Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > NORMAN GALL

50 anos dedicados à América Latina

Por José Maria Mayrink em 27/07/2010 na edição 600

São 76 anos de idade e 50 de jornalismo profissional – ou 61, se for contar a estreia no jornalzinho do colégio e as andanças por cidadezinhas do interior da Nova Inglaterra, escrevendo como freelancer sobre o que lhe cheirava a notícia. Foi cronista de esportes e crítico de música clássica, antes de se tornar correspondente estrangeiro, em 1961, abraçando então uma carreira que lhe deu, na semana passada, o Prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia, por 50 anos de serviço à América Latina e ao Caribe.

Norman Gall, que se especializou em economia e política internacional com reportagens e ensaios publicados nos mais importantes jornais do mundo – entre os quais o Estado, do qual é colaborador –, comemora o prêmio como uma deferência dos amigos que indicaram seu nome e reconhecimento de sua dedicação à pesquisa. ‘Tive muita sorte, pois sempre soube o que queria fazer’, disse Gall na tarde de quarta-feira, mergulhado entre as centenas de livros, quadros, estatuetas e fotografias que enchem seu apartamento.

Como sabia que queria ser jornalista, dedicou-se para valer à profissão, após vender discos numa loja de Nova York, sua cidade natal, e de trabalhar na campanha presidencial de John Kennedy, em 1960. ‘Eu cuidava do registro de eleitores porto-riquenhos’, lembra. No ano seguinte foi contratado como repórter por um jornal de Porto Rico. ‘Comecei uma noite antes do assassinato do ditador Rafael Trujillo e, por isso, fui enviado para cobrir a crise política na República Dominicana. Cobri em seguida a campanha presidencial de Juan Bosh, o que me levou à fronteira do Haiti. Aí comecei minhas romarias na América Latina, como freelancer do Washington Post.’

Em 1964, Gall foi a Cuba para as comemorações do 26 de Julho, tomada do quartel de Moncada, na cidade de Santiago. Conheceu Fidel Castro e todo o comando da Revolução de Sierra Maestra. ‘Os líderes cubanos desafiaram os jornalistas americanos para uma partida de beisebol e perdemos feio. Joguei contra Fidel, seu irmão Raúl e Ramiro Valdez, chefe do serviço de inteligência, que atualmente se encontra na Venezuela para sustentar Hugo Chávez no poder.’

Foi sua única viagem a Cuba. ‘Não me deram mais visto porque perguntei a Fidel se havia provas contra os funcionários do governo fuzilados sob acusação de cooperação com a CIA (agência de inteligência dos EUA).’

Antes de vir para o Brasil, em 1977, o jornalista percorreu vários países sul-americanos para cobrir golpes militares e guerrilhas. ‘Descobri minha vocação de trabalhar nos sertões da América Latina’, lembra Gall, citando Peru e Bolívia. Excelente fotógrafo, ele montou um precioso acervo de imagens de personagens e cenas dos países por onde andou. ‘Tive o privilégio de ser contratado por um grupo de universidades para fazer pesquisas no continente. Não me pagavam muito, mas conseguia viajar e trabalhar onde queria, com o compromisso apenas de produzir.’ Em 1967, escreveu um longo ensaio, ‘O Legado de Che Guevara’, quando o líder revolucionário foi morto. Nessa época, morou seis anos na Venezuela.

No Brasil

A convite da Fundação Carnegie, o jornalista escreveu sobre a emergência do Brasil na economia do hemisfério. Fez reportagens sobre o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha e sobre a ocupação de Rondônia, na Amazônia. A vinda para São Paulo, onde foi editor correspondente da revista Forbes, não lhe impediu de continuar escrevendo sobre o desenvolvimento da economia na Europa, Japão, EUA, México, Chile, Peru, Venezuela e Argentina.

Seus artigos foram reproduzidos por jornais como The New York Times, Wall Street Journal e Washington Post nos EUA, Times Literary Supplement em Londres, Le Monde em Paris e Die Zeit em Hamburgo, na Alemanha.

Norman Gall continua fazendo aquilo que gosta, publicando agora seus artigos e ensaios no Braudel Papers, jornal bimestral de pesquisa do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, do qual é o diretor executivo e foi um dos fundadores.

‘O Instituto Fernand Braudel sobrevive graças a pequenos milagres’, comenta o pesquisador, grato à generosidade de parceiros que lutam a seu lado para levar a obra adiante. ‘As pesquisas que faço não são financiadas ou são marginalmente financiadas’, observa ele, sem esconder uma ponta de mágoa. ‘No Brasil, é fácil fazer seminários, mas é muito difícil financiar pesquisas.’ Artigos e ensaios de Gall têm sido reunidos em livros, como Lula e Mefistófeles (A Girafa Editora) e O Terremoto Financeiro (Elsevier Editora).

Dificuldades à parte, o trabalho no Fernand Braudel dá satisfação e alegria. ‘Temos no instituto o projeto Círculos de Leitura, que é o encanto de minha vida atualmente’, entusiasma-se, ao descrever o encontro com jovens da periferia de São Paulo que se reúnem para ler e comentar clássicos da literatura.

Apaixonado pelo País, onde vive há 33 anos, Gall se naturalizou brasileiro, sem renunciar à cidadania norte-americana, já que os EUA passaram a admitir a dupla cidadania. ‘O Brasil tem sido generoso para comigo.’ Ele avalia que o País está muito melhor do que quando veio para São Paulo. ‘Apesar de haver muita negligência, o Brasil está se realizando; o desafio é vencer a negligência.’

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