Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > CENSURA NO JÔ

Verena Glass

09/11/2004 na edição 302

‘Um convite da produção do programa do apresentador Jô Soares (TV Globo) ao juiz do trabalho em Marabá (PA), Jorge Vieira, ‘revogado’ pouco antes da gravação da entrevista, causou confusão e constrangimentos. Vieira, conhecido nacionalmente por suas condenações de fazendeiros acusados de manter trabalhadores em condições análogas à escravidão, foi trazido a São Paulo pela emissora para participar de uma entrevista sobre trabalho escravo, na quarta-feira, juntamente com o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Frei Xavier, um dos maiores especialistas no assunto do país.

As ameaças de morte sofridas pelo juiz, responsável pela primeira indenização milionária contra a prática escravista no país, motivaram o convite para a entrevista. A produção do Programa do Jô pagou passagens e hotel para Vieira, e ainda na noite de terça-feira, véspera da gravação do programa, com ele já em São Paulo, confirmou sua participação.

– Fui surpreendido por uma ligação da produção dizendo que eu não ia mais falar porque haveria a possibilidade de uma ação ou pedido de direito de resposta por parte de alguma entidade ligada ao setor ruralista. Pelo que conheço da legislação, não há possibilidade de direito de resposta em relação ao que terceiros falam num programa de entrevistas. Acho que houve algo estranho, mal-explicado – afirma o juiz.

Segundo a produtora do Programa do Jô, Anne Porlan, o que houve foi um mal-entendido.

– O produtor que fez contato com o juiz é novo na emissora, e talvez tenha havido uma confusão. Queríamos dois religiosos para falar da questão, e a CPT acabou indicando o magistrado. Na verdade, ele deveria apenas subsidiar o debate, não participar dele. Acho que ele ficou melindrado com isso.

Vieira, que desmarcou um compromisso em Natal (RN) para atender ao convite da Globo, dá a sua interpretação:

– Até onde entendo, as pessoas vêm, pagas pela TV, quando vão dar entrevistas. E até ontem essa entrevista – eu tenho os e-mails da produção do programa, confirmando – estava de pé. Quando a produtora do programa me ligou desmarcando, se desculpou, dizendo inclusive que o apresentador é uma pessoa muito gentil e educada, e que estava constrangido com a situação. Mas se houve constrangimento, ele foi causado pela própria produção, porque, sinceramente, não haveria necessidade de eu estar aqui em São Paulo – rebate Vieira.

Mas o que teria motivado o repentino cancelamento do convite ao juiz? Em um primeiro momento, tanto Vieira quanto Frei Xavier desconfiaram de uma possível pressão por parte de uma importante organização ruralista, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), cujo vice-presidente enviou uma carta a Jô Soares reclamando da ‘parcialidade’ com que a temática vem sendo tratada em seu programa.

Em relação à carta, a primeira reação de Porlan foi de surpresa: ‘Como vocês sabem disso?’. A produtora confirmou apenas que havia, sim, ‘uma carta’, mas negou saber quem era o remetente.

Logo após a conversa com Porlan, a reportagem resolveu tirar a questão a limpo com o próprio missivista, o vice-presidente da CNA, Rodolfo Tavares. Confirmando de imediato ter escrito ao Programa do Jô, Tavares disse que os ruralistas se sentiram incomodados com a ‘parcialidade’ com que a questão do trabalho escravo estaria sendo tratada pelo apresentador, que, semanas antes, entrevistou outro representante da CPT sobre o tema. Segundo ele, a sociedade deveria ouvir outros setores da economia para poder formar uma opinião.

– Entendemos que a visão sobre o assunto deve ser plural, e que outros setores da sociedade têm que participar do debate. Veja bem, o avanço da agricultura está incorporando grandes áreas (na Amazônia), onde há problemas, onde a população não é fixa, como nos centros urbanos, o que complica as relações de trabalho. Começando pelo fato de que estas relações se iniciam muitas vezes em outros estados. O empregador, nestes casos, não tem que apenas pagar uma passagem de ônibus, tem que construir alojamentos, cozinha. E aí a atuação do Ministério do Trabalho gera imensas dificuldades para o empregador. Não que qualquer coisa justifique o trabalho forçado, mas o governo esteve ausente destas áreas por 500 anos, e ainda falta muita informação – argumenta Tavares.

Esta posição acabou indignando o próprio Jô Soares, que, no programa desta quarta, abriu a entrevista de Frei Xavier com a leitura da carta de Tavares. ‘O Sr. Rodolfo Tavares fala de unilateralidade na abordagem do tema. Não entendi o que quis dizer, de ‘forma unilateral’. Que outro lado existe aqui? Do outro lado teria que ter um feitor, então? Esse aqui é um fórum aberto à discussão, mas nesse caso não há o que discutir. Infelizmente, não posso trazer ninguém contra (a condenação do trabalho escravo) – afirmou Jô.

