Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 24 E 25/1

Veja

27/01/2009 na edição 522

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Maloca querida

‘Ultimamente, a favela de Tavares Bastos, no Rio de Janeiro, tem sido agitada pela presença de equipes de gravação da Rede Record. Para a produção das cenas de perseguições e tiroteios de A Lei e o Crime, a primeira investida da emissora no filão das séries, casas e vielas são ocupadas por atores, técnicos e equipamentos. Em muitos locais, isso causaria comoção. Não na Tavares Bastos. ‘Quando passam por nós, os moradores nem olham para as câmeras’, diz Hiran Silveira, responsável pela área de teledramaturgia da Record. Os 8 000 habitantes estão mesmo acostumados à rotina de gravações. Desde o filme Cidade de Deus (2002), retratar o cotidiano dos morros cariocas constitui um gênero à parte no cinema e na TV. E a Tavares Bastos converteu-se na mãe de todas as locações por oferecer tudo o que uma favela carioca tem – exceto a criminalidade. A ausência de bandidagem deve-se à vizinhança do Bope, o batalhão retratado em Tropa de Elite (2007) – filme de José Padilha que foi, em parte, rodado ali. O mesmo se aplica a Cidade dos Homens, tanto a série da Globo como o longa-metragem. Quanto à Record, virou freguesa do morro: gravou lá a novela Vidas Opostas (2007) e, agora, A Lei e o Crime. A temática vem lhe rendendo ibope, sobretudo no Rio. Na segunda passada, A Lei e o Crime obteve média de 24 pontos na cidade, empatando em primeiro lugar por minutos com atrações da Globo como o BBB 9. O pessoal da Tavares Bastos ganha seu quinhãozinho com isso. A associação dos moradores cobra coisa de 1 000 reais por dia de gravação no local. (Em tempo: não são só os produtores nacionais que procuram pela Tavares Bastos. Em 2007, a favela serviu de set para a superprodução O Incrível Hulk 2.)

Embora partam de um só ponto, essas produções chegam a lugares bem distintos. Tropa de Elite dá à favela ares expressionistas (veja o quadro). Cidade dos Homens revela o dia-a-dia de gente que vive sob o signo da violência. A Lei e o Crime busca ser um amálgama disso tudo (o esforço em emular Tropa de Elite fica patente no elenco, que conta com Caio Junqueira e André Ramiro, os aprendizes de policial do filme). Mas esses elementos são reduzidos a clichês, já que a trama é, no fundo, um baita melodrama – como, de resto, o autor Marcílio Moraes já fazia em Vidas Opostas. Narra-se o embate entre Nando (Ângelo Paes Leme), desempregado que se converte em chefe do tráfico depois de matar o sogro, e o cunhado Romero (Junqueira), policial corrupto ligado às milícias e obcecado por vingar a morte do pai. A terceira protagonista é Catarina (Fran-cisca Queiroz), socialite que vê o pai também ser assassinado por Nando e troca a vida na flauta pelo trabalho como delegada. A moça é um poço de ingenuidade bem-intencionada num distrito policial que é um ninho de cobras.

Por um ranço esquerdoide, diretores e roteiristas brasileiros sempre tenderam a demonizar a autoridade policial e a romantizar os bandidos. Cidade de Deus rompeu com essa visão demagógica ao mostrar que não é o meio que faz as pessoas, e sim seu próprio arbítrio. E Tropa de Elite colocou as coisas de vez no lugar, ao tratar bandidos como bandidos. Em A Lei e o Crime, Marcílio Moraes faz do traficante Nando um sujeito simpático. Ele matou o sogro? Bem, o velho é que o humilhou demais. ‘A vida o levou ao crime. Em outras circunstâncias, Nando seria um general brilhante’, diz Moraes. Ele tem, ainda, uma ligação terna com a mulher e a filha e é generoso com os moradores da favela. E o principal: os policiais que o perseguem são monstros ainda mais hediondos. Além do cunhado miliciano, há o investigador seboso interpretado pelo veterano Kito Junqueira que, na semana passada, prendeu, torturou e violentou um rapaz inocente. Nesse aspecto, a série é um retrocesso.’

 

 

***

Sob o domínio da bhangra

‘Trabalhar numa novela de Glória Perez não requer apenas que o ator ‘mergulhe no seu personagem’. Exige também que ele procure, se não o seu Fred Astaire, ao menos o seu Carlinhos de Jesus interior. Pé-de-valsa notória, a noveleira invariavelmente põe seus intérpretes para bailar. Na semana de estreia de Caminho das Índias, novo folhetim das 8 da Globo, os capítulos tiveram, em média, dois números dançantes. Jovens ou veteranos, vários atores mostraram como o corpo humano em movimento pode ser gracioso – ou travadão.

De todo o elenco, apenas Juliana Paes e a garota Karina Ferrari tiveram preparo intensivo. Ambas aprenderam a bhangra, uma dança típica e hoje muito em voga na Índia. Karina mostrou bom molejo, mas Juliana traiu certa tensão ao fazer aqueles movimentos sinuosos com os braços. Sua personagem, Maya, é ainda adepta da Bollywood dance, modalidade praticada pelas estrelas dos filmes indianos. No segundo capítulo, trancada em seu quarto, ela explodiu em piruetas ao descobrir-se apaixonada pelo até agora não-dançante Bahuan (Márcio Garcia).

Ao contrário de Karina e Juliana, os demais atores só treinaram num workshop. Rodrigo Lombardi, o Raj, foi quem mais requebrou até agora. No capítulo de abertura, Raj saltou de uma boate brasileira, onde fez a dança do acasalamento com a namorada, para um arrasta-pé na casa dos pais, na Índia. ‘Ele ainda está travadinho, mas tem tudo para se soltar’, diz a coreógrafa Maria Pia Finocchio. Colegas de Lombardi, contudo, não deixam tal esperança. No mesmo bailão indiano, Eliane Giardini misturava a bhangra e a quadrilha caipira, enquanto Caio Blat tentava safar-se ondulando dois dedos diante dos olhos. Até Tony Ramos, quem diria, se saiu melhor.’

 

 

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