Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ESPAçO DO ESTUDANTE > Jornalismo de risco

“A gente não quer virar nome de prêmio”

Por Nicola Ferreira em 05/11/2019 na edição 1062

(Foto: Reprodução – Impunidad)

“Eles [jornalistas] deveriam se preparar para subir o morro”. É com essa afirmação que Bianca Vasconcellos, repórter da TV Brasil, em conversa com diversos alunos do curso “Repórter do futuro”, afirma que é necessário informar melhor os profissionais da comunicação sobre como se portar em territórios perigosos.

Para ela, enquanto não aprendermos a nos portar dentro dessas zonas vamos continuar a ser nome de prêmios (a jornalista deu exemplos como Vladimir Herzog e Tim Lopes, ambos mortos). Bianca acredita que o profissional tem que saber o que está fazendo para não entrar nas estatísticas.

Até o momento, dois jornalistas foram assassinados este ano no Brasil: Robson Giorno e Romário Barros, ambos de Maricá, no estado do Rio de Janeiro. Ainda não foi confirmada a razão de ambas as mortes. Jornalistas serem mortos não é algo incomum no cenário da América Latina, que, mesmo passando por um dos seus períodos mais longos de liberdade de expressão, ainda mantém a posição de continente que mais mata no mundo. Só no primeiro semestre do ano foram quinze mortos ao todo na região. Quem lidera esse ranking é o México, com nove mortos em seis meses.

Caso Tim Lopes

Um dos casos mencionados por Bianca foi o do jornalista Tim Lopes. Morto no dia 15 de junho de 2002, Tim era considerado por grande parte de seus colegas como um dos repórteres mais astutos e ousados. Além disso, o repórter da Rede Globo era conhecido por ser um dos poucos da redação a falar das comunidades, que naquela época eram mais negligenciadas do que já são atualmente. Lopes foi sequestrado por traficantes do morro da Vila Cruzeiro após cobrir uma denúncia de moradores da comunidade sobre prostituição infantil nos bailes funk. Enquanto gravava imagens de vários traficantes, Tim foi reconhecido por dois deles e, depois, pelo líder da facção – que havia sido preso por conta de uma matéria de Tim, no ano anterior, sobre o feirão das drogas. Tim Lopes foi torturado, esquartejado e depois teve seu corpo queimado dentro de vários pneus, no que é conhecido como micro-ondas.

Tim Lopes foi o nome do prêmio de jornalismo investigativo da Abraji em 2015. Hoje, detém o nome de Vladimir Herzog, jornalista assassinado durante a ditadura militar.

O papel do jornalista

“Dificuldade, temos todos os dias. Se não tiver, desconfie”. Bianca observa que ter complicações é natural para o jornalista, mas que ele precisa estar preparado para enfrentá-las. Uma das formas mais procuradas pelos profissionais para realizar esse preparo em questões de conflito é participar de cursos. Existem dois que são exemplos dentro do campo jornalístico. O primeiro, voltado exclusivamente para estudantes, é “Repórter do futuro: módulo de cobertura em conflitos armados”, oferecido pela Oboré em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. O outro é aberto para quem está na graduação e graduados na área. O “Estágio de jornalismo e assessoria de imprensa em áreas de conflito” (EJAIAC) é organizado pelo Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, braço do Exército nacional que atua junto à Organização das Nações Unidas em missões de paz pelo mundo.

***

Nicola Ferreira é aluno do 3º ano diurno de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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