Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO ESPORTIVO

Mídia e paixão clubística – parte II

Por Silvia Chiabai em 03/07/2012 na edição 701

No post anterior fiz um painel aproximado do anticorinthianismo na mídia esportiva. Faltou apontar onde ele não prospera, de modo que a análise ficasse com a imparcialidade que reivindico para os comentários esportivos. Os jornalistas Paulo Calçade, Alê Oliveira, Gustavo Hoffman, Jean Oddi e Tironi, todos da ESPN, são exemplos de isenção no trato com o Corinthians. O mesmo vale para os comentaristas da FoxSports , todos bastante esforçados em levar informação de qualidade ao invés de implicância clubística ao leitor/telespectador. Na SportTV, o que atrapalha é o carioquismo; o melhor analista é o Muller, que no ano passado, a umas cinco rodadas para o final do campeonato, previu o Corinthians campeão, enquanto Renato Maurício Prado, no Troca de Passes, vaticinava: “Se se repetirem os resultados do primeiro turno nessas últimas rodadas, o Corinthians será o 4º, o Bota, 3º, o Vasco, 2º e o Flu, 1”.

Muller não é corintiano (na verdade, as únicas informações que não posso confirmar, do post anterior, são os “times do coração” dos jornalistas), então baseou suas previsões em avaliação criteriosa. Nem sei se ele é (deveria ser) são-paulino. Mas o UOL o detonou como comentarista depois de uma transmissão sua na primeira partida da semifinal em que o tricolor ganhou do Coritiba por 1 a 0. Muller criticou a atuação do São Paulo. E, vocês sabem: mexeu com o São Paulo, mexeu com a Folha/UOL.

Gol contra Boca foi “milagre”

O UOL tem um método interessante de humilhar quem interessa: pinça alguns tuítes (quem sabe gerados por seus agregados) e faz reportagens sobre os tais tuítes). Foi assim com o Muller, que na transmissão apenas anteviu a eliminação do tricolor (que, apesar da vitória, jogou mal e mereceu perder já a primeira partida). Assim, a Folha deu matéria cujo título era, mais ou menos: “Muller rouba a cena de transmissão com ‘pérolas’”, descendo a lenha no comentarista e, com seu usual esnobismo, destacando o português ruim do ex-craque. Existem ainda os comentaristas-torcedores tipo Neto. Também criticam o time, mas o “vai, Corinthians” desagrada, com razão, ao leitor-telespectador que procura informação sem paixão, entre os quais me incluo. Talvez Neto tenha esse direito, já que é ex-jogador e ídolo do time. Mas o que ele ganha de audiência entre os fãs do Timão perde em credibilidade ante os demais torcedores.

Há comentaristas como Juca Kfouri, que é do tipo antagônico. Se fosse dialético seria elogio porque o dialético dialoga com os defeitos e qualidades de seu time. Mas o antagônico é um pressionado pelas linhas editorais anti-corinthianas da Folha/UOL ou de colegas como Arnaldo Ribeiro, da ESPN/Placar e quejandos. De forma que é extremamente severo com o Corinthians e pra lá de benevolente com seus adversários. Vejo internautas prevenindo-o a respeito, mas ele prefere atribuir os avisos a fanáticos. Não são. Um exemplo. Nas semifinais, quando Neymarketing já vinha jogando mal ou sendo bem marcado (ou as duas coisas), publicou uma coluna e produziu um post sobre o cansaço do garoto (coisa que o jogador fez questão de alardear jogando-se dramaticamente no gramado feito um boneco de pano quando se apagaram as luzes na Vila Belmiro). “Neymar está cansado” foi uma maneira de sobrevalorizar o Santos e subestimar a excelente marcação do Corinthians.

Como, depois de uma semana de descanso, o coitadinho do craque foi novamente bem marcado, Juca Kfouri saiu-se com esta: “Vai para a Europa, Neymar”. Escrever também que o gol de Romarinho, fruto de uma excelente sequência de lances, foi “milagre”, é outra maneira de subestimar o time. Eis o antagonismo de Kfouri. Foi graças aos comentaristas equilibrados da ESPN e da Fox Sports que eu, como torcedora, pude formar uma ideia razoável das reais probabilidades do meu time nesta Libertadores. Não vou me surpreender se for vencida pelo Boca, mas também não vou achar “milagre” se o Corinthians ganhar porque chegou à final com os méritos que tais comentaristas, sem as implicâncias clubísticas que a profissão mascara, trataram de destacar ao longo da competição.

***

[Silvia Chiabai é jornalista]

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