Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > CINEMA & POLÍTICA

O morcego na sombra da águia

Por Renné França em 21/08/2012 na edição 708

Barack Obama e a luta contra a recessão econômica – assim como George W. Bush e suas aventuras no Iraque – não saíram nas páginas dos quadrinhos. Mas acabaram por influenciar uma das produções de maior sucesso recente do cinema. Assim como O Planeta dos Macacos (1968) trazia os anseios do apocalipse nuclear da Guerra Fria e Matrix (1999) apresentava ao grande público o mundo virtual que dominaria a década seguinte, a grande reflexão cinematográfica da sociopolítica atual apareceu com um homem-morcego criado em 1939.

Ainda é cedo para perceber de forma clara a inserção cultural da trilogia do Batman no cinema, encerrada agora por O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Só no futuro saberemos com certeza se a obra do diretor Christopher Nolan com o icônico personagem dos quadrinhos foi um acurado reflexo desta época. Mas não há como negar que Batman Begins (2005), O Cavaleiro das Trevas (2008) e o recente Ressurge são potentes metáforas dos Estados Unidos da primeira década do século 21.

O contexto sempre reflete a produção cultural de sua época. Seja com referências diretas ou inconscientes, a realidade força-se sobre o artista, resultando em algo que vai, em maior ou menor grau, servir de representação daqueles tempos. Um personagem como Bruce Wayne serviu perfeitamente como mediador dos últimos dez anos. Bilionário, playboy, representante de uma belle époque de gastanças e exageros em que o céu é o limite. Mas tudo não passa de espelho e fumaça: por trás de toda a farra econômica está um vigilante nas sombras, sacrificando-se para manter a ordem dentro de um sistema falido. Talvez nenhuma outra obra cinematográfica tenha conseguido mostrar de forma tão rica os receios e anseios da nação mais poderosa do planeta. Do 11 de setembro à crise econômica, os filmes do homem-morcego são a cara de uma sociedade que começou os anos 2000 como império inatingível e acabou gravemente ferida pelo terror político, religioso e financeiro.

Efeitos colaterais

Batman Begins é sobre conhecer o terror e enfrentá-lo. Diversão escapista que traz fortes ecos do medo pós-11 de setembro. Bruce Wayne começa o filme como um homem perdido, sem identidade, que quer apenas vingar o assassinato dos pais. Junta-se a uma liga terrorista e aprende com eles a superar o medo. E mais: aprende a usar o seu próprio medo contra seus adversários. Torna-se o Batman que nós conhecemos, o ricaço que sai fantasiado à noite para surrar criminosos. O filme diz muito de uma descrença no sistema, na polícia e no governo que não podem mais garantir a segurança da população. O inimigo vem do distante Oriente. Seu nome é Ra’s Al Ghul, mas poderia ser Bin Laden. E para derrotá-lo, o homem comum, o americano sem superpoderes, vai usar seu dinheiro e sua tecnologia para se tornar um herói e vencer aquele que espalha o medo. Uma tecnologia militar, é bom frisar.

O objetivo do terrorismo, como o nome diz, é espalhar o terror. No filme, este medo é algo físico, um gás que aterroriza os habitantes da babilônica Gotham City. O plano do vilão não é jogar um avião contra uma torre, mas um trem suspenso (o que dá quase na mesma). Batman supera seus medos e derrota seus inimigos, dando esperança ao seu povo. Mas a paz nunca é duradoura e o herói fantasiado vai gerar outras aberrações, como o Coringa de O Cavaleiro das Trevas.

Id de toda uma sociedade norte-americana do início deste século, Batman é o poder que interfere nas relações de alteridade, provocando o aparecimento do Outro, o nêmeses que se constrói pelo contraste com o herói. Os Estados Unidos são constantemente acusados de produzir seus inimigos. O próprio Bin Laden recebeu treinamento da CIA e os atentados de 11 de setembro foram incessantemente interpretados como consequência direta do imperialismo norte-americano e sua intervenção em outros países. A presença do Batman provoca o surgimento de seus novos inimigos – é interessante para se pensar a autoimagem americanado poder usado para o bem, mas que pode provocar efeitos colaterais apesar das boas intenções.

O espírito da época

Se Begins era sobre superar o medo, sua continuação é sobre vencer o caos e o terrorismo a todo o custo. O vilão Coringa é o agente da destruição, o cachorro louco que não possui claras intenções (e que apresenta vídeos de tortura como aqueles que apareciam com os americanos presos no Iraque). Para vencer o plano do vilão de provar que pelo medo todo mundo se transforma (mais uma vez a tentativa do terror em dominar a vida das pessoas), Batman entende que vale tudo. Inclusive transformar cada celular dos cidadãos de Gotham em uma fonte de espionagem, do mesmo modo como George Bush propôs a Lei Patriótica (Patriot Act) para investigar seu próprio povo. E se mesmo isso não for suficiente para derrotar o inimigo, uma mentira pode ser um bem necessário. Não havia armas nucleares no Iraque, assim como Harvey Dent nunca foi o Duas-Caras que matou tantas pessoas. Da mesma forma como o governo Bush criou uma farsa para justificar uma guerra, Batman e seu fiel comissário Gordon inventaram uma história para que o nome do promotor que representava a justiça não fosse manchado.

“Ou se morre como herói, ou se vive o bastante para se tornar o vilão”, prevê Dent. O “cavaleiro brilhante” de Gotham que é corrompido pelo mal precisa morrer para que os Estados Unidos façam sentido. A nação de duas caras é esta dualidade da grandiosa terra da liberdade em contraste com o autoritarismo na política externa forjado pela violência da potência tecnológica. Harvey Dent é destruído para que se esconda o presente vergonhoso e recupere seu passado glorioso, em uma trama articulada por um Bruce Wayne, que poderia muito bem ser um agente da CIA.

O que nos traz a O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Aposentado da fantasia de morcego, Wayne curte seu isolamento de milionário em uma Gotham pacífica graças à lei Dent, que tornou a punição aos criminosos mais severa. Só que a lei baseada em uma mentira pode cair graças à chegada do novo vilão, o mercenário Bane. Lembrando um lutador de MMA (nos quadrinhos, o vilão usa uma máscara de luta livre mexicana, mas nem vamos entrar nas questões de imigração com o país vizinho…), Bane vai dar início ao seu plano de destruição da cidade atacando a Bolsa de Valores. A crise econômica chega aos filmes do Batman (graças a um imigrante) e a falta de dinheiro dá início ao caos que vai ruir toda uma sociedade. O vilão propõe ao povo que ocupem os centros financeiros e políticos de Gotham (Occupy Wall Street parece à inspiração óbvia. O detalhe é que o roteiro foi feito antes do movimento – demonstrando como a arte reflete o espírito da época).

Reviravoltas de uma nação

Batman precisa voltar à ativa para impedir a destruição de sua cidade, mas todo o seu dinheiro foi perdido. É preciso, então, fazer alianças, mesmo que seja com uma ladra (a bela Mulher-Gato). O medo das reformas propostas por Barack Obama e tidas por muitos conservadores americanos como “socialistas” aparece nas cenas do grupo de vilões invadindo e tomando à força as casa das pessoas e todos os seus bens, acabando com a sociedade privada e promovendo julgamentos autoritários.

O pesadelo da inexistência da ordem só pode ser combatido com o poder militar,econômico e tecnológico. A trilogia de Christopher Nolan deixa muito claro como o terror pode ser dominado, combatido e derrotado com grandes recursos financeiros. Mas quando o dinheiro some, é preciso que todos façam algum sacrifício para que o Tio Sam, quer dizer, o Batman, consiga se recuperar, ressurgir como avisa o título do filme, e retornar triunfante para derrotar o mal. Todos precisam fazer a sua parte para que o herói mantenha a ordem e espante o terror e todos os terroristas que impedem o progresso.

Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Ressurge não são apenas sobre o super-herói dos quadrinhos. Os filmes contam a história da queda e ressurgimento (ou esperança de ressurgimento) de uma nação. Do medo que apareceu com os atentados terroristas do início do século, passando pela superação desse medo e o apoio à guerra contra o terror, até um momento de falsa tranquilidade que explodiu em uma crise econômica, Christopher Nolan contou como poucos a primeira década dos Estados Unidos neste século. Vimos na tela do cinema as trevas de um país que busca agora sua recuperação. As aventuras do Batman nestes três filmes são as reviravoltas de uma nação, sua crise de identidade e sua tentativa de encontrar um novo papel no mundo. Assim como Bruce Wayne.

***

[Renné França é jornalista e professor de Comunicação Social, São Paulo,SP]

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