Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > QUADRINHOS

Retrato fiel e cruel de Crumb

Por Luiz Carlos Merten em 19/06/2012 na edição 699
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 17/6/2012; intertítulo do OI

Embora more em Paris desde 1991, Robert Crumb nunca havia sido tema de uma grande exposição na França. O Museu de Arte Moderna de Paris salda a dívida – todo Crumb está ao alcance do público até dia 18 de agosto. A exposição “Do Underground ao Gênesis” é a mais completa dedicada ao artista que já foi tema de um ácido documentário de Terry Zwigoff, em 1994. São cerca de 700 originais e reproduções, espalhados por várias salas. Não é uma exposição que se possa percorrer rapidamente. Duas ou três horas é o mínimo de tempo exigido e se você for um observador atento vai permanecer muito mais. Valerá a pena.

Um dos primeiros trabalhos, do começo dos anos 1960, mostra um telespectador numa sala, diante de um aparelho de TV que despeja sobre ele uma tonelada de detritos, para não dizer m… Por causa de desenhos assim, Crumb ganhou a fama de underground. Numa época de contestação do chamado sonho americano, ele foi dos primeiros e mais ferozes críticos dos valores sobre os quais se construía a grandeza da América – dinheiro, sucesso e poder. Reunidos todos os trabalhos, não há como não dar razão ao próprio Crumb, que define seus gibis como “inapropriados e pervertidos”. Mas tudo aquilo é poderoso – um retrato visceral do estado do mundo nos últimos 50 anos.

Crumb gosta de dizer que não entende porque é tão amado. “Um dia alguém vai perceber quem eu sou e vai querer me dar um tiro.” As reações do público à exposição são de puro amor. Você pode deixar suas impressões. Os que deixam derramam-se em elogios. Crumb já tinha uma história nos EUA quando foi publicado pela primeira vez na França – na capa da revista Actuel, que reproduziu desenhos que haviam saído na imprensa norte-americana. Prolífico, seu trabalho influenciou duas gerações de artistas cômicos, incluindo Jaguar, no Brasil. O traço pesado e flamboyant, as sugestões grosseiras, tudo ajudou a esculpir o mito. Crumb virou ícone da contracultura. Seu lema, a incorreção.

Um dos próprios personagens

Os gibis “proibidos” de Crumb circulavam em ambientes restritos, mas isso nunca impediu que repercutissem. Além de facilmente reconhecíveis, os desenhos mapeiam um espectro amplo. Tudo o inspira, até a Bíblia (no começo), mas o grande tema de Crumb é sempre ele próprio. Poucos artistas se expuseram tanto. Obsessões, relações com as mulheres, ideias, crenças. Crumb não esconde nada. Ele nasceu na Filadélfia, em 1943. Começou a desenhar aos sete anos. Aos 16, criou o Gato Fritz e, aos 24, Mr. Natural. Em 1968, em plena explosão hippie em São Francisco, agitava na revista Zap. Nos 80, a revista era outra – Weirdo – e Crumb ilustrava textos de Jean-Paul Sartre e Charles Bukowski. Mais do que underground, era, e é, contestador.

Nos anos 1990, produziu uma biografia de Franz Kafka (em colaboração com David Zane Mairowitz) e duas antologias de desenhos da série Art & Beauty. Em 2009, depois de quatro anos de trabalho, publicou sua versão ilustrada do Gênesis bíblico. Na exposição, ela é precedida por um desenho que só a tolerância dos franceses permite ser mostrado sem escândalo nem ranger de dentes – Fuckin’ queer Jesus… No ano passado, foi a vez de Parle-Moi d’Amour (Drawn Together), um relato íntimo, à maneira de diário, ilustrado em parceria com a mulher, Aline – que, não por acaso, ganhou a alcunha de primeira-dama do underground. A exposição divide-se cronologicamente segundo as obsessões de Crumb. Amor, ódio e medo das mulheres, música, o caos do mundo. Além dos 700 desenhos, estão documentadas outras 200 revistas underground. E, sim, uma sala exibe o documentário de Terry Zwigoff, de 1994. Crumb, ao vivo ou captado pela câmera, é a projeção de seus desenhos. Parece um dos próprios personagens.

***

[Luiz Carlos Merten, em Paris, para O Estado de S.Paulo]

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