Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA ESPORTIVA

2004, o ano da ‘barriga’

Por Antonio Carlos Teixeira em 04/01/2005 na edição 310

Em 2004, a mídia esportiva brasileira mais desinformou do que informou. Foi um ano para ser esquecido. Sob todos os aspectos. Além das eternas brigas por audiência, espaço e remoques pessoais – algumas se tornaram públicas, como a de Milton Neves contra Juca Kfouri e Jorge Kajuru – essa área do jornalismo cometeu deslizes graves e raras foram as vezes em que conseguiu cumprir a missão de informar. Os ‘furos’ – as notícias exclusivas, tão bem-vindas ao leitor de bom gosto – deram lugar às barrigas (notícia ou informação falsa, na linguagem jornalística).

É certo que a proliferação de sítios de notícias em tempo real aumentou as opções de leitura dos torcedores, ao mesmo tempo em que causou enxurrada de informações falsas ou mal apuradas. Empresários de jogadores e técnicos de futebol tornaram-se as principais fontes de rádios, jornais, TVs e sítios esportivos. Nunca a mídia noticiou tantas vendas não-concretizadas de jogadores brasileiros para o exterior como em 2004. Há atletas, como o atacante Robinho, do Santos, que foram ‘vendidos’ pelo menos dez vezes por esses veículos.

Se as notícias divulgadas sobre o futuro do craque fossem verídicas, Robinho já estaria na Europa há pelo menos seis meses – e jogando por cinco clubes diferentes. No mínimo. Além da busca incomum pelo furo, procurou-se divulgar fatos nebulosos, mal-apurados e sem importância jornalística apenas para ‘dar um recado à concorrência’. O torcedor foi o único que perdeu com esse show de informação e contra-informação. Incompetência ou má-fé? Vai se saber.

Faculdades divinatórias

Dentre dezenas de casos ocorridos no Campeonato Brasileiro que acaba de terminar, há que se destacar ao menos cinco. O ótimo comentarista da TV Record e da Rádio Globo de São Paulo, Paulo Roberto Martins, comprou briga com a torcida do Atlético-PR ao dizer que o time paranaense era ‘nuvem passageira’. Justo no melhor momento da equipe de Levir Culpi. Por essa declaração, Martins se viu atormentado por milhares de e-mails enviados pelos atleticanos a cada programa na Record. O Atlético-PR não foi nem furacão, nem a brisa. Não chegou ao título, mas assegurou o vice-campeonato, à frente de São Paulo, Palmeiras, São Caetano e Corinthians.

O show de opiniões, cálculos, palpites e porque não dizer – o excesso de faculdades divinatórias – foi aumentando à medida que o campeonato ia chegando ao fim. A duas rodadas do final, o colunista do jornal Lance! José Trajano profetizou que o Atlético-PR seria campeão já na partida seguinte, contra o Vasco da Gama, em São Januário. Na segunda-feira, contudo, foi obrigado a se desculpar, fato que por si só merece elogio. A questão é: o jornalista está proibido de opinar? Evidente que não. Mas não pode confundir opinião com sentença – expressão que encerra um sentido geral ou um princípio ou verdade moral máxima, segundo o Aurélio. Quem tem direito de sentenciar – e mesmo assim de forma comedida – é o torcedor.

O terceiro exemplo de que, às vezes, o jornalista mistura opinião com sentença se passou com o bom comentarista Roberto Assaf, do Sportv. Ele revelou, um dia antes da partida entre Vasco e Atlético-PR, que o campeonato terminaria naquele final de semana. Domingo, no programa Troca de Passes, que analisa todos os jogos da rodada, Assaf desconversou. O Santos tinha acabado de reassumir a liderança, derrubando o julgamento do analista. Assaf preferiu não ser tão humilde como Trajano e dizer aos assinantes do canal fechado que errara ao decretar, no sábado, que o Brasileirão 2004 acabaria no dia seguinte.

