Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
Menu

ENTRE ASPAS >

Vídeo de sexo leva à renúncia de ministro malaio

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 03/01/2008 na edição 466

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


************


Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 3 de janeiro de 2008


ESCÂNDALO
Folha de S. Paulo


Ministro da Malásia renuncia por aparecer em vídeo de sexo


‘‘No fim, isso apenas mostra que a honestidade, às vezes, não compensa.’ A frase é de Chua Soi Lek, 61, ao renunciar ontem ao cargo de ministro de Saúde da Malásia, um dia depois de confessar ser um dos protagonistas dos dois DVDs com imagens de sexo que circulam no país.


Além do ministério, Chua, que é casado e tem três filhos, deixou também o posto de parlamentar e os cargos que ocupava na Associação China-Malásia, o segundo partido na coalizão governista. O ex-ministro era apontado como um nome promissor nas eleições gerais malaias deste ano.


Desde o último domingo, os dois DVDs com imagens de um casal fazendo sexo -gravado em quatro ângulos distintos- circula no Estado de Johr, bastião político de Chua. A polícia tentou recolher, sem sucesso, as cópias.


‘Sou o homem do vídeo. Mas não gravei a fita’, afirmou ele anteontem quando ainda não pensava em renunciar. A mulher nas cenas, disse, é uma amiga.


‘Eu esperava que os malaios aceitassem minhas desculpas’, disse o ex-ministro, que foi perdoado pela mulher. ‘Mas alguns têm uma atitude de reis da moral’, completou.


Na Malásia, a maioria da população é muçulmana e nos últimos anos tem se propagado a aceitação da sharia, a lei islâmica. Chua insinuou que o vídeo foi uma armação da oposição para minar sua carreira.’


 


MILHEM CORTAZ
Lucas Neves


‘Não corro mais o risco de ser execrado’, diz ator


‘Exímio capoeirista, mas um tanto ansioso, Xuxito vez por outra ouvia de seu mestre na roda: ‘Quem corre cansa, quem anda alcança.’ Hoje, o cordão foi encostado, mas a máxima do professor ainda acompanha Xuxito nas telas e palcos.


Xuxito (que, a propósito, recebeu a alcunha por ser o único branco em um grupo de negros) é Milhem Cortaz, 35, o ator que, depois de construir uma sólida carreira no teatro paulistano por cerca de 15 anos, tornou-se um dos mais requisitados nomes do cinema nacional. Em 2007, atuou em cinco filmes, incluindo o sucesso ‘Tropa de Elite’. Neste ano, surgirá em pelo menos mais três, dentre eles o aguardado ‘Encarnação do Demônio’, que marca a volta de José Mojica Marins à direção.


Foi o capitão Fábio (o 02 de ‘Tropa’) que familiarizou o grande público com um rosto que o meio cinematográfico descobrira em ‘Carandiru’ (2003), como Peixeira, o criminoso convertido em evangélico -ele antes fizera uma ponta em ‘Através da Janela’ (2000). ‘A partir de ‘Carandiru’, as pessoas não vão mais dizer que meu trabalho está uma merda. Dirão: ‘Não está bem neste filme’. Não corro mais o risco de ser execrado’, avalia.


Mas de um ou outro sopapo ele não se livrou… Nos últimos meses, quando alguém o reconhece na rua, a ‘saudação’ não raro inclui tapas na cabeça junto com o bordão ‘Pede para sair, 02!’. ‘Me assustou isso [a súbita fama]. Nunca tinha tido um alcance tão grande. Em setembro, era um merda. Em outubro, era uma barra de chocolate. Estou adorando, aproveito, mas não acredito nisso [na consagração], senão morro em vida, estaciono’, diz Cortaz.


O convite para o filme de José Padilha foi o primeiro de sua carreira no cinema -ele obtivera os papéis anteriores em testes. Talvez por isso Cortaz defenda com tanta veemência o personagem de índole duvidosa -que tem entre suas ‘atividades paralelas’ cobrar propina para fazer a segurança de estabelecimentos comerciais. ‘Ele está dando um jeito de sobreviver. Não é um filho da puta, não corrompe ninguém, não esculacha ninguém. É o típico brasileiro, é meu Macunaíma.’


Macunaíma cuja farda não deve migrar para a TV, se forem adiante as negociações para transformar o filme em série. Os produtores negociam com a Globo; Cortaz tem contrato com a Record (já fez quatro novelas no canal). ‘Mas já cumpri meu ciclo em ‘Tropa’. Acho até charmoso o capitão Fábio não aparecer mais. Tinha medo de banalizar o personagem’, diz.


