Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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ENTRE ASPAS >

Veja

11/11/2008 na edição 511

ELEIÇÕES NOS EUA
Gabriela Carelli

O truque que animou a festa

‘Quem acompanhava a cobertura das eleições americanas pelo canal a cabo CNN, na terça-feira passada, assistiu a um show-surpresa de tecnologia. A certa altura, a repórter Jessica Yellin apareceu no estúdio da emissora em Nova York frente a frente com o âncora Wolf Blitzer. Uma cena banal, não fosse por um detalhe: naquele momento, Jessica estava a 1 150 quilômetros de distância, em Chicago, cobrindo a aclamação popular a Barack Obama no Grant Park. Quem contracenava com o âncora era uma imagem virtual, em três dimensões, da repórter. Uma espécie de holograma, como aquele da cena clássica do primeiro filme da série Star Wars, em que a Princesa Leia aparece ao mocinho Luke Skywalker. O teletransporte da repórter foi sucesso de público – a audiência do canal, comparada à da noite da eleição presidencial de 2004, no mesmo horário, dobrou. Logo as imagens foram parar no site de vídeos YouTube. Na verdade, o truque usado pela CNN guarda pouca semelhança com a holografia. Essa técnica consiste em gravar e reproduzir as ondas eletromagnéticas que compõem a luz, criando uma imagem em três dimensões. Até hoje, só se conseguiram criar imagens holográficas precárias de pessoas.

A técnica empregada pela CNN foi a telepresença 3D. No parque de Chicago, 35 câmeras de alta definição filmavam Jessica, sobre um fundo verde, captando seu corpo sob todos os ângulos. As imagens eram enviadas a vinte computadores, que as juntavam e reconstruíam a figura de Jessica à perfeição. Os softwares calculavam cada gesto da repórter com relação ao espaço que ela ocupava. As informações eram repassadas à central da emissora em Nova York, onde a imagem de Jessica sob o fundo verde era recortada e reproduzida para o público como se fosse um holograma. No total, 44 câmeras foram utilizadas para criar o efeito especial. A telepresença 3D não é exatamente uma novidade. Diversas empresas a usam para fazer videoconferências entre seus executivos que trabalham em cidades diferentes. ‘Jessica foi incrustada num cenário, como se faz com as apresentadoras da previsão do tempo, só que por meio de uma imagem virtual, eletrônica’, explicou a VEJA Pierre-Alexandre Blanche, do grupo de ciências óticas da Universidade do Arizona. ‘O próprio âncora viu Jessica em uma televisão comum de 37 polegadas, em 3D’, ele informa. A elucidação do truque usado pela CNN não diminui o assombro de ver num estúdio, em carne e osso, uma repórter que se encontrava a quilômetros de distância.’

 

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Vida após a bomba

‘Entre 1946 e 1958, as 23 ilhas paradisíacas que compõem o Atol de Bikini, no Oceano Pacífico, foram submetidas a uma escalada de destruição. Nesse período, os Estados Unidos realizaram 66 testes nucleares no local. Depois das detonações, a barreira de corais que cerca as ilhas ficou arrasada. Por quatro décadas, os níveis de radiação impediram a presença do homem na região. Em 1996, quando o atol foi declarado seguro, o brasileiro Lawrence Wahba tornou-se o primeiro naturalista a receber autorização para filmar em suas águas azul-turquesa. Dois anos atrás, ele retornou às ilhas para conferir as mudanças desde sua primeira passagem por lá. O resultado é o documentário De Volta a Bikini, que estréia no domingo 9, às 21 horas, no canal National Geographic. Suas imagens dão testemunho da capacidade de regeneração da natureza. Em seus mergulhos, Wahba registrou o renascimento da vida até na cratera de 1,5 quilômetro de largura produzida no fundo do mar pela Bravo – a bomba mais poderosa já detonada pelos Estados Unidos, com potência 1?000 vezes superior à daquela lançada sobre Hiroshima. Sobre a superfície deixada pela explosão (que varreu três ilhotas do mapa), um coral começa a se formar.

No contexto da Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos à então União Soviética, a explosão esporádica de bombas atômicas não tinha apenas a função de avaliar novos artefatos. Servia também – e sobretudo – para lembrar ao adversário quão poderosos eram os músculos da parte contrária. A nota curiosa dos testes americanos no atol é que, quatro dias após a primeira detonação, o francês Louis Réard batizou com o nome do lugar o modelo de praia feminino que havia criado – e assim nasceu o biquíni (o nome, na língua nativa, significa ‘gente plantando coco’). Um estouro.