Sobre a confusão referente à entrevista com Vieira, Frei Xavier disse à Agência Carta Maior que também estranhou a sua exclusão. Acrescentou que foi avisado pela produção do programa que trechos de sua entrevista que citavam nomes de fazendeiros seriam cortados. -Não entendi porque. Afinal, são informações de domínio público. Mas, a bem da verdade, acho que todas as decisões do programa sobre esta entrevista foram tomadas pela produção. Não senti nenhuma pressão externa – diz Xavier.’



CHARME
Bia Abramo

‘O meio, a mensagem e a falta de assunto’, copyright Folha de S. Paulo, 7/11/04

‘Marshall McLuhan nunca teve tanta razão. Numa interpretação bem livre de uma de suas afirmações mais famosas, pode-se dizer que, atualmente, na TV, a palavra de ordem é manter o meio funcionando, não importa o que se faz para isso. Ou seja, o meio é absoluto, primordial, necessário -a mensagem, tanto faz.

É o que se pode pensar diante de ‘Charme’, o programa de Adriane Galisteu que estreou recentemente no SBT cercado de fogos de artifício. A negociação de salário da apresentadora foi cheia de idas e vindas e cifras cheias de zeros. O formato final do programa foi supervisionado pessoalmente por Silvio Santos. A audiência respondeu bem.

Pode-se até dizer que Adriane Galisteu achou o ponto de sua persona televisiva. Ela continua sendo uma celebridade ‘self-made’, vinda do lugar nenhum das moças ambiciosas e doidas por fama, por certo, mas conseguiu se constituir num ser televisivo razoável. Faz questão de ser vendida como ‘linda’, ‘poderosa’, ‘aquela que venceu’, mas faz a linha fofa, tipo ‘eu poderia ser sua melhor amiga não fosse o enorme fosso de consumo que nos separa’. E, no entanto, sobre o que mesmo é o programa?

OK, um programa de variedades não é exatamente sobre alguma coisa específica. O foco é o(a) apresentador(a), que alinhava atrações de um universo mais ou menos restrito -entrevistas, números musicais, algo de jornalismo, jogos etc. Ainda assim pode-se conferir algum tipo de caráter, de enfoque, de tom. O programa de Galisteu nem tenta. As atrações, desprovidas de atrativos, se sucedem por uma hora inteira, sem que se entenda porque é este e não aquele quadro musical ou esta e não aquela convidada.

Contam-se grãos de feijão, pipocas e palitos. Ou melhor, o público, de casa, tenta adivinhar quantos de cada um dos objetos acima existem num determinado recipiente. Um adolescente lindo, um sucesso entre garotas pré-púberes, finge mal e porcamente cantar e tocar seus hits. O tempo passa. Mais pessoas ligam, tentando abocanhar prêmios modestos. Há um quadro humorístico, em que a apresentadora faz as vezes de atriz. O tédio terminal toma conta do espectador.

Talvez na origem do programa de variedades houvesse uma idéia de que ele pudesse ser uma espécie de intermediário entre os diversos personagens dos ‘meios’ (voltando a McLuhan, mas evitando deliberadamente a palavra mídia), uma janela de entretenimento para apresentar esse universo ao espectador.

Hoje, essa concepção não faz lá nenhum sentido. Embora o formato dê mostras de que vá existir por muito tempo, as limitações são flagrantes. O espectador saturado de informação não precisa de ‘atravessadores’ entre ele e a TV. A TV funciona quase como uma segunda natureza das pessoas. O universo dos ‘meios’ não precisa mais de mestres de cerimônia, está ao alcance de todos, por múltiplas e onipresentes portas de entrada.’



COMO UMA ONDA
Laura Mattos

‘Nada do que foi será’, copyright Folha de S. Paulo, 7/11/04

‘Ele comandou o assassinato de Odete Roitman, a surra de Maria Clara Diniz em Laura, não nega que às vezes ‘pega pesado’ e que adora um tom mais ‘picante’.

Com esse passado ‘comprometedor’, Dennis Carvalho, 57, diretor de ‘Dancin’ Days’ (1978), ‘Vale Tudo’ (1988/89), ‘Celebridade’ (2003/04), entre outras marcantes novelas das oito, assumirá pela primeira vez um folhetim das 18h. Sob sua direção, ‘Como uma Onda’ estréia na Globo no próximo dia 22. Ou seja: foi-se o tempo de ‘Cabocla’ e ‘Chocolate com (nenhuma) Pimenta’, as últimas duas histórias no horário, de época, nas quais os pares românticos levavam capítulos só na inocente troca de olhares.

