Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Veja

20/10/2009 na edição 560

BIZ STONE
Paula Neiva

O mundo em 140 caracteres

‘Dois anos atrás, o americano Christopher Isaac Stone, mais conhecido pelo apelido de infância Biz Stone, de 35 anos, criou o Twitter em parceria com os amigos Jack Dorsey e Evan Williams. O Twitter, que permite a publicação, em tempo real, de mensagens curtas, de apenas 140 caracteres, tornou-se um fenômeno da internet, com 50 milhões de pessoas cadastradas. O modelo, inspirado nas mensagens de texto de telefone celular, inaugurou uma forma arrebatadora de comunicação via internet. Autor de dois livros sobre as origens e o significado social dos blogs, Stone está entre as 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a revista americana Time. Ex-funcionário do Google, ele participou do desenvolvimento de outro serviço de mídia social de grande repercussão, o Blogger. Stone chega ao Brasil nesta terça-feira, para participar do Encontro Agenda do Futuro, do Grupo TV1, em São Paulo. De seu escritório, em São Francisco, Stone concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Apenas dois anos depois da fundação do Twitter, a revista Time incluiu seu nome na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo. Não é cedo demais para virar celebridade?

O caminho está só no começo. Por isso, ainda é cedo para ter plena consciência do que está ocorrendo. A escolha da revista Time foi um prêmio pela dedicação do nosso time, que realmente criou algo especial.

‘Muitas pessoas buscam na internet informações sobre seu microcosmo. Elas querem saber por que está faltando luz ou a razão do barulho na vizinhança e esperam que alguém saiba e coloque na rede’

O que desperta maior interesse no Twitter? Fofocas ou notícias?

Nem um nem outro. O que desperta maior interesse são os assuntos relacionados à comunidade em que o usuário está inserido. Observamos que muita gente busca informações sobre seu microcosmo. Ou seja, se falta luz no bairro ou se há um barulho incomum, as pessoas buscam informações no Twitter, sabendo que seus vizinhos estão na mesma situação. É natural esperar que alguém saiba o que está ocorrendo e coloque isso na internet. Nossa ferramenta se tornou uma maneira de alguém se conectar imediatamente com pessoas que estão passando ou que passaram por uma mesma situação. Existe um senso de comunidade, com as pessoas interligadas e sabendo que vão encontrar informações atualizadas sobre interesses em comum. Dessa forma, o que mais movimenta o Twitter não é um tipo de post ou um post específico, mas o conjunto de muitos posts sobre uma enormidade de temas.

Algumas empresas impedem o uso do Twitter por seus funcionários. Não deveria ser o contrário?

É compreensível que as empresas queiram preservar informações internas, confidenciais e que pensem em restringir sua divulgação. Por outro lado, nem sempre uma indiscrição é negativa para a empresa. A repercussão dessas informações pode causar grande benefício, ao aumentar o interesse do público. Pelo menos nos Estados Unidos, esse é um fenômeno que já ocorreu com muitos programas de televisão. Várias empresas usam esse recurso como marketing. Mas ainda é preciso testar possibilidades para estabelecer os limites dessa ferramenta.

Barack Obama abusou do Twitter para mobilizar os eleitores e arrecadar fundos na campanha. Isso não torna as eleições mais superficiais?

A internet foi criada para dar a todos a possibilidade de obter e publicar informações. Essa troca livre e desimpedida é muito poderosa. O problema era a barreira técnica. Muita gente deixa de publicar na internet por desconhecer a linguagem técnica do meio. O Twitter reduziu essa barreira. O único requisito para publicar é saber digitar. Os políticos precisam estar conectados com seus eleitores. Como o Twitter permite a conexão direta, é natural que tenha se tornado uma ferramenta presente nas campanhas políticas. Não há nada de errado nisso. Quanto mais pessoas compartilharem informações, melhor para todos.

A revolta popular contra a fraude eleitoral no Irã foi chamada de ‘Revolução do Twitter’. Surgiu um novo inimigo das ditaduras?

Acredito que a troca e a circulação de informações podem ter, sim, um impacto positivo em escala global. A troca aberta de informações é algo desejado há muito tempo. O que criamos, no fundo, foi uma daquelas raras coisas de que não sabemos que precisamos, até o momento que passamos a usá-las.

