Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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ENTREVISTA > Grupo Globo

Empresário, jornalista, político: a trajetória de Roberto Marinho

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 25/06/2019 na edição 1043

(Foto: Divulgação)

Dono de dois prêmios Esso e cinco Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, o jornalista Leonencio Nossa mergulhou em acervos e realizou mais de 100 entrevistas ao longo de seis anos para escrever Roberto Marinho: O poder está no ar, primeira parte da biografia de um dos homens mais poderosos da história dos meios de comunicação no Brasil. Da infância na Zona Norte carioca ao lançamento do Jornal Nacional, em 1969, o livro fala sobre as relações familiares, as ligações do empresário com governos – de Vargas à ditadura militar – e o começo da construção do império que se transformaria no Grupo Globo.

Por email, Leonencio Nossa concedeu uma entrevista ao editor Pedro Varoni, do Observatório da Imprensa:

O primeiro volume de sua biografia cobre grande parte do século XX a partir da trajetória de Roberto Marinho. O que esse recorte temporal revela sobre o jornalismo brasileiro?

Essa fase da história mostra que o jornalismo teve mais êxito quando apostou na busca da pluralidade, pelo menos a longo prazo. É estranho falar isso num tempo de polarização e redes sociais, em que a melhor chance de acerto é falar para convertidos. A biografia mostra ainda que momentos de mudanças bruscas no negócio da imprensa são cíclicos. A estrutura atual do mercado jornalístico brasileiro começou a ser moldada nas décadas finais do século XIX, nas campanhas do abolicionismo e da República. É justamente no período da infância e juventude de Roberto Marinho, nas primeiras décadas do século seguinte, que o setor inicia sua consolidação. A essência do jornalismo altera pouco – a busca da compreensão do poder e das ruas e a tentativa de interação. Também permanece a dificuldade de empresas e profissionais sobreviverem num país sempre em transformação, com abalos econômicos e políticos. O financiamento da atividade continua um desafio tanto de empresas tradicionais quanto de novos grupos.

Há várias dimensões na trajetória do biografado: a empresarial, a política, a jornalística. Como Roberto Marinho conciliou esses vários papéis?

É difícil dizer se ele conseguiu conciliar essas várias facetas. Menos complicado é entender que viveu com intensidade quando assumia cada uma delas. Roberto Marinho construiu seu grupo empresarial, tendo por alicerce o jornalismo, entre extremos e na eterna instabilidade. A notícia era sua chave. Não por acaso, ele se apresentava como jornalista. Essa condição era seu diferencial nos jogos que travava nos meios políticos e empresariais. É possível enxergar contradições em seus atos e atitudes, mas também tentativas de sobreviver a momentos de repressão e autoritarismo, quando atuava na interlocução, por exemplo, entre a classe jornalística e o governo, ou mesmo com os donos de empresas, e na expansão de sua empresa.

Seu trabalho sucede outra biografia sobre Roberto Marinho, escrita por Pedro Bial, em 2004. No trabalho de pesquisa, quais foram os principais fatos novos que ainda não tinham vindo a público?

Há uma diferença de quase quinze anos entre as publicações dos dois livros. O tempo abre novas frentes de pesquisa. O arquivo da CPI do Time-Life, que investigou a Globo nos anos 1960, por exemplo, só foi aberto pela Câmara em 2012. Essa é uma parte importante da história do empresário. Tentei avançar nas relações da imprensa com os bancos, que são pouco estudadas. Também busquei compreender a relação de jornais e revistas com o Estado Novo. A bibliografia sobre Getúlio Vargas e sua ditadura costuma ignorar, de certa forma, personagens fundamentais para entender o período, como banqueiros ou homens que operaram nas negociações entre governo e setor privado.

Na biografia, você detalha o trabalho dos lobistas nos negócios do jornal O Globo – Herbert Moses, Lulu Aranha e Augusto Frederico Schmidt. Esse aspecto é fundamental para a expansão política e econômica do grupo?

A figura do grande conselheiro,que tem certa familiaridade com a imagem do lobista dos nossos dias, começa a atuar de forma mais decisiva em defesa de empresas de comunicação a partir do golpe de 1930. Nos momentos de autoritarismo, em especial, essa figura se tornou bastante procurada, não apenas na busca por financiamentos, mas por ser uma espécie de farol diante de turbulências – isso que a afasta em alguma medida dos lobistas da atualidade. Eram homens muito preparados, com amplo conhecimento de filosofia, ciência política e literatura.

Seu livro retrata também a participação de Roberto Marinho no DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – da era Vargas, organização que tinha o poder de censura. Qual foi o contexto e a participação de Marinho nesse processo?

Ele participa do Conselho Nacional de Imprensa, um órgão consultivo criado no âmbito do DIP. Roberto Marinho entra para o conselho como representante dos empresários. A nomeação foi costurada por Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Era tempo difícil. Talvez em nenhum outro momento repressivo o Estado tenha asfixiado tanto o jornalismo, seja por meio da censura explícita, seja por meio das cotas de importação de papel.

O surgimento da TV Globo se dá no contexto da implantação da ditadura militar no Brasil e de acordos internacionais como o com o grupo Time-Life. Qual o papel de Roberto Marinho nesse processo?

A ditadura militar aproveitou a estrutura e a legislação na área das telecomunicações semeadas no curto período democrático de 1945 a 1964. O Código Brasileiro de Telecomunicações e a Embratel foram aprovados no governo João Goulart. Empresas estrangeiras de telefonia que apoiaram o golpe contra o presidente acabaram tendo seus interesses frustrados a partir do momento em que a ditadura decide manter o modelo estatal. Nesse momento, Marinho não é influente a ponto de dar as cartas nas grandes negociações. Ele conseguiu suas concessões de TV nos governos Juscelino Kubitschek e Goulart. No caso do acordo dele com o Time-Life, uma CPI formada pela Arena governista, em pleno mandato de Castello Branco, considerou a parceria ilegal – foi um bom negócio para Marinho, que, assim, se viu livre dos americanos.

O período que você retrata não deixa de ser uma época de desenvolvimento da atividade jornalística como negócio, relevância política e cultural. Há algo que o passado ensina ao presente quando se pensa no campo do jornalismo?

É uma narrativa sobre gerações de repórteres. Vale observar que A Noite, primeiro jornal dos Marinho, surgiu como um coletivo de jornalistas, para usar um termo dos nossos dias. Irineu Marinho reuniu um grupo de amigos e criou seu jornal. O filho, Roberto, levou sempre em conta atender a demandas que outros veículos não atendiam, como fazer um noticiário para a Zona Norte e os subúrbios do Rio. Na tentativa de atrair leitores, ele e o pai procuraram ainda usar o máximo de recursos estilísticos e editoriais de um vespertino, um jornal que não era tão engessado como os matutinos. Era mais leve, simples e dinâmico, voltado a uma classe disposta a uma leitura rápida e menos rebuscada. Em momentos de crise, como a insurreição comunista de 1935 ou o levante integralista de 1938, Roberto chegou a rodar oito edições do jornal por dia, algo interessante quando se discute hoje a atualização da cobertura dos sites de notícias na internet.

 

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