Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ÉTICA JORNALíSTICA > Memória e verdade

Audálio, audaz

Por Camilo Vannuchi em 05/06/2018 na edição 990

Conheci Audálio Dantas em 30 de maio de 2014. Neste dia de sua partida, completaram-se exatos quatro anos desde o dia em que o vi entrar no Teatro Cásper Líbero, vestindo uma jaqueta ocre, e fui me apresentar. Era eu o organizador do debate para o qual ele tinha sido convidado e que começaria dali a dez minutos: uma tarde entre gigantes em homenagem aos 50 anos de profissão do também jornalista Ricardo Kotscho. Abri o evento, logo após a fala inicial do então coordenador do curso de jornalismo, Carlos Roberto Costa, e fui para a plateia.

No palco, entre poltronas e sofás, conversavam Eliane Brum, Hélio Campos Mello, Clóvis Rossi, Jorge Araújo, Mariana Kotscho, Ricardo Kotscho e ele, Audálio, imprescindível. Dois meses depois, Audálio aceitou minha amizade no Facebook, o que me permitiu acompanhar mais amiúde os registros feitos na rede social por aquele veterano inquieto.

Em janeiro de 2016, sua filha Juliana me enviou uma mensagem pela mesma rede social. “Queria seu celular”, ela escreveu. “Meu pai quer te dar uma ligada”. No mesmo dia, atendi um senhor com a voz calma e um pouco trêmula. “Aqui é o Audálio Dantas”, escutei, envaidecido com o gesto extraordinário de receber uma ligação desse cara.

Não é todo dia que a gente recebe um telefonema de um verbete de enciclopédia, uma lenda da luta sindical e do combate à censura, um prêmio Jabuti, um jornalista que trabalhou na Revista Realidade, o repórter que “descobriu” Carolina de Jesus. E era ele do outro lado da linha, um sujeito que não carece de aposto nem de sobrenome. Audálio. Após um nariz de cera de fazer inveja aos redatores da Folha da Manhã dos anos 1930, Audálio me perguntou se eu aceitaria ser membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo.

Instituída um ano e quatro meses antes pelo prefeito Fernando Haddad, a Comissão tinha cinco membros e acabara de perder um deles, demissionário. Eu trabalharia nela por oito meses, até setembro, mês previsto para a entrega do relatório final, ao lado de quatro instituições: Tereza Lajolo, Fermino Fechio, Adriano Diogo e ele. Prático e racional, Audálio fez o resumo das condições de trabalho como um editor negociando a contratação de um frila.

Tal remuneração, reuniões semanais, necessidade de indicar um assessor ou assessora , e, claro, sem dedicação integral, o que me permitiria tocar outras coisas. Disse que topava, que ele poderia apresentar meu nome se julgasse apropriado. Dois dias depois, atendi o celular e escutei a voz de outro veterano, ainda mais pausada e mais trêmula. “Aqui é o Eduardo Suplicy”. O então secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania repetia a consulta feita por Audálio para poder encaminhar um ofício ao prefeito solicitando minha nomeação.

Trabalhamos juntos, pelo direito à memória e à verdade, até dezembro daquele ano. Semanalmente, devorávamos duas caixas de Bis e uma cafeteira elétrica fumegante nas intensas discussões travadas na sala 31 do Arquivo Histórico de São Paulo, no Bom Retiro. Era preciso organizar o que já tinha sido apurado, orientar novas pesquisas, encontrar lacunas, conceber e produzir audiências públicas, sugerir recomendações às autoridades competentes (muitas vezes incompetentes), elaborar e redigir o relatório final.

Trabalhávamos com o coração. Era preciso voltar no tempo, refazer a descoberta da vala clandestina de Perus em 1990 para encontrar e nomear os responsáveis, entender de que maneira o serviço funerário lida com os corpos não reclamados e como evitar novos desaparecimentos, encontrar um meio de viabilizar a retificação dos assentos de óbito que ainda trazem a versão forjada por generais e torturadores.

Também era preciso homenagear Inês Etienne Romeu, criar um prêmio de direito à memória e à verdade, repudiar o desmonte da política nacional de memória e verdade instituído após a posse de Michel Temer, expor as recomendações da Comissão para o prefeito. Queríamos fazer muito mais do que fizemos. Fizemos muito mais do que esperávamos.

Às vezes, ao longo daqueles meses, Audálio não aparecia no dia da reunião. Aos 86 anos, o autor de “As duas guerras de Vlado Herzog” lutava contra um câncer. Submetia-se a ciclos agressivos de quimioterapia a cada três semanas, tratamento que, com certa frequência, o obrigava a ficar dois ou três dias sem sair de casa.

