Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/1

Veja

12/01/2010 na edição 572

TECNOLOGIA
Marcelo Marthe

O ‘efeito Avatar’ chega à TV

‘Nos últimos três anos, os estúdios de cinema voltaram a explorar, com sucesso, a tecnologia 3D. Filmes como A Lenda de Beowulf e Viagem ao Centro da Terra prepararam terreno para o sucesso extraordinário do recém-lançado Avatar, que, em apenas vinte dias de exibição, se tornou a segunda maior bilheteria da história do cinema (veja reportagem). A acolhida à produção de James Cameron tirou de cena as últimas dúvidas quanto ao desejo de um grande número de pessoas de tomar parte na experiência de imersão em um cenário inventado que o 3D proporciona. Espera-se que neste ano Hollywood produza mais de duas dezenas de filmes desse tipo. Mas, em 2010, o ‘efeito Avatar’ já não vai ficar restrito às salas de projeção. Na semana passada, marcas como Sony, Samsung e LG exibiram novas linhas de televisores dotados de tecnologia que permite ver atrações com imagens tridimensionais. Vários fabricantes também apresentaram ao mercado equipamentos de reprodução de discos Blu-ray em 3D. A maioria dos lançamentos só deverá estar disponível para os consumidores no segundo semestre, quando se espera que seja definido um padrão mundial para a tecnologia. Mas alguns canais de TV se anteciparam. A ESPN, braço da Disney para transmissões esportivas, anunciou a inauguração de um canal 3D nos Estados Unidos em junho. O Discovery, a Sony e a IMAX – potência dessa tecnologia nas salas de cinema – vão se unir para iniciativa semelhante. Idem para a DirecTV americana. E, no Brasil, a Globo já faz gravações experimentais de programas em 3D.

Espera-se que a Copa do Mundo de futebol da África do Sul, que se inicia em junho, ajude a impulsionar as vendas dos televisores 3D. A Fifa firmou parcerias com a Sony, que fará captação de imagens da Copa nesse formato, e com a ESPN. A Copa do Mundo já demonstrou seu poder de disseminar as inovações tecnológicas da televisão. A edição anterior impulsionou a comercialização de aparelhos de plasma e LCD. Por isso mesmo, popularizar o 3D vai requerer algum esforço. Será preciso convencer consumidores que acabaram de adquirir equipamentos novos a fazer uma nova troca – e gastar um bom dinheiro. Nos Estados Unidos, televisores 3D terão preços salgados, acima de 2 000 dólares. Há ainda a necessidade de adaptação dos hábitos. Assim como ocorre no cinema, o espectador terá de usar óculos especiais – um incômodo e tanto para quem quer só acionar o controle remoto e relaxar no sofá. Alguns modelos custam caro – até 100 dólares. Deve-se cuidar para não sujá-los com a manteiga da pipoca.

COMO NOSSOS OLHOS

Para produzir as imagens em 3D, os programas de TV terão de ser captados por uma câmera com duas lentes colocadas a pequena distância – imitando a visão humana. Isso torna as gravações mais complicadas: nos testes realizados pela Globo, cada câmera teve de ser manejada por três profissionais, em vez de por apenas uma pessoa

Entre os fabricantes, a invenção de uma televisão 3D que dispense os óculos é uma espécie de busca do Santo Graal. Há dificuldades enormes para isso. O efeito 3D é uma reprodução técnica do modo natural como os olhos humanos captam as imagens no espaço. O olho direito e o esquerdo registram imagens da mesma cena por ângulos ligeiramente distintos – e o processamento delas no cérebro é que nos dá a noção de volume e profundidade. No cinema ou na TV, as imagens em 3D são captadas por câmeras com duas lentes colocadas a pequena distância uma da outra, como nos olhos humanos. A função dos óculos é fazer com que essas imagens sejam fundidas. As tentativas de produzir uma tela de TV que já exiba as imagens em 3D não vingaram até agora porque esse sistema requer que o espectador se sente numa posição fixa diante do aparelho – sob o risco de ver imagens embaralhadas. Em 2006, a holandesa Philips chegou a lançar um televisor 3D assim, para uso de grandes empresas – que compreensivelmente não encontrou demanda e teve sua produção encerrada.