Brasília


O sucesso popular coincidiu com o respaldo de um prêmio. Em novembro, recebeu o Candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília pela atuação em ‘Meu Mundo em Perigo’, de José Eduardo Belmonte (‘O diretor de quem pretendo fazer todos os filmes’). Ele é Fito, desempregado cuja falta de iniciativa fica explícita quando o pai é atropelado. ‘O Festival de Brasília é engraçadíssimo. Você ganha o prêmio e tem que mandar nota. É um prêmio, R$ 5.000. R$ 5.000 não é prêmio, é ajuda de custo! Prêmio é R$ 100 mil, né?’, diz Cortaz, entre risos.


Mas ele cuida para que a afirmação jocosa não soe como ingratidão. ‘É louco como minha profissão é generosa comigo. Às vezes, acho que não mereço tanto.’ O ator, é claro, deu uma mãozinha à sorte. ‘Não caiu do céu [o reconhecimento]. Fui fazendo as pessoas acreditarem que era capaz. Na vida toda comi pelas beiradas, fui sempre a surpresa para quem ia ver.’ Quando a humildade começa a querer escapar, Cortaz concede: ‘Erro com tanta paixão que as pessoas se convencem.’


Paixão que se traduz, durante duas horas de conversa, em gestos amplos, mudanças de timbre para reproduzir diálogos e personagens e numa agitação que, lá pelas tantas, resulta no desligamento do gravador do repórter. É que ele quer falar de colegas famosos que ‘não exercitam [seus dotes]’ e ‘não têm estofo nem repertório’.


Outra vontade é a de ‘abordar o pleno amor’. O ator acha que tem estado ‘distante artisticamente’ do tema, entre outros fatores, por seu porte físico. ‘Sou o inverso do que aparento. A vida me deu esse mecanismo de defesa por eu ser tão frágil.’ Ma non troppo: ‘Não tenho papas na língua, falo tudo. A gente não pode ser sincero, tem que ser verdadeiro, né? A sinceridade ofende.’


Teatro


Nos palcos, onde já atuou sob os auspícios de Antunes Filho, Ulysses Cruz e Cibele Forjaz, para citar alguns, concluiu uma bem-sucedida temporada com ‘Homem sem Rumo’, do norueguês Arne Lygre. ‘Venho do teatro visceral, em que prevalece a emoção. ‘Homem’ é só técnica, sem psicologismos. Nunca fiz nada tão difícil. Foi um momento de maturidade.’


Cortaz já tem um personagem-fetiche para quando virar a curva dos 40 anos: quer ser o Boca de Ouro de Nelson Rodrigues. Montar Edward Albee e Harold Pinter também está nos planos. ‘Mas o teatro está abandonado, falta incentivo. Tenho medo de essa porra acabar. Se você pensar que antigamente as sessões iam de terça a domingo…’, observa.


De volta ao cinema, as perspectivas (ao menos para ele) são mais positivas no ano que começa. Recém-saído das filmagens de ‘Se Nada Mais Der Certo’, novo encontro com Belmonte, ele se prepara para rodar ‘Augustas’, estréia em longas de ficção de Francisco César Filho. ‘Achei que ia morrer ‘Carandiru’. Aí veio o 02. Vamos ver quanto tempo vai durar. Tenho esperança de que venha o ‘04’.’ Será o padre de ‘Encarnação do Demônio’?’


 


INTÉRPRETE CRIA ROTEIRO PARA CURTA


‘Milhem Cortaz diz que dirigir, por enquanto, só se for para teatro. ‘É onde quero me arriscar, porque tenho mais requinte, informação. No cinema, ainda me acho muito burro, ainda sou ‘o cara da pipoca’.


Quero mantê-lo como o meu lugar de fantasia, algo que não consigo fazer com o teatro, por conhecer muito.’ Mas é para a tela grande que ele guarda um roteiro de sua autoria. Na trama para curta, explica o ator, ‘um travesti vive com seu amor por cinco anos, mas espera a chegada do bofe da vida dele’. O ‘amor’ é um boneco inflável. Quando o protagonista intui que é o tal ‘bofe’ quem bate à sua porta, pede ao marido que não interfira. Instantes depois, sucumbe à própria emoção e morre. ‘O bofe que ele estava esperando era Deus’, entrega Milhem Cortaz.’


 


CINEMA
Mônica Bergamo


Sem férias


‘O diretor Cao Hamburger e o produtor Fabiano Gullane vão concentrar em Los Angeles a campanha para emplacar o filme ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’ na lista de candidatos ao Oscar. Farão lá exibições especiais para os votantes da academia, com a distribuidora Citylight Pictures.’


