Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 21 E 22/07

Veja

24/07/2007 na edição 443


MAINARDI vs. LULA
Diogo Mainardi


Chimpanzés patinadores


‘Onde está Lula? Lula está de cama. Duzentas pessoas morreram no acidente da TAM. No dia seguinte, Lula preferiu ficar em repouso, de olhos fechados, de barriga para cima, depois de sofrer uma cirurgia cosmética. Sobre os 200 mortos do acidente da TAM, ele se calou. Ele se escondeu. Assim como se calou e se escondeu quando foi vaiado nos Jogos Pan-Americanos. Pode-se argumentar que Lula, o Churchill de Garanhuns, é melhor calado do que falando. Mas é temerário ter um presidente que sempre amarela na hora do aperto.


Ao ser reeleito, em outubro do ano passado, Lula declarou que continuaria a governar para os mais pobres. No setor aéreo, isso se traduziu num descaso criminoso que culminou com os 200 mortos do acidente da TAM, independentemente das falhas do aparelho. O eleitorado de Lula é formado por gente que nunca voou. Quem morre em acidente aéreo é aquela parcela minoritária dos eleitores que sente ojeriza por ele. Na China, Mao Tsé-tung puniu a burguesia obrigando-a a trabalhar em fábricas e em campos de arroz. No Brasil, a luta de classes lulista puniu a burguesia transformando os jatos da Airbus em paus-de-arara.


Os pilotos apelidaram a pista principal do Aeroporto de Congonhas de ‘Holiday on Ice’. Isso significa que os passageiros assumiram o papel de chimpanzés patinadores. A Anac autorizou a reabertura da pista antes que sua reforma fosse concluída. A Anac é o retrato perfeito da pilhagem lulista. Milton Zuanazzi, seu presidente, fez carreira como secretário de Turismo do Rio Grande do Sul. A melhor credencial que ele tem para ocupar o cargo é a carteirinha do PT. Uma das diretoras da Anac, Denise de Abreu, era assessora jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Outro diretor da Anac, Leur Lomanto, é ligado a Geddel Vieira Lima e, alguns anos atrás, foi acusado de negociar vantagens para se filiar ao PMDB. O que um secretário de Turismo, uma procuradora do estado e um deputado do interior da Bahia podem saber sobre segurança aérea? Pergunte ao Lula, quando ele decidir sair da cama. Eu me sentiria mais seguro se seus cargos na Anac fossem ocupados por chimpanzés patinadores.


Em abril, sete meses depois do acidente da Gol, enquanto os deputados do PT tentavam abafar a CPI Aérea, Lula se reuniu sorrateiramente com Carlos Wilson num hotel do Recife. Carlos Wilson presidiu a Infraero no primeiro mandato de Lula e é lembrado por ter reformado os aeroportos com os azulejos da Oficina Brennand, de propriedade de sua mulher. É o modelo de moralidade lulista: sobra dinheiro para os azulejos, mas falta para os radares e o grooving. Outro modelo de moralidade lulista é Luis Fernando Verissimo. Ele disse que prefere ficar calado diante das ‘mutretas’ do lulismo porque teme ser confundido com os reacionários. É o mesmo argumento usado pelos stalinistas para acobertar os crimes do comunismo. Pode roubar, desde que seja para combater o inimigo. Pode matar? Pode, sim. Só uns 200 reacionários de cada vez.’


 


MEMÓRIA / ACM
Veja


O arcaico e o moderno


‘Os conceitos de arcaico e moderno conviveram na figura do senador Antonio Carlos Magalhães. Ora ele encarnava o coronel nordestino de métodos truculentos, ora o administrador competente, responsável pelo grande desenvolvimento econômico da Bahia nas últimas décadas. Ao longo de meio século, ele quase nunca arredou pé do poder ou de suas proximidades mais íntimas. Dono de um extraordinário senso de sobrevivência, emprestou apoio a presidentes e grupos políticos quando estavam no auge – e não titubeou em migrar para a oposição quando a força deles declinou. Em toda a sua trajetória, só não mudou em relação à defesa intransigente da Bahia. ‘Sou o baiano que mais amou a Bahia. Esse meu amor talvez tenha sido a coisa mais importante da minha vida’, dizia. A era ACM se encerrou para todo o sempre na manhã da última sexta-feira. Depois de 36 dias internado no Instituto do Coração, em São Paulo, o cacique do Partido Democratas sucumbiu à falência de múltiplos órgãos. Ele completaria 80 anos em setembro e sofria de insuficiência cardíaca crônica, diabetes e problemas renais e gastrointestinais.