No segundo semestre, em duas ou três ocasiões, parte da Comissão se reuniu em seu apartamento. Na reta final, em razão do tempo escasso e das muitas tarefas, havíamos formado um comitê dedicado especificamente à produção do relatório final: Audálio, Fermino, nossa assessora e também jornalista Fernanda Nascimento e eu. Outros membros passariam a se concentrar nos trabalhos de pesquisa e um terceiro grupo ficou dedicado às audiências públicas.

Nesses encontros, em Perdizes, namorei com discrição um quadro pendurado na parede de sua sala, atrás da mesa. Era a imagem de uma cadela esquálida a farejar a terra no semi-árido nordestino. Seu nome era Baleia, a cachorra de Fabiano no clássico de Graciliano. Assinado por Aldemir Martins, o desenho era uma versão anterior de uma das ilustrações escolhidas para a primeira edição de Vidas Secas.

Naquele mesmo ano, o Brasil sofreria um golpe de Estado. Não um golpe civil-militar, como o de abril de 1964, mas um golpe parlamentar-jurídico-midiático. Um golpe gestado ao longo de quase dois anos de fraudes e manipulações. Quis o destino que nós, Audálio e eu, estivéssemos membros de uma Comissão da Verdade num período tão abjeto e anacrônico. Impossível ficar inertes.

Já em 21 de maio, nove dias após a admissão do processo de impeachment na Câmara e o afastamento temporário de Dilma Rousseff, organizei com o deputado Paulo Teixeira e amigos um ato intitulado Grito pela Democracia, na Casa de Portugal, em São Paulo. Audálio subiria ao palco ao lado do também jornalista Fernando Morais. Em 1978, ambos tinham sido eleitos pelo MDB: Audálio federal, Fernando estadual.

Desde então, nenhum dos dois havia pedido a desfiliação. Eram, portanto, peemedebistas de carteirinha, por mais que defendessem Dilma, pedissem a volta do Lula, execrassem Eduardo Cunha e combatessem o golpismo que havia se apossado do Jaburu e do Congresso Nacional.

Combinamos o jogo. Fernando Morais e Audálio Dantas anunciariam publicamente sua desfiliação. Fernando chegou a rasgar sua filiação em pedacinhos diante da platéia lotada. Audálio falou em seguida e repetiu o anúncio. As imagens foram transmitidas ao vivo em diversas páginas, incluindo Mídia Ninja, Jornalistas Livres e Fundação Perseu Abramo.

Semanas depois, em julho, tive a oportunidade de escrever um artigo com Audálio, o mesmo repórter que, ainda nos anos 1960, escreveu para a revista Realidade um texto antológico sobre os catadores de caranguejo de Recife. Publicado na Folha de S.Paulo e assinado pelos cinco membros da CMV, nosso artigo “Por uma política de memória e verdade” batia no usurpador já na primeira frase: “Entre os muitos retrocessos que tomaram de assalto o país desde a posse do presidente interino Michel Temer, um deles causa especial preocupação: o desmantelamento do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos”.

Estávamos novamente juntos, em reunião da Comissão da Verdade, no dia 31 de agostode 2016. Naquela tarde, o Senado Federal foi palco do arbítrio, uma vergonha sem precedentes referendada por 61 violadores de direitos. Sentado à minha frente, Audálio olhou para mim com olhos inquietos. Apertou os lábios e balançou a cabeça em gesto de reprovação, como quem diz “E não é que eles conseguiram mesmo? É mole?”. Poucos dias foram tão tristes quanto aquele. Nas ruas, havia quem festejasse, buzinasse, agitasse bandeiras. Vida que segue.

Duas semanas atrás, quis visitar Audálio no hospital. Escrevi para Vanira. “Mais ajudo ou atrapalho?”, consultei, com sinceridade. Ela me explicou que as coisas não estavam bem, que ele não estava sequer conseguindo receber visitas. Fiquei na minha, admirador à distância, esperando que as coisas melhorassem para poder abraçá-lo novamente. Talvez não desse, desta vez, para compartilhar com Audálio um gole de cachaça ou uma caixa de Bis.

Paciência, a gente não pode ganhar sempre. De minha parte, ficaria satisfeito em poder conversar mais um tiquinho sobre a aventura da reportagem com esse cabra das Alagoas, testemunha de tanta coisa, amigo e parceiro, companheiro audaz.

Vou propor que o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos preste uma homenagem especial ao querido Audálio na cerimônia deste ano.

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Camilo Vannuchi é jornalista.

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