Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > JORNAL DO BRASIL

Vinho e feijoada no ‘pescoção’

Por José Sergio Rocha em 27/07/2010 na edição 600

Quem inventou o ‘pescoção’ não sei, mas lembro da noite de sexta-feira em que começou esse trabalho que avançava a madrugada. O Globo já havia lançado a edição de domingo e o Jornal do Brasil, no acerto que os dois diários mais importantes da cidade fizeram, passou a circular também às segundas-feiras. Uma marca desse período foi o lançamento do caderno de Esportes às segundas com a coluna de Carlos Eduardo Novaes dando palpites sobre a Loteria Esportiva, que também era coisa recente. Isso aconteceu no início dos anos 1970.

Não havia salário-ambiente que compensasse o desgaste de adiantar a edição dominical do JB logo após o fechamento do jornal de sábado. [Salário-ambiente é uma expressão inventada pelo pessoal do JB, onde não se trabalhava somente pelo dinheiro, mas também pelo clima legal daquela Redação. Claro que isso ficou no passado a partir dos anos 1990, quando o jornal foi arrendado.] A grita foi enorme, a frustração tomou conta do povo do JB, mas as piadas também não demoraram. Uma delas do Poli, contínuo da Editoria Internacional, cujo nome completo é Alcides Hipólito da Boa Morte.

Poli era um figuraço. Como o jornal, com raríssimas exceções, só tinha adversários da ditadura, divertia-se elogiando o general de plantão. ‘O Médici é um homem bom. Quer o bem do Brasil e de nós todos. Melhor do que ele só esse que vem aí, o Geisel. Dizem que é uma pessoa muito legal e educada’.

Quando soube do ‘pescoção’, mandou esta, com aquela voz rouca de malandro da Penha: ‘O doutor Brito só está querendo o bem de todos. Quer ver vocês com saúde. Acabou a história de biritar nas noites de sexta-feira. Assim vocês acabam doentes, vão morrer cedo. O homem é bão demais com a gente’.

Queijos e vinhos

Quem disse que a farra das sextas ia terminar assim, a seco?

O pessoal da Economia tomou a frente e espalhou por um mesão vinhos e queijos. Ideia do subeditor da Economia Luiz Larqué que a dupla de editores da Internacional, Renato Machado e Luiz Mário Gazzaneo, copiou de bate-pronto. Foi a primeira vez que vi um croissant na vida. Fazia confusão com o tal do escargot. Outro viralata, o redator Osvaldo Maneschy, quase foi demitido por levar duas bisnagas e 200 gramas de mortadela.

Os vinhos eram de excelente qualidade, coisas do chefe Renato, que em breve se tornaria autoridade no assunto. Os banquetes na Economia e na Internacional atraíam o povo de outras editorias, onde a ideia foi aperfeiçoada pelo pessoal que preferia os líquidos.

No Copidesque, Joaquim Campelo malocava na gaveta uma garrafinha de tiquira, aguardente do seu Maranhão natal.

Roberto Alvarenga preferia descer a intervalos regulares e, dentro de seu carro, no ‘Globo no Ar’ (o estacionamento do jornal tinha esse apelido), bebericava o Underberg velho de guerra.

Na Geral, Carlos Rangel punha um copo cheio sobre a mesa. Parecia Coca-Cola. E era. Misturada com cachaça. O popular ‘Samba em Berlim’.

Banquete

Certa noite de sexta, o banquete aconteceu depois de meia-noite, por iniciativa de duas queridas colegas – Maria Ignez Duque Estrada, que emprestou sua casa de vila no Jardim Botânico, e Benalva Vitório, que preparou uma feijoada com tempero africano.

A santista Benalva, grande figura trazida para o jornal pelo editor Juarez Bahia, era recém-casada com o Max, ex-guerrilheiro que virou comandante da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) – hoje próspero empresário em Portugal. A Bena incrementou a feijoada com ingredientes trazidos da África Oriental. Cerca de 50 pessoas deram as caras no Jardim Botânico. A feijoada foi servida por volta de 1h da manhã. Saímos para fazer o quilo no calçadão do Leblon ou de Ipanema e, lá pelas 4h, voltamos para mandar ver o segundo prato. Foi a melhor feijoada que comi até hoje.

Isso só acontecia no velho JB, que chegou ao fim. No programa Observatório da Imprensa, o Alberto Dines exibe trechos do documentário Avenida Brasil, 500, que Regina Zappa, Sérgio Resende e Rogério Reis estão fazendo sobre esse jornal de tantas histórias.

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