Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTREVISTA > Cinema Brasileiro

Juliana Rojas fala do seu lobisomen

Por Rui Martins em 08/08/2017 na edição 953

As “Boas Maneiras”, filme brasileiro na competição ficou aquém das expectativas e colocou o tema da integração das imagens do fantástico ou sobrenatural num filme, um desafio nem sempre bem sucedido.

Aqui nesta 70ª edição do Festival Internacional de Locarno, enfrentaram o mesmo problema a realizadora Noémi Lvovsky, cujo filme Amanhã e todos os outros dias, se serve de uma coruja falante para mostrar como Mathilde, um menina de nove anos, compensa com sua imaginação o problema de viver só com a mãe com graves problemas psíquicos.

O recurso à coruja de voz masculina comprometeu o filme, pois a ave, mesmo fazendo belos vôos não deixou de ser um corpo estranho no contexto das imagens, mesmo sendo algo real e não uma coruja empalhada.

O mesmo ocorreu, no filme de Serge Bozon, Madame Hyde, onde a atriz Isabelle Hupert, por questões científicas ligadas à eletricidade, se torna incandescente e provoca a carbonização de que a toca.

O cinema americano e inglês, principalmente Disney, costumam nos oferecer, com frequência filmes fantásticos ou sobrenaturais, alguns conseguindo se tornar verossímeis. A lista seria longa mas temos A Bela e a Fera, o monstro da série Alien, Mary Poppins, para citar só alguns bem marcantes.

Ao contrário da coruja, real, o lobisomem do filme As Boas Maneiras é um ser mutante imaginário que toma forma e imagem, colocando não só o problema da integração da imagem como o da aceitação da imagem, que pode não conseguir se impor e se tornar kitsch. Isso teria acontecido com o filme brasileiro na competição, de certa forma comprometido, mas com a possibilidade de ver sua atriz principal Isabel Zuaas ganhar o prêmio de melhor atriz, o que será uma ótima compensação.

Transcrevo agora, a visão do filme da sua coautora, a cineasta Juliana Rojas, da qual compartilham também alguns críticos, mesmo porque não sou o dono da verdade.

Entrevista com Juliana Rojas, co-realizadora do filme brasileiro Boas Maneiras, na competição internacional do Festival de Cinema de Locarno.

Rui Martins – Vamos começar pela visão geral do filme.

Juliana Rojas – As Boas Maneiras é um fábula moderna que se passa na cidade de São Paulo e conta a história da Clara, que é uma jovem enfermeira da periferia de São Paulo, contratada para ser a cuidadora da Ana, que está grávida, durante a gravidez e quando ela nascer será a babá dessa criança. Passa a morar com a Ana para cuidar dela e nessa convivência, ao mesmo tempo que percebe um comportamento estranho na Ana, se aproxima dela e as duas mulheres desenvolvem um relacionamento. E numa noite de lua cheia o destino delas muda.

Antes de falarmos do filme, vamos lembrar sua participação na semana Um Certo Olhar, em Cannes, e sua formação em cinema.

J.R. – Cursei cinema na ECA USP, em São Paulo, e foi lá que conheci o Marco Dutra que é meu parceiro que escreveu e dirigiu tanto As Boas Maneiras como Trabalhar Cansa. Mudei para São Paulo, cidade que acho muito interessante, onde dá para se fazer diversos tipos de histórias porque é uma cidade com muitos imigrantes e há muitos migrantes do nordeste que vão para lá procurar trabalho. Uma cidade desenvolvida mas também com muita pobreza, muita desigualdade social. Um lugar muito rico narrativamente.

Já tínhamos ido a Cannes duas vezes antes com curtas-metragens. Fomos com o primeiro-curta que se chama Lençol Branco e depois fomos com O Ramo, que ganhou o melhor prêmio na Semana da Crítica. A seguir, estivemos com o Trabalhar Cansa que foi uma experiência muito importante para a gente, lançando o filme no Festival de Cannes, uma vitrine para todo mundo, onde estão os curadores festivais que te convidam e se pode vender o filme para outros países. O tipo de repercussão é muito importante e foi uma experiência muito intensa.

Voltando ao filme, que você definiu como uma fábula, tratando da questão do realismo e do fantástico, campo onde vai se desenvolver o filme, como você poderia defini-lo exatamente?

J.R. – Desde os trabalhos iniciais que fiz com o Marco a gente sempre trabalhou com elementos de gênero com elementos de fantasia, de sobrenatural nas histórias mas num universo mais realista. O trabalhar Cansa é um filme que começa muito naturalista e aos poucos vai assumindo o código de gênero e ficando mais denso.

