Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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5 mil casos num mundo de 6 bilhões é pandemia?

Por Lelê Teles em 19/05/2009 na edição 538

Não faz muito tempo escrevi um texto neste Observatório sobre a deformação midiática da realidade e a construção de simulacros a partir da construção de seres reativos e obedientes. O texto falava sobre a triste catástrofe que ocorreu em Santa Catarina, que a mídia colocava culpa no efeito estufa, mas o caso estufava a culpa das autoridades no ordenamento territorial da região. O texto também falava de uma tragédia que nos tornava uns hipócritas solidários e nos redimia de sermos insensíveis ao sofrimento cotidiano dos sujeitos da esquina.

Pois bem, chegou a hora de provar que não sofro de esquerdopatia. Em 12 de maio de 2009, abro o Globo Online e nada sobre a tragédia que assola o nordeste brasileiro. Na capa fala-se, veja você, de que surgiu o primeiro caso de gripe suína no Rio de Janeiro. A Folha Online vai pelo mesmo caminho: um caso de gripe e 32 casos suspeitos é o que desperta a mídia no dia de hoje.

O diabo é que só no Maranhão 205 mil pessoas foram afetadas pelas enchentes. 78 municípios sofrem com as chuvas no estado. Em Sergipe a calamidade não é menor. No Piauí é igual. Milhares de brasileiros estão desabrigados. Casas estão desabando. As ruas tomadas pala lama contaminada. E os nossos jornais falam numa tal pandemia que afetou até agora, 5 mil pessoas em todo o mundo, um número infinitamente menor do que a tragédia real que os nossos patrícios estão vivendo no nordeste.

Donativos incinerados, por excesso

Sem falar que a tal pandemia atingiu até agora 30 países do globo terrestre e todos nós sabemos que só a ONU tem 192 países membros. Pandemia? E desses 5 mil casos registrados no mundo, o número de mortes é ainda menor do que o registrado pela gripe comum, dessas que o sujeito pega quando sai na chuva. E, diga lá, 5 mil casos em um mundo com mais de 6 bilhões de pessoas é uma pandemia?

Lembro-me da vaca louca, um herbívoro tornado canibal pelos ingleses. Diziam que a tragédia assolaria o planeta. Enterraram o vacum contaminado e tudo voltou ao normal. Depois veio a pandemia aviária. Queimaram uns frangos na China e tudo voltou ao normal. Depois febre aftosa, nada. Depois a crise da febre amarela urbana no Brasil, que matou mais quem tomou vacina dupla do que quem levou picada de mosquito. Não é vaca, o boi, o frango, o mosquito, o porco… A grande pandemia, o grande animal contaminado é o homo midiaticus. Esse robozinho reativo pronto para se desesperar a qualquer sinal emanado pelo aparato oficioso da desinformação.

Na tragédia de Santa Catarina, a mídia era onipresente. Os principais apresentadores estavam lá ao vivo. Até a Ana Maria Braga sujeitou o seu penteado ao mau tempo no sul do Brasil. Celebridades apareciam fazendo cara de tristes e pedindo doações, galãs viraram super-heróis e meteram a mão na lama para entregar donativos. Contas, muitas contas bancárias surgiam a todo o momento, Instituto Renascer, Rede Record, SBT, Globo etc. Foi tão grande a comoção popular que teve prefeitura em Santa Catarina que mandou enterrar e incinerar donativos, por excesso.

Mais mistérios do que julga a filantropia

Agora eles noticiam, e mais nada. Algo me diz que a casa de um Von Braun ou de um Hoff Müller desabando comove mais do que a casa de um Severino qualquer lá nos confins do Piauí. Algo me diz que um grande número de brasileiros concorda com o presidente da Philips, Paulo Zotollo, de que ninguém vai ficar chateado se o Piauí desaparecer.

Os porcos do PIG fazem o povo se preocupar com o porco do México. Enquanto isso, nossos irmãos dormem sobre colchões encharcados, sem comida, sem água, sem teto, sem ajuda. Mas entre um Severino magro do Piauí e um Hoff Müller de máscaras descendo de um avião, a mídia fica com a segunda imagem. A imagem de um Severino dentro da lama não tem força. Forte é a imagem da casa da família Van de Kamp desabando. Um moleque sujo do nordeste desabrigado não comove; comove o piá loirinho, de sobrenome holandês, dormindo em um ginásio de esporte.

O supremo juiz não se importa com o sujeito da esquina. O deputado está se lixando para a opinião pública. E o homo midiaticus que mandou donativos para as vítimas do tsunami no Sri Lanka (!) lava as mãos para os patrícios nordestinos. Há ou não há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filantropia?

‘Qualquer minoria, mesmo uma minoria de operários, tão logo se torne governante ou representante do povo, não mais representará a este povo, mas a si mesma e suas pretensões de governá-lo’ (Mikhail Bakhunin)

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Escritor, publicitário e roteirista, Brasília, DF

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