As pessoas agora medem seu sucesso pessoal de acordo com o número de seguidores que arrebanham no Twitter. Isso é sadio?

Elas certamente estão oferecendo informações relevantes a outras pessoas. A forma mais eficiente de ter muitos seguidores é ‘tuitar’ informações úteis e de interesse para o maior número de pessoas que compartilham determinado perfil. Nem sempre é preciso ser algo inédito. Pode ser uma citação ou um endereço da web interessante. É natural que as pessoas queiram ter um número cada vez maior de seguidores. Muitas usam o cartão de visita e a assinatura de e-mail para propagandear que já estão no Twitter.

Alguma estratégia de aumentar o número de seguidores no Twitter já o surpreendeu?

A primeira que me vem à cabeça é a foto que o ator Ashton Kutcher publicou da própria mulher, a atriz Demi Moore, de calcinha. Até gostaria de saber se ele teve problemas em casa por causa disso. Foi um sucesso instantâneo.

Que mensagem mais o comoveu?

No ano passado, um estudante da Universidade da Califórnia em Berkeley, James Buck, descobriu que jovens no Egito organizavam protestos usando seus contatos no Twitter. Ele viajou para o Egito para acompanhar uma manifestação e foi preso. Como os policiais não confiscaram seu celular, ele conseguiu ‘tuitar’ uma única palavra: ‘Preso’. Os amigos que sabiam onde ele estava contataram a embaixada americana. Pouco tempo depois, ele publicou: ‘Libertado’. O episódio me abriu os olhos para um uso do serviço que eu não imaginava.

O Twitter é a quarta entre as redes sociais mais acessadas no Brasil, com 10 milhões de visitantes por mês. O sucesso no Brasil o surpreendeu?

Há apenas dois anos nem sequer tínhamos certeza de que alguém gostaria da nossa ideia. Mas não posso dizer que o sucesso no Brasil tenha sido uma surpresa total, porque já sabia da popularidade das redes sociais no país. Parece que a vontade de se conectar com outras pessoas é algo intrínseco à cultura do brasileiro.

Qual a principal diferença entre o Twitter e outras redes sociais, como o Orkut e o Facebook?

Nas redes sociais, a pessoa é obrigada a seguir quem o segue. Ou seja, para ter acesso às informações de alguém, é preciso que essa pessoa também esteja na sua rede de contatos. No Twitter, não. Não há necessidade de reciprocidade para seguir alguém. Você pode não seguir ninguém e ter milhares e até milhões de seguidores.

‘Hoje, 4 bilhões de pessoas têm celular, mas apenas 1,5 bilhão acessam a internet. Em alguns anos, qualquer pessoa, não importa onde viva, participará de redes sociais e usará ferramentas como o Twitter’

Como ocorreu com outros sucessos digitais, o destino do Twitter é ser vendido logo?

Não temos nenhum interesse em falar sobre vender a ferramenta. Estamos construindo uma companhia que é nossa e que ainda estará viva por muito tempo.

Sem publicidade, qual será o modelo de negócio dessa rede que vocês criaram?

Somos uma empresa muito jovem. Temos outras prioridades. Precisamos nos concentrar em expandir o serviço e ter a certeza de que o Twitter se tornará uma ferramenta indispensável na vida das pessoas. Estamos abrindo portas, mas a exploração comercial não é nossa maior preocupação no momento.

Os investidores que deram dinheiro a vocês não pressionam para chegar a algum modelo que dê lucro?

Queremos inventar uma fórmula que não aborreça o usuário. Estamos trabalhando na criação de ferramentas desenvolvidas para empresas. Até o fim do ano, vamos ter contas específicas para empresas. O serviço terá uma fase inicial experimental. É daí que poderá vir o retorno para quem investiu em nossa ferramenta.

A ideia de cobrar não pode assustar os usuários não comerciais?

Não. O Twitter continuará sendo gratuito para todos. Mas a empresa que quiser poderá ter acesso a ferramentas adicionais, que mostrem se uma mensagem específica fez sucesso ou não, que permitam análises ou a ajudem a ser mais atraente para o público que deseja alcançar. Além disso, haverá uma espécie de certificação de que aquele Twitter realmente pertence àquela empresa.