As circunstâncias geográficas favoreceram a escolha desse paraíso no Pacífico. Por estar longe das rotas de navegação, ele não ofereceria riscos a populações humanas (o que se revelou um erro de cálculo: uma nuvem radioativa atingiu ilhas habitadas). Além disso, era ideal para a investigação dos efeitos de explosões nucleares em batalhas navais. Setenta navios e submarinos obsoletos foram afundados com esse fim. E foi graças a eles que a vida renasceu de forma tão exuberante em Bikini. Cobertas de algas e corais, suas carcaças aceleraram o repovoamento da região por peixes, moluscos e crustáceos. Em torno do casco de embarcações como o porta-aviões USS Saratoga e o encouraçado japonês Nagato (este, um troféu da II Guerra: foi a nau de comando da invasão a Pearl Harbor), hoje vivem garoupas e tubarões.

O mar de Bikini é considerado livre de radiação. Mas o problema persiste em terra: os cocos e demais frutos não podem ser ingeridos, porque são contaminados por césio 137. Wahba aborda a situação inusitada dos 4?000 descendentes dos 167 aborígines que habitavam o atol antes dos testes. Seis décadas depois, eles continuam no exílio em ilhas próximas. Sobrevivem das compensações do governo americano. São fundos que somam mais de 170 milhões de dólares – dos quais eles só podem utilizar a remuneração dos juros. Com a crise nas bolsas mundiais, o pessoal de Bikini está numa pindaíba ainda maior. A empresa aérea que voava para o atol faliu. E a sua única atividade econômica – uma pousada para turismo de mergulho – está ameaçada.’

 

CINEMA
Isabela Boscov

Me arrisco, logo existo

‘Amigas de temperamentos opostos, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) desembarcam em Barcelona para uma temporada de crescimento pessoal. Vicky, a organizada, tem um noivo yuppie em Nova York e planejou que seu engrandecimento será apenas acadêmico, com uma pesquisa sobre a cultura catalã. Cristina, a topa-tudo, quer, sei lá, se conhecer melhor e descobrir qual seu verdadeiro talento, se ele existir. De uma exposição de arte, elas partem para uma aventura. Na galeria está o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), conhecido pelo divórcio rumoroso: sua ex-mulher, a também artista Maria Elena (Penélope Cruz), cravou-lhe uma faca nas costas, e durante algumas semanas os dois foram o assunto da cidade. Tirando todo o proveito de seus olhos de alcova, Bardem aborda as amigas em uma cena deliciosa, na qual propõe que elas o acompanhem em um fim de semana de cultura, gastronomia e sexo. Vicky fica indignada. ‘Desculpe, apenas fiz minha melhor oferta’, retruca o pintor. Como Cristina aceita a oferta, que de fato não parece nada má, Vicky vai junto para zelar por ela. A certa altura, porém, as coisas sairão um pouco do programa. E esse é o eixo de Vicky Cristina Barcelona (Espanha/ Estados Unidos, 2008), o novo e excelente filme de Woody Allen, que estréia nesta sexta-feira no país: as coisas – quaisquer que sejam elas – sempre hão de sair do programa. Ainda bem, porque em geral as pessoas tendem a ser péssimas autoras de seus próprios roteiros.

Depois de três filmes rodados na Inglaterra, Allen aproveita o novo ambiente para brincar um pouco de Pedro Almodóvar. E não só pela ótima participação de Bardem e Penélope, ambos em grande forma cômica: desde Hannah e Suas Irmãs, de 1986, ele não prestava tanta atenção às suas personagens femininas, nem fazia um filme seguir tão de perto a coreografia do desejo. Só que os romances aqui não transpiram nenhuma paixão, porque são um mero emblema do imprevisto. Tanto Vicky quanto Cristina serão tocadas pelo imponderável, representado por Juan Antonio. Uma aproveitará o impulso para se lançar numa nova trajetória; a outra vai descrever um círculo e voltar ao mesmo ponto – mas mais triste e insatisfeita, porque agora sabe que a vida pode conter outras coisas, e que lhe falta a coragem para abraçá-las. Trata-se, enfim, quase de um jogo de salão, em que cada espectador deve decidir, ao final, se é mais Vicky ou mais Cristina, e se isso lhe convém realmente ou não. O diretor, de sua parte, sabe bem de que lado está. Aos 72 anos, ele parece aqui olhar para trás e concluir que os acertos têm um talento danado para se travestir de erros, e os erros, de acertos. Quem não se arriscar poderá até viver – mas não verá.’

 

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