Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Veja

31/03/2009 na edição 531

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

O patriarca das novelas

‘Há um mês, a coletiva de lançamento de Paraíso, remake do sucesso dos anos 80 de Benedito Ruy Barbosa, foi agitada por declarações ácidas do noveleiro. Ele questionou a decisão da Globo de fazer uma novela sobre a Índia (caso da trama das 8 de Glória Perez), em vez de focalizar o próprio Brasil. Reclamou também de os folhetins trocarem o romantismo pela promiscuidade. ‘Quando vou ao interior, as pessoas me dizem que na Globo só tem bicha e sapatão’, afirmou. Mais tarde, ainda que o estrago já estivesse feito, negou a intenção de criticar os colegas. ‘Toda vez que viajo por este Brasilzão, as beatas me importunam com barbaridades’, disse ele a VEJA na semana passada. Concorde-se ou não com tais opiniões, um fato é irrefutável: às vésperas de completar 78 anos, e desde 2002 sem escrever em razão de problemas de saúde, Benedito é o representante solitário de um jeito de fazer novela – aquele que celebra as paisagens, o ritmo de vida moroso e a suposta pureza do interior brasileiro. É uma fórmula em risco de extinção. ‘Hoje, as novelas não vão além do Leblon e de Ipanema, ou da Avenida Paulista. É uma limitação triste’, diz o autor.

No ano passado, uma reexibição de Pantanal, que na década de 90 permitiu à extinta Manchete impor uma derrota histórica à Globo, tirou o SBT de Silvio Santos do limbo no ibope. E, desde Cabocla (2004), os remakes de suas tramas são um trunfo da Globo. No ar há duas semanas, a história de amor entre a filha de uma beata e um peão endiabrado tem a missão de resgatar o público tradicional do horário das 6, as mulheres maduras, afugentadas pela moderninha Negócio da China. Mas, com audiências próximas dos 20 pontos (a anterior teve média de 19), Paraíso ainda não disse a que veio.

Não são poucos os noveleiros que escalam parentes ou amigos para suas tramas. Benedito foi mais longe. Casado há 54 anos (com Marilene), ele é um patriarca que transformou sua obra em negócio familiar. As filhas Edmara e Edilene fazem as readaptações. O filho Ruy administra os negócios. E o caçula, Marcelo, cuida das trilhas musicais. Além do belo salário de Benedito, na casa dos 250 000 reais mensais, a Globo remunera as filhas e Marcelo por esses trabalhos. A terceira geração dos Barbosa já dá continuidade à tradição – não sem provocar celeuma no clã. Edilene reivindicava um papel de destaque em Paraíso para Paula, sua filha, cujo currículo não ia além de algumas peças teatrais. Edmara discordava. Quando o debate entre as filhas encrespou, Benedito interveio: ‘Eu disse a elas: ‘Quem decide sou eu. E chega de briga’ ’. Paula ganhou uma personagem quase figurativa. Justifica Benedito: ‘Não é por ser minha neta que ela faria um papel importante sem ter condições’.

Ainda que não pegue mais no leme, Benedito continua a ser o árbitro em tudo o que diz respeito à sua obra. Depois da confusão, decidiu que cada filha trabalhará num projeto diferente, para não haver ciumeira. Dias atrás, reclamou com Marcelo da indigência do tema instrumental da abertura da novela (trocado, enfim, na semana passada). Na readaptação de Paraíso, por outro lado, permitiu que Edmara desse um viés, digamos, pragmático à mensagem ecológica da trama. Enquanto a novela original denunciava a destruição da Mata Atlântica, a nova faz apologia das belezas de Mato Grosso. ‘O estado foi muito atacado por causa do desmatamento da Amazônia. Vamos mostrar seu lado bom’, diz Edmara. O governo local está bancando a logística da Globo. Por coincidência, é claro, a novela elogiará seus programas ambientais. E o personagem Eleutério (Reginaldo Faria) é um fazendeiro ecologicamente correto.

Benedito vem anunciando sua aposentadoria desde que teve um colapso nas gravações de Esperança (2002). Na ocasião, sua mãe estava no leito de morte e os médicos o haviam obrigado a parar de fumar (eram quatro maços por dia). ‘Eu disse para a Globo: ‘Se tiver de escrever a novela até o fim, vou morrer’, conta. A emissora escalou às pressas o colega Walcyr Carrasco. ‘Ele mudou minha novela completamente. Fiquei com tanta raiva que parei de ver. Fui pescar’, diz. Em 2006, Benedito teve um derrame cerebral. Estava sozinho no seu sítio, no interior paulista, quando tropeçou e bateu a cabeça num guarda-roupa. Por três dias, suas tonturas foram tratadas como labirintite. Ele teve de ser submetido a uma operação de emergência e ficou 21 dias em coma.