No caso das Boas Maneiras, a gente queria desde o início construir um universo fantástico, mas ao mesmo tempo, como é muito importante o referencial de São Paulo esse tipo de geografia que a gente tem na cidade, a gente quis confrontar isso, confrontar esse cenário com o aspecto de fantasia, como se a gente tivesse retratando uma São Paulo de fábula.  Então, acho, que para a agente ele está mais próximo da fantasia, mas transita entre gêneros, não só pois lida também o realismo e é musical, é um filme com números e momentos musicais. A música tem uma função narrativa na história. Ele também lida com o gênero do horror, você tem momentos de suspense e de horror mesmo, tem a ver também com a fábula do lobisomem, por isso é bastante híbrido, um cinema de fantasia que transita entre gêneros.

Como é que vocês chegaram à necessidade de criar uma figura do lobisomem e não ficar só na sugestão? Como administraram essa transição? Aqui em Locarno, há um filme com um coruja falante, uma mulher incandescente…

J.R. – Para nós era muito importante  mostrar e não ficar só no meramente sugerido, porque o filme fala também nas transgressões do corpo, humano para besta, e também fala sobre as transformações do corpo nas mulheres, principalmente na personagem da Ana, que é uma mulher grávida e como essa gravidez vai afetando ela. Então para a gente era muito importante mostrar e também pensar em como ríamos mostrar a criatura. Então na primeira parte da narrativa tem uma coisa misteriosa porque ainda não se sabe sobre esse bebê que vai nascer. Mas o momento em que ele nasce era importante que fosse explícito, que a gente não escondesse e se tivesse o prazer de ver, mesmo porque essa criatura cresce e passamos para o Joel (nome da criatura) já com sete anos e aí a gente humaniza ele, o que não é tão comum em filmes de lobisomem, geralmente o lobisomem é o antagonista não tem humanização e para a gente era importante entender o aspecto emocional dessa criança e ver seus conflitos para conseguir ver essa criatura não só como monstro. E para isso era importante mostrar.

Interessante, o lobisomem faz parte da cultura brasileira e aparece nas noites das sextas-feiras. Mas você fala em humanização que, pelo jeito só ocorre nos últimos minutos, quando a “mãe” consegue acalmá-lo…

J.R. – Para mim, desde o nascimento dele – mas isso depende da sensibilidade de cada um – só vê uma criatura frágil, apesar de todo estrago feito, tentando respirar e esse primeiro contato que o bebê tem com a Clara é um olhar que tem uma conexão humana. Então, desde o nascimento da criatura, a gente tentou construir isso, o que fez a Clara ficar com a criança e criar ela. E aí, na segunda parte, se sabe que ela se transforma e se vê que ele humaniza desde o nascimento e depois da transformação.

Fora isso, o filme tem cenas bonitas, como a relação entre Clara e Ana, que está na poesia. Como conseguiram fazer realidade essas imagens?

J.R. – A gente trabalhou muito próximo das atrizes em todo o processo, ensaiando as cenas, conversávamos  muito sobre cada cena, explicando o propósito de cada cena, fazendo improvisos para incorporar o que elas traziam para as cenas. Aí também nas cenas da relação entre elas, quisemos desenvolver com elas, fizemos ensaios para ver como seria o jeito orgânico de fazer essa cena e aí, a partir disso, se decidiu como seria filmada. Acho que aí também existe uma certa frontalidade de se mostrar essas cenas e ao longo delas mostrar parte do corpo, mas uma visão materialista que tem a ver com o filme, que é muito sobre o corpo físico. O conflito do lobisomem e a relação entre elas tem também a transgressão dos corpos, e no filme ficou a narrativa do corpo na cena. E pra quem vê parece que ficou tudo muito natural, graças à colaboração das atrizes de aceitarem como seria orgânico para o filme se desenvolver uma cena dessas.

Na entrevista com a crítica, o Marco levantou a questão de Mary Poppins e filme de Hollywood, como vocês situam o filme nisso?

J.R. – Os filmes da Disney, para mim e para o Marco têm uma influência na nossa formação como espectadores desde criança. Têm uma ligação afetiva porque fazem do universo lúdico, porque a gente cresceu vendo os filmes de Disney. Interessante porque são filmes que transitam muito entre gêneros, têm música que narra a história, momento que você sente medo, momentos de comédia, constroem um universo fantástico dentro da história. Na parte musical, há também influência do Brecht e Kurt Weill, nas peças dele, que usam a música como parte integrante da narrativa.

Mesmo sabendo que uma assimilação com Disney possa ser negativa?

J.R. – Acredito que é uma coisa que está mudando, até porque neste festival há uma homenagem a Jacques Tourneur, que era um diretor de filmes B, na época deles, e agora está passando em Locarno, um festival que celebra filmes artísticos. Hoje em dia se reconhece fatores artísticos nos filmes dele que, na época, não eram reconhecidos. E acho que existe um preconceito da crítica, que tem se transformado nos últimos anos, com relação a filmes de gênero, horror, e também o tipo de filme fábula porque pode parecer algo muito pueril ou infantil e aí não se qualifica como cinema. Eu acho muito interessante o universo das fábulas porque lida com o inconsciente de maneira profunda. Se houver alguma rejeição por causa disso, acho um tanto tolo porque é uma preconceito com esse gênero.

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Rui Martins é jornalista.

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