Outra barriga que merece destaque ocorreu com Juca Kfouri, no CBN Esporte Clube, de quinta-feira (16/12). Horas antes de a mãe do jogador Robinho ser libertada pelos seqüestradores, Juca desqualificou declaração do empresário Wagner Ribeiro, dada a uma rádio de São Paulo, segundo a qual o caso estava 80% resolvido. Para justificar sua opinião, o jornalista disse que ‘os desdobramentos de um caso têm início, meio e fim’. Foi mais longe: que o seqüestro da mãe de Robinho ainda estava no meio.

Em outras palavras, Juca afirmou que seria improvável a solução do caso nos próximos dias. Quem ouviu a afirmação pensou que as fontes de Juca eram confiáveis. Na manhã de sexta-feira, dez horas depois de considerar absurdas as declarações do empresário, a radio Jovem Pan anunciava, em primeira mão, o fim do seqüestro. À noite, até onde pude ouvir o programa, Juca não tinha feito qualquer referência à barriga do dia anterior. Mais tarde, segundo ouvintes, o apresentador do CBN Esporte Clube teria reconhecido seu erro. Menos mal.

Obscenos, torpes e desagradáveis

O Campeonato Brasileiro das ‘barrigadas’ promovidas pela mídia esportiva fechou de maneira ‘excepcional’ – para aqueles que adoram tolices, óbvio. O autor de mais uma façanha ‘inesquecível’ não poderia ser outro. Na quarta-feira (22/12), o colunista do sítio Gazeta Esportiva Chico Lang – que se vangloria por escrever artigos exclusivos sobre o Corinthians – bancou a informação de que o técnico Vanderlei Luxemburgo, do Santos, ‘estaria com um pé no Corinthians-MSI’. Era a manchete do sítio daquela quarta-feira. A informação era atribuída a Lang.

Ao mesmo tempo, o programa Globo Esporte informava, ao vivo de São Paulo, que Luxemburgo tinha acertado, ainda pela manhã, sua permanência no Santos. Justiça seja feita: o boquirroto Lang não foi o único a errar. Perto de 99% dos integrantes da mídia esportiva apostavam em outro desfecho, com Luxemburgo assinando com o Corinthians. Só que Lang quis ir mais longe. E se deu mal. Desconcertado, o colunista viu-se obrigado a corrigir a notícia falsa. Mas não admitiu que suas fontes falharam. Novamente. Sua má fama só aumentou com mais essa barriga.

De duas, uma: ou ele, Chico Lang, de fato tem suas fontes (péssimas, por sinal) ou inventa que as tem. Só pode! Tamanho o número de informações inverídicas que divulga em sua coluna sob o olhar impassível da direção do sítio. Pior não são as costumeiras barrigas, mas a forma desrespeitosa com que o colunista trata seus leitores. Mal-educado, grosseiro, não admite ser repreendido ou cobrado por algum ato falho. Trata-os com termos torpes, obscenos e desagradáveis.

Em resposta a um torcedor do Santos, que questionava a divulgação de notícias falsas sobre o caso Luxemburgo, Lang saiu-se com isto:

‘Caro amigo Santista, agradeço seu acesso ao meu site, tenho sempre novidades quentes para informar, suas palavras pouco importam o que vale é seu contato, desculpe a demora em responder, mas são muitos… Para falar a verdade, acho que vc é um Zé Ruela. Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Tenho Dito!!!’

A mídia esportiva, caro observador, fechou ou não fechou 2004 em grande estilo?

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Jornalista em Brasília

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2005 Carlos Alberto Leite

    Excelente texto. O Jornalista Antonio Carlos Teixeira escreve tudo aquilo que nos eleitores pensamos dos jornalistas esportivos atuais. As ‘Barrigadas’ vem desmoralizando o jornalismo esportivo há muito tempo. Comentários desastrosos, mal educados e sem preocupação com a verdade são constantes. Não preciso colocar aqui os nomes dos jornalistas, mas se eles forem eleitores deste respeitado veiculo, deveriam fazer uma auto crítica do que andam fazendo de sua profissão. Por fim pergunto: Onde anda a ética do jornalismo esportivo?

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