Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 27 E 28/2

Veja

02/03/2010 na edição 579

TELEVISÃO
Marcelo Marthe, de Bogotá

La mutación de Jade

‘O Terminal del Sur – uma movimentada rodoviária de Bogotá, capital da Colômbia – foi tomado por uma horda de muçulmanos fajutos na última quarta-feira. As placas em espanhol foram substituídas por outras escritas em árabe. Sessenta figurantes completavam a ambientação de um aeroporto fictício do Marrocos. Um Marrocos, frise-se, bem familiar para os brasileiros. A novela El Clon é a versão hispânica de O Clone, melodrama de Glória Perez que fez sucesso na Globo em 2001. Em exibição há duas semanas na Telemundo, rede voltada ao público latino dos Estados Unidos, a produção manteve intacto o tal núcleo muçulmano. Mas, em vez do Rio de Janeiro, tem Miami como cenário principal. O folhetim está sendo gravado na Colômbia com atores de diversos países hispânicos, de Cuba a Argentina. Interpretada pela carioca Giovanna Antonelli na história original, a protagonista Jade ganhou o corpo da mexicana Sandra Echeverría. Acostumada a papéis de moça sofredora nas telenovelas de sua terra natal, ela se diverte com as agruras que Glória Perez reservou à personagem – na cena do aeroporto, Jade é presa e humilhada ao tentar fugir do Marrocos. ‘Me impressiona como essa Rade (o nome fica assim na pronúncia castelhana), coitadinha, é chorosa’, diz Sandra.

A coprodução com a Telemundo, braço latino da rede americana NBC, representa uma nova estratégia da emissora brasileira nos esforços para exportar suas novelas. Desde os anos 70, quando vendeu O Bem-Amado para uma rede mexicana, a Globo lucra com a comercialização de suas tramas. Exibida em noventa países, O Clone é uma das mais bem-sucedidas nesse mercado. Mas a venda de novelas ‘em lata’, como se diz no jargão dos executivos de TV, esbarra num obstáculo. ‘Sempre que o público estrangeiro (assim como o brasileiro) tem a opção de ver produções que reflitam seus gostos e costumes, acaba por preferi-las em detrimento das produções importadas’, afirma Guilherme Bokel, diretor de produção internacional da Globo. Em anos recentes, emissoras que antes eram clientes tradicionais da Globo em diversas latitudes passaram a apostar em sua própria teledramaturgia. A emissora continua a licenciar novelas, mas elas agora quase não vão mais para o horário nobre, e sim para a faixa da tarde ou para a TV a cabo. Nessas situações, o rendimento proporcionado pela venda de um capítulo de novela pode ser até um décimo daquele alcançado quando a exibição é no horário nobre (de 40 000 dólares, em média). Comercializar a fórmula, em vez do produto pronto, tornou-se uma alternativa a ser explorada.

El Clon não é a primeira coprodução da Globo e da Telemundo. Oito anos atrás, elas se uniram para fazer Vale Todo. O remake do sucesso de 1988 tinha elenco hispânico e exibia algumas adaptações (os personagens tomavam tequila em vez de caipirinha, por supuesto). Mas o cenário era o Rio de Janeiro e, de resto, a trama remetia em tudo à original. Não funcionou. ‘A lição que tiramos é que só ter atores hispânicos não garante a identificação com o público’, diz Ricardo Scalamandré, diretor de negócios internacionais da Globo. A nova empreitada procura sanar essa fa-lha multiplicando os detalhes modificados conforme o gosto da freguesia. Saíram de cena Copacabana e o piscinão de Ramos, para dar lugar à badalada Miami Beach. O famigerado bar da Dona Jura foi trocado por uma boate de salsa – não só por adequação musical, mas também para permitir a exploração de corpões semidesnudos. A perua madura representada por Vera Fischer foi substituída por uma jovem ‘loba’ – como os hispânicos se referem a uma mulher espalhafatosa e vulgar. ‘Há muitas criaturas assim à caça de partidos ricos em nossos países’, diz Geraldine Zivic, a loira argentina que faz a personagem. A mudança que chama mais atenção – para melhor – é de tom e de ritmo. O dramalhão ganhou registro de comédia e a trama se desenrola sem firulas: as longas tomadas do diretor Jayme Monjardim foram podadas em favor da ação. Cada cena é cronometrada para ser o mais veloz possível. Essa receita se revelou, até agora, acertada. Nos primeiros dias, El Clon ficou em primeiro lugar em audiência entre os canais latinos em Miami.

A escolha da Colômbia como sede das gravações não é fortuita. O país emergiu como um polo internacional de produção de TV depois que as ações do governo do presidente Álvaro Uribe diminuíram o clima de insegurança nas grandes cidades. Contribuem ainda a distância relativamente pequena dos Estados Unidos (cinco horas de voo até Miami) e a visibilidade alcançada por uma novela colombiana, Betty, a Feia – que desde sua primeira exibição, em 1999, ganhou versões em vinte países (a mais recente das quais no Brasil, pela Record). Hoje, a Fox e a Sony mantêm estúdios na Colômbia. E as produções da Telemundo atraem estrelas de vários países. É o caso de Saúl Lisazo, um similar argentino do brasileiro José Mayer e o nome mais famoso de El Clon. Lisazo, que na juventude foi jogador de futebol (atuou por um ano no Juventus paulistano), reclama nos bastidores da precariedade dos estúdios da Telemundo. ‘Nas cenas externas, não tenho direito nem a um camarim privativo’, diz o astro argentino. Sandra Echeverría, de 28 anos, foi cantora de um grupo juvenil de sucesso e protagonizou duas novelas no México. Hoje vive em Los Angeles, onde fez um filme com um dos atores adolescentes de High School Musical, Corbin Bleu. Desde novembro, porém, trocou Hollywood por Bogotá. Suas primeiras semanas de gravação foram prejudicadas pela soroche, o mal-estar de que sofrem os recém-chegados à altitude de 2 640 metros da capital colombiana. ‘Só sarei depois de tomar muito chá de coca’, conta ela.’

 

CAMPANHA
Roberto Pompeu de Toledo

O ano eleitoral – uma prévia

‘Braços ao alto, mãos enlaçadas, eles e elas encenam uma coreografia de unidade que, não fossem a proeminente barriga de um, a careca de outro e uma geral dificuldade nos quesitos presteza e agilidade, poderia ser tomada como um ensaio a seco de balé aquático. Assistiremos a muitas cenas dessas. Elas constituem o momento de apoteose das convenções partidárias. O ritual é copiado das convenções americanas, mas com uma importante diferença. Nos Estados Unidos, só duas pessoas, os escolhidos para presidente e vice, compõem a cena. No sistema macropartidário e hipercoligativo vigente no Brasil, é uma multidão que se apresenta no palco – o candidato titular, o vice, seus padrinhos, os chefes partidários, os candidatos a outros cargos, os infiltrados. Em um ou outro dos protagonistas, o desempenho será enriquecido pela exibição de manchas de suor nas axilas, na hora de levantar os braços. Releve-se. É o preço que se paga pelo calor, real e simbólico, reinante no ambiente. Indiferentes aos percalços, eles e elas se exibem à plateia amiga com a mesma certeza do aplauso com que terminam seu ato as bailarinas de cancã.

Na verdade, já tivemos uma primeira encenação desse número na convenção do PT que recentemente sagrou sua candidata, ou melhor, ‘pré-candidata’. Mas, para mostrar que a futurologia do colunista está afiada, sigamos em frente com atos, cenas e rituais que, mesmo com a campanha oficial ainda não iniciada, já marcam presença em sua bola de cristal. Para continuar no capítulo do gestual, quando os candidatos falarem na TV será constante o recurso ao ‘martelinho’. O martelinho é aquele gesto de, punho cerrado, golpear o ar, para reforçar o discurso. A intenção é transmitir firmeza e determinação. Nessas apresentações dos candidatos perante as câmeras, um jeito infalível de distinguir uma campanha pobre de uma rica, quando falharem os outros, será acompanhar o movimento dos olhos do candidato. Candidato de campanha pobre move os olhos, e o detalhe denuncia que está lendo. No candidato de partido rico, os olhos permanecem tão fixos que até parece que fala de improviso. É a qualidade do teleprompter que se impõe.

Depois virão os filmes – ah, os filmes! Eles sugerem o beatífico mundo que nos aguarda caso aquele partido, ou aquele candidato, saia vitorioso. Campos floridos, extasiantes horizontes, gente sorridente. A música de fundo é idílica, e pode terminar triunfante como a estocada final de uma ária de Puccini. Pessoas são entrevistadas na rua, e não poupam louvações ao candidato. Como esse candidato é querido! É só sair à rua, uma câmera na mão e um microfone na outra, e chovem os testemunhos de suas boas qualidades. Os filmes também exibirão crianças correndo alegres e soltas, jovens casais enlaçando-se sorridentes, mulheres grávidas contemplando confiantes a própria barriga. Se o leitor não sabe, fique sabendo que tanto as crianças como os jovens casais e as mulheres grávidas representam o futuro. No caso, o futuro de paz e felicidade que nos garantirá a eleição daquele candidato.

O quê? Que diz o leitor amigo? Ah, sim, até agora só abordamos o lado cosmético da campanha eleitoral. Falta falar no conteúdo. Vejamos o que diz a respeito a bola de cristal. Os programas oficiais de governo será bom esquecer. Conterão só palavrório para cumprir uma formalidade. Entrevistas na TV com jornalistas independentes não haverá, e debate de verdade só no segundo turno, entre dois candidatos. Antes disso, tanto as entrevistas como os debates serão inviabilizados pela impossível exigência de igualdade entre todos os candidatos prevista em lei. Pronto. Estará composto o cenário para que, quanto ao conteúdo, a campanha transcorra rigorosamente dentro dos cânones de uma moderna campanha política, qual seja: sem conteúdo.

Todo o esforço será antes para esconder o candidato do que para exibi-lo. A ideia será fantasiá-lo de modo a deixar exposto o mínimo possível de sua própria pele e osso. Se ocorrer um momento em que ele seja atalhado com uma pergunta direta sobre assunto polêmico, o bom candidato estará treinado para contornar o assunto. Não sejamos tão rigorosos. Descontemos que sempre será possível intuir como será o governo de alguém por seu perfil, sua biografia e suas ações. Mas, quem pretender uma resposta específica e direta sobre algum assunto controverso, desista. A própria bola de cristal do colunista confessa sua impotência, nesses casos. Cada um que consulte a sua.’

 

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