Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/6

Veja

10/06/2008 na edição 489

VENEZUELA
Diogo Schelp

Todo o poder aos espiões de Chávez

‘Derrotado seis meses atrás no referendo com o qual tentou atribuir-se o direito de se reeleger presidente quantas vezes quisesse, Hugo Chávez não desistiu de seus planos de sepultar a democracia na Venezuela. Nos últimos dias de maio, sem que o assunto tenha sido publicamente discutido, o presidente criou por decreto um sistema de inteligência que obriga todos os cidadãos a colaborar com os espiões do governo. Quem não o fizer poderá ser condenado a cumprir de dois a seis anos de cadeia. Juízes e promotores têm obrigação especial de passar ativamente informações à polícia política. A Lei de Inteligência e Contra-Inteligência tem por objetivo declarado reunir dados que ajudem na defesa da segurança nacional. Como na lei a expressão é deixada sem definição, o próprio governo tratou de explicar seu verdadeiro significado. ‘Os órgãos de inteligência devem fazer frente à ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos do país’, disse o ministro do Interior e Justiça, Ramón Rodríguez Chacín. Como Chávez considera que toda e qualquer oposição a seu governo tem influência americana, fica entendido que o objetivo da reforma é a repressão política.

Apesar dos maus modos autocráticos de Chávez, o país permanecia formalmente uma democracia. O novo sistema de segurança e a obrigatoriedade da delação mudam o panorama. A Venezuela começa a se transformar em um estado policial, similar ao cubano. O ponto crucial dessa mudança está no fato de que agora o governo pode definir quando um cidadão infringe ou não a lei. Dessa forma, a população se torna refém do regime. ‘Chávez subverteu a regra democrática de que o estado deve satisfação ao cidadão, não o contrário’, diz o cientista político Jorge Zaverucha, coordenador do Núcleo de Estudo de Instituições Coercitivas, da Universidade Federal de Pernambuco. Chávez aprendeu com Fidel Castro a utilidade de uma rede de espionagem com a missão de identificar cidadãos descontentes. Esse tipo de controle social, em que as pessoas se policiam umas às outras, é eficiente em garantir a lealdade de todos ao estado. Em Cuba, essa função é desempenhada pelos Comitês de Defesa da Revolução (CDRs). Criados em 1960 sob o lema ‘toda dissidência é uma traição’, estão presentes em cada quarteirão e nominalmente reúnem mais da metade da população da ilha. Toda essa gente tem a obrigação de informar à polícia política qualquer conduta suspeita dos vizinhos.

No caso da Venezuela, o papel de vigilância que em Cuba cabe aos CDRs será desempenhado pelas inúmeras organizações assistencialistas criadas por Chávez. Na nova lei, elas são chamadas de órgãos de apoio às atividades de inteligência do estado. Isso significa que líderes comunitários e presidentes de cooperativas serão considerados informantes privilegiados da polícia chavista. Esse esquema de delação compulsória já foi testado no bloco soviético. O resultado foram sociedades orwellianas, em que vinganças pessoais, entre outras motivações mesquinhas, levaram à delação. ‘Outros exemplos de estados policiais já mostraram que o autoritarismo miúdo dos pequenos agentes torna a vida dos cidadãos um inferno’, diz José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança Pública. A Stasi, o serviço secreto da Alemanha Oriental, era tão eficiente na supressão da liberdade que Fidel Castro convidou seus agentes para assessorá-lo na montagem de sua própria polícia política. Nesse aspecto, o modelo chavista de vigilância ideológica é ainda mais perverso. Nem os alemães-orientais ousaram emitir uma lei tornando a delação obrigatória.

CUBA

A figura do dedo-duro é institucionalizada: todo quarteirão tem um Comitê de Defesa da Revolução (CDR), cuja função é patrulhar a conduta dos moradores. Até mudar de casa sem autorização do governo é motivo para ser denunciado. Os espiões do regime usam e abusam do poder, a ponto de extorquir os vizinhos.

ALEMANHA ORIENTAL

Um dos maiores aparatos montados para espionar os próprios cidadãos existiu na Alemanha comunista. Era formado por 100 000 agentes e 600 000 informantes. Filhos denunciavam os pais e amigos espionavam-se uns aos outros. A suspeita de dissidência podia levar um denunciado às salas de interrogatório da polícia secreta’

 

TELEVISÃO
Veja

Que bicho é esse?

‘Quem convive com crianças na faixa dos 2 aos 6 anos dificilmente passa imune a uma atração da TV paga: Os Backyardigans. Em exibição no Brasil desde 2005, esse desenho animado canadense tornou-se um dos carros-chefe da programação do canal Discovery Kids – e deu origem a mais de 300 produtos licenciados, como álbuns de figurinhas, chaveiros e mochilas (sem contar a enxurrada de bugigangas piratas vendidas em camelôs). As crianças (em especial as meninas) ficam fascinadas com os bichos dançantes que protagonizam a série musical. E todos os adultos se perguntam: o que vem a ser, afinal, a criatura lilás com o corpo coberto de bolotas cor-de-rosa que contracena com o alce, o pingüim, o canguru e o hipopótamo da história? A resposta: a personagem Uniqua não é nenhum animal de verdade – nem sequer uma formiga, como crêem muitos –, e sim uma ‘espécie’ a que Janice Burgess, a principal criadora do desenho, deu vida inspirada nela mesma e em seus amigos (convenhamos: deve ser uma gente bem esquisita). Sem sair de casa, os Backyardigans – a palavra significa algo como ‘turma do quintal dos fundos’ – embarcam em altas aventuras. Um episódio típico pode mostrá-los numa viagem imaginária à terra dos vikings e em coreografias moderninhas dignas do cantor Justin Timberlake. ‘Gostamos da idéia de misturar aventuras clássicas com músicas não convencionais’, disse Janice Burgess a VEJA na semana passada.