 


Folha de S. Paulo


Aos 103, morre o pianista Sommerfeld


‘O pianista Willy Sommerfeld, que trabalhou no período do cinema mudo, tocando ao vivo as trilhas sonoras de diversos filmes, entre eles os de grandes astros, como Greta Garbo e Charles Chaplin, morreu em sua casa em Berlim, aos 103 anos, no último dia 19/12.


O anúncio da morte de Willy Sommerfeld foi feito ontem, pela associação germânica Amigos da Cinemateca. A carreira do pianista foi tema do documentário ‘The Sounds of Silents’ (2006), dirigido por Ilona Ziok.’


 


Eurochannel estréia série sobre festivais


‘O canal pago Eurochannel estréia amanhã uma série sobre os bastidores de alguns dos mais badalados festivais de cinema internacionais, sempre ancorados em um lançamento (deste ano ou de 2007).


Nos quatro programas previstos para este mês, o Festival de Berlim é o cenário para entrevistas com diretores, produtores e atores. Na estréia, amanhã, às 21h, o tema é ‘Piaf – Um Hino ao Amor’, cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf que estreou no Brasil em outubro. A protagonista, Marion Cotillard, obteve uma indicação ao Globo de Ouro. ‘The Counterfeiters’, longa-metragem de Stefan Ruzowitzky que foi pré-indicado ao Oscar de filme estrangeiro pela Áustria e que ainda não estreou por aqui, é o outro destaque do programa de amanhã.


O especial promete ainda edições produzidas em Cannes, Roma, Veneza, Karlovy Vary (República Tcheca) e San Sebastián, com depoimentos que vão de Juliette Binoche a Win Wenders, passando por Gus van Sant e Monica Bellucci.


A produção, feita pelo canal, traz ainda trailers e um pouco mais sobre os festivais pelos quais passou. Entre os filmes que figuram na lista prevista para o mês está ‘Beaufort’ (dia 18), um dos destaques da Mostra de Cinema de SP de 2007 e que rendeu o prêmio de direção a Joseph Cedar em Berlim.


EUROPRODUCTION: EUROFESTIVAL


Quando: estréia amanhã, às 21h


Onde: Eurochannel’


 


Contardo Calligaris


‘Meu Nome Não É Johnny’


‘NOS anos 90, João Guilherme Estrella, um jovem de classe média-alta carioca, tornou-se ‘barão’ do varejo de cocaína. Ele exportou ‘pura’ para a Europa, foi preso com seis quilos da droga e, num processo memorável pela sinceridade do acusado e pela inteligência da juíza, foi condenado a dois anos de internação num manicômio judicial. Ele cumpriu a pena e é hoje um produtor musical.


Estréia amanhã ‘Meu Nome Não É Johnny’, de Mauro Lima, com atuações notáveis de Cléo Pires e Selton Mello. O filme se inspira no livro homônimo (Record, reeditado nesta ocasião) em que Guilherme Fiuza reconstruiu e contou a história de João Guilherme Estrella.


O filme (como o livro) começa com uma breve descrição da infância de João Guilherme. Por um momento, pensei (receei) que a narrativa adotasse a explicação que quase sempre liga a toxicomania dos filhos à permissividade dos pais. É aquela lengalenga: os pais nunca souberam dizer não, e os filhos, incapazes de encarar qualquer frustração, procuram na droga a garantia de uma gratificação constante. Pois é, o filme é muito mais inteligente e verdadeiro do que esse clichê explicativo.


Um exemplo. O pai de João Guilherme tolera que o filho estoure um rojão na sala quando o Vasco marca um gol. Mas é melhor a gente não se apressar em julgar e condenar: o pai também exige que o moleque trabalhe para pagar ao menos a metade da prancha de surfe que ele quer. Quase todos os pais se reconhecerão nessa mistura em que coexistem a fascinação pelas façanhas do filho (deixe, que esse menino vai longe) e as tentativas desesperadas de inculcar nele uma ética do esforço. Esse paradoxo é o drama básico de todos os pais modernos.


No começo de sua ‘carreira’ de traficante, João Guilherme vivia na casa de família junto com o pai, que se separara e estava gravemente doente. Enquanto o pai esperava a morte confinado no seu quarto, cocaína e maconha rolavam soltas nas animadíssimas reuniões organizadas pelo filho na sala da casa.


O espectador talvez se indigne: o pai está cego? Não vê o que está acontecendo? Ou então: como o filho faz a festa enquanto o pai está morrendo?


Mas uma outra leitura é sugerida pelos bonitos planos em que Mauro Lima enquadra frontalmente a casa do Jardim Botânico ou mostra o pai se virando na cama no meio da noite: o quarto do pai doente e a sala da bagunça não são mundos separados.