No lado das emissoras, também há desafios a ser vencidos. O avanço da tecnologia permitiu o surgimento de câmeras 3D menores, mais precisas e mais fáceis de trabalhar do que as versões primitivas, que tinham dimensões de uma máquina de lavar. Ainda assim, gravar programas nesse formato continua a ser uma operação complicada. ‘São necessários três profissionais para cada câmera: um operador, outro incumbido de ajustar as lentes e um terceiro para monitorar o processo todo’, diz José Dias, um dos responsáveis pelo setor de engenharia da Globo. A emissora gravou trinta minutos do Carnaval do ano passado em 3D, apenas a título de teste. Mais recentemente, também registrou assim – outra vez, só para consumo interno – várias cenas da novela Viver a Vida. Em fevereiro, deverá gravar em 3D dois dias de desfiles do Carnaval carioca – e, pela primeira vez, existe a possibilidade de que essas imagens sejam levadas de fato ao ar, apenas em transmissões por assinatura. Nos próximos anos, o 3D deve ser utilizado sobretudo para assistir a filmes em Blu-ray. A transmissão tridimensional em sinal aberto deve demorar bem mais para entrar na rotina do espectador.

MAL NECESSÁRIO

Os óculos especiais para assistir às novas televisões 3D: assim como no cinema, eles são indispensáveis para criar a ilusão tridimensional. Sua função é fundir as imagens – de forma que cada olho veja a cena por um ângulo ligeiramente diferente, ao mesmo tempo’

 

LÍNGUA
Diogo Mainardi

Herbert Richers vive

‘A morte de Herbert Richers foi o acontecimento mais marcante de 2009. O mais marcante e, desoladoramente, o mais negligenciado. Herbert Richers montou seu estúdio de dublagem em 1950. Em seis décadas de trabalho, adaptando filmes, seriados de TV e desenhos animados, ele contribuiu de maneira decisiva para moldar e disseminar o dialeto tapuio com o qual passamos a nos comunicar.

Se a língua portuguesa teve Camões – com seus latinismos, com seus volteios eruditos, com sua sonoridade épica –, o patoá nacional teve Herbert Richers – com seus estrangeirismos, com seus falsos cognatos, com sua sonoridade de locutor de rádio. De dublagem em dublagem, Herbert Richers transformou nossa linguagem. Violentando predicados, pervertendo complementos, corrompendo particípios, ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido. Mas ele foi mais longe do que isso. Além de revolucionar nossa linguagem, Herbert Richers revolucionou também nossa moral. Quando Jack Lemmon, numa comédia de Billy Wilder, tem a mesma voz e, principalmente, os mesmos atributos estéticos de Salsicha, num episódio do desenho animado Scooby-Doo (ambos – Jack Lemmon e Salsicha – dublados por Mário Monjardim), o resultado só pode ser uma sociedade como a nossa, em que todos os valores se equivalem e, portanto, se anulam.

No Brasil, atualmente, Dilma Rousseff é quem melhor encarna a reviravolta moral e linguística realizada por Herbert Richers. Ela é o epígono ideal de Carlos Campanile (dublador de Clint Eastwood, Al Pacino, Robert de Niro e Thor dos Cavaleiros do Zodíaco), de Garcia Neto (dublador de Gregory Peck e do Homem-Fera) e de Sumara Louise (dubladora do desenho Gasparzinho e de Meryl Streep). Se alguém lhe pergunta por que as obras do programa Minha Casa, Minha Vida continuam paradas, Dilma Rousseff responde como um médico-legista, num filme estrelado por Bruce Willis (ambos – Dilma Rousseff e Bruce Willis – dublados por Newton da Matta): ‘Olha, não é isso que nós estamos vendo. Não é isso que a gente está vendo e eu vou te falar a partir do que. Hoje, já tem mais de 400 projetos apresentados para a Caixa, dominantemente naquela distribuição em que zero a três é o pessoal que faz a moradia para renda de zero a três salários mínimos, é a grande maioria’.

