Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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ESPAçO DO ESTUDANTE > Liberdade de fala

‪O movimento contra-hegemônico nos podcasts‬

Por Luan Giacomini, Lucas Guimarães e Rafael Oliveira em 14/01/2020 na edição 1070

(Foto: Unsplash)

Mídia recente e em crescimento, o podcast cativa cada vez um público maior. Segundo pesquisa feita pela plataforma Deezer, em outubro de 2019, o consumo de podcasts subiu 67% em relação ao mesmo período do ano passado. Com formatos, linguagens e temas que diferem das produções da mídia hegemônica, em termos gramscianos, o podcast apresenta uma liberdade interessante. Essa mídia contra-hegemônica pode dar voz ao sujeito marginalizado, esquecido e periférico?

A mídia hegemônica e a contra-hegemônica, como colocou o filósofo italiano Antonio Gramsci, diferem nas ideias, no poder, no dinheiro e nas classes. A mídia hegemônica é onde há o monopólio da fala; são os grupos midiáticos controlados pela elite, que detém os meios de repressão, o poder, o dinheiro, e, com essa mídia, as narrativas comunicacionais. A mídia contra-hegemônica, por outro lado, peita, se rebela, é suja, é libertária. Consistem no dominante, com toda sua influência histórica na mídia hegemônica, e no dominado tentando construir algo na mídia contra-hegemônica.

Em um artigo para o Blog da Boitempo, Dênis de Moraes, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), pontua que ‬o “ecossistema virtual, descentralizado e interativo, torna possíveis práticas comunicacionais que questionam formas de dominação impostas pelas classes e instituições hegemônicas”. Essa esperança com o meio digital, revolucionando totalmente a comunicação, perde forças com o tempo. Contudo, o podcast, criado em 2004 mas popularizado nos últimos anos, apresenta um movimento do sujeito estigmatizado que salta aos olhos.

No livro Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, o sociólogo canadense Erving Goffman diz que ‬“há um conjunto de indivíduos dos quais o estigmatizado pode esperar algum apoio: aqueles que compartilham seu estigma e, em virtude disso, são definidos e se definem como seus iguais”. Assim sendo, o sujeito que agora subverte a lógica estrutural da comunicação hegemônica usando o meio digital pode atingir seus iguais e construir um discurso importante sobre sua estigmatização. E, no podcast, onde não há “patrões” que delimitem tempo ou tema, as pessoas e grupos historicamente oprimidos enxergam uma possibilidade de se expressar.

‪Nos podcasts, não há cerceamento de qualquer voz. A liberdade nessa mídia impulsiona diariamente uma pluralidade de formatos e temas. De maneira gratuita, qualquer pessoa pode começar seu podcast caminhando pelas possibilidades mais amplas. Na podosfera brasileira, termo usado popularmente para aferir o universo de podcasts existentes, são encontradas produções que transitam em diferentes formatos, que abordam os mais variados temas e que têm finalidades distintas.

Essa liberdade de se expressar nas produções do formato acontece do modo que não há uma censura ou um filtro. Os podcasts vão ao ar por uma programação, o feed RSS, que aceita todo e qualquer arquivo sonoro. Além disso, essa programação permite uma vasta quantidade de agregadores de podcasts, aplicativos que utilizam dessa programação livre e são tocadores para os consumidores. A descentralização nesse processo emissor-receptor diferencia o podcast do YouTube, por exemplo, pois os criadores de conteúdo em vídeo, mesmo tendo autonomia no seu trabalho, utilizam uma grande empresa como plataforma e precisam se sujeitar aos termos e normas desta.

O podcast, então, aparece como uma mídia legitimamente contra-hegemônica. Diferente do monopólio de fala da mídia tradicional, conservadora e higienista, o podcast possibilita que as vozes oprimidas sejam escutadas. Estas, silenciadas historicamente, podem não só falar, como, mais do que isso, falar sobre o que quiserem, com o potencial de seu discurso chegar a qualquer pessoa. Algo não imaginado na mídia hegemônica, na qual o poder do capital e da política, da classe dominante, cala vozes.

Qualquer pessoa com um celular pode consumir esse conteúdo, encaixando-o como quiser na sua rotina, e qualquer pessoa pode também produzir um discurso, falar e ser ouvido. Nesse contexto, existe um movimento importante de grupos marginalizados historicamente. Os oprimidos criando canais de comunicação para impactar seus iguais, mostrar suas visões não contempladas na mídia hegemônica e se rebelar. Podcasts como o Lado Black, feito por jovens negros; o Revolushow, por comunistas; o Lado B do Rio, por jovens do subúrbio do Rio de Janeiro; o Um Milkshake Chamado Wanda, feito por LGBTs; o Mulheres que escrevem Podcast, feito por mulheres sobre o empoderamento feminino; o Baião de Dois, por nordestinos, sobre futebol e cultura nordestina; o Teologia de Boteco, por um anarquista, e o Desobediência Sonora, por um coletivo anticapitalista, são exemplos de um movimento transgressor, libertário e de identificação na comunicação digital.

‪A esperança pode ser passageira, como em algum tempo foi com outros nichos do meio digital, contudo o movimento existente é real, orgânico e já é importante para muitos consumidores e produtores da mídia. Com toda sua liberdade, o podcast, que vive um processo vertiginoso de crescimento, aparece como uma mídia de potencialidades interessantes. A difusão de ideias contra-hegemônicas dos sujeitos ou coletivos estigmatizados consiste em um dos maiores entusiasmos na comunicação popular, progressista e transformadora, e este movimento está sendo bem feito numa mídia livre, descentralizada e de fácil acesso.

Veja os assuntos relacionados a podcasts que são tendência, segundo o Google Trends:

(Foto: Reprodução Google Trends)

E você, está fora desse movimento? Tem algum podcast que você escuta e com o qual se identifica?‬

***

Luan Giacomini, Lucas Guimarães e Rafael Oliveira são estudantes de jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei.

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