Assim como o Teletubbies, que fez sucesso com crianças pequenas nos anos 90, Os Backyardigans é milimetricamente pensado para prender a atenção dessa faixa etária. Um elemento essencial, por exemplo, é a repetição. Nessa etapa de desenvolvimento, é esse o modo pelo qual as crianças pequenas aprendem conceitos e refinam sua linguagem. O que explica por que gostam tanto de ver e rever uma cena incontáveis vezes. ‘Só a partir dos 7 anos a repetição deixa de ser necessária e a criança sente mais autonomia para aprender sozinha’, informa a pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O colorido e as histórias que dão asas à imaginação também são importantes. Bem como a música e a dança, é claro. Para fazer os bichinhos dar aqueles passinhos, a produtora canadense Nelvana, criadora do desenho, conta com o apoio de bailarinos de carne e osso. ‘Filmamos as pessoas dançando e depois recriamos os movimentos no computador’, diz a produtora Janice.

O desenho tem lá algum caráter educativo. Mas o que chama atenção é que segue a tendência multicultural que tomou conta das atrações infanto-juvenis nos últimos tempos. Em suas aventuras, os personagens usam trajes típicos de diversos povos ao redor do planeta, por exemplo. A paixão pelos Backyardigans deve chegar a seu ápice em julho, quando a turnê latino-americana de um musical com atores fantasiados como os bichos fará escalas no Rio de Janeiro e em São Paulo. ‘Há planos de levar o espetáculo também para Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte’, afirma Marina Bertolozzi, porta-voz da empresa que promove o evento.’

 

 

Marcelo Marthe

Abaixo a elite negra

‘Para o noveleiro João Emanuel Carneiro, Taís Araújo é mais que uma bela atriz – é o seu pé de coelho. Ela teve papéis de destaque nos dois folhetins de sucesso das 7 que ele escreveu. E, desde a semana passada, isso se repete em A Favorita, que alça Carneiro, de 38 anos, ao grupo seleto de autores aos quais a Globo confia as tramas das 8. É de novo por meio de Taís que ele retoma um expediente que já se tornou sua marca: a escalação de atores negros para papéis que fogem às convenções. Em Da Cor do Pecado (2004), transformou-a na primeira protagonista negra de uma novela da emissora. Depois, em Cobras & Lagartos (2006), na megera que vivia às turras com o malandro interpretado por Lázaro Ramos. A Alícia de A Favorita integra uma família negra politicamente incorreta. O patriarca Romildo Rosa (Milton Gonçalves) é um deputado corrupto em busca do terceiro mandato (qualquer eco de Brasília é coincidência). Com sua franja em estilo lambida de vaca, a filha mimada é a pedra em seu sapato. A artista plástica Alícia chama o pai de ladrão e desdenha de seu populismo (Romildo posa de ‘cavaleiro do povo’ por ter passado fome). Ela chantageia o pai para obter dinheiro público para suas exposições, sob a ameaça de divulgar fitas que o envolveriam em obras superfaturadas. O clã se completa com o irmão Diduzinho (Fabrício Boliveira), um bêbado que o deputado quer transformar em político.

Nas novelas de Carneiro, a cor da pele é um detalhe que não impede ninguém de ser rico ou safado. O núcleo negro não está ali em nome da ‘afirmação racial’, e sim como parte de uma certa comédia da luta de classes que atravessa A Favorita. Ela fica mais explícita no embate entre o milionário Gonçalo (Mauro Mendonça), ex-operário esquerdista que virou patrão, e o patético Copola (Tarcísio Meira), líder sindical que não se desapega do discurso da ‘revolução do proletariado’. Gonçalo ironiza o fato de a neta Lara (Mariana Ximenes) ser de esquerda (a moça recita chavões do tipo: ‘Não compactuo com a exploração do homem pelo homem’). Já Copola ficou com a pulga atrás da orelha ao saber que o neto Cassiano (Thiago Rodrigues), também operário e namorado de Lara, se esbaldaria no aniversário dela, na mansão do desafeto.

Nos primeiros capítulos de A Favorita, Carneiro empreendeu um retorno às raízes do melodrama. Em vez de investir em seqüências de ação e pirotecnia como as que se viam nas últimas novelas das 8, valeu-se de uma narrativa sóbria e um elenco enxuto. Preferiu inovar nos detalhes, a exemplo do núcleo negro. Com efeito: a cena mais marcante do primeiro capítulo foi o strip-tease da personagem de Taís Araújo num comício do pai. A julgar pelos índices do Ibope, o noveleiro vai precisar de outro pé de coelho. A média de estréia de A Favorita, de 35 pontos, foi a pior de que se tem registro nas novelas das 8.’

 

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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