Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > QUARTA-FEIRA, 3/01

Wall Street Journal
modifica o seu formato

Por Luiz Antonio Magalhães em 03/01/2007 na edição 414


Leia abaixo os textos desta quarta-feira selecionados para a seção Entre Aspas


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Folha de S. Paulo


SADDAM EXECUTADO
João Pereira Coutinho


Santo Saddam


‘SADDAM era um anjo. O enfermeiro que cuidou dele até o fim contou a um jornal americano que Saddam gostava de regar as plantas da prisão, alimentar os pássaros com as sobras do almoço e escrever poesia nas horas, digamos, vagas. Eu já sabia que Saddam tinha gosto pela prosa. Li um romance, em tempos, que considerei superior aos últimos Saramagos. Mas desconhecia essa veia poética.


O único elemento que talvez, repito, talvez comprometa o processo de canonização em curso é o vício do homem por charutos. Segundo o enfermeiro, Saddam fumava por motivos de saúde. Para baixar a pressão. A pressão, estranhamente, baixava.


Não sei o que dirão as patrulhas anti-fumo desse vergonhoso hábito. Mas num mundo onde os fumantes habitam os terrenos da criminalidade, presumo que o charuto seja mesmo a única prova que justifica a forca.


Porque o resto é um hino à santidade. Basta recuar uns anos para entender como esse Saddam bucólico e final já cultivava as virtudes celestiais que tanto comoveram o enfermeiro e, a julgar pela mídia, o mundo em volta.


Em 1988, por exemplo, com a Guerra Irã-Iraque perdida, o futuro alimentador de pássaros já mostrava certo talento como alimentador de curdos. Não necessariamente com migalhas do almoço; mas com armamento químico, enviado diretamente dos céus. Morreram 5.000 pessoas. Velhos, mulheres, crianças. E 10 mil ficaram num estado que, creio, é incompatível com metáforas poéticas.


Não foram casos únicos. Com espantoso humanismo, Saddam também tinha por hábito premiar conspiradores, reais ou imaginários, com chacinas em massa. Um desporto que aprendeu com Stálin, seu herói e modelo. Em 1982, na aldeia xiita de Dujail, mandou torturar e matar 148 ‘conspiradores’, depois de uma tentativa de homicídio falhada contra a sua divina pessoa. E em 1990, ao invadir o Kuait por capricho, Saddam prenunciava igualmente o talento posterior para regar plantas: as descrições de civis regados com ácido fariam as delícias do enfermeiro e do coro internacional que transformou Saddam em santo.


Nada disso justifica a pena de morte?


Pessoalmente, a pena capital não faz o meu gênero. É bárbara. É inútil. Não acrescenta rigorosamente nada ao caos em que o Iraque vive, embora seja duvidoso que o possa agravar.


Mas convém não desiludir o sentimentalismo reles que se instalou pelo mundo com a execução de um dos mais brilhantes criminosos da história.


Para começar, lembro que o julgamento foi iraquiano, feito por iraquianos, testemunhado por iraquianos exatamente como se pediu no momento da captura. Não foi perfeito? Fato. Mas talvez tenha sido mais perfeito do que o tipo de justiça que Saddam ministrava às suas vítimas. E um pouco mais elevado do que a selvajaria penal islâmica que reina em toda a região e que não parece comover o auditório casto.


E, para acabar, recordo que não existe santidade sem martírio. Lendo e escutando a simpatia dedicada a Saddam, mas não obviamente às vítimas de Saddam, desconfio que o novo mártir era tudo aquilo que o Ocidente precisava para continuar a se odiar com paixão e zelo.’


 


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Berenice Bento


A cerveja e o assassinato do feminino


‘HÁ MUITAS formas de se assassinar uma mulher: revólveres, facas, espancamentos, cárcere privado, torturas contínuas. Mesmo com um ativismo feminista que tem pautado a violência contra as mulheres como uma das piores mazelas nacionais, a estrutura hierarquizada das relações entre os gêneros resiste, revelando-nos que há múltiplas fontes que alimentam o ódio ao feminino.


Como não ficar estarrecida com a reiterada violência contra as mulheres nos comerciais de cerveja? Com raras exceções, a estrutura dos comerciais não muda: a mulher quase desnuda, a cerveja gelada e o homem ávido de sede. As campanhas são direcionadas para o homem, aquele que pode comprar.


