Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 6 E 7/2

Veja

09/02/2010 na edição 576


TELEVISÃO
Marcelo Marthe


Prendas domésticas


‘Quando cruza com marmanjos na rua, Thaíssa Carvalho – a empregada Cida da novela Viver a Vida – escuta muita conversa mole. ‘Eles dizem: ‘Meu bem, vem fazer uma faxina lá em casa’, conta a atriz. Thaíssa, cujo currículo não ia além de algumas pontas, conquistou visibilidade na Globo como a empregada que chantageia e provoca Gustavo (Marcello Airoldi), o marido infiel da patroa. Há outra doméstica apimentando a trama de Manoel Carlos: Dora, vivida por Giovanna Antonelli. Depois de salvar Helena (Taís Araújo) de um afogamento, ela obteve uma promessa de emprego como babá. Como Helena sofreu um aborto, Dora foi realocada para a função de ‘secretária do lar’. Até agora, sua única ocupação consistiu em prestar favores sexuais ao patrão, Marcos (José Mayer). Na semana passada, o cafajeste ameaçou-a com a demissão caso não cedesse às suas investidas. ‘Se quer trabalhar aqui, tem de fazer todo o serviço da casa’, disse.


Até meados dos anos 70, as empregadas só entravam em cena para servir cafezinho. Isso começou a mudar depois do milagre econômico do regime militar. ‘Albertina, papel da atriz Ruth de Souza na novela O Grito, de 1975, foi a primeira empregada com personalidade’, diz o especialista em novelas Mauro Alencar. Nesta nova era de ascensão das classes C e D, as empregadas da ficção estão crescendo e enriquecendo. Em Cama de Gato, atual novela das 6, a heroína é Rose (Camila Pitanga), ex-faxineira convertida em empresária. Manoel Carlos foi um dos responsáveis por essa valorização. O tom de crônica de costumes de suas histórias leva-o a dar voz às moças do lar. Aliás, voz e corpão: Manoel Carlos criou Ritinha, personagem que virava a cabeça do patrão em Laços de Família (2000) – e que deu fama à atriz Juliana Paes. ‘Nas minhas novelas, esses são bons papéis para boas atrizes’, diz o noveleiro (deve ser por isso que até uma cunhada do diretor Jayme Monjardim ganhou uma boquinha: Roberta Almeida vive a empregada Nice).


As representantes reais da categoria não gostam de enredos eróticos. ‘Mostrar empregada flertando com patrão só estimula o assédio’, diz Ione Oliveira, dirigente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Ainda que façam piquete e passeata, é improvável que as empregadas de Viver a Vida mudem de perfil. Afinal, os assanhamentos de Cida e Dora sacodem a placidez da novela. Em troca do silêncio sobre o caso extraconjugal do patrão, Cida já ganhou dele TV, geladeira e MP3. Embora atice Gustavo, a morena não se entrega a ele. Sua intérprete, Thaíssa, tem 27 anos e é nutricionista. ‘Usei meus conhecimentos para fazer uma dieta de engorda. A Cida tinha de ter formas substanciosas’, diz. Já a personagem de Giovanna vive no bem-bom. Dora e a filha dormem em quarto de hóspedes e ceiam com os patrões. Só mesmo no realismo de Manoel Carlos, convenhamos, uma patroa com juízo botaria aviões assim dentro de casa.’


 


 


 


Doutora em barracos


‘Depois do último paredão do Big Brother Brasil, o apresentador Pedro Bial especulou sobre as razões da eliminação de Tessália – a dissimulada Twitess, microestrela do serviço de microblogs Twitter. ‘Você achava o programa um lixo. Mas, quando a gente entra no lixo, tem de meter a mão, pois o lixo é reciclável’, pontificou. Pois bem: a julgar pela regra do sempre sábio Bial, já se pode divisar uma séria candidata a vencedora do programa. De todos os participantes, Elenita, doutora em linguística – única e orgulhosa representante da classe acadêmica no confinamento –, é a figura que mete a mão no lixo com mais desprendimento. ‘Elenita é um para-raios de barracos’, diz o diretor Boninho. E nunca se viram tantos barracos como nesta décima edição. Com dois gays, uma lésbica, dois pitboys, uma policial e a tal doutora em linguística, o programa é vendido como o ‘BBB da diversidade’ – mas seria melhor rebatizá-lo de ‘BBB da animosidade’.


Natural de Brasília, 30 anos, doutora pela Unicamp, Elenita envenena a atmosfera da casa com suas teorizações sobre o comportamento dos colegas (e o pior: sua presença é pretexto para Bial pirar ainda mais na maionese). Volta e meia, recorre a expressões do jargão das faculdades de letras – como ‘intertexto’, termo que a crítica búlgara Julia Kristeva consagrou. Quando os ânimos se exaltam, contudo, Elenita vira uma leoa – em especial, se acha que estão insinuando que é gorda (quando, claro, seu problema é apenas usar roupas sempre um número menor do que o recomendado, daí as sobrinhas para lá e para cá). Num arranca-rabo com a dançarina Lia, a doutora trocou as citações de Clarice Lispector por uma fieira de palavrões. Ao tomar as dores da policial Maroca numa refrega com o ex-modelo Eliéser, teve um arroubo feminista. ‘Você enlouqueceu, surtou, botou seu peito para fora como um pavão. Não sei com que tipo de mulher você está acostumado, mas não é o meu tipo’, afirmou. ‘Ainda bem’, replicou o rapaz.


A tese de doutorado de Elenita ilustra um pendor esotérico vigente nos departamentos de ciências humanas. Intitulada ‘Descendo a toca do coelho: linguagem, ética e a questão da verdade’, não cita Kristeva, mas parece escrita em búlgaro. A páginas tantas, lê-se a seguinte indagação: ‘Em um contexto de verdades diversas e teorias diversas, em um contexto em que a existência de instâncias desprovidas de representação são cada vez mais questionadas, qual o lugar de uma teoria que reserva espaço para momentos de impenetráveis?’. Elenita é militante pró-gay: criou aquela que é apontada como a maior comunidade virtual brasileira contra a homofobia. Na semana passada, deixou escapar no programa que já namorou uma mulher. ‘Deve ter sido uma aventura passageira. A gente tem quase certeza de que a Elenita não é bi’, diz seu irmão, Ítalo Rodrigues. A cada dia, a primeira impressão de Boninho sobre a doutora se reforça: ‘Essa mulher vai dar trabalho’.’


 


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