferentes. No primeiro caso apresentado, uma dondoca trocou de lar com uma artista de circo. Ao constatar a precariedade do ônibus em que esta última vive, a emergente Rozania esboçou uma cara de choro. ‘Vamos ver se a madame sabe varrer o chão’, ironizou o palhaço Pingolé, seu marido postiço – um rematado machista. Enquanto isso, a trapezista Elaine tentou pôr os filhos adolescentes da outra na linha. Um dos garotos não deu moleza: ‘Se ela pegar no meu pé, vai quebrar a cara’.

O espectador se identifica com esse tipo de programa porque se vê diante de questões com as quais tem de lidar diariamente – e, claro, a uma distância segura para se divertir de camarote com os defeitos de terceiros. Famílias certinhas são confrontadas com outras que tratam a gestão doméstica de forma, digamos, mais relaxada. Numa história que irá ao ar em breve, a chegada de uma baiana disciplinada à casa de uma artista plástica riponga de São Paulo provoca grande mal-estar, já que a nova mãe se enoja do desmazelo e do fato de o gato de estimação fazer sujeira na cozinha. ‘Se você acha que somos porcos, problema seu’, diz-lhe o marido. Num programa que oporá um clã de surfistas cariocas a um casal paulistano obcecado por organização, o atrito também é imediato. Ao tentar impor suas manias ao lar desencanado, a mãe de São Paulo arranja encrenca até com a empregada.

Outro ponto de tensão é a relação com os filhos. Na história que está em exibição no momento, uma roqueira troca de papel com uma caipira. Embora cause espanto pelo topete vermelho e pelas tatuagens, Izabel revela-se uma mãe em moldes tradicionais, que se dá bem ao corrigir o comportamento da filha mimada do casal. A interiorana Angélica não tem a mesma sorte. Desentende-se com o filho rebelde da outra e decide doar a parte do prêmio que daria a ele a uma instituição de caridade. Foi o suficiente para minar qualquer chance de amizade entre os clãs depois do programa. ‘A Angélica agiu com prepotência e não acrescentou nada de bom a minha família’, diz Izabel. Em tempo: a punição infligida por Angélica não teve efeito prático. Embora o programa venda a idéia de que o dinheiro será utilizado de acordo com a vontade da mãe substituta, a Record o entrega diretamente à família e não fiscaliza os gastos.

Troca de Família tem obtido 10 pontos de média, ibope satisfatório para depois das 10 da noite. Funcionaria melhor, é verdade, se as histórias não se prolongassem por dois episódios (como, de resto, se dá no original da Fox). Apesar desse porém, é um experimento social dos mais interessantes. Comparar o comportamento das famílias brasileiras ao das inglesas submetidas à mesma fórmula é um exercício revelador. Na Inglaterra, a tônica é a do confronto aberto, já que os maridos e filhos não fazem concessões para assimilar a nova mãe, e vice-versa. No Brasil, as coisas tendem a se encaminhar para um final conciliatório. Nem que seja só de fachada, frise-se. Depois das rusgas, as pessoas contemporizam – mas nem por isso deixam de falar poucas e boas da intrusa, tão logo se livram dela. Outra diferença: enquanto no programa inglês a aceitação da nova mãe depende da reação do marido, no brasileiro isso é definido pelo comportamento da própria recém-chegada. Por mais machistas ou exigentes, os homens acabam se sujeitando à matriarca de plantão. Ao contrário do que esperava Pingolé, a dondoca que acampou em sua casa não moveu uma palha para fazer limpeza ou comida. O palhaço ficou triste – mas se conformou.’



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