Tradicional parceiro de Gilberto Braga (autor das três tramas das oito citadas acima), Dennis não segue sozinho para ‘Como uma Onda’. Leva com ele a equipe com a qual trabalhou em ‘Celebridade’, diretor de fotografia, cenógrafos, produtores de arte etc. Com isso, diz, a trama ‘está com cara de novela das oito’.

Ele tenta definir melhor: ‘Enquadramento, luz, cenário, não sei explicar. Vai ser bem diferente do que as pessoas estão acostumadas a assistir no horário’.

Um clipe com as primeiras cenas de ‘Como uma Onda’ exibido no último ‘Domingão do Faustão’ mostrou um ‘enquadramento’ bem caliente de um jovem casal. Dennis garante que tentará segurar a onda e não repetir a ousadia de ‘Celebridade’, que rendeu reclamações da campanha contra a baixaria na TV, da Câmara dos Deputados.

‘Peguei pesado, principalmente no começo. Eu e o Gilberto nos empolgamos. As cenas da Cláudia Abreu (Laura) com o Márcio Garcia (Marcos) eram pesadas. Aí o público rejeita, as donas-de-casa ficam chocadas quando estão vendo TV com os filhos.’

Segundo o diretor, a novela das seis tem de ser ‘bem leve, porque tem muita criança assistindo’. Ele tem razão. De acordo com a Superintendência Comercial da Globo, 13% da audiência de ‘Cabocla’, a atual das seis, são telespectadores de 4 a 11 anos, e 14% de 12 a 17. Uma taxa maior -apesar de nem tanto- do que a das oito, com 12% de crianças e 11% de jovens.

Pouca roupa

Autor de ‘Como uma Onda’, Walther Negrão, 63, afirma que a novela será realmente ‘mais liberada’ do que as duas anteriores. ‘A idéia é colocar mais pimenta, sem extrapolar. Não sou favorável a ficar pondo cena de sexo às 18h. Será tudo dentro da normalidade, mas as pessoas transam, são normais. É naturalmente sensual.’

Sobre as cenas mais picantes exibidas no ‘Faustão’, Negrão diz que a personagem em questão é uma moça virgem, ‘decidida a transar só após o casamento’, e que ela e o namorado estão ‘explodindo de desejo’. ‘Tudo ficará no limite da sensualidade.’

Foi uma solicitação da direção da Globo que a história fosse ambientada na praia, num resgate a ‘Tropicaliente’ (94), também de Negrão, que bateu recorde de audiência no horário das seis.

‘A praia também libera um pouco mais. É outro tipo de roupa, e os atores e atrizes são lindos. Mas é claro que teremos que tomar cuidado. Não é que todo mundo vai sair transando por aí.’

‘Como uma Onda’ gira em torno de um triângulo amoroso. O mocinho, Daniel, interpretado pelo ator português Ricardo Pereira, será disputado pelas irmãs Nina (Alinne Moraes, uma das lésbicas de ‘Celebridade’) e Lenita (Mel Lisboa, a lolita da minissérie ‘Presença de Anita’).

A região açoriana de Florianópolis (SC) foi o cenário escolhido pela Globo para a história. Apesar disso, tudo será gravado no Projac (central de estúdios da emissora), no Rio, e em praias cariocas.

Bonzinho além da conta em ‘Celebridade’, Henri Castelli será o vilão de ‘Como uma Onda’. ‘Uma pesquisa da Globo mostra que uma tendência de agora que dá certo é o vilão charmoso, bonito, sedutor’, diz Negrão.

Seu personagem, Jorge Junqueira, quer comprar a vila açoriana, centro da história, para transformar num resort, ou seja, prepare-se para a onda de merchadising social com toque ecológico.

A Globo decide mudar o tom do horário após duas novelas de muito sucesso no Ibope. Em outras palavras, resolveu mexer em time que está ganhando. O remake de ‘Cabocla’ marca 34 pontos, mesma média de ‘Chocolate com Pimenta’ (até o 150º capítulo).

Foram resultados de alívio para o canal, após as fracas ‘Agora É que São Elas’ (2003), com 28, e ‘Sabor da Paixão’ (2002/03), 24.

E antes que este texto acabe: a abertura de ‘Como uma Onda’, claro, será o hit de Lulu Santos.’

***

‘Diretor comanda série picante em 2005’, copyright Folha de S. Paulo, 7/11/04

‘Promete barulho a nova parceria do autor Gilberto Braga com o diretor Dennis Carvalho, a dupla de ‘Dancin’ Days’, ‘Vale Tudo’, ‘Anos Rebeldes’ e ‘Celebridade’.