Filho de uma família de classe média, ACM começou a trabalhar ainda na adolescência como jornalista. Depois, seguiu o exemplo do pai, Francisco Magalhães, um médico e professor universitário que chegou a ser deputado federal. Francisco introduziu o filho na política e legou-lhe a amizade de Juscelino Kubitschek. Enquanto JK esteve no poder, a presença de ACM no palácio tornou-se tão freqüente que ele passou a ser chamado de ‘despertador de Juscelino’. Quando os ventos mudaram, começou a defender os militares. Transformou-se em um dos alicerces civis do regime dos generais instaurado em 1964. Em troca, eles o tornaram prefeito de Salvador, presidente da Eletrobrás e o elegeram duas vezes governador da Bahia. Em 1984, rompeu com o regime militar e ganhou o apelido de ‘Toninho Malvadeza’ – a princípio, um elogio de sinais trocados, que dava conta de sua falta de complacência com os adversários. Naquele ano, recusou-se a apoiar Paulo Maluf, candidato dos militares a presidente, e aderiu ao oposicionista Tancredo Neves. O então ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, acusou-o de trair a revolução. Sua resposta fissurou ainda mais o apoio político ao governo dos generais: ‘Traidor é quem apóia um corrupto para a Presidência’. Na democracia, ACM foi governador, ministro das Comunicações e senador. Apoiou Fernando Collor e, com idas e vindas, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Só não se aproximou de Itamar Franco, de quem dizia nunca ter gostado. Sobre suas seguidas metamorfoses, dizia: ‘Mudar é uma característica dos homens inteligentes’.


O sucesso na vida pública foi acompanhado de tragédias na vida pessoal. ACM teve quatro filhos com Arlete Maron. Como o primeiro, Antonio Carlos Júnior, não tinha pendores políticos, o senador entregou-lhe o comando dos negócios que construiu paralelamente à sua atividade principal. Na Bahia, ele era dono da retransmissora da Rede Globo, de um jornal, de uma construtora e de uma gráfica. Atualizada, sua fortuna declarada em 2002 à Justiça Eleitoral soma 150 milhões de reais. Uma das filhas, Tereza Helena, casou-se com o dono da empreiteira OAS. A outra, Ana Lúcia, suicidou-se em 1986, aos 28 anos. ACM depositou em Luís Eduardo suas esperanças de perpetuar o clã na política. Tinha tudo para dar certo, não fosse a implacabilidade do destino: Luís Eduardo vinha construindo uma carreira brilhante de deputado federal e era um virtual candidato à Presidência da República quando foi fulminado por um infarto, em 1998. Tinha apenas 43 anos. ‘Por que não eu?’, desesperou-se ACM. Ele não se recuperaria do baque.


Depois da morte de Luís Eduardo, o senador perdeu o foco. Em 2000, abriu uma guerra para evitar que Jader Barbalho (PMDB-PA) se tornasse presidente do Senado. Conseguiu levar o inimigo à renúncia. Mas antes participou da violação do sigilo de uma votação secreta no Senado e, para não ser cassado, foi obrigado também a renunciar. Ainda que sem cargo, ACM não perdeu a força em seus domínios – e, tal como o seu amigo Roberto Marinho, da Rede Globo, sabia que o poder tinha de ser constantemente exibido para que ninguém esquecesse quem o detinha. Numa tarde de 2001, por exemplo, telefonou ao governador da Bahia, César Borges, convocando-o para ir encontrar-se com um empresário. Borges respondeu que não era possível, pois inauguraria uma escola. ‘Falei para vir agora. Deixe a inauguração para amanhã’, esbravejou ACM, no que foi prontamente atendido. Na mesma época, ele acabava de chegar a Salvador quando deparou com um congestionamento causado por uma obra da prefeitura na entrada da cidade. Ligou irritado para Antônio Imbassahy, então prefeito: ‘Como você faz uma obra dessas em dia de semana sem me avisar, seu irresponsável?’. Mas o velho cacique também tinha seus momentos de ternura. Mostrava paciência para ouvir pedidos de toda natureza, o que explica, em parte, seu imenso carisma na Bahia. Era comum que os taxistas de Salvador não cobrassem as corridas das pessoas que se dirigiam à casa dele, em gratidão a favores que ACM lhes tinha prestado.


Na eleição do ano passado, o senador e seu grupo foram derrotados em seu estado pelo PT. Por mais que tentem, no entanto, seus detratores não conseguirão apagar sua marca. Como prefeito de Salvador, nos anos 60, ele mudou o projeto urbanístico e revitalizou a capital. Premiado com o governo estadual, atraiu investimentos de grande porte, como o Centro Industrial de Aratu. Depois, articulou a construção do Pólo Petroquímico de Camaçari. De volta ao governo estadual nos anos 90, investiu fortemente em turismo, transformando o sul da Bahia, principalmente, num paraíso de resorts e condomínios de luxo. Também teve um papel determinante para que a Ford instalasse um pólo automobilístico no estado. De 1971, seu primeiro mandato como governador, a 2006, quando seu grupo político deixou o poder, o PIB da Bahia pulou de 10 bilhões para 52 bilhões de dólares. Um crescimento de 420%, maior do que o do país e o do Nordeste. Apesar desse legado, o carlismo sai de cena sem deixar herdeiros. Após a morte de Luís Eduardo, ACM passou a acalentar a esperança de que o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto pudesse suceder-lhe. Mas não houve tempo para transformá-lo em líder na Bahia – condição essencial para a manutenção do carlismo. Objeto de amores e ódios, ACM, quando estava no topo, costumava destilar uma verdade embrulhada em ironia: ‘Sou temido porque ganho. Os vencedores são sempre temidos’.’