Alguns exemplos: uma mulher faz uma pequena dissertação sobre a cerveja para uma audiência masculina, incrédula de sua inteligência. Logo o mal-entendido se desfaz: claro, uma mulher não poderia saber tantas coisas se tivesse como mentor um homem; a mulher é engarrafada, transformada em cerveja; um mestre obsceno infantiliza e comete assédio moral contra uma discípula; ela é a BOA. Quem? O quê? A mulher ou a cerveja?


Todos os comerciais são de cervejas diferentes e estão sendo exibidas simultaneamente. Nesses comerciais não há metáforas. A mulher não é ‘como se fosse a cerveja’: é a cerveja. Está ali para ser consumida silenciosamente, passivamente, sem esboçar reação, pelo homem. Tão dispensável que pode, inclusive, ser substituída por uma boneca sirigaita de plástico, para o júbilo de jovens rapazes que estão ansiosos pela aventura do verão.


Se já criminalizamos alguns discursos porque são violentos, não é possível continuarmos passivamente consumindo discursos misóginos a cada dia, como se o mundo da televisão não estivesse ligado ao mundo real, como se as violências ali transmitidas tivessem fim no click do controle remoto.


Embora a matéria-prima para elaboração desses comerciais esteja nas próprias relações sociais, nas performances ali apresentadas há uma potencialização da violência. Não há uma disjunção radical entre violência simbólica e física. Há processos de retroalimentação.


A força da lei já determinou que os insultos racistas conferem ao emissor a qualidade de racista. Também caminhamos para a criminalização da homofobia em suas múltiplas manifestações, inclusive dos insultos. Por que, então, devemos continuar repetidas vezes ao longo do dia a escutar ‘piadas’ misóginas, alimentando a crença na superioridade masculina sem uma punição aos agressores?


Sabemos da força da palavra para produzir o que nomeia, sabemos que uma piada homofóbica, racista, está amarrada a um conjunto de permissões sociais e culturais que autoriza o piadista a transformar o outro em motivo de seu riso. Agora, é incalculável o estrago que imagens reiteradas de mulheres quase desnudas, que não falam uma frase inteligente, que estão ali para servir a sede masculina, invisibilizadas em duas tragadas, provocam na luta pelo fim da violência contra as mulheres.


Da mesma forma que o ‘piadista’ racista e/ou homofóbico acha que tudo não passa de ‘brincadeira’, o marqueteiro misógino supõe que sua ‘obra-prima’ apenas retrata uma verdade aceita por todos, inclusive por mulheres: elas existem para servir aos homens. E como é uma verdade aceita por todos, por que não brincar com ela? Ou seja, nessa lógica, ele não estaria fazendo nada mais do que reafirmar algo posto. Será? Não é possível que defendam aquela sucessão de imagens violentas como ‘brincadeiras’.


Essa ingenuidade não cabe a alguém que sabe a força da imagem para criar desejos.


O que pensam os formuladores dos comerciais? Que tipo de mulheres habita seus imaginários? Por que há essa obsessão pelos corpos femininos? Será que eles ainda pensam que as mulheres não consomem cerveja?


Não se trata de negar a mulher-consumível, coisificada, pela mulher consumidora, mas de apontar os limites de uma estrutura de comercial que peca inclusive em termos mercadológicos.


Tal qual o assassino que matou sua esposa acreditando que sua masculinidade está ligada necessariamente à subordinação feminina, a cada gole de mulher, o homem sente-se, como em um ritual, mais homem. Conforme ele a engole, ela desaparece de cena para surgir a imagem de um homem satisfeito, feliz; afinal, matou sua sede. É um massacre simbólico ao feminino. É uma violência que alimenta e se alimenta da violência presente no cotidiano contra as mulheres.


BERENICE BENTO é doutora em sociologia, pesquisadora associada do Departamento de Sociologia da UnB e autora do livro ‘A Reinvenção do Corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual’.’


 


MEMÓRIA ROBERTO SANTINI
Folha de S. Paulo


Diretor-presidente do grupo A Tribuna morre em Santos


‘O diretor-presidente do Sistema A Tribuna de Comunicação, Roberto Mário Santini, 78, morreu na madrugada de ontem, em Santos, em decorrência de septicemia e broncopneumonia.


O corpo foi velado durante a manhã de ontem na capela da Santa Casa de Misericórdia e seguiu em carro do Corpo de Bombeiros até o cemitério do Paquetá, onde foi enterrado. O prefeito João Paulo Tavares Papa (PMDB) decretou luto de três dias.