Sim, a morte de Herbert Richers, ocorrida dois meses atrás, foi o acontecimento mais marcante de 2009. Mas ele estará sempre presente em 2010.’

 

PAULO FRANCIS
Marcelo Marthe

Ácido e carinhoso

‘Paulo Francis (1930-1997) maneja, desajeitado, uma câmera amadora no seu apartamento em Nova York. Entre closes de seus gatos e de bibelôs kitsch, pontifica: ‘Estamos aqui fazendo um vídeo caseiro que será bem melhor do que qualquer filme brasileiro feito até hoje’. Parte do material de arquivo revelado no documentário Caro Francis (Brasil, 2009), a tirada doméstica ilustra o que fez do personagem o jornalista mais brilhante de sua geração. Em suas colunas nos jornais e comentários na Rede Globo, Francis desancava as falácias do senso comum esquerdista e nacionalista – incluindo aí o culto ao cinema financiado pela Embrafilme. Em cartaz em São Paulo às vésperas do 13º aniversário de sua morte, no mês que vem, Caro Francis tem imperfeições como documentário. A maior delas: sonega informações básicas para o espectador se situar sobre certas passagens da trajetória de Francis. Mas isso não obscurece seus méritos. Dirigido por Nelson Hoineff, amigo do jornalista (e que recentemente abordou o apresentador Chacrinha em Alô, Alô Terezinha), Caro Francis é um filme afetivo. Apresenta o sujeito generoso, algo tímido e sempre gentil com os amigos que havia por trás do comentarista desabusado.

Francis começou sua carreira no teatro, nos anos 50. Ator, diretor e, finalmente, crítico, rompeu com a amenidade então vigente no meio teatral. ‘Toda cultura tem de ter conflito. É preciso haver gente que ataque autores e atores’, dizia. Francis era, àquela altura, um trotskista. No fim dos anos 60, foi preso pela ditadura militar. Mas o fato fundamental de sua trajetória foi a mudança para os Estados Unidos, em 1971. A partir daí, passaria por uma conversão à racionalidade, processo para o qual contribuiu também uma viagem à União Soviética. ‘Em um dia, você compreendia que aquilo só funcionava na base da polícia’, concluiu. Exasperava-se com a miopia da esquerda nacional: ‘O Brasil é o único país do mundo em que se leva o comunismo a sério’.

O filme traz depoimentos até de gente que esteve em sua mira, como o pernambucano Gustavo Krause. Ao ser nomeado ministro da Fazenda, em 1992, ele foi xingado de ‘jeca’ e ‘provinciano’ – para ira de muitos nordestinos. Hoje, o próprio Krause reconhece o valor da incorreção política de seu algoz. ‘Figuras como Paulo Francis fazem muita falta no Brasil’, diz. O documentário se debruça também sobre o embate final de Francis. Em 1996, quando suas intervenções intempestivas movimentavam o programa Manhattan Connection (GNT), ele declarou que a diretoria da Petrobras formava ‘uma quadrilha’ e tinha ‘contas na Suíça’. A leviandade motivou uma ação judicial do então presidente da estatal, Joel Rennó, e outros seis diretores. Para pessoas próximas ouvidas em Caro Francis, como a viúva Sonia Nolasco, o estresse desencadeado pelo processo contribuiu para o ataque cardíaco que o levaria à morte, aos 66 anos. Ele estava no auge da carreira. E, havia um bom tempo, já tinha extrapolado a condição de jornalista. Paulo Francis convertera-se em um personagem da cultura brasileira, tão fundamental quanto divisivo: ou se era contra ou a favor de suas posições. O documentário é uma oportunidade de se deliciar de novo com sua acidez.’

 

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