Mantido o atual ritmo de crescimento, o que se pode prever sobre o futuro imediato das redes sociais?

O mundo terá mais mobilidade devido ao acesso móvel à internet. Hoje, 4 bilhões de pessoas têm celular, mas apenas 1,5 bilhão dispõem de acesso à internet. Daqui a alguns anos, qualquer pessoa, independentemente da idade e do local onde viva, participará de redes sociais e usará ferramentas como o Twitter. Acho que haverá uma integração entre as redes sociais, em decorrência não apenas da evolução da tecnologia, mas da vontade das pessoas.

O que não aparece de modo algum em seu Twitter?

Qualquer coisa que desagrade a minha mulher. Não quero ficar em apuros em casa. Não que eu esteja sempre ligado nisso. O que quero dizer é que, de maneira geral, deixo de fora informações de cunho pessoal, que possam fazer com que eu me arrependa mais tarde.

Como o Twitter é rápido e fácil de usar, muita gente acaba revelando nele justamente coisas das quais se arrepende depois…

Eu mesmo já passei vergonha uma vez, um ano atrás. Temos um sistema que permite enviar mensagens sigilosas a um destinatário específico. Escrevi a minha mulher informando a hora de chegada do trem em que eu viajava e pedindo que me encontrasse na estação. A mensagem terminava com um ‘eu te amo’. Fiz algo errado e mandei essa mensagem a todos os meus seguidores. Quando percebi o engano, já tinha recebido comentários com brincadeiras ou dizendo que me amavam também, mas que não ia dar para me buscarem na estação de trem.

Muita gente expõe de forma excessiva sua intimidade na internet…

As pessoas estão aprendendo que, quando fazem um blog e publicam coisas na rede, não são apenas os amigos que veem e participam de sua vida. Muitas ficam chocadas quando se dão conta de que estão realmente expondo sua vida em um ambiente público. Creio que aos poucos elas vão aprender a selecionar o que realmente querem compartilhar com os outros.

Vi que Biz Stone segue 288 pessoas pelo Twitter. Dá tempo de ler tudo o que elas publicam?

Não vejo problema em seguir muitas pessoas, porque as atualizações são mensagens curtas. Checo minha conta muitas vezes ao dia, mesmo quando estou no supermercado ou no táxi. Quero estar sempre por dentro do que está acontecendo.

Mas são 288 pessoas mandando mensagens o tempo inteiro. Alguma coisa escapa, certo?

Sinceramente, acho que deixo de ler algumas coisas. Mas tudo bem. Essa é a beleza do Twitter. Como as atualizações são curtas e simples, não é preciso preocupar-se com a perda de algumas delas. Outra coisa de que gosto é que, ao contrário do e-mail e das mensagens instantâneas, no Twitter não há necessidade de resposta. Você responde se quiser, e quem publica não tem a expectativa de resposta. Se você ficar longe do Twitter por alguns dias, ninguém vai se zangar com você por isso. Cada dia que passa, eu recebo mais e mais e-mails em minha caixa postal. O e-mail é um sistema impraticável, pois é simplesmente impossível responder a toda a demanda que cria. O Twitter permite fugir dessa obrigação.’

 

MÍDIA E POLÍTICA
André Petry, de Nova York

O talibã de Obama é… uma TV!

‘A sincronia dos acontecimentos não deixa margem a dúvida. Primeiro, o presidente Barack Obama aplicou um castigo no inimigo. Depois, tentou amansá-lo, mandando um assessor com uma conversa de lábios de mel. Também não deu certo. Aí, na semana passada, abriram-se as baterias contra o inimigo – no caso, a Fox News, o canal de notícia mais popular da TV a cabo dos Estados Unidos. O primeiro torpedo veio quando o porta-voz do governo, Robert Gibbs, disse que já viu muitas reportagens na Fox que ‘não são verdadeiras’. Em seguida, despejando chumbo mais grosso, veio o segundo torpedo. Em entrevista à CNN, concorrente da inimiga, a chefe da assessoria de imprensa da Casa Branca, Anita Dunn, acusou a emissora de ser um ‘braço do Partido Republicano’ e anunciou que o governo vai tratá-la do ‘mesmo jeito que trata um oposicionista’. Foi como uma declaração oficial de guerra. Tudo porque a Fox critica, denuncia e azucrina a administração Obama dia após dia. Das grandes redes, é a única emissora da televisão americana que faz o que toda a imprensa deveria estar fazendo: fiscalizar o governo.