Eles se preparam para estrear em julho do próximo ano uma minissérie inspirada no romance ‘Ligações Perigosas’, cuja adaptação para o cinema contou com Glenn Close, Michelle Pfeiffer e John Malkovich. Pretendem trabalhar com Malu Mader, Cláudia Abreu e Fábio Assunção, de ‘Celebridade’. No filme, recheado de cenas de sexo, o personagem de Malkovich é um sedutor que aposta com a marquesa interpretada por Close que ele irá seduzir uma virgem e puritana (Pfeiffer).

Segundo Dennis Carvalho, o texto de Braga irá inaugurar uma segunda produção anual de minisséries na Globo. ‘Hoje, o costume é exibir uma minissérie mais longa no início de cada ano. Em 2005, será aberto esse espaço para uma segunda história, em julho, com menos capítulos.’

A minissérie de Braga, diz, deverá ter entre 15 e 20 episódios.

Já Walther Negrão poderá ser o autor da minissérie do início de 2006. ‘Devo ficar ou com a novela das oito do fim de 2005 ou com a minissérie do começo de 2006. Para qualquer um dos dois, já escolhi o tema: será rural, sobre o universo do gado zebu.’ Contratado da Globo até 2012, Negrão tem fazenda com 2.000 cabeças. Jayme Monjardim, criador de cavalos, deve dirigir o projeto.’



DOMINGÃO DO FAUSTÃO
Daniel Castro

‘‘Superman’ do Faustão ganha roupa nova’, copyright Folha de S. Paulo, 6/11/04

‘O rapaz vestido de Super-Homem que aparece na TV animando o auditório do ‘Domingão do Faustão’ não recebia um centavo por isso até um ano atrás e só amanhã, na estréia de novo cenário, receberá sua primeira fantasia paga pela TV Globo.

Há cinco anos, André Romano, 22, viaja duas horas da sua casa até os estúdios da Globo para encarnar o ‘Super-Homem do Faustão’. Entrou no programa como fã. Não do apresentador, mas de Lucimara Parisi, a diretora loira que também aparece no vídeo. Foi Lucimara, diz ele, que até agora bancou suas fantasias.

‘Conhecer a Lucimara foi coisa de outra vida. Eu não era nada. Era gordo e estava na quinta série. Perdi 67 kg e agora vou fazer faculdade, sou reconhecido nas ruas e me chamam para festas infantis’, diz Romano, orgulhoso.

O animador de auditório atualmente ganha cachê de R$ 12 por ‘Domingão’. Foi contratado pela mesma agência que leva modelos para embelezar as primeiras fileiras da platéia. Por R$ 20, também dá risadas na claque do ‘Zorra Total’ e ‘Turma do Didi’. E, desde o ano passado, trabalha como office-boy no Projac (complexo de estúdios da Globo).

A partir de amanhã, Romano ficará em uma arquibancada maior. Com o novo cenário, que terá três telões gigantes e fotos de paisagens brasileiras, a platéia do ‘Domingão’ passará a abrigar 500 pessoas, e não mais 350.

OUTRO CANAL

Em casa

Primeiro ator estrangeiro a protagonizar uma novela da Globo, o português Ricardo Pereira, 25, que será o mocinho de ‘Como uma Onda’, impressionou executivos da Globo por ter se enturmado rapidamente com as estrelas da casa. ‘Estou a um estágio de me tornar psicólogo. Sou muito comunicativo e simples’, diz o modesto ator, escolhido em testes em Lisboa.

Quase lá 1

A Record foi bem, mas não conseguiu bater o SBT na disputa pelo segundo lugar no Ibope com a estréia de ‘O Aprendiz’, anteontem. O ‘reality show’ deu nove pontos, um a menos do que o SBT. A Globo (‘A Grande Família’) marcou 41.

Quase lá 2

‘O Aprendiz’, no entanto, revelou-se um programa bem produzido, uma cópia impecável do original americano, com Donald Trump. Sem piscar e com topete à prova de vento, o apresentador, o publicitário/celebridade Roberto Justus, imitou Trump mas também mostrou ter personalidade própria.

Recomeçar 1

Carolina Ferraz vai entrar na novela das sete da Globo, ‘Começar de Novo’. Como Gigi, terá a missão de abalar o romance do casal protagonista, os ‘maduros’ Marcos Paulo (Miguel Arcanjo) e Natália do Valle (Letícia).

Recomeçar 2

A personagem de Carolina Ferraz não estava prevista na sinopse original da novela, cuja audiência está em queda.’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem