Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 21 E 22/07

Vi o Mundo

24/07/2007 na edição 443

MÍDIA vs. LULA
Luiz Carlos azenha

Esquadrão da mídia (já) em campanha para eleger prefeitos da oposição em 2008, 18/07/07

‘[Vídeo divulgado pela Aeronáutica prova que o avião da TAM percorreu em três segundos trecho da pista de Congonhas que deveria ter percorrido em 7 segundos. Mas a mídia golpista, de forma porca e abjeta, tenta botar a tragédia no colo de Lula. O comportamento da mídia brasileira deveria ser objeto de Comissão Parlamentar de Inquérito, desde que os parlamentares venham de fora]

A mídia golpista já concluiu: a culpa pela tragédia da TAM foi da pista de Congonhas, que foi liberada para pousos e decolagens sem as ranhuras, o grooving que facilita o escoamento de água.

Eu não entendo nada de aviação.

Mas até o rapaz que cuida da culinária no programa da Record tornou-se especialista em aeronáutica de ontem para hoje.

O tucano José Serra, de bico fechado sobre a cratera no Metrô – até hoje não explicada – parece até um grilo falante.

Segundo ele, as três últimas palavras ditas pelo piloto do vôo acidentado foram: ‘Vira, vira, vira’.

Mas o major-brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira desmentiu Serra.

Afirmou que não existe, na aviação, esse comando.

Segundo o major-brigadeiro, o piloto deve ter dito ‘gira, gira, gira’.

Essa gíria existe na aviação.

É uma ordem para arremeter.

Eu fico em dúvida se acredito no governador ou no major-brigadeiro, dada a longa experiência de José Serra no comando dos novos modelos do Airbus.

A tese da mídia golpista é a seguinte: chovia, o avião não conseguiu frear por falta de grooving e caiu na avenida.

Assim sendo, a culpa é da falta de grooving.

Culpa da pista e, portanto, culpa da Infraero (que fez as reformas) e do governo Lula.

O problema principal dessa teoria: todos os indícios sugerem que o piloto, logo após pousar, decidiu arremeter.

Quem disser agora que sabe o que levou o piloto a dar essa ordem é mentiroso.

Mas temos na mídia grandes especialistas em aeronáutica, controladores de vôo experientes e pilotos aposentados.

Eles só querem saber das notícias que se encaixem na teoria pré-determinada.

Descartam tudo o que não confirma a tese que pode ser usada na campanha eleitoral de 2008, já em andamento.

Nela, a turma do PSDB/DEM corre o risco de perder prefeituras que são parte importante de sua base política, de olho em 2010.

Isso explica o bombardeio à candidata em potencial à Prefeitura de São Paulo, Martha Suplicy, que ofereceu um slogan fácil para a oposição com o tal de ‘relaxa e goza’.

Isso explica as vaias a Lula no Rio de Janeiro, armadas por César Maia, determinado a faturar sózinho os Jogos Panamericanos e, quem sabe, se reeleger e fazer do filho o prefeito de Niterói.

Publicado em 18 de julho de 2007

As imagens divulgadas pela Aeronáutica não deixam dúvidas: o avião passou pela pista de Congonhas em altíssima velocidade.

Mas a mídia tucana já concluiu sua investigação.

O governador José Serra manda a polícia investigar homicídio culposo mas não abre o bico sobre a cratera do Metrô.

E se foi culpa do piloto?

Serra vai processar o piloto morto?

E se foi culpa da Airbus?

Serra vai processar a Airbus?

Um exemplo de conclusão apressada do inquérito tucano, publicado na Folha de S. Paulo (o grifo é meu):

‘18/07/2007

É pior do que se imagina

Raras vezes em nossa história vimos um acidente tão espetacularmente trágico como o choque do avião em Congonhas, mas, de certa forma, é uma rotina brasileira. Somos vítimas diárias dos mais diferentes tipos de descuidos e de irresponsabilidades que conduzem a pequenas, grandes e médias tragédias, devido basicamente à nossa baixa de cidadania –o que se traduz em irresponsabilidade.

Morrem milhares de pessoas nas estradas simplesmente porque a sinalização não é boa, as pistas não estão bem conservadas ou não se fiscaliza quem está com alto teor alcoólico no sangue. Vemos, neste momento, a dificuldade que é limitar a propaganda de cerveja. Vivemos um clima de guerra civil nas cidades porque não se prestou a atenção na educação, na inclusão de jovens e no aperfeiçoamento da segurança. Morrem milhares de crianças por falta de condições básicas de saúde, fáceis de serem atendidas. Estamos vendo a volta de doenças como tuberculose. A cada dia, só na cidade de São Paulo, morre um motoboy, vítima não só dele próprio, mas também da selvageria da falta de controle.

Se formos olhar porque somos um país tão potencialmente rico mas tão pobre, veremos que temos tragédias evitáveis apenas porque deixamos para depois o conserto de uma pista.’

Notem que o autor junta todas as tragédias num saco só e, no fim, adianta a conclusão do inquérito.

Há dezenas de exemplos desse tipo nos jornais, nas rádios e em emissoras de televisão: informações levianas, deturpadas e omissões com claros objetivos políticos.

A exploração política de uma tragédia é de dar nojo.

