Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MANOBRAS

Novo perfil do jornalista e boicotes

Por Sergio Luiz Fernandes em 03/07/2012 na edição 701

Pelo que me lembro, participo de boicotes desde 1997. Neste ano, boicotei as transmissões de jogos e dos gols do Bragantino, equipe de interior paulista. O time deveria ter sido rebaixado, mas permaneceu na série “A” do Campeonato Brasileiro devido a uma manobra da CBF. Acredito que sempre devem ser repudiadas as “viradas de mesa” e todos os tipos de manobras para se jogar regras esportivas embaixo do tapete, seja para beneficiar quem for. Por isso, saia da sala na hora dos gols da equipe nos gols do Fantástico.

Em seguida, em 1999, participei do boicote às transmissões do quadro do ilusionista “Mister M”, no programa Fantástico, da Rede Globo. Nunca assisti a um dos quadros em que o ator americano Leonard Montano, vulgo Val Valentino, revelava como eram feitos alguns dos novos e tradicionais truques de magia. Afinal, que direito tem um programa de variedades (o Fantástico, de novo) de prejudicar uma profissão (a dos ilusionistas), cuja atividade depende do segredo sobre como são feitas suas “mágicas”? Por que dar holofotes a um antiético profissional? Revelar como são feitos truques de ilusionismo não pode ser creditado como fato normal da prática jornalística. O trabalho dos mágicos não é uma irregularidade a ser denunciada.

Mais recentemente, participei em 2011, e continuo a participar em 2012, do boicote às transmissões das corridas de Fórmula 1 por dois motivos. Em primeiro lugar, pela não punição da Ferrari, em função do descumprimento do regulamento, que impedia o jogo de equipes. No Grande Prêmio da Alemanha, de 2010, Felipe Massa, que liderava a corrida, teve que ceder a liderança ao piloto Fernando Alonzo em função de uma ordem da equipe, o que não era permitido naquele momento. Participei do boicote também em função da legalização da “marmelada de equipe” no ano passado.

Internet e redes sociais

Se você, caro leitor, chegou até este ponto do texto estranhando não se lembrar destas campanhas de protesto, saiba que a falha não é da sua memória. É que eu fui o organizador e único participante destes boicotes. Dentre outras interpretações, o fato remete a uma discussão frequente nos sites especializados em comunicação, sobre o perfil do jornalista contemporâneo.

Tem manual de redação que sintetiza: o bom jornalista é aquele que escreve bem e rápido. Na época em que esse conceito foi criado, o jornalista deveria ter um bom domínio cultural e das técnicas redacionais; velocidade no ato de redigir, pois fazer jornalismo diário não é o mesmo quer ter meses ou anos para escrever um romance e praticar o hábito da leitura (a ética profissional também é altamente recomendável).

Para alguns articulistas, isso já não basta. O jornalista hoje tem que dominar as mídias digitais. Afinal, é assim que boa parte do mundo entra em contato hoje com as notícias. Os fatos hoje repercutem na internet e nas redes sociais, como o Facebook, Orkut, MySpace, Twitter e YouTube (só para citar alguns dos mais conhecidos).

Saudosismo ou preguiça mental

A questão é que não basta saber o que é, tem que saber usar (ou querer usar). E o problema é que os jornalistas do Jurássico, como eu, começaram a trabalhar no final da era do chumbo. E o chumbo, no caso, é literal. Derretido, era usado para compor as linhas de texto nos linotipos. Hoje, a possibilidade de repercutir esses protestos isolados, a partir de uma cidade do interior do país (Cuiabá), em artigo publicado num impresso, com umas 60 linhas de 70 toques, é infinitamente menor do que com os 140 caracteres do Twitter.

Nessa nova leva de comunicadores, muita gente já sabe criar um site ou blog, que poderia ser o “Divulgue o seu boicote” e também como usar as redes de relacionamento para divulgá-lo. O jornalista contemporâneo tem que saber o caminho das pedras para, se não for para emplacar um viral, pelo menos fazer a informação chegar a este novo público. E essa plateia não se informa somente acessando os sites de jornalismo.

É lógico que existem exceções a tudo isso aí acima. Afinal, tem gente que ainda redige em máquina de escrever. Revistas e jornais impressos por muito tempo ainda terão seu público. Muita coisa ainda vai demorar a mudar, mas os empregos vão cair nas mãos de quem estiver mais bem adaptado às mudanças. Mas, é claro, o autor de um bom texto sempre terá seu espaço. Mas, como será o quadro quando a geração internet for majoritária? Só o tempo dirá.

Finalizando, agora estou considerando se devo entrar em outros dois boicotes. O primeiro é uma decisão que se afigura como muito difícil para um amante de esportes como eu: nada mais nada menos do que as Olimpíadas de Londres-2012. O motivo é a decisão do Comitê Organizador do evento de querer cobrar ingresso de crianças de colo. O outro nem é tão difícil assim: é boicotar o Facebook. O site é de um moralismo doentio. Equipara mães amamentando à pornografia.

E eu ainda vou continuar a ser um sem-Twitter, mas não sei por quanto tempo ainda vou resistir. Ainda estou decidindo se é por ser refratário às tecnologias, saudosismo ou preguiça mental.

***

[Sergio Luiz Fernandes é jornalista, Cuiabá]

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