A contradição é só aparente entre os desmandos do filho e a agonia do pai: talvez, no fundo, o pai queira mesmo o barulho da festa que não o deixa dormir.


É sempre assim. Os filhos são tudo o que nos resta para acreditarmos que a vida continua, e eles têm a tarefa de serem ‘felizes’ para compensar as amarguras de nosso tempo que se acaba. Condenamos os excessos nos quais eles se engajam, mas é apenas ‘pelo bem deles’. O gozo dos filhos, por mais que seja reprovado, é um espetáculo que consola os pais da inelutabilidade de sua própria morte.


João Guilherme Estrella foi traficante de droga. Mas o verdadeiro traficante nunca toca na droga; ele só vende. Para fazer a diferença entre traficante e usuário, a lei só pode indicar critérios quantitativos, que são freqüentemente incorretos: João Guilherme movimentou enormes quantidades de cocaína, mas ele mesmo chegou a cheirar, numa semana, o despropósito de cem gramas. A juíza viu mais o drogado que o traficante. Com razão: ao longo de sua ‘carreira’, João Guilherme não acumulou nenhuma reserva de dinheiro nem organizou uma quadrilha, ele apenas viveu anos na ânsia de uma fruição frenética. Durante o processo, a juíza perguntou a João Guilherme se ele sabia que estava fazendo algo errado ou ilegal.


João Guilherme respondeu que ele não tinha muito clara a distinção entre o que é certo e o que não é. Claro, ele devia saber que algumas substâncias são ilícitas por lei. Mas há uma distinção mais profunda que muitos perdem -não só os toxicômanos, também todos os entusiastas que, a mando dos pais, saem à conquista do mundo. Ou seja, todos nós, quem mais quem menos.


Há um momento, no filme, em que João Guilherme e alguns amigos cheiradíssimos circulam de carro pelo Rio lançando um grito comum: ‘O Rio de Janeiro é nosso!!!’. Que o Rio fosse dele -aliás, que o mundo fosse dele- era tudo o que o pai de João Guilherme queria. E é tudo o que qualquer pai quer para o filho, não é?’


 


TELEVISÃO
Laura Mattos


Governo nega recurso de ‘Duas Caras’


‘O Ministério da Justiça indeferiu recurso da Globo para que a classificação de ‘Duas Caras’ voltasse a ser de 12 anos, com veiculação liberada a partir das 20h. Despacho assinado pelo secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, em 26 de dezembro, mantém a reclassificação para 14 anos, com exibição somente a partir das 21h.


Em 19 de dezembro, o Ministério da Justiça decidira subir a classificação da novela de 12 para 14 anos, em razão de cenas consideradas de apelo sexual. As mais polêmicas envolviam a personagem de Flávia Alessandra, em uma uisqueria (boate), apresentando a ‘pole dancing’, dança em um poste normalmente feita por strippers.


No dia seguinte, a Globo entrou com um recurso no qual se comprometia a ‘realizar todos os ajustes eventualmente necessários’ para que a novela voltasse a ser classificada para 12 anos. Afirmou ainda que ‘no decorrer da trama não haverá novas cenas na casa noturna’ e que a uisqueria seria explodida, o que daria ‘ensejo a novas tramas, nenhuma delas relacionada com a pole dancing’.


A explosão da uisqueria foi ao ar na mesma semana, mas Tuma Júnior considerou, em seu despacho, que ‘não houve ainda tempo hábil para verificar a absoluta adequação’. Determinou que o departamento de classificação do MJ, subordinado a ele, analise a novela pelos próximos 30 dias a fim de fundamentar sua decisão.


O curioso é que Tuma Júnior tem uma filha de 13 anos que assiste à ‘Duas Caras’. A reportagem lembrou a ele ontem que, com sua decisão, a garota teoricamente não poderia mais ver a novela. ‘É. Pelo menos por enquanto não vai poder’, respondeu o secretário.


Fuso horário


A resolução poderá trazer problemas para a Globo a partir de 9 de janeiro, próxima quarta-feira. A portaria de classificação de programas de televisão, assinada em julho do ano passado, determina que a partir desta data as emissoras terão de respeitar os diferentes fusos horários do país. Atualmente, no horário de verão, ‘Duas Caras’, por exemplo, vai ao ar às 21h em Estados com fuso de Brasília, mas é exibida às 18h no Acre e às 20h em no Nordeste.


Para se adequar, as emissoras regionais desses Estados teriam de gravar a programação e exibi-la com atraso.


