Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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18/05/2010 na edição 590

TELEVISÃO

Marcelo Marthe

Sacrilégio de fachada

‘O apresentador Marcos Mion queria uma estreia nada menos que ‘revolucionária’ para Legendários, seu programa na Record. No esquete que abriu a atração, há pouco mais de um mês, ele surgiu de terno e cabelo besuntado de gel, tendo ao fundo um cenário celestial. Era uma sátira ao Fala que Eu Te Escuto, programa conduzido por bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, que controla a emissora. Ao telefone, Mion travou um debate abobado com uma fiel fictícia. Sacrilégio de fachada: o quadro só foi ao ar após receber a bênção dos bispos satirizados. ‘Houve duas ou três reuniões em que suei frio. Mas a direção da Record percebeu que rir de si própria faria bem à imagem da emissora’, conta Mion. Isso ilustra o que se passa na seara cômica em que pontificam o Pânico na TV, em exibição há seis anos na RedeTV!, o CQC, que estreou há dois na Band, e o recém-chegado Legendários. Os dois primeiros já representaram o que se pode chamar de humor de guerrilha. Exibidos longe da principal vitrine da TV, a Globo, conquistaram a audiência valendo-se da anarquia e da abordagem agressiva dos famosos. Mas aquilo que um dia foi ‘transgressivo’ vem se convertendo em uma fórmula institucionalizada.

Esses programas se mostram bons chamarizes de jovens das classes A e B – e, portanto, de anunciantes ávidos por atingir esse segmento. Segundo a Controle da Concorrência, empresa que monitora a propaganda na TV, o Pânico contabilizou 37 ações de merchandising em suas cinco últimas edições e o CQC, 55. Há tempos a Record sonhava em ter Mion, ex-estrela da MTV, como apresentador de um programa moderninho nessa linha. O apetite de Mion levou-o além: ele assumiu a criação e a direção geral do projeto. Deu pitacos até no figurino, enfatizando tons de laranja, cor que por alguma razão esotérica ele associa à paz e à criatividade. Embalado pela fartura de dinheiro dos bispos, atacou em duas frentes. Da MTV, tirou o ex-punk João Gordo e a trupe Hermes e Renato. Assediou, ainda, as produções do Pânico e do CQC. Provocou a baixa de três profissionais desse último. Suas investidas, oferecendo o dobro dos rendimentos, irritaram o CQC. ‘Até hoje ele liga para o pessoal com convites para mudar de lado’, diz um profissional da atração. O próprio Mion ostenta um belo salário, na faixa dos 75 000 reais – que podem chegar a 200 000 com a participação em publicidade.

Os CQCs enxergam semelhanças entre seus quadros e os da atração da Record. Reclama o humorista Rafinha Bastos: ‘Por que imitar o que está aí? A TV já é tão repetitiva’. Em edições recentes, Legendários e CQC apresentaram entrevistas com Ronaldo Fenômeno e esquetes que tratavam de pedofilia. No programa da Record, o quadro Whatever, em que a humorista Miá Mello faz as vezes de uma entrevistadora desmiolada, lembra o Repórter Inexperiente, que deu fama ao CQC Danilo Gentili. Mion alega que sua inspiração foi o humorista americano Andy Kaufman (1949-1984). ‘Com certeza, o Gentili bebeu da mesma fonte’, diz.

Se o clima entre os humorísticos não estava para piada, o modo pomposo como Mion fala do Legendários fez as relações azedar de vez. O apresentador já declarou que a atração iria ‘virar lenda’. ‘Qualquer frase é motivo para atirar pedras em mim. Mas trazer João Gordo para a TV aberta é algo que vai mesmo ficar para a história’, diz. Mion proclama ainda que faz humor ‘do bem’, o que deu margem a ironias. No Twitter, Gentili passou a se classificar como uma pessoa de ‘mal humor’ (o erro de português é proposital). Mion critica a prática dos rivais de abordar celebridades à queima-roupa. ‘Prefiro fazer coisas mais elaboradas. Só trabalho com roteiros bem estudados’, informa. Então, tá.

Não é preciso crer na autoproclamada bondade de Mion para perceber que o ‘mal humor’ de Gentili no Twitter volta e meia escorrega na grosseria. Quando Hebe Camargo retomou seu programa no SBT, em meio ao tratamento de um câncer, ele postou um comentário impublicável. No Twitter e na TV, Rafinha também mostra a mesma deficiência de faculdades autocríticas. Em um novo programa da Band, A Liga, ele faz o gênero ‘repórter participativo’. Já botou barba postiça para se passar por mendigo – um show de populismo. Esse é o pior sintoma da institucionalização do deboche: a autocomplacência.’

 

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