Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 30/6 E 1/07

Veja

03/07/2007 na edição 440

MAINARDI vs. LULA
Diogo Mainardi

Eles são Oba!, eu sou Epa!

‘‘O mundo se divide em dois tipos de pessoas: as que gritam Oba! e as que exclamam Epa!’. Quem disse isso? Demócrito? Santo Agostinho? Leibniz? Nietzsche? Nenhum deles: foi Ivan Lessa, no Pasquim. A frase resume tudo o que conseguimos aprender até hoje sobre o ser humano. De acordo com Ivan Lessa, os Oba! são otimistas, alegres, aproveitadores, oportunistas, barulhentos e donos de um caráter flexível. Os Epa!, por outro lado, são censuradores, precavidos, desconfiados, facilmente escandalizáveis, dotados de um caráter rígido e de pouquíssimo senso de humor.

A popularidade de Lula já foi analisada sob diferentes prismas. Faltou um: o que aplica à realidade política a tipologia do Oba! e do Epa!. Os brasileiros sempre foram esmagadoramente Oba!. Somos uma espécie de paradigma universal do Oba!, com focos isolados e desorganizados de Epa!. O grande mérito do lulismo foi separar claramente as duas categorias: uma para cá, outra para lá. Tome-se a última pesquisa CNT-Sensus, publicada alguns dias atrás. Entre os eleitores que ganham até 380 reais, 72,3% festejam Lula com um alegre e ruidoso Oba!. Entre os que ganham mais de 7 600 reais, há apenas 31,7% de Oba! e uma arrasadora maioria composta de 65,9% de censuradores e escandalizados Epa!.

É bom que os que ganham até 380 reais estejam dizendo Oba!. Podemos parar de nos preocupar com eles. Quanto menos a gente se preocupar com eles, melhor para eles e melhor para nós. Agora que o lulismo reintroduziu no Brasil uma pitada de identidade de classe, contrapondo ricos e pobres, temos de encontrar um jeito de preservá-la. Quando um jornalista do Oba! Oba! vier pedir anúncios à sua empresa, diga Epa! e mande-o procurar o governo. Quando um ator ou cantor do Oba! Oba! aparecer pleiteando patrocínio para seu espetáculo, diga Epa! e nem o receba. Quando um professor universitário tentar doutrinar seu filho com o Oba! Oba! de Mészáros, Guattari ou Sachs, diga Epa!, tire seu filho da universidade e arrume-lhe um emprego. Quando um diretor de TV propuser uma minissérie esteticamente arrojada a partir da obra do Oba! Oba! Ariano Suassuna, diga Epa!, mude de canal e veja um enlatado americano.

É assim que eu protesto contra a turma do Oba!: todos os dias, às 4 da tarde, interrompo minhas atividades para ver a reprise de um episódio de The Office, a prova mais evidente da superioridade moral e intelectual da turma do Epa!. De tanto assistir a The Office, é capaz que um dia eu ainda consiga derrubar Lula. Reinaldo Azevedo, em seu blog, comparou os antilulistas àqueles cavaleiros medievais do Monty Python que acreditam poder derrotar seus inimigos berrando um estridente Ni!. É verdade. Se 100.000 pessoas se reunissem na Candelária e berrassem juntas Ni! ou Epa!, o governo cairia na hora. O problema é que a turma do Epa! jamais conseguiria se organizar para reunir 100.000 pessoas num mesmo lugar. É bem melhor ficar em casa vendo TV e zombando da turma do Oba!.’

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Desesperadas em série

‘Na manhã de terça-feira passada, o termômetro registrava 3 graus centígrados em Pilar, a 50 quilômetros de Buenos Aires. O frio contrastava com as roupas mínimas usadas pelo elenco que participava da gravação, ao ar livre, de um seriado para a televisão brasileira. De camiseta e bermuda, os atores tremiam e, ainda por cima, eram policiados para não lançar vapor ao respirar, pois isso trairia que o cenário está bem longe dos trópicos, onde a ficção se passa. Pilar foi escolhida pela Disney para abrigar uma linha de produção inusitada. Ali estão sendo feitas quatro versões para o mercado latino de Desperate Housewives, uma das séries americanas de maior sucesso na atualidade. As aventuras de cinco mulheres que vivem num subúrbio abastado, onde muita podridão se esconde sob a superfície, ganharam recentemente um similar argentino e outro colombo-equatoriano. Em breve será gravado um terceiro genérico, voltado à população latina dos Estados Unidos. Todos têm o mesmo nome em espanhol: Amas de Casa Desesperadas. No momento, porém, trabalha-se ali na versão que deverá estrear no Brasil em agosto, na RedeTV!. VEJA acompanhou as gravações e constatou que a expressão ‘enlatado’, nesse caso, faz todo o sentido. Assim como as outras emissoras latinas envolvidas no projeto, a RedeTV! entra apenas com a adaptação do roteiro para o português, o time principal de atores e uma parcela dos custos de produção, 5 milhões de dólares. A Disney arca com o grosso da logística, mas lucra com o pagamento de direitos autorais e acordos publicitários.