A Globo e outras redes atuam nos bastidores em Brasília a fim de tentar reverter até o dia 9 a obrigatoriedade de respeito ao fuso. Estão à frente da batalhas TVs dos locais afetados, que afirmam que terão prejuízo financeiro com a medida.


As redes esperam conseguir a revogação da norma ou, no mínimo, mais um adiamento para o início da obrigatoriedade.


Procurada ontem pela Folha, a Central Globo de Comunicação afirmou que ‘a classificação 14 anos [de ‘Duas Caras’] não altera nossa programação, já que a novela entra mesmo no ar às 21 h. Com relação ao fuso, como ainda existem algumas questões sendo discutidas, não vamos nos pronunciar agora’.’


 


LITERATURA
Angela Pinho


‘Divina Comédia’ lidera em site literário


‘Engana-se quem pensa que é Machado de Assis, Shakespeare, Fernando Pessoa ou qualquer outro livro da lista dos obrigatórios para o vestibular o mais procurado dos que estão em domínio público. A obra com mais downloads no portal do governo que pretende reunir os livros disponíveis gratuitamente -ou, pelo menos, os mais importantes- é do século 14, foi escrita em toscano e teve seus versos traduzidos para o português do século 19 por José Pedro Xavier Pinheiro, um baiano que morreu em 1882.


Os números são do portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br), mantido pelo Ministério da Educação: ‘A Divina Comédia’, do florentino Dante Alighieri (1265-1321), deixa para trás, e por muito, clássicos como ‘Mensagem’, de Fernando Pessoa, e ‘Dom Casmurro’, de Machado -168 mil acessos contra 41 mil e 39 mil, respectivamente.


São obras de domínio público as escritas por autor morto há mais de 70 anos; o site também abriga aquelas cujos autores ou as famílias concedem uma licença. Foi o caso de ‘Grande Sertão: Veredas’ -um link do Domínio Público deu acesso à íntegra do livro durante as comemorações de 50 anos da obra de Guimarães Rosa; depois, a editora Nova Fronteira a retirou da rede. A ação foi considerada ‘promocional’ por funcionários do ministério.


Comédia


‘A Comédia dos Erros’, de Shakespeare, aparece em quarto lugar na lista das mais baixadas no site -a coincidência do nome com a primeira colocada dá corda para uma piada corrente no MEC, segundo a qual o internauta mais desavisado estaria baixando as duas obras pensando fazerem elas parte do gênero cômico.


Já Maria Teresa Arrigoni, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e especialista em Dante, associa o fenômeno a uma reaparição da obra do autor em manifestações artísticas atuais, como o suspense best-seller ‘Os Crimes do Mosaico’ (Planeta do Brasil, 2006), de Giulio Leoni, que tem o próprio Dante como detetive.


Até mesmo a novela ‘Sete Pecados’, da Globo, entraria nessa retomada dos temas da ‘Divina Comédia’, dos pecados à própria noção de paraíso, inferno e purgatório. A noção de purgatório, aliás, era recente quando a obra foi escrita, aponta Arrigoni. Estudos do historiador francês Jacques Le Goff mostram que ela surgiu por volta do século 13.


O professor de teoria literária da Unicamp Carlos Berriel, por sua vez, aponta a coincidência -não casual- da ascensão de Dante com o que chama de crise da arte contemporânea -’uma crise que antecede o desaparecimento’.


‘A agonia da Bienal de São Paulo é um lado da mesma moeda do interesse em Dante’, diz. ‘Certas manifestações do moderno estão esgotadas, e a Bienal, que é a expressão máxima do moderno, não diz mais nada a mais ninguém.’


Na opinião de Berriel, Dante organiza o mundo. ‘Ele torna o além algo totalmente hierarquizado. Mostra que, por princípio, todo mundo pode organizar o seu inferno, céu e purgatório. Dante é antípoda da nossa época de ausência de hierarquia, de valores, com uma cultura descentrada.’


O coordenador do Domínio Público, Marco Antonio Rodrigues, por sua vez, apresenta outras hipóteses para o sucesso de Dante. Primeiro: ‘A Divina Comédia’ foi uma das primeiras obras a serem cadastradas no portal. Segundo: diferente de ‘Dom Casmurro’, por exemplo, só tem uma versão na página. E, por fim, após o alto número de acessos, foi criado um link específico para a obra no menu do Domínio Público.


A própria lista das obras mais acessadas, aponta, é uma alavanca para que as primeiras colocadas permaneçam no rol -ela motiva os internautas a conhecer os ‘hits’.


Essa seria uma explicação também para outros ‘fenômenos’ do portal, como os infantis ‘A Borboleta Azul’ e ‘O Peixinho e o Gato’, da professora baiana Lenira Almeida Heck, hoje moradora de Lajeado (RS), que ficam em segundo e terceiro lugar no ranking -para se ter uma idéia, ‘Dom Casmurro’ ocupa só a 11ª posição.


Lenira assina, ao lado de seu nome verdadeiro, como ‘Júlia Vehuiah’, que junta o apelido da mãe, que se chamava Julieta, com o nome de seu anjo. O codinome foi criado na época da composição do hino de Lajeado; seguiu com a autora e, hoje, serve para o que ela chama de despreocupação com o fato de sua obra estar disponível gratuitamente na internet -embora ela não dê permissão para o internauta imprimi-la.


‘Sou professora, não dependo só dos meus livros para viver. E, se sou inspirada por Júlia e Vehuiah, a obra não me pertence.’ Ainda assim, ela já cuida da memória de seu nome e vislumbra um futuro de sucesso. ‘Guardo todas as minhas crônicas e tudo o que sai sobre mim. No dia em que eu não estiver mais aqui, vai haver muito material para falar de Lenira Almeida Heck.’’


 


************


O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 3 de janeiro de 2008


EDUCAÇÃO


Fabiana Cimieri


Aumenta acesso de negros ao ensino, diz UFRJ


‘A desigualdade na educação entre negros e brancos diminuiu ao longo dos últimos dez anos e hoje o acesso dos dois grupos ao ensino fundamental é praticamente igual. Apesar disso ainda persiste um fosso entre eles nos níveis médio e superior. Para atingir o nível de escolaridade atual dos brancos, os negros brasileiros ainda demorariam 17 anos.


Essa é uma das principais conclusões de um estudo sobre o tema que acaba de ser realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles verificaram que 2006, de cada dez negros com idade para freqüentar o ensino médio (entre 15 e 17 anos), seis não o faziam; entre os jovens brancos a média era de quatro entre dez.


No ensino superior, a desigualdade também foi significativa, segundo o levantamento da UFRJ: a porcentagem da população branca entre 18 e 24 anos cursando escolas de nível superior era de 30,7%; a de negros era de 12,1%.


O estudo faz parte do 1º Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil, do Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser). A partir da análise de indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de 1995 a 2006, eles constataram uma nítida redução das desigualdades no período, especialmente no governo de Fernando Henrique Cardoso.


‘Houve uma redução grande da desigualdade nos anos dos governos FHC, mas esse ritmo diminuiu no governo Lula’, disse o economista Marcelo Paixão, coordenador do estudo.


Ele destacou os avanços na cobertura do ensino fundamental. Na faixa entre 7 e 14 anos, quase não há mais diferença entre brancos e negros: 98,8% das crianças brancas e 97,7% das negras estavam na escola em 2006. Em 1995 o porcentual era de 94,6% e 88,2%, respectivamente.


‘Os negros são maioria nas escolas públicas, mas têm que pagar uma universidade privada se quiserem continuar os estudos e se formar’, contou Paixão. ‘Os brancos pagam escolas privadas no ensino fundamental e médio e conseguem a maior parte das vagas das universidades públicas, o que é muito desigual.’’


 


PERSÉPOLIS
Flávia Guerra


Quadrinhos iranianos viram filme animado


‘Quando se apaixonou pela arte dos quadrinhos, influenciada pelo professor e também quadrinista Pierre-François Beauchard, Marjane Satrapi nunca imaginaria que seria a única diretora a ter um filme concorrendo à Palma de Ouro em Cannes em 2007. E que seu filme seria escolhido como o melhor longa de ficção estrangeiro pelo público da 31ª Mostra de Cinema de São Paulo.Muito menos que seria a representante da França a uma vaga no Oscar 2008. Ou que concorreria ao Globo de Ouro 2008.


Persépolis, mais que filme, é uma das mais criativas e bem-sucedidas, histórias em quadrinhos da História (com H maiúsculo, mesmo). Série de HQs criada por Marjane em 2000, reconta, no melhor estilo ‘realismo estilizado’ a época de sua infância e sua juventude. Mais que isso, trata-se da história recente de seu país, o Irã. Persépolis (uma alusão à cidade persa de mesmo nome, um importantíssimo sítio arqueológico) fez tanto sucesso que ganhou três seqüências. ‘Nestas graphic novels, eu não só conto 16 anos da minha vida, mas passagens que por muito tempo eu quis esquecer, que foram muito dolorosas. Por serem tão verdadeiras e ao mesmo tempo terem humor, acabaram tendo apelo universal. Isso me surpreendeu e me deixou também muito orgulhosa’, contou Marjane ao Estado, quando mostrou seu filme em Cannes.


