Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > EDUCAÇÃO & MÍDIA

Greve na mídia, cidadania em alerta

Por Rosildo Brito em 19/06/2012 na edição 699

A crise geral que se abate sobre a educação, tornando-a fonte de uma vasta onda mundial de protestos, aponta para uma das mais sérias e comprometedoras situações por que atravessamos na contemporaneidade. Como se não bastasse o Brasil, onde historicamente a educação nunca foi levada a sério, e os demais países latino-americanos, cuja situação é bem similar, a crise educacional toma conta de vários países do chamado primeiro mundo, ganhando contornos assustadores. Basta citarmos a situação vivida na Europa, tomando como exemplo a Espanha, um dos casos mais recentes de países que enfrentam uma das piores crises da educação escolar em todos os níveis.

Assim como tem ocorrido em vários outros países, inclusive de outros continentes, o alto descaso com a gestão da educação pública tem feito com que a população ocupe as ruas protestando em busca do cumprimento de um dos direitos humanos mais básicos e essenciais ao desenvolvimento de todo e qualquer ser humano e da sociedade. Assim fizeram recentemente os espanhóis que, munidos de cartazes e outras formas de expressão, manifestaram – assim como têm feito nas últimas semanas os professores federais, aqui no Brasil – sua indignação, exigindo do poder público uma educação pública e de qualidade.

Passividade e conformismo

A diferença entre uma e outra realidade está unicamente, ao que parece, no grau de conscientização coletiva das sociedades, já que em se tratando do tratamento por parte dos governantes é cada vez mais similar, face ao comprometimento destes com as políticas neoliberais em curso. Essa diferença de conscientização é um detalhe constatado visivelmente através do tamanho e poder da mobilização que são demonstrados, sobretudo por meio dos atos públicos em prol da bandeira de luta levantada. Vejamos: enquanto aqui no Brasil, os protestos costumam mobilizar, proporcionalmente, uma pequena parcela das categorias mais atingidas diretamente, que são os professores e estudantes, e outra menor ainda, que é a do conjunto dos demais cidadãos para quem, vale sempre ressaltar, a educação continua representando o seu bem maior, em países como a Espanha os protestos contam com o apoio massivo da população que vai às ruas, ao parlamento, exigir aquilo que lhe é de direito.

Que o diga o último grande protesto realizado em maio deste ano que, conforme foi noticiado, além de estudantes e profissionais da educação, contou com a participação efetiva de famílias inteiras. Lá se viam crianças, jovens e pais segurando cartazes diversos, muitos dos quais com o dizer “SOS Educação pública!”, numa belíssima demonstração de espírito público, algo que, como muito bem sabemos, ainda não alcançamos nos nossos mais de quatro séculos vividos, fruto, sobretudo, da estratégia política que vem sendo difundida em nosso país e que dissemina de várias maneiras a passividade e o conformismo entre o nosso povo.

O “dever” cívico

Não obstante, isso não nos impede de, mesmo sendo sozinhos aglomerados em pequenas multidões – se é que assim podemos denominar –, continuarmos acreditando e, mais do que isso, fazendo a nossa parte, para que um dia, quiçá, a massa se junte a nós e de quebra traga consigo muitos dos intelectuais que ainda jazem em seus sepulcros caiados vencidos pela covardia. O que não podemos nem devemos, na condição de cidadãos e até mesmo cristãos – para aqueles que assim se autodenominam –, é ignorar a conjuntura atual e cruzar os braços diante dessa realidade funesta que se desenha frente aos nossos olhos e toma conta de nossas almas. Uma realidade cada vez mais repleta de contundentes indicativos de riscos sociais cujos efeitos, vale ressaltar, são bem mais assombroso do que qualquer epidemia de pestes ou vírus que assolam a humanidade e de que a mídia tanto se vale de, tempos em tempos, para gerar estado de alerta e com isso tirar proveitos. Essa mesma mídia para quem, infelizmente, assim como a classe política, educação não passa de um tema, sobressaltado convenientemente. Para quem educação é o tom de um discurso em nome da tão reverenciada cidadania. Só não se sabe até hoje, afinal de contas, a que tipo de cidadania ambas as instâncias de amplo poder aqui mencionadas tanto se referem…

Para esses, cidadão continuará sendo aquele sujeito que, de um lado, cumpre o seu “dever” cívico de, a cada eleição, comparecer às urnas e depositar o seu voto e, de outro, aquele que, sentado em seu sofá, resguardando-se do mínimo esforço, exerce a sua condição de sujeito cidadão do mundo… e que mundo!

***

[Rosildo Brito é professor da UFCG e jornalista]

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