Durante o trajeto, o cortejo parou por alguns instantes em frente ao prédio do jornal ‘A Tribuna’, que circula há 112 anos. Funcionários jogaram pétalas e papéis picados.


O grupo é formado também pelo tablóide ‘Expresso Popular’, pelo jornal ‘Primeiramão’ de Santos, pela rádio Tribuna FM, pelo portal A Tribuna Digital, pela TV Tribuna e pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna.’


 


APPLE
Folha de S. Paulo


Caso Apple tem dois suspeitos, afirma jornal


‘Novos detalhes sobre as investigações de irregularidades envolvendo opções de ações da Apple trazem à baila dois ex-executivos da companhia.


Fred Anderson, antigo diretor financeiro, e Nancy Heinen, ex-secretário do Conselho, são considerados suspeitos, segundo a investigação interna sobre caso da manipulação que antedatava as opções da empresa, disse o ‘Wall Street Journal’. A Apple ainda não se manifestou sobre o assunto.


Os advogados dos executivos negaram o envolvimento deles. Na semana passada, a empresa isentou Steve Jobs, seu presidente-executivo, de responsabilidade no caso.’


 


TELEVISÃO
Laura Mattos


Ano começa mal na TV, com o ‘novo’ Ratinho


‘O ano de 2007 começou com uma péssima notícia para a televisão brasileira: o SBT, que prometia voltar a investir em jornalismo ‘de qualidade’, colocou no ar em pleno dia 1º de janeiro o trash ‘Jornal da Massa’, apresentado por Ratinho.


O programa pseudojornalístico é recheado por ‘reportagens’ sensacionalistas, bizarrices, gritaria e comentários infelizes do ‘âncora’. A ordem é evitar o apelido e chamá-lo no ar apenas de Carlos Massa. É uma estratégia para tentar dar credibilidade ao programa e atrair anunciantes -o que Ratinho jamais conseguiu.


No Ibope, o ‘Jornal da Massa’ conseguiu recuperar para o SBT a vice-liderança, que há dois meses estava nas mãos do ‘Pica-pau’, da Record. Ratinho obteve média de 6,5 pontos, contra 5,4 do desenho animado (dados prévios da Grande SP).


O ‘Jornal da Massa’ teve ‘casal morto no motel’, ‘bezerra que nasceu com a palavra paz nos pêlos’ etc. Ratinho condenou aos berros a dona de uma casa onde uma explosão matou duas crianças. Para ele, lá eram fabricados fogos de artifício, e ela ‘é pobre, mas não inocente, é irresponsável’. Após imagens de incêndio em um asilo, criticou quem deixa os pais nesses locais. Falou da ‘tristeza’ do Natal nos asilos, e sobrou até para o ‘bom velhinho’. ‘Não gosto de Papai Noel’.


Ratinho se confundiu várias vezes no ar e deixou claro que o ‘Jornal da Massa’ é mais um programa do SBT feito às pressas, fruto das decisões repentinas de Silvio Santos.


Luiz Gonzaga Mineiro, diretor de jornalismo contratado em 2005 para reimplantar o jornalismo ‘sério’ no SBT, é o responsável pelo ‘Jornal da Massa’. Ontem, à Folha ele admitiu que não se trata de um telejornal, mas de ‘programa com nome de jornal’. Sobre o projeto de ‘jornalismo de qualidade’, afirmou que Ratinho ‘não contamina em nada o ‘SBT Brasil’ e ‘Jornal do SBT’. Disse que o ‘Jornal da Massa’ ‘não usa nada do jornalismo, nem equipamentos, nem profissionais’. Desde 2005, Silvio Santos investiu na contratação das grifes de Ana Paula Padrão e Carlos Nascimento, mas não obteve a audiência esperada.’


 


INTERNET
Folha de S. Paulo


Sites que imitam programas do PC inovam para atrair mais visitantes


‘Muita gente nem sequer ouviu falar do termo web 2.0, mesmo que boa parte das suas atividades on-line sejam feitas em sites criados na esteira do conceito de uma internet nova e melhorada. Neste ano, a técnica de fazer páginas da rede se comportarem como programas do PC será tendência forte.