TELEVISÃO
Marcelo Marthe


A ciência de enfeitiçar crianças


‘O mais novo fenômeno infantil da TV atende pelo nome de Hi-5. Criada por uma emissora australiana no fim dos anos 90, a série musical faz sucesso em setenta países – inclusive no Brasil, onde acaba de produzir uma reviravolta no ranking dos canais para crianças. Graças à sua popularidade, no mês passado o Discovery Kids passou a liderar a audiência no nicho dos 4 aos 11 anos, até então dominado pelo concorrente Cartoon. A série já desperta o interesse da televisão aberta, à qual poderá chegar em 2008. E, a exemplo do que ocorre em outros lugares, não demorará a dar mote a discos e DVDs por aqui. Assim como High School Musical, telefilme da Disney que arrebatou os pré-adolescentes, Hi-5 tem um quê de moderninha. Só que a ação é muito simples. Gira em torno de um conjunto fictício que interage com bonecos e protagoniza esquetes com algum fundo educativo. O que chama atenção é como seus produtores dominam a ciência, por assim dizer, da comunicação com crianças bem novas. Nos anos 70, a produção americana Vila Sésamo já se valia das descobertas da neurologia e da psicologia a esse respeito. De lá para cá, o uso de tal conhecimento foi radicalizado em programas como Teletubbies, aquele dos bebês ‘fofinhos’, e Barney e Seus Amigos, protagonizado por um dinossauro cor-de-rosa. Hi-5 atualiza a fórmula desses dois antecessores, que poderia ser resumida num só mandamento: repetir, repetir e repetir.


Embora atormente os adultos, o hábito de rever uma cena muitas vezes faz todo o sentido para as crianças em idade pré-escolar. ‘Como sua capacidade de compreensão é limitada, elas vão adquirindo confiança sempre que uma mesma cena é repisada’, diz o neurologista pediátrico Erasmo Casella, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Isso explica por que as canções e histórias são tão reiteradas num programa como Hi-5. Também não é por acaso que os esquetes têm enredos curtos e circulares. O objetivo é manter a concentração das crianças. Além da repetição no programa em si, a grade do Discovery Kids ajuda a reforçar a impressão de que se está martelando a mesma tecla. Semanalmente, o canal exibe somente um episódio inédito de meia hora – e tome outras 48 horas e meia de reprises. Mas, ainda que a repetição seja uma importante ferramenta de aprendizado nessa fase, os especialistas recomendam que os pais imponham limites. ‘Em excesso, ela pode ser prejudicial ao desenvolvimento intelectual’, diz o neurologista Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo.


Na Austrália, os programas infantis são obrigados por lei a conter alguma dose de conteúdo educativo. Hi-5 atende a esse requisito. Como já lembrou sua criadora, Helena Harris (mentora também de uma pérola da programação infantil trash, Bananas de Pijamas), os movimentos de dança são concebidos para estimular as habilidades motoras e mentais das crianças. Mas o maior objetivo é mesmo o entretenimento. O que não significa que se abdique de um traço dos programas infantis atuais: a obsessão pelo politicamente correto. O elenco de Hi-5 (que chega ao Brasil em sua versão americana, também produzida na Austrália) é todo multicultural: tem uma negra, um hispânico e uma oriental, para contrabalançar com um casal de loiros caucasianos. E faz apologia da alimentação saudável. Enquanto cantam e dançam, os personagens dão lições sobre a importância de comer verduras. Os pais, portanto, devem ficar descansados. Hi-5 é meio sem-sal. Mas não faz mal a ninguém.


A neurologia e a psicologia explicam por que programas como Hi-5, Teletubbies e Barney exercem tanta atração sobre o público infantil


REPETIÇÃO


A criança aprecia quando uma imagem, música ou frase é martelada à exaustão. Além de lhe dar prazer, isso facilita a absorção de conceitos em seu estágio de formação cerebral


ENREDOS SIMPLES


As narrativas são curtas e circulares. Como a criança se relaciona com a TV mais por meio de estímulos sensoriais que pela linguagem verbal, isso ajuda a prender sua atenção


CORES VIVAS


Trata-se de outro estímulo sensorial importante. O colorido tem a função de transmitir alegria e conforto


INTERATIVIDADE


Os programas são pontuados por pausas para que se possam imitar o gestual e as canções dos personagens.


Por estar desenvolvendo sua cognição e coordenação motora, a criança sente-se estimulada por isso.’


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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.


Folha de S. Paulo – 1


Folha de S. Paulo – 2


O Estado de S. Paulo – 1


O Estado de S. Paulo – 2


O Globo


Veja


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