Benedito se recupera de sequelas nos movimentos e faz questão de mostrar que a memória ainda funciona. Mas se diz ‘sem vontade’ de criar. Mesmo assim, a Globo lhe cobra mais uma novela das 8. Ainda que Benedito não escreva uma linha a mais, o patrimônio do clã não parará de engordar. O contrato com a emissora vai até 2012 e seus 34 folhetins ainda podem render muitos remakes. Mas seu maior sonho – uma readaptação de Pantanal – foi adiado. Benedito, que havia vendido os direitos da novela à Globo com esse fim, entrou na Justiça contra o SBT por exibir a obra sem autorização. ‘O Silvio nem me ligou para falar: fiz um bom negócio, agora vamos discutir isso. E olha que ele é meu amigo – até onde Silvio Santos pode ser amigo de alguém’, diz.’

 

LIVRO
Carlos Graieb

Memórias quase póstumas

‘Parece ser uma sina inescapável para os escritores brasileiros fazer uma oferenda, cedo ou tarde, no altar de Machado de Assis. A oferenda de Chico Buarque acaba de ser entregue: é o seu quarto romance, Leite Derramado (Companhia das Letras; 196 páginas; 36 reais). O espírito do livro não poderia ser mais machadiano: com um misto de amargura pelos próprios fracassos e desdém senhorial pelas pessoas que o cercam, Eulálio Montenegro D’Assumpção, um filho da classe alta brasileira, relembra a sua história de maneira não inteiramente honesta. Mas também nos detalhes as dívidas com Machado se revelam. De Dom Casmurro vem, por exemplo, o tema do ciúme doentio que acaba por destruir a vida de uma mulher. E, se as Memórias Póstumas de Brás Cubas são narradas, de maneira inusitada, por um ‘defunto autor’, Leite Derramado se esforça em busca de um efeito próximo: com mais de 100 anos, e meio embotado pela morfina, o anti-herói Eulálio agoniza no ‘ambiente pestilento’ de um hospital público do subúrbio carioca, onde desfia seu monólogo para enfermeiras distraídas.

Leite Derramado pretende fazer um diagnóstico crítico da sociedade brasileira. Filho de senador da República, neto de nobre do Império, bisneto de um figurão da corte de dom João VI – e assim por diante, até o tempo dos afonsinhos –, Eulálio é herdeiro de todos os vícios e preconceitos de seus antepassados. Ele seria a prova viva de como males ancestrais ainda infectam o presente. O problema é que, nascido em 1907, Eulálio não é, verdadeiramente, um homem do tempo atual. Na verdade, ele quase não é um homem do século XX. Tudo o que aconteceu no Brasil a partir dos anos 50 mal se reflete em sua narrativa. Novamente, a sombra de Machado de Assis se impõe. Machado apontou mazelas concretas de seu tempo. Chico Buarque, ao contrário, não fala de como o racismo, o sexismo, a corrupção ou o esbulho das coisas públicas se manifestam no Brasil contemporâneo – fala apenas das peculiaridades odiosas de um homem muito velho, criado 100 anos atrás. Sua pretensão sociológica naufraga nas águas rasas do esquerdismo. O que sobra é a denúncia, vazia e caricatural, de uma ‘elite podre’.

Isso não significa que Leite Derramado seja uma má leitura. Desde o seu primeiro livro, Estorvo, Chico Buarque pratica um estilo em que o prosaico se mistura a efetivos achados poéticos. Esse estilo leve arrasta o leitor para dentro da história. A maneira fragmentária como Eulálio vai arrancando lembranças do ‘pandemônio da memória’ também cria lacunas e um certo suspense. O maior enigma é a natureza do sumiço de Matilde, a amada esposa de Eulálio. Ela fugiu com outro homem? Foi acometida por uma doença terrível? Ou recebeu um castigo imerecido? Longe de ser um fracasso como narrativa, o novo livro de Chico Buarque apenas deixa de realizar todas as suas ambições – e mostra que nunca é seguro para um escritor seguir as pegadas de Machado de Assis.

DESEJO POR FÊMEAS

‘Foi meu pai quem me apresentou às mulheres em Paris, contudo, mais que as próprias francesas, sempre me impressionou o seu olhar para elas. Assim como o aroma das mulheres daqui não me impressionava tanto quanto o cheiro dele, impregnado na garçonnière que ele me emprestava. Debaixo do chuveiro eu agora me olhava quase com medo, imaginando em meu corpo toda a força e a insaciedade do meu pai. Olhando meu corpo, tive a sensação de possuir um desejo potencial equivalente ao dele, por todas as fêmeas do mundo, porém concentrado numa só mulher.’

Trecho de Leite Derramado, de Chico Buarque’

 

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