Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ÉTICA JORNALíSTICA > Cobertura da violência

Estratégias de guerra e paz

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 21/08/2017 na edição 955

Causou surpresa a divulgação de que o jornal carioca Extra decidiu criar uma editoria de guerra para cobrir os casos de violência no Rio de Janeiro. “A partir de hoje, o leitor do EXTRA passará a encontrar, em nossas páginas do jornal impresso e no site, uma expressão que, até então, nossos jornalistas evitavam: guerra do Rio. Não se trata de uma simples mudança na forma de escrever, mas, principalmente, no jeito de olhar, interpretar e contar o que está acontecendo ao nosso redor”, justificou Octávio Guedes, o Diretor de Redação, em vídeo publicado no site do jornal.

A medida provocou reações variadas e críticas, como no conteúdo publicado por The Intercept Brasil considerando a iniciativa como incitação ao medo e constatação da falência do estado em questões de segurança. Os aspectos ideológicos por trás da adoção de uma nova palavra para designar uma editoria — sobretudo num momento em que as tropas do exército agem na região metropolitana do Rio — indicariam o reforço de um discurso do medo já tradicional em grande parte da imprensa brasileira, dando cores sensacionalistas e não aprofundando a discussão por um ponto de vista mais contextualizado.

Em quase toda capital brasileira — e também nas maiores cidades do interior — é comum se deparar com jornalistas na TV e no rádio em tom justiceiro e sensacionalista, mas felizmente a diversidade de abordagens não se restringe à espetacularização da violência.

Uma cobertura mais plural do tema tem motivado narrativas digitais mais aprofundadas, como o especial “Vigilância” publicado pela Agência Pública. Um outro exemplo é o portal Ponte – Direito Humanos, Justiça e Segurança Pública, cujo conteúdo procura dar voz aos moradores da periferia brasileira e trazer enfoques cidadãos à cobertura.

Até mesmo na grande mídia é possível se deparar com abordagens como a do “Profissão Repórter”, exibido na TV Globo, aprofundando a pauta a partir da proposta de exercitar um metajornalismo: discutir de forma transparente as questões éticas envolvidas na cobertura.

A estratégia do Extra parece explicitar algo que já se dava há algum tempo nas práticas jornalísticas. A reportagem do The Intercept Brasil chama atenção para o uso progressivo de expressões como território, retomada, conquista, desde, pelo menos, a implantação das UPPS (Unidades de Polícia Pacificadora) nos morros cariocas. A nova denominação editorial do Extra explicita algo que já circulava e as reações críticas provocadas indicam também a demanda por novos pontos de vista no que se entende por violência na sociedade brasileira. A complexidade do tema demanda a criação de muitas outras editorias e é melhor que elas estejam no campo semântico da paz.

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