Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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EQUIDADE RACIAL > Demanda no jornalismo

“Angu de grilo” e locus social: do podcast familiar à bancada do JN

Por Pedro Varoni em 07/01/2020 na edição 1069

(Foto: Reprodução)

A jornalista carioca Flávia Oliveira, comentarista de economia do programa Estúdio i, da GloboNews, da rádio CBN e colunista do jornal O Globo, teve duas indicações ao prêmio Ubuntu de cultura, que será entregue no próximo dia 29 de janeiro no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Flávia foi também apresentadora da temporada 2019 do programa Entrevista, do Canal Futura, e é membro dos conselhos consultivos da Anistia Internacional Brasil, da ONG Uma Gota no Oceano, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), do Observatório de Favelas, da Agência Lupa e do Projeto Aliança. Integra a comissão de matriz africana do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A premiação é idealizada por Paula Dias, diretora da ONG Afrotribo, que busca a valorização e destaques de agentes culturais no estado, considerando a visibilidade da cultura afro-brasileira. O prêmio é distribuído nas categorias dança, teatro, música, religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa e protagonismo juvenil. Em sua página no Facebook, os organizadores informam que as indicações de nomes são feitas por grupos culturais e entidades ligadas ao movimento artístico e negro, por meio da equipe de articulação do projeto.

Flávia Oliveira foi escolhida na categoria representatividade e também pelo melhor podcast, Angu de grilo, que apresenta junto com a filha, Isabela Reis. O título é inspirado numa expressão muito usada pela mãe de Flávia e seu sentido é a mistura e, no caso do podcast, a aposta na variedade de assuntos. O tom informal e o diálogo entre mãe e filha procuram ir além dos temas da especialidade de Flávia, como economia, análise de dados de indicadores sociais e o racismo na sociedade brasileira. O ambiente caseiro e a homenagem aos ancestrais fazem do Angu de grilo um espaço de afirmação de laços comunitários e familiares e empoderamento feminino e racial.

Há uma linha intergeracional que une avó, mãe e filha e permite identificar, a partir da família Oliveira, a matriz de uma brasilidade popular e refinada. Da matriarca, o sabor de expressões de uma língua não burocratizada, em falta em tempos de profusão de clichês. Da mãe, a trajetória de uma profissional que conquistou sua credibilidade e hoje atua como contraponto nos ambientes profissionais onde transita. Seus comentários sobre economia fogem da adesão fácil às políticas econômicas do atual governo – tom que predomina entre outros comentaristas da GloboNews e da CNN – e sempre estão fundamentados em interpretação de dados. Flávia foge da opinião fácil e dogmática e sempre nos convida a pensar. Da filha, a força de uma juventude conectada à história familiar e às lutas contemporâneas, como o feminismo e as questões raciais.

A existência desse espaço “caseiro” do Angu de grilo atravessa como uma alteridade o campo institucional da jornalista reconhecida. Como se fosse necessário buscar nas variadas possibilidades de expressão da sociedade midiatizada um espaço próprio, onde, mais do que o acesso ao microfone, pode-se ter a liberdade de escolher a pauta. No ensaio “Letra Preta”, publicado na revista piauí, em outubro passado, Yasmin Santos conta que convidou Flávia para a banca de sua monografia de conclusão de curso que tratava da equidade racial no jornalismo brasileiro. “Em alguns dos seus comentários, Oliveira destacou que até pouco tempo ela era a única colunista negra no jornal O Globo. Por mais que quisesse escrever sobre sapatos, moda ou qualquer outro assunto que pudesse lhe interessar, ela se sentia cobrada a comentar os constantes casos de racismo que continuavam a estampar as páginas da imprensa. Essa limitação é também um tipo de silenciamento”. No primeiro episódio de Angu de grilo, em agosto, Flávia, ao comentar as pautas a serem desenvolvidas no podcast, mencionou a necessidade de espaços para falar de qualquer assunto que for do interesse dela e de Isabela, fugindo da obrigatoriedade de direcionamentos temáticos.

Em sua coluna no jornal O Globo de 2 de janeiro, “Cidade pega a visão”, Flávia dá a dimensão da diferença de pontos de vista quando se considera a necessidade de dar voz aos favelados. “Quando pensam em favela, habitantes do asfalto mencionam violência, tráfico, assalto; favelados imaginam família, alegria, amizade, felicidade. De um lado, o ambiente reduzido à violência; de outro, as experiências de laços afetivos e comunitários”, escreve. É possível perceber os traços do silenciamento apontado por Yasmin, que se traduzem em estereótipos e estigmatização.

Nesse início de ano, quando se anunciou a premiação a Flávia de Oliveira, a Rede Globo também deu uma demonstração de ampliação de espaços para a equidade racial no jornalismo. No primeiro sábado do ano, o apresentador negro Márcio Bonfim dividiu a bancada com Ana Luiza Guimarães, do Rio de Janeiro, no Jornal Nacional. Em dezembro, ele ancorou também o último Fantástico de 2019 ao lado de Poliana Abritta, substituindo o titular Tadeu Schmidt.

Márcio Bonfim já está há vinte anos na profissão. Paulista com passagens por emissoras educativas afiliadas da Globo no interior de São Paulo e há dez anos apresentador em Recife, é formado em jornalismo com MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas e especialização em produção de TV e cinema pela New York Film Academy. Em sua página do Twitter, preferiu priorizar os laços afetivos e se apresenta como “pai da Sara e do Miguel, filho de dona Helena, marido da Mari, paulista de nascimento, mineiro por adoção, pernambucano de coração, jornalista e apresentador.”

Para além dos importantes aspectos simbólicos que representam prêmios e a bancada do JN ou do Fantástico, há uma demanda no jornalismo mainstream por incorporar novos pontos de vista nas narrativas. E essa conquista só se efetiva com a abertura de espaços nas pautas, abordagens, na diversidade de profissionais. Mais angu de grilo, como metáfora de línguas que ainda não conhecemos e atravessam os saberes populares. Esse é o Brasil que precisamos conectar.

***

Pedro Varoni é jornalista.

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