Acrescentado em 18 de julho de 2007

A respeito, não deixem de ler o que escreveu o Eduardo Guimarães:

http://edu.guim.blog.uol.com.br/

Acrescentado em 18 de julho de 2007′

***

Tragédia na mídia: Falceta diz que Eliane Cantanhêde é ‘oportunista’, 17/07/07

‘Walter Falceta Jr. ficou indignado com a colega Eliane Cantanhêde, da Folha, o jornal que descobriu ontem a existência do filho de Fernando Henrique Cardoso, com apenas 15 anos de atraso:

‘Cara Eliane Cantanhêde,

Sou jornalista. Já trabalhei em Veja, Estadão, O Globo e um monte de outros jornais e revistas. Como editor, já topei com muita bobagem e muita mentira.

No entanto, poucas vezes li algo tão oportunista quanto seu texto sobre o acidente com o avião da TAM. Constitui-se, sobretudo, em DESRESPEITO às vítimas e suas famílias. Um exemplo espetacular de falta de sensibilidade.

A senhora não é expert em aviação, e mesmo que fosse não poderia, neste momento, emitir parecer sobre as causas das tragédia em São Paulo. Sem ciência e consciência, seu artigo mistura fatos desconexos para dar fôlego à permanente propaganda de desconstrução da imagem do Governo Federal.

Se não é pitonisa e se não tem o dom da onisciência, a senhora não sabe se houve erro do piloto, se houve falha mecânica nem se esses e outros fatores se combinaram para provocar o acidente.

Esse terrorismo do ‘quando vai ser o próximo?’ é próprio de uma imprensa pusilânime e irresponsável. A conversão da dor em combustível da propaganda política dá engulhos a qualquer leitor de bem. Neste caso, mais do que o modus leviano de escriba de aluguel, é teu aquele do abutre politiqueiro.

Um abraço,

WFJr.

***

17/07/2007

‘Quando vai ser o próximo?’

da Folha Online

A cada nova crise nos aeroportos, a cada novo movimento dos controladores, a cada derrapada de avião, a cada pane no sistema de rádio ou nos radares, uns sempre diziam e outros sempre pensavam: ‘Quando vai ser o próximo acidente?’

Foi nesta terça-feira, menos de dez meses depois da queda do Boeing da Gol que se chocou com o jato Legacy nos céus de Mato Grosso, matando 154 pessoas e implodindo a credibilidade do sistema aéreo no Brasil. Até hoje, era o maior acidente da história da aviação brasileira. Não é mais.

No Airbus da TAM que explodiu no coração de São Paulo, havia quase 180 pessoas. Além delas, morreram também ainda incontáveis pessoas em solo, com as vítimas sendo recolhidas uma a uma em meio a um inferno de chamas.

O controle de aproximação autorizou o pouso, o avião tocou o solo e não parou. Ultrapassou a pista e se lançou sobre uma avenida até explodir no choque com um depósito da própria TAM, deixando a impressão nos experts de que o pouso foi além do ‘ponto de toque’ e não houve pista suficiente para parar. O piloto teria, então, tentado arremeter (subir novamente), sem sucesso.

As circunstâncias eram todas desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, a reforma mal (em duplo sentido) terminou e, afinal das contas, não pode ser pura coincidência que o maior acidente da história acontecer exatamente em Congonhas, no dia seguinte à derrapagem de um pequeno avião da Pantanal. É o aeroporto mais congestionado do país, há décadas se sabe que é inviável e os relatórios oficiais já acendiam o sinal amarelo havia meses.

Qualquer um sabe disso, no governo civil, na Aeronáutica, na Infraero, na Anac, nas companhias. Mas ficaram todos esperando ocorrer o pior. Ocorreu.

Resultado: em Brasília, o clima é de total empurra-empurra. O ministro da Defesa, Waldir Pires, estava justamente numa audiência com Lula para discutir o orçamento da Força Aérea, mas, como sempre, foi o último a saber do acidente. Já em casa, teve de voltar ao Planalto. A Aeronáutica diz que não tem nada a ver, porque desta vez o controle de tráfego aéreo não tem nenhuma responsabilidade. E joga a culpa na Infraero, que cuida da infra-estrutura dos aeroportos, e na Anac, a agência civil que substituiu o antigo DAC e que não tem força –talvez nem vontade– de enfrentar as companhias para de fato regulamentar o setor e definir a malha aérea brasileira.

Como ficam sob o foco também as próprias companhias, por não aceitarem abrir mão da concentração de vôos em Congonhas, que consegue ser ao mesmo tempo um aeroporto condenado e o aeroporto mais congestionado do país. É o típico caso em que o dinheiro fala mais alto do que a segurança.

O que explodiu hoje não foi só o Airbus da TAM. Foi também o resquício de credibilidade que ainda sobrava do sistema de vôo no país e a capacidade de o governo, no seu conjunto de órgãos responsáveis, gerir a situação. O que há é o caos. Junto com a dor, a perplexidade e a sensação de que não tem mais conserto.

Desculpe, mas o que todo mundo agora se pergunta é: ‘Quando vai ser o próximo?’

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha e assina a coluna ‘Brasília’ aos domingos, terças, quintas e sextas. Formada pela UnB, foi diretora das sucursais de ‘O Globo’, ‘Gazeta Mercantil’ e da Folha em Brasília. Escreve para a Folha Online às quartas.E-mail: elianec@uol.com.br’.

Publicado em 17 de julho de 2007′

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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