Sexta-feira, 20 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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FEITOS & DESFEITAS > SENSACIONALISMO

16 anos, 12 mortes e muitas manchetes

Por Álisson Coelho em 08/04/2008 na edição 480

Um adolescente de 16 anos confessa ser o autor de 12 assassinatos. Sem dúvida, esse é um fato que não acontece todos os dias. Com certeza é também um fato de relevância, em tempo em que se discute a redução da maioridade penal. Isso aconteceu na cidade de Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre. Novo Hamburgo raramente é pauta de jornais da capital. Muito menos ainda aparece na mídia nacional. Porém, após a detenção do adolescente, a imprensa de todo o Brasil correu como louca para a cidade.

A história virou manchete nos meio de comunicação do estado. O jornal Diário Gaúcho, tradicional pelo seu sensacionalismo, deu a seguinte manchete: ‘Guri com alma de diabo’. O Fantástico do último domingo (30/03) fez matéria e veículos internacionais têm procurado a mídia local para mais informações.

A edição online de Zero Hora traz a noticia: ‘Adolescente suspeito de ter matado 12 pessoas ‘acha que ficou famoso’, diz promotor’. Na matéria o promotor parece discordar da visão do jovem. Porém, foi exatamente isso que aconteceu. O garoto é visto como uma criança sem noção de seus atos, uma vítima do sistema corrompido que o fez abandonar a escola na quarta série do ensino fundamental.

Notícia e espetáculo

Mas a discussão aqui proposta não está na responsabilidade do garoto, seus familiares ou do poder público. Está na espetacularização de um fato. No agendamento dos meios de comunicação de todo o Brasil. Não são poucos os veículos que trazem psicólogos e especialistas para falar sobre o assunto. O garoto, e com toda a razão, se considera uma celebridade.

Depois de tantas entrevistas, ele não pensa nas pessoas que matou. Tampouco se preocupa com os míseros três anos que ficará recluso. Ele está ciente de sua situação e do poder que adquiriu sobre os meios de comunicação. Fala o que quer, quando quer. Nas entrevistas, coloca-se como um justiceiro que matava, não apenas por vingança, mas por justiça, contra aqueles que fizeram mal a ele ou algum de seus parentes.

Sua única preocupação – e ele expressou isso para o delegado que investiga o caso – é de que os jornais não publiquem nada de errado. É tênue a linha que separa a notícia do espetáculo. É tênue, mas existe. É necessário, por parte dos meios de comunicação, todo o cuidado para não transformar um assassino em uma celebridade. Do jeito que as coisas andam, o jovem assassino terá que contratar um bom assessor de imprensa, e não um advogado.

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Estudante de Jornalismo, Novo Hamburgo, RS

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