Oferecer serviços para publicar conteúdo multimídia é prioridade para os portais. O Google, com o YouTube, e a rede social MySpace começam este ano como as duas opções mais populares para quem procura por vídeo e por música na rede, mas enfrentarão rivais duros. A concorrência vem de todos os lados. De empresas multibilionárias, como a Microsoft, que aposta no portal de vídeos MSN SoapBox (soapbox.msn.com), a iniciativas de código aberto, como o soft baseado em BitTorrent Zudeo (www.zudeo.com).


Ferramentas


Novidades valerão ouro neste ano. Google, Microsoft e Yahoo! estão dispostas a investir dólares em penca em portais de serviços que possam virar hit. E não faltam candidatos ao estrelato. Sites independentes como o Zoho.com, o Zimbra.com e o ThinkFree.com representam algumas das páginas que fazem o papel de editor textos, soft de planilha e organizador pessoal. Outro candidato aos holofotes é o MyBlog- Log (www.mybloglog.com), que transforma a internet em uma grande rede social, mostrando quais dos seus amigos visitam um determinado site.


Para entusiasmar ainda mais os fãs da web 2.0, a Adobe, dona do Flash e do PDF, dois dos formatos mais usados pelos internautas do mundo todo, prepara um conjunto de padrões que permitiria a qualquer página da rede ser visualizada de maneira igual por qualquer tipo de sistema operacional e de aparelho. Chamada Apollo (labs.adobe.com/wiki/index.php/apollo), a tecnologia permitirá a criação de programas completos, como tocadores de MP3, que seriam acessados diretamente da internet.


Busca


Mostrar milhares de links de páginas aglomerados já não é o suficiente para fazer os usuários encontrarem as informações que desejam.


Percebendo isso, os portais de pesquisa preparam-se para estrear o conceito de busca vertical, que mostra resultados organizados por critérios como tipo de mídia, significado das palavras e data de publicação. Dessa forma, resultados mostram blogs, imagens e arquivos de áudio separados por categorias. Sites como o SearchMash (www.searchmash.com) e o Clusty (www.clusty.com) já servem como exemplo das novidades que estão por vir.’


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O Estado de S. Paulo


WSJ NA WEB
Nalu Fernandes


‘Wall Street Journal’ estréia novo formato


‘O The Wall Street Journal começou o ano de cara nova. Desde ontem, uma das publicações mais respeitadas do mundo na área de economia e finanças circula em um formato menor e ‘mais magro’. A mudança, segundo a empresa, privilegia o conteúdo analítico, estimulando leitura combinada entre o material da versão na internet, para acompanhamento factual, e do jornal impresso, para aprofundamento, análises e perspectivas.


No entanto, no dia em que o jornal passou a circular de cara nova, após cerca de um ano de pesquisa para implementar as mudanças, grande parte das pessoas que trabalham em Wall Street não estava em suas mesas, em razão do luto pelo falecimento do ex-presidente americano Gerald Ford. A Bolsa de Nova York e a Nasdaq não abriram ontem e o mercado de títulos e de dívida de emergentes encerrou os trabalhos mais cedo.


A redução no tamanho do Wall Street Journal o coloca em linha com outros grandes periódicos americanos, incluindo o Los Angeles Times, The Washington Post e USA Today, e irá promover uma economia de US$ 18 milhões em papel. ‘Uma vez que estamos em tamanho padrão, nós também imprimiremos em mais localidades, fazendo com que o jornal chegue mais cedo aos leitores’, diz a direção do jornal.


Com a mudança, observa o diretor do jornal, Gordon Crovitz, os leitores vão receber análise, contexto e perspectiva que ‘ajudem a esclarecer o que as notícias significam ‘. Uma carta eletrônica enviada aos assinantes observou que, junto com o novo formato, ‘haverá foco maior na interpretação e idéias’.


Entre as novas características, há uma agenda diária que alerta o leitor sobre ‘o significado das notícias que eles verão ao longo do dia, e uma seção com avaliação de fontes diferentes além do próprio Jornal’.


O WSJ acrescenta que os textos de opinião ‘permanecem como um domínio exclusivo das páginas do editorial’, mas reitera que a seção ‘Dinheiro e Investimento’ terá foco analítico, sendo que a de estatística, que cobre 1,5 mil papéis do mercado acionário, receberá maior espaço para interpretação financeira dos dados.


Como parte da campanha de lançamento, o jornal distribuiu 500 mil cópias impressas de graça e abriu o acesso da sua versão online durante todo o dia de ontem.’


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