Uma compilação dessa história chegou há pouco às livrarias do Brasil. Persépolis Completo (Cia. das Letras, 352 páginas, R$ 39,00) traz em um único volume os quatro livros que Marjane lançou na França.


É de se entender por que a visão de mundo tão particular da quadrinista tenha conquistado leitores em todos os continentes. Marjane, uma garota iraniana, desde seu nascimento em Teerã, no fim dos anos 60, viu seu pequeno mundo islâmico mudar completamente. Viu seu país sair das mãos dos conservadores xás para as mãos de um ditador, o aiatolá Khomeini. Viu ainda o declarado e ousado comunismo em família se tornar fonte de caçadas aos tios e ao pai. A garota cresceu em um país onde a maior contravenção era acelerar o carro em alta velocidade e expor os cabelos ao vento. Ouvir música americana, calçar All Star e promover festinhas particulares regadas a vinho (clandestino, claro, produzido em casa por seu pai) eram atos que podiam dar cadeia.


Para protegê-la de sua própria rebeldia, e por pensar demais, e em voz alta, seus pais a enviaram para o exterior. Em 1983, aos 14 anos, ela trocou Teerã pela fria Viena, onde completou os estudos elementares. Tempos depois, trocou a Áustria pela França e seguiu para Paris, onde foi estudar artes gráficas.


Finalmente seus pais progressistas, angustiados com a filha cerceada por um regime autoritário e machista, viram-se mais tranqüilos, mas não menos tristes, de não terem mais sua única filha por perto. ‘Na verdade, eles temiam por minha segurança. Eles e minha avó me criaram de uma forma esplêndida. Eu sempre tive liberdade para conhecer os lados da história e decidir por qual eu me identificava. Durante os anos de repressão, fazer uma mísera festa que fosse já era considerado um atentado à ordem e aos bons costumes. Beber ,então… Nem pensar’, conta Marjane. ‘Mas meus pais montaram uma verdadeira fábrica caseira de vinhos. Uma amiga pisava as uvas na banheira de casa, meu pai preparava a bebida, um outro amigo guardava as garrafas. Um dia, voltando de uma festa, a polícia nos parou e disse que meu pai havia bebido. Havia mesmo. Eles quiseram ir até em casa verificar se não tínhamos bebida estocada. Não só tínhamos como tínhamos muita. Eu e minha avó subimos antes para casa e jogamos todo o vinho na privada. Que tristeza! (risos)’, completa ela, com o bom humor e a ironia fina que sempre esbanja.


Mas foi exatamente essa atitude radical que deu à garota sua maior arma, o nanquim. Em Paris, em vez de se render ao regime ou de se tornar uma guerrilheira, Marjane fez do desenho a sua plataforma de combate a um regime que não aprovava. E começou a literalmente desenhar sua vida em quadrinhos. Em traços marcantes e sem frescura, retratou sua formação dividida entre o secular oriente e o eclético ocidente. ‘Para dizer a verdade, tudo aconteceu por acaso. Nunca fui maluca por gibis e afins. No Irã, nunca foi fácil ter acesso a quadrinhos. Claro que tive uma formação eclética e conheci de tudo um pouco, mas eu só me convenci de que queria fazer isso da vida quando já morava em Paris, nos anos 90. Optei por quadrinhos porque eu sempre amei desenhar. Foi no desenho que encontrei minha vocação. Aliás, essa também não é função muito atribuída a garotas em país nenhum.’


Marjane não planejou, mas esta foi a melhor ‘estratégia de ataque’ que ela poderia ter traçado. A quadrinista não só ganhou o exigente leitor de HQs, como colecionou prêmios pelo mundo. E mais. Ganhou a antipatia dos governantes do Irã atual, que têm feito campanhas e boicotes pelo mundo contra seu filme e suas HQs. Mas também ganhou a parceria de Vincent Paronnaud, que dirigiu com ela o único longa-metragem em animação concorrente à Palma de Ouro em Cannes, em maio. Não levou a Palma, mas foi aplaudida em cena aberta e levou um Prêmio Especial do júri. Hoje, ela vive em Paris. E aguarda ansiosa a nomeação dos cinco finalistas aos Oscar de melhor filme estrangeiro. Marjane não fez um filme francês. Muito menos iraniano. Fez cinema. De primeira. Feminino, mas não feminista. Colorido em suas idéias. Preto-e-branco em seus traços e sombras. Imperdível para todos os fãs de quadrinhos, animação, cinema e para quem ainda acredita que (bem ao gosto daquele cultuado filme alemão, Edukators) todo coração é uma célula revolucionária.’


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


TV faturou menos


‘A TV aberta se despediu de 2007 com uma sensação de alívio. O ano, que começou com mercado em baixa com relação ao mesmo período em 2006, retomou fôlego no segundo semestre e fez o faturamento da TV crescer entre 5% e 10% na média geral do setor.


Pouco? Não se levarmos em conta que a TV aberta encerrou o primeiro semestre de 2007 com queda de faturamento (-5%). A TV aberta faturou R$ 4,88 bilhões na primeira metade de 2007, ante R$ 5,14 bilhões no mesmo período de 2006.


O desempenho negativo foi atribuído ao fato de 2006 ter sido um ano de Copa do Mundo e eleições, fatores que realmente inflam mais o mercado de anunciantes.


No entanto, 2007 foi a vez de Jogos Pan-americanos do Rio, o que acabou dando uma forcinha no saldo final. Juntas, Record, Band e Globo faturaram cerca de R$ 620 milhões com anunciantes do evento, sendo, desses, R$ 400 milhões da Globo, R$ 120 milhões da Band e R$ 100 milhões da Record.


A TV paga, que não começou o ano tão mal como a aberta, conseguiu crescer cerca de 4% seu faturamento geral em 2007.’


 


PAPAI NOEL E A RAINHA
Verissimo


Querido Papai Noel


‘Recebi uma carta do Papai Noel! Nela ele agradece pela cartinha que lhe mandei em dezembro de 1942 pedindo uma bola de futebol e um revólver como o do Vingador, com espoletas, e se desculpa pela demora da resposta. Explica que como faz questão de responder pessoalmente a todas as cartas que recebe no Natal, e escreve à mão, sua correspondência naturalmente se acumula e só agora ele está chegando ao ano de 1942. A carta é simpática. Papai Noel comenta como é difícil acreditar que 65 anos passaram tão depressa e pergunta se recebi os presentes pedidos e se por acaso eles tiveram alguma influência na minha vida, se acabei sendo jogador de futebol ou caubói. E deseja um bom 2008, etc.


Pensei em responder ao Papai Noel, mas ele provavelmente só teria tempo de ler minha resposta lá pelo fim do século, quando eu possivelmente já estarei morto. Eu diria que fui as duas coisas, jogador de futebol e caubói, simultaneamente, e marquei muitos gols e matei muitos bandidos e índios, todos imaginários, mas por pouco tempo. Que continuei gostando de bola, mas abandonei o revólver, embora ainda me lembre com saudade do cheiro da espoleta detonada. Que de 1942 até agora fui muitas outras coisas, na maioria, imaginárias também. Perguntaria se ele recebeu minha última cartinha, escrita na adolescência, em que eu pedia de Natal a Jane Russel com seus peitos e/ou a paz mundial.


E concordaria com ele: 65 anos passam, mesmo, depressa demais.


THE QUEEN


Confesso que gosto da rainha Elizabeth, que na semana passada, se entendi bem, o que eu duvido, colocou um blog ou coisa parecida seu na internet. Ela parecia exercer seu reinado com placidez e um toque de tédio, de que gostaria mesmo estar com os seus cavalos, embora às vezes seja difícil saber se alguém está chateado ou apenas sendo inglês em público. Mas agora se sabe que o enfaro da rainha escondia um desejo secreto de modernização e relevância. O blog da rainha seria uma resposta às repetidas sugestões para que se aposente. Ela se renova para ficar. Ou talvez só esteja preocupada em poupar a nação do Charles, ou o Charles da nação.


Nas fotografias de Elizabeth quando moça, nota-se – se não for só uma tara minha – uma certa sensualidade no rosto, algo nos olhos que ela teve de domar para não fugir com um cavalariço, ficar e cumprir suas obrigações. Sobrou disso uma resignação irônica que se vê nos cantos da sua boca até hoje. O inglês Alan Bennett escreveu uma peça sobre Anthony Blunt, um aristocrático historiador de arte que era consultor do palácio e também, soube-se muitos anos depois, espião da União Soviética, em que a rainha aparece, de surpresa, numa cena. Elizabeth e Blunt têm uma conversa sobre a autenticidade na arte que também é uma conversa sobre a duplicidade nas pessoas e a crescente vulgarização da monarquia e suas riquezas, e em que ela diz: ‘Um monarca já foi definido como alguém que não precisa olhar antes de se sentar. Não mais. É preciso olhar, hoje em dia, pois há uma boa possibilidade da sua cadeira não estar ali, mas em exibição em outro lugar.’ A frase é de Bennett, mas é possível imaginá-la dita pela rainha, com o meio sorriso desencantado de quem um dia sonhou ser outra coisa, mas não teve escolha.’


 


************

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem