Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ESTANTE DE LIVROS > ObjETHOS lança livro

Jornalismo,crítica e ética

Por Luiz Egypto em 01/03/2016 na edição 892

Nota da Redação:  O texto a seguir é a reprodução do prefácio do recém lançado livro Objethos capa livro“Jornalismo: Crítica e Ética”, uma coletânea de artigos organizada pelos professores Francisco José Castilhos Karam e Samuel Lima, para o site ObjETHOS, da Faculdade de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Catarina.

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O surgimento do site objETHOS – Observatório da Ética Jornalística, em 2009, deu-se no vórtice da mais profunda transformação por que passou o jornalismo desde o surgimento da imprensa periódica, lá se vão pouco mais de 400 anos, quando Johann Carolus fez circular o Relation aller Fürnemmen und gedenckwürdigen Historien em Estrasburgo, em 1605. objETHOS nasceu na Universidade Federal de Santa Catarina, um dos (poucos) centros brasileiros de excelência no ensino e na pesquisa em jornalismo, com o fim precípuo de produzir “estudos sobre condutas e valores no jornalismo, com ênfase nas reflexões sobre ética profissional e deontologia”. objETHOS nasceu para dirigir seu olhar crítico a uma mídia jornalística em rápida transformação.

Não foi pequeno o desafio assumido pelos responsáveis pelo site diante da barafunda que se estabeleceu, sobretudo a partir da virada do milênio, em um negócio, uma profissão e um ofício que, de início, não souberam, cada qual em seu quadrado, aquilatar a contento o impacto representando pela popularização da internet comercial e, depois, da banda larga; e, por via de consequência, foram engolidos pela revolução provocada pelos novos padrões de conectividade e interatividade e assistiram ao seu historicamente arraigado modelo entrar em crise – no caso da mídia impressa, uma crise com risco de colapso. O que era tradicionalmente estável e rentável súbito tornou-se incerto e sujeito a disrupções de todo tipo, em qualquer ponto da cadeia de valor. A internet, que em princípio foi entendida erroneamente como mais um meio de comunicação, rapidamente se converteu no que de fato é: um espaço social.

No tocante ao jornalismo, nos últimos vinte anos a sua prática, o seu contexto técnico-profissional e a relação com seus públicos viraram de pernas para ar. As empresas jornalísticas e seus veículos perderam a primazia da notícia, do hard news, e assistiram, atônitos, à emergência avassaladora do diálogo, no melhor dos casos, e de um turbilhão de impropérios e aleivosias, no pior, em lugar da confortável comunicação unidirecional. O que antes era história pronta, apurada e “fechada”, hoje é o ponto de partida para o surgimento de novas informações a serem agregadas ao fato gerador da notícia, vindas tanto de jornalistas profissionais quanto de amadores. Nesse novo ecossistema, o público – relativamente passivo, no antigo modelo – agora também é capaz de produzir conteúdo e distribuí-lo em escala planetária. Para isso dispõe, além das tecnologias digitais, de redes sociais e ferramentas de baixo custo que tomaram forma e musculatura no curtíssimo período histórico de três anos: o Facebook foi lançado no início de 2004, o YouTube um ano depois e o Twitter, em julho de 2006. Para inaugurar a era mobile, em 2007 chegou ao mercado o primeiro smartphone.

A subversão do modelo

Estavam dadas as condições para a subversão de um modelo de jornalismo que vinha sofrendo abalos ligeiros desde o aparecimento e disseminação da internet comercial e, no novo ambiente, experimentou um baque profundo em razão do espetacular deslocamento das placas tectônicas que até então davam sustentação à atividade. Os anunciantes, por exemplo, agora podem falar diretamente aos seus públicos de interesse. De outra parte, os antigos procedimentos de apuração e empacotamento de informações foram irremediavelmente impactados, as possibilidades de produção e distribuição aumentaram exponencialmente, e o resultado mais visível e sensível disso tudo foi emersão de uma avalancha de dados e notícias veiculadas por uma algaravia no mais das vezes desconexa de vozes. Mais que nunca é tarefa premente do jornalismo organizar os nexos dispersos, dar sentido ao caos e fazer valer a sua essência primal, qual seja o de ser reconhecido como uma disciplina de verificação (KOVACH e ROSENTIEL, 2003).

Malgrado toda a conturbação e a coleção de incertezas que os novos tempos suscitaram, a universidade – ou a sua fração mais antenada – foi capaz de antecipar-se às empresas jornalísticas na compreensão de que o enfrentamento de uma crise dessas dimensões exige, além de coragem, mais investimento em qualidade, mais preparação técnica e mais investigação. Mais jornalismo, em suma. Enquanto as empresas de mídia tendem a optar pelo caminho suicida do corte indiscriminado de custos, ceifando talentos e abrindo mão das evidentes vantagens competitivas embutidas em um longo processo de acumulação ampliada de experiências profissionais, os extratos acadêmicos comprometidos com a missão de servir à sociedade e ao bem público insistem em trabalhar em prol de um jornalismo mais compromissado com a cidadania, mais atilado e sedutor, mais útil à produção do conhecimento. Este é o cerne do ambiente em que objETHOS foi gestado.

Como trabalhar e refletir sobre as boas práticas, as condutas e valores do jornalismo no olho do redemoinho e com o devido distanciamento crítico? Em primeiro lugar, construindo o entendimento de que os padrões éticos requeridos por uma atividade de insofismável interesse público não são um objetivo a alcançar, mas uma função constante, necessariamente impregnada no dia a dia da atividade. Em segundo, buscando uma configuração da produção jornalística na qual os bits convivam com os átomos, ou seja, com base na força de trabalho de profissionais “anfíbios” capazes de incorporar a tecnologia como vantagem operacional e competitiva, sem descuidar dos fundamentos do ofício tal qual formulados ainda na era pré-digital. Isso requer a formação de redações “mestiças”, multiplataforma, para as quais o verdadeiro modelo de negócio são a tecnologia e o compromisso ético.

Por fim, organizando redações que mesclem nativos e migrantes digitais, ambos os grupos com plena consciência da dicotomia existente no âmbito de uma empresa jornalística a que o jargão cognominou “Igreja versus Estado”, todos imbuídos da necessidade de estabelecer limites claros e devidamente pactuados entre as áreas editorial e comercial, ao mesmo tempo mantendo azeitados os canais de comunicação e colaboração entre as duas instâncias. As redações em dia com seu tempo sabem que o seu produto final, a edição, é um valor a ser entregue a um público que demanda informação de qualidade, mesmo quando esta tratar de entretenimento puro em vez de puro jornalismo. São redações nas quais as relações entre chefias e liderados devem ser pautadas pelo respeito mútuo e pelo espírito de equipe, nos moldes preconizados por Cláudio Abramo:

“É preciso uma atitude muito ética dentro da redação: os chefes e os responsáveis pelo jornal têm de dar o exemplo ao pessoal mais novo, senão é o caos. Um chefe de redação que tolera hipocrisia e golpes baixos contra funcionários do jornal perde a ética e o direito de usar essa palavra.” (ABRAMO, 1988)

A utopia editorial

Esta utopia editorial não é algo irrealizável, mas apenas, em alguma medida, irrealizada. Para construí-la há que se manter íntegros os fundamentos clássicos do ofício (clareza, exatidão, objetividade possível, fidedignidade, compromisso com a verdade factual e com o interesse público) em concomitância com a certeza de que não se poderá gerir empresas de mídia do século 21 como padrões e rotinas profissionais do século 20. A esse respeito, considere-se a observação do professor Ramon Salaverría:

“Este é o centro da mudança que enfrenta o jornalismo na atualidade. Não se trata de uma simples necessidade de renovar os modelos de negócio, muito menos bastarão simples mudanças tecnológicas ou novos projetos gráficos. Tudo isso é pura cosmética. Trata-se de redefinir os modos de informar para continuar cumprindo uma função que a sociedade demanda. E nesta redefinição, os jornalistas também têm responsabilidade. (…) Nesse novo marco, os jornalistas precisam definir suas rotinas e fluxos de trabalho. Quando um veículo trata simultaneamente uma informação mais aprofundada e uma mais imediata e urgente, impõe-se organizar o trabalho editorial de uma maneira distinta: repensar os gêneros para cada tipo de informação, organizar equipes de modo eficiente, reconsiderar os filtros editoriais, buscar maneiras de aproveitar a interatividade com os leitores. (…) Vinte anos depois que as tecnologias impactaram fortemente a profissão jornalística, os cidadãos, longe de perderem o interesse pela informação dos meios, neles prestam mais atenção do que nunca. Consomem notícias por terra, mar e ar. E as redes digitais só têm aumentado as possibilidades de fazer jornalismo de qualidade: permitem documentar-se melhor, diversificar as fontes e os enfoques, melhorar os mecanismos de correção, publicar tanto em ciclos editoriais extensos como em simultâneos, enriquecer as informações com recursos hipertextuais e multimídia, enviar os conteúdos até [dispositivos n’]o bolso dos cidadãos… As tecnologias, enfim, não se mostram como um substituto dos jornalistas, mas como um formidável complemento. Nunca o jornalismo havia contado com semelhantes possibilidades para cumprir melhor a função social que lhe corresponde.” (SALAVERRÍA, 2012)

Se o papel como suporte para o jornalismo vai perdurar ou não – o mais provável é que perca protagonismo, mas é improvável que se extinga –, esta será uma falsa questão. O passivo ambiental gerado pela mídia impressa, somado aos custos de maquinário, instalações físicas e logística de distribuição é insustentável no longo prazo, mormente em uma sociedade em passo acelerado em direção à economia digital. Mas do jornalismo propriamente dito essa mesma sociedade não poderá abrir mão, quanto mais não seja pelo papel capital que a atividade desempenha na manutenção e aprimoramento da democracia. Vem daí a importância da crítica da mídia, como a exercida no objETHOS, consoante com a reflexão formulada pelo jornalista Alberto Dines, o decano do media criticism no Brasil:

“O jornalismo é um exercício crítico permanente ao qual todos devem ser submetidos, sobretudo o próprio jornalismo. Quando a imprensa se exclui do debate torna-se automaticamente suspeita. (…) A democracia é um processo dinâmico em que cada poder necessita de um contrapoder para equilibrá-lo. O único e legítimo contrapoder ao poder da imprensa é a conscientização do cidadão-leitor, cidadão-ouvinte, cidadão-telespectador e cidadão-internauta.” (DINES, 2006)

Em pouco mais de cinco anos atividade objETHOS mostrou a que veio – e os artigos reunidos neste livro são uma prova disso. Simultaneamente ao diligente exercício crítico, os textos deste volume têm como pano de fundo um compromisso inalienável com a qualidade do ensino, com a robustez da pesquisa e com a excelência da profissão jornalística. No fim das contas, é disso que se trata: da defesa do jornalismo como serviço público e instrumento imprescindível para o fortalecimento da democracia.

Referências

ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 109

DINES, Alberto. “Um compromisso, uma história, um saldo”, in Observatório da Imprensa, edição nº 336, de 02/05/2006; disponível em http://bit.ly/1L4DHhL, acesso em 02/10/2015

KOVACH, Bill e ROSENTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. O que os jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2003, p. 113

SALAVERRÍA, Ramon. “Medios y periodistas, ¿un futuro compartido?”, in El futuro del periodismo, Cuadernos de Comunicación EVOCA nº 11, Madri, 2012, p.11, em tradução livre; disponível em http://bit.ly/1McN52L, acesso em 02/10/2015

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Luiz Egypto é jornalista, mestre em História e pós-graduado em Direção Editorial. Foi  redator chefe do Observatório da Imprensa (1999-2015)

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