O mercado de compra e venda de formatos de programas é antigo e agitado. Reality shows como o Big Brother são adquiridos de produtoras estrangeiras e adaptados ao gosto brasileiro. Na dramaturgia, a rede mexicana Televisa mantém há tempos um acordo com o SBT de Silvio Santos para que se façam versões locais de seus melodramas. A empreitada da Disney abre um novo capítulo nessa história. A adaptação de um seriado americano, mantidos os padrões técnicos da televisão daquele país, sempre foi proibitiva por causa dos custos. O orçamento de uma temporada de Desperate Housewives, por exemplo, bate nos 25 milhões de dólares. Para que uma emissora como a Rede TV!, com experiência zero em dramaturgia, se lançasse numa aventura desse tipo, seriam necessários investimentos ainda mais altos – em equipamento, por exemplo. A solução imaginada pela Disney – criar uma linha de montagem e arrancar dela o máximo – permitiu diluir os custos. Da cidade cenográfica de 45.000 metros quadrados aos figurinos, da equipe técnica ao elenco de apoio, Donas de Casa Desesperadas compartilha tudo com as outras cópias de Desperate Housewives. Tão logo a versão brasileira se encerre, dentro de algumas semanas, terão início os trabalhos da rede Univision, voltada ao público latino dos Estados Unidos. Em seguida, virá a segunda temporada do clone argentino. E assim por diante.

Donas de Casa Desesperadas demorou um ano além do previsto para sair do papel porque a RedeTV! teve dificuldade para fechar o elenco. ‘Ter nomes conhecidos era um ponto essencial’, diz Mônica Pimentel, diretora artística da emissora. Sonia Braga só assinou contrato uma semana antes do início das gravações. Apesar de ter uma participação menor do que a da colega Lucélia Santos, Sonia está embolsando o maior cachê: cerca de 1 milhão de reais pela temporada. A Disney não viu problema de as protagonistas não viverem exatamente o auge de suas carreiras. ‘Elas podem não estar no topo, mas são dignas’, diz Leonardo Aranguibel, produtor executivo da companhia. E conclui: ‘As americanas também não estavam no pico antes do seriado’.

Assistir às diversas versões de Desperate Housewives é uma experiência curiosa. Como em qualquer linha de montagem, os produtos saem da fábrica iguaizinhos. Cada capítulo segue seu correspondente americano diálogo por diálogo. As marcações de cena, a filmagem em alta definição, a trilha sonora – cada detalhe é padronizado de tal maneira que não sobra espaço para atores ou diretores imprimirem um tom pessoal à interpretação. O cineasta Fábio Barreto (de O Quatrilho) responde pela direção da série abrasileirada. Na prática, porém, é monitorado o tempo todo por um profissional argentino que zela para que a cartilha da Disney seja cumprida. As pequenas modificações realizadas no roteiro, em nome da cor local, não denotam grande uso de imaginação. Um clube de strip-tease da trama original foi substituído – surpresa! – por um show de mulatas no Brasil.

O fato de as gravações ocorrerem num país que fala outra língua terá reflexos na versão brasileira. Na última terça, um ‘duelo’ de interpretação entre Teresa Seiblitz (que tem o papel da executiva Lígia, que larga a carreira para cuidar de três filhos endiabrados) e uma veterana atriz argentina evidenciou as trombadas lingüísticas a que uma produção nesse esquema está sujeita. Lucrécia Campello, a atriz em questão, não conseguia guardar (ou falar) seu texto em português nem entender o que Teresa dizia. Preencher o elenco secundário com atores argentinos é mais uma estratégia para conter as despesas. Suas falas, naturalmente, terão de ser dubladas. ‘Mas não vai ficar horrível como nas novelas mexicanas do SBT’, garante Barreto.

Por mais frugal que possa parecer à distância, a questão do frio também tem seu peso. Quando VEJA visitou o set, o ator Iran Malfitano, que faz as vezes do amante da ex-modelo Gabriela (a atriz Eva Longoria no original), reclamava por atuar de bermuda e camiseta sob uma temperatura congelante. ‘Isso afeta minha concentração’, disse. Franciely Freduzeski, que representa Gabriela, circulava com uma bolsa de água quente por causa de uma tendinite no braço, também provocada pelo frio. Lucélia Santos, que interpreta a mãe separada vivida na série americana por Teri Hatcher, teve de fazer uma cena pelada. Teresa Seiblitz, por sua vez, foi obrigada a lançar-se numa piscina. ‘A gente devia mudar o nome disso aqui para ‘A Marcha dos Pingüins’.’, diz ela.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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