Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MERCADO DE TRABALHO

Reflexões sobre a profissão de Jornalista

Por Erasmo de Oliveira em 24/04/2012 na edição 691

(Observação: sempre que você ler neste texto a palavra "Jornalista" com letra minúscula, releia o parágrafo e suas entrelinhas.)

O Brasil está bombando, diz a grande mídia. A pequena mídia repercute o brado retumbante: sim, nosso país vive época áurea, estamos precisando formar mão de obra qualificada para preencher os milhares de vagas que estão em aberto. Em meio a esse novo milagre brasileiro, uma discussão parece absurda: jornalistas estão questionando a desregulamentação da profissão. Ora, se eles mesmos dizem que sobram vagas, deveriam estar tão atolados em trabalhos, regozijando-se com arrobas e mais arrobas de filé mignon, que sequer notariam a entrada de mais pessoas na disputa pelo bife de coxão duro. Você, que lê, ouve e vê notícias, que dá Ibope para tudo o que a mídia vomita diariamente, o que pensa sobre isso?

Para começar a conversa, dois dos maiores nomes da mídia brasileira, o “doutor” e “jornalista” Roberto Marinho, dono do Brasil, cursou apenas o segundo grau. Francisco de Assis Bandeira de Mello, o Chatô, fundador dos Diários Associados, era semianalfabeto, contrabandista e mentiroso de primeira linha. Alguém questiona isso? Algum jornalista se lembra dos colegas da extinta TV Tupi, que morreram à míngua, sem receber seus direitos trabalhistas? Alguma voz surge para dizer que a concessão de emissoras de rádio e TV no Brasil segue uma cartilha absolutamente obscura e não mais que meia dúzia de famílias são as senhoras da opinião do povo, compram e vendem entre si o direito de dominar a vontade do público, sem que se publique uma linha a respeito do jogo das cadeiras dos bastidores da radiodifusão?

Demissões em massa são acobertadas. Um jornalista não defende o outro, quando todo um departamento é demitido da noite para o dia e isso ocorre com muita frequência, acredite.

“Profissionais” que manipulam vontades

Publicidade redacional, matérias sensacionalistas e tendenciosas, puxa-saquismo explícito, além de telejornais que passam horas repetindo a mesma (des)informação, com um helicóptero sobrevoando algo e um jornalista comentando a imagem, num bla-bla-blá insosso, como se estivesse no rádio e não na TV, ignorando completamente o por quê, quando, onde, como, quem e o quê. Vide o descalabro que é quando existe um “caso Isabella”, ou um “caso Eloá”, em que as emissoras entram em rede e desinformam o povo, impondo uma mesma notícia durante dias seguidos, transformando bandidos anônimos em celebridades.

Semanas se passam sem uma mísera nota sobre descobertas científicas, arte, cultura. Sempre há espaço para a fofoca da celebridade e a novela da líder repercute em toda a mídia. Debates intermináveis sobre futebol, programas de culinária, dicas de moda e beleza… Quando surge uma pauta de ecologia, por exemplo, é hipócrita, divulga apenas as grandes ONGs, que são amigas do chefe da redação e cujo trabalho dá em m… nenhuma, já que estamos sendo cozidos vivos, enquanto eles “defendem” a natureza, incentivando as pessoas a se atirarem na frente de navios-petroleiros. A mídia cria “artistas” inexpressivos e os impõe a nós. Depois de terminado o contrato, a virgem passa a defender o sexo anal e nós temos de engolir calados.

O que se chama de mídia democrática, a internet, é um antro de lixo. Redes sociais controladas diretamente pela CIA e monitorando diuturnamente a privacidade das pessoas. Esperem até que o NSA e o Echelon decidam que algum de nós é terrorista e venham nos prender dentro do Brasil, com a anuência do nosso governo, assim como fizeram com Evo Morales, quando ocupou propriedades brasileiras na Bolívia, ou com os brasiguaios, além de Jean Charles, por meio de quem lançaram a moda de executar jovens brasileiros no exterior gratuitamente. Toda a sua lista de amigos em redes sociais passa a ser suspeita, todas as suas atividades são vigiadas de perto e essa é nossa opção de mídia para combatermos a grande mídia Big Brother. Quem se assustou com 1984, hoje está dopado com tanta informação inútil, vomitada pelos “profissionais” que estudam e se especializam em manipular vontades, não em veicular verdades.

Vamos combater a migração

O Brasil regulamentou a profissão de prostituta, além de outras, igualmente interessantes, como a de mãe de santo. Destinamos bilhões para as escolas de samba e morremos à míngua nos hospitais públicos, que em nada são melhores que nossa pífia rede privada de saúde. Nosso trânsito mata mais que qualquer guerra, mas a propaganda exalta o status, o luxo e a potência dos poluidores automóveis, guiados por gente encharcada de cerveja, enaltecida pela mídia como néctar dos deuses. Discutimos a venda de bebidas alcoólicas na Copa do Mundo, nos intervalos em que nossos políticos fingem que estão preocupados com o mar de lama que é nosso país. Temos centenas de bilhões de dólares em títulos da dívida pública norte-americana e isso não reverte em benefícios para o mesmo povo que amargou a miséria quando o Brasil estava nas garras do FMI.

Senhores Jornalistas: vamos denunciar, sim, a regularização dos imigrantes ilegais que, em vez de serem deportados, recebem todo o apoio do governo brasileiro para serem regularizados. Vamos combater a migração, que incha as grandes cidades graças a um governo que dá incentivo fiscal a quem parir mais e sair de sua cidade natal, não se exige que a pessoa permaneça em seu local de origem, para receber bolsa-esmola, é permitido que se venha para a periferia da metrópole criar problemas sociais para receber dinheiro público e fazer demagogia, dinheiro que é gasto em cerveja e cabeleireira, enquanto professores são tratados feito lixo para educar esses párias sociais e perpetuar no poder os mesmos políticos e midiáticos de sempre.

Bicos como mestres de cerimônias

Algum jornalista rasgou o diploma, quando estourou o escândalo Pimenta Neves, que foi o bambambam de um dos maiores veículos de mídia do Brasil, que namorava a repórter (ambos diplomados e sérios) e que deve ter clicado na lixeira milhares de informações úteis, enquanto publicava o que queria, segundo sua ótica distorcida? Que ética tem um elemento como esse? Que ética tem uma sociedade que se cala diante disso?

Escrevo para jornais e revistas há quase trinta anos, tenho notoriedade em diversas áreas e, sim, me registrei como Jornalista no Ministério do Trabalho, aproveitando uma prerrogativa legal, que me permitiu oficializar minha situação de redator-estagiário, aquele que aceita fazer os frilas que o resto da redação não aceitou, do tipo filmar tiroteios e manifestações no lixão, pois a maior parte do tempo gasto pelos profissionais sérios e diplomados é selecionando o que menos vai informar o povo, deletando tudo que for de utilidade pública e dando manchete para quem pagar mais jabá. Me decidi por ser Jornalista, mesmo sem diploma, porque trabalho nesta área desde o tempo em que os releases seguiam direto para a redação, sem passar pelo departamento comercial e, de mais a mais, muitos jornalistas da grande mídia estão mortos de fome e fazem bicos como mestres de cerimônias, minha profissão. Chumbo trocado.

Diante da impossibilidade de agradar a todos, agrado apenas à minha consciência.

***

[Erasmo de Oliveira é jornalista, São Paulo, SP]

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