O troco veio na forma amarga do ridículo. O apresentador Glenn Beck, 45 anos, humorista nato, dono da audiência que mais cresce no país, deitou e rolou. Na segunda-feira, abriu seu programa na Fox com um mapa de Nova York, marcou o local do edifício da emissora, cercou-o com aviões e tanques militares de plástico e esbravejou: ‘Este é o inimigo, América! Tudo o que está errado no país acontece bem aqui!’. No dia seguinte, instalou no estúdio um telefone vermelho para que a Casa Branca ligue quando ouvir uma informação mentirosa. Desde então, ele vive sussurrando ao telespectador: ‘Anita Dunn ainda não ligou…’. Pegou no pé da moça. Mostrou um vídeo em que Dunn exibe a coe-rência de seu ideário – é fã, em igual medida, de Madre Teresa de Calcutá e Mao Tsé-tung. As escaramuças contra a Fox vêm de antes. Em setembro, Obama fez um tour dominical pelas TVs e excluiu a Fox. Depois, despachou seu auxiliar, David Axelrod, para uma conversa sigilosa com Roger Ailes, cérebro do sucesso da emissora. A conversa não serviu para sossegar o governo.

Fundada em 1996, a Fox News integra o conglomerado do bilionário Rupert Murdoch, do qual faz parte o Wall Street Journal, que acaba de roubar do USA Today a coroa de o maior jornal do país. Já na campanha eleitoral, a Fox ficou nos calcanhares de Obama. Jogou luz sobre seu pastor, Jeremiah Wright, o amalucado que pedia ‘Deus amaldiçoe a América’. Obama deixou a igreja. Depois da posse, coube à Fox divulgar que o responsável por empregos ecológicos da Casa Branca, um tal de Van Jones, era um radical esquerdista do tipo que acusa o governo de tramar o 11 de Setembro. Jones foi demitido. A Fox também noticiou que a Acorn, entidade ligada aos democratas que atua no movimento comunitário e recebe dinheiro público, é um antro de ilegalidades. Equipes flagraram funcionários da Acorn ensinando a sujeitos que se faziam passar por imigrantes como montar uma casa de prostituição com meninas menores de idade. Não foi um azar da Acorn. Ensinar a cometer crimes parece parte dos seus serviços. O flagra deu-se em seis escritórios da Acorn em diversos estados, e em todos a orientação sobre como explorar sexualmente menores de idade foi dada com a mesma precisão. O Congresso se limitou a cortar o dinheiro da Acorn.

A Fox não falsifica fatos. Ela os relata com a crueza necessária. Assim, destaca-se no cenário de jornalismo serviçal à Casa Branca que se instalou nos EUA. Os leitores do New York Times, por exemplo, foram informados do escândalo da Acorn de forma truncada, parcial e vergonhosamente partidária. Nesse ambiente, a Fox sente-se segura para caricaturar e reafirmar a ideologia e os preconceitos de sua audiência. Glenn Beck, com seus olhos arregalados, parece um pregador messiânico, a última esperança para ‘salvar a América dos comunistas marxistas revolucionários’. A visão é desagradável até para os conservadores. Michael Savage, o popular radialista conservador, diz que Beck é ‘uma hemorroida com olhos’. Desde que a Casa Branca decidiu competir com Beck para ver quem reage de forma mais ridícula, seu show tem sido mais engraçado que ofensivo. O mapinha de guerra e o telefone vermelho são achados cômicos sensacionais. Governos, de esquerda, centro ou direita, acima ou abaixo do Equador, têm de lidar com a imprensa, com toda a imprensa: a chapa-branca e aduladora, a crítica e independente e a sensacionalista ou irresponsável. Os presidentes americanos costumam ser mestres nessa arte que, agora, parece perdida. E virou piada: além da Al Qaeda, Bin Laden, talibãs e aiatolás, Obama tem agora a Fox.

A história americana é crivada de exemplos de imprensa atacando o governo impiedosamente. George Washington? Um déspota que ‘ameaçou a própria existência da liberdade’, segundo The Aurora. Abraham Lincoln? Um ‘gorila tirano que usurpou a Presidência’, de acordo com The Old Guard. Franklin Roosevelt? Implementava ‘o manifesto comunista de 1848 com mais competência que a Rússia’, segundo The Nation’s Business. Mas é raro encontrar exemplo do contrário, de governo atacando a imprensa. Acontece. Aconteceu com Richard Nixon, quando o jornal The Washington Post denunciava o Watergate. É raro porque é incompatível com a democracia americana – na verdade, com qualquer democracia que mereça o nome. George W. Bush e o vice Dick Cheney achavam que o New York Times e a CNN eram um braço do Partido Democrata. E aí? Presidentes devem ficar acima disso. A lição vem dos tempos de Thomas Jefferson (1743-1826), que, se tivesse de escolher, preferiria ‘uma imprensa sem governo a um governo sem imprensa’.

Em vez de se contentar com a docilidade generalizada que já desfruta na imprensa, a Casa Branca, ao confrontar a Fox, exige nada menos que a unanimidade a favor. É mau sinal, mas é também um equívoco de curto e longo alcances. De curto alcance, porque a tendência é que o telespectador da Fox se torne ainda mais fiel. O erro de longo alcance é comparar a Fox com os republicanos. No governo Bush, do qual era devota, a emissora não mostrou um décimo da combatividade atual. Mas não é republicana. Faz uma agitação direitista que é mais espetáculo e fanfarra do que manifesto ou linha partidária. A Fox não quer eleitores. Quer audiência. E está conseguindo. Dos dez programas mais vistos dos canais de notícias a cabo, todos – sim, todos – são da Fox. O líder é The O’Reilly Factor, apresentado por Bill O’Reilly, um senhor que desce o malho no governo e faz ‘psiu’ para mandar o entrevistado calar a boca. Está há mais de 100 semanas no topo de audiência.

A Fox faz parte de um nicho dominado por essa direita estridente. Nas rádios, a supremacia é acachapante. Todos os dez programas mais ouvidos são apresentados por algum radialista conservador. A explicação é singela. ‘Acontece que eles são os mais talentosos, oferecem o que o público busca: informação e entretenimento’, diz Michael Harrison, da revista Talkers, a bíblia do rádio do país. O campeão, com 14 milhões de ouvintes semanais, é Rush Limbaugh, eterno guru da provocação política. Faz tanto sucesso que enriqueceu. Coleciona carrões, tem avião de 54 milhões de dólares e cinco casas na Flórida. Uma delas, de 6 000 metros quadrados, tem réplica do lustre de cristal Baccarat do hotel Plaza, em Nova York, e quarto de hóspedes que imita a suíte presidencial do George V, em Paris. Na lista dos livros mais vendidos do New York Times, todos os títulos de política, com uma exceção, são de autores da direita. O sucesso do momento é Arguing with Idiots (Discutindo com Idiotas), do mesmo Glenn Beck da Fox. Seu livro é um manual de instruções para debater com democratas liberais e esquerdistas em geral – os ‘idiotas’.

Glenn Beck é, ele mesmo, o melhor exemplo da ascensão da direita festiva pós-Obama. Há dez anos, sua vida poderia ser resumida assim: filho de mãe suicida e alcoólatra em recuperação, ele acaba de se casar de novo e perder o emprego de radialista – pela quarta vez. Hoje, uma década depois, ele é um fenômeno. Escreveu seis livros, e quatro chegaram à lista do Times. Seu site recebe 5 milhões de visitantes únicos por mês. No rádio, com 8 milhões de ouvintes semanais, tem a quinta maior audiência. Mas explodiu mesmo foi na Fox. Seu programa estreou em janeiro, junto com Obama na Casa Branca. Em setembro, Beck apareceu, de língua de fora, na capa da revista Time. Já ganhou 23 milhões de dólares. Apesar do sucesso na TV, em rádios e livrarias, essa turma não dá as cartas no jogo político, nem no Partido Republicano. ‘Não devemos confundir barulho com influência’, diz Markus Prior, professor de Princeton e autor de Post-Broadcast Democracy, uma análise sobre a TV e a internet na política americana. ‘A vasta maioria dos americanos é politicamente moderada.’

No período glorioso do movimento conservador americano, dos anos 60 até o governo de Ronald Reagan, havia um equilíbrio entre a direita fanfarrona e os intelectuais do conservadorismo, como William Buckley e Milton Friedman. Hoje, restou só a fanfarra. Obama, com seus assessores torpedeando a Fox, parece profundamente irritado de ser chamado de ‘comunista do Quênia’ ou ser acusado de querer matar velhinhos, doutrinar crianças na ideologia marxista ou despachar adolescentes para campos de reeducação. Talvez tudo isso faça mais estrago ao próprio conservadorismo americano, que, assim, arrisca passar a imagem de ser constituído apenas dessas frivolidades paranoicas, como a de dizer – essa é impagável – que Hillary Clinton, na verdade, é uma judia lésbica chamada Rodenhurst…! O pensador John Derbyshire, num artigo recente, disse que se o movimento conservador seguir na mão dessa direita midiática vai acabar parecido com ‘um McLanche Feliz: barato, infantil e familiar’.

‘O conservadorismo prospera mais quando os ataques contra o liberalismo combinam ideias alternativas sérias com entusiasmo popular’, escreveu Steven Hayward, autor de A Era Reagan. Ninguém sabe onde estão as ideias sérias, mas o entusiasmo popular está aí – na audiência da TV e do rádio, na preferência pelos livros de crítica aos democratas e ao governo, e até nas ruas, território monopolizado pela esquerda. Em 12 de setembro, 70.000 pessoas fizeram uma manifestação em Washington. Sintomaticamente, não havia clareza nas mensagens dos manifestantes. Protestavam contra a ajuda bilionária a bancos e montadoras, a reforma do sistema de saúde, contra uma sensação de que o país está inclinando-se demais à esquerda. Parecia, no fundo, uma massa em busca de uma ideia e de um líder. Glenn Beck estava lá. Mas Glenn Beck já chamou Obama de ‘racista’, atraiu um boicote de anunciantes ao seu programa – gente graúda como AT&T, Mercedes-Benz, HSBC – e obviamente não é um líder político. É um excelente animador de auditório, que ridiculariza a Casa Branca e, deitando e rolando, continua à espera da ligação de Anita Dunn…’

 

IMAGEM
Paulo Vitale

Ditadura do Photoshop

‘Em 1826, o francês Joseph Nicéphore Niépce registrou uma imagem de seu quintal usando uma placa de estanho, betume e uma câmara escura. Depois de oito horas de exposição à luz, nascia a fotografia. Desde então, vimos o mundo através de fotos: os horrores das guerras, os lugares exóticos recém-desbravados, os grandes líderes, os mais belos homens e mulheres e mesmo o planeta Terra visto do espaço. Hoje, quase dois séculos depois, o povo que inventou essa técnica volta a refletir sobre os rumos tomados pela arte de transformar coisas em imagens. Tramita no Congresso francês uma proposta de lei da deputada Valérie Boyer que pretende regulamentar o uso do Photoshop em imagens publicitárias, editoriais e artísticas. Segundo a deputada, toda foto publicada na França minimamente alterada por um programa de computador que retoque imagens deverá vir acompanhada do seguinte aviso: ‘Esta fotografia foi retocada para modificar a aparência física de uma pessoa’. A multa para quem não o colocar será de 37.500 euros, ou 95.500 reais. A proposta já conta com a adesão de outros cinquenta parlamentares franceses.

Como fazemos com um filho rebelde que fugiu do nosso controle, os franceses querem devolver à fotografia o seu valor fundamental: a fidelidade – apesar de utópica – da representação fotográfica. Em campanhas publicitárias e certos nichos glamourosos da imprensa de moda, existem hoje dois processos distintos na elaboração das imagens: fotografar e photoshopar (sim, já virou verbo). O primeiro capta as imagens com a melhor luz possível. O segundo pode construir corpos magérrimos e perfeitos, peles de plástico, livres de celulite ou qualquer outra imperfeição natural. O resultado é, em casos extremos, uma ilustração que tem pouquíssimo a ver com o original. Da perseguição dessa beleza inatingível podem provir sérios danos à autoestima, sobretudo em adolescentes, quando não transtornos como a bulimia e a compulsão por cirurgias plásticas. Do outro lado do Canal da Mancha, parlamentares ingleses também propõem restrições ao uso do Photoshop em campanhas publicitárias voltadas para menores de 16 anos. A fundamentação é que fotografias manipuladas podem fazer mal à saúde.

A possibilidade de manipulação da fotografia existe desde a invenção da câmara escura. No século XIX, os retratos encomendados passaram a ganhar correções feitas com a ajuda de retocadores, que com pincéis e tinta procuravam melhorar a aparência dos fotografados. O mito de que a fotografia é a representação da realidade foi usado de forma maquiavélica por ditadores, como Stalin, Hitler, Mao Tsé-tung e Mussolini, que tentaram reescrever a história por meio da alteração criminosa de fotografias. Hoje, a manipulação da imagem encontrou possibilidades infinitas com a fotografia digital. Sexagenárias posam para capas de revista com pele e corpo de adolescente – mas sem espinhas, é claro. Até lipoaspirações digitais, como a feita pela revista francesa Paris Match com o presidente Nicolas Sarkozy, são possíveis. A questão proposta pelos legisladores franceses é separar o joio do trigo. ‘Quando escritores partem de evento real mas o embelezam, eles são obrigados a avisar seus leitores de que se trata de uma ficção ou de uma dramatização baseada em fatos reais. Por que com a fotografia deveria ser diferente?’, pergunta a deputada Boyer. Por enquanto, podemos tudo. Nós definimos o limite. Como nos anúncios de bebida alcoólica, a resposta está na quantidade: ‘Photoshop, use com moderação’. Essa parece ser a receita possível para não transformar todas as fotografias em ilustrações.’

 

INTERNET
Renata Betti

Conexão garantida

‘O governo da Finlândia aprovou uma lei, na semana passada, que dá nova dimensão ao debate sobre a internet: numa decisão inédita, transformou num direito o acesso dos cidadãos à banda larga. Com isso, até os habitantes das regiões mais remotas e inóspitas do país poderão exigir, a partir de julho, conexão à rede com velocidade mínima de 1 megabit por segundo. Mais ainda, até 2015 deverá ser universal o acesso a conexões de 100 megabits por segundo – que não apenas aceleram atividades já corriqueiras, como o download e a transmissão de fotos, mas também tornam possíveis tarefas como a realização de videoconferências com imagens em alta definição. O próprio governo finlandês bancará a infraestrutura necessária para atingir essa meta ambiciosa, que tantos outros países perseguem. Na Suíça, por exemplo, desde 2008 vigora uma lei que obriga as empresas de telefonia a ofertar banda larga mesmo naqueles grotões em que o negócio não é rentável. Seis meses atrás, foi a vez de o presidente americano Barack Obama lançar um pacote de 8 bilhões de dólares para fazer a banda larga avançar nos Estados Unidos. No Brasil – na 38ª posição de um ranking da Universidade de Oxford que mede a qualidade da banda larga em 42 países – o governo federal anunciou, na semana passada, a meta de levar o serviço a 76% dos municípios até 2010. Falta aprovar o orçamento. Nenhum país, no entanto, foi tão longe quanto a Finlândia. Lá, o acesso à banda larga tornou-se, pela primeira vez, um direito individual.

A lei parte de um pressuposto acertado: uma boa conexão à internet é capaz de promover tantos benefícios às pessoas e à economia que não é exagero almejar que todos contem com ela. Recente pesquisa conduzida pelo Connected Nation, organização americana especializada em estudos sobre internet, dimensionou a economia de tempo que a banda larga proporciona às pessoas: só com o uso de serviços on-line, como o de bancos ou supermercados, poupa-se em torno de uma hora por dia. Comprovou-se, ainda, que o uso intensivo da rede melhora o rendimento escolar, eleva a produtividade nas empresas e o próprio grau de inovação de um país. Isso tudo se reflete no PIB. Segundo o Banco Mundial, para cada 10 pontos porcen-tuais de aumento na taxa de alcance da banda larga num país como o Brasil, a renda per capita cresce 1,38 ponto porcentual. ‘Numa sociedade moderna, a banda larga já é tão importante quanto o acesso à luz’, resume a finlandesa Laura Vikkonen, do Ministério de Comunicações. Ter uma lei que obrigue um país a fornecer o serviço não é garantia de que vá funcionar – mas, sem dúvida